O que eu vou contar é uma historia verdadeira, tão verdadeira como ter
havido em Inglaterra um rei chamado Henrique VIII, que casou com seis
mulheres e que, sem ter morrido a primeira, passou a segundas nupcias,
contra a vontade do Padre Santo.
Aqui principia, pois, todo o interesse do conto, porque, por causa de uma
mulher, como sempre acontece, separou-se a Inglaterra da communhão
catholica de Roma.
Aquelle rei dos bretões, que ao depois havia de sahir tão voluvel e
tyranno, foi na sua mocidade um bom principe, muito amante da musica e das
letras e, no respeitante a religião, muito orthodoxo. Seu pai, o primeiro
soberano Tudor, acabára dominado pela mania da ambição, que o levára a
vexar o povo, de modo que sorrira com Henrique VIII a esperança de uma nova
época melhor auspiciada, tanto mais que o rei, acclamado em 1509, tinha
casado aos dezeseis annos com a viuva de seu irmão o principe de Galles, D.
Catharina de Aragão, princeza virtuosa, que o devia aconselhar
prudentemente, sendo que este casamento era duplamente vantajoso, porque
d'elle dependia a alliança com a Hespanha e porque evitava que a Inglaterra
tivesse que restituir o dote da princeza.
Tão orthodoxo era o joven rei Henrique, que se condecorava com o titulo de
_defensor da fé_ porque, tendo rebentado o grande scisma de que Luthero
fôra a cabeça visivel, escrevêra contra o lutheranismo, guiado pelas suas
predilectas leituras de S. Thomaz d'Aquino, um livro que intitulou _De
septem sacramentis_.
O cardeal Wolsey, arcebispo de York, que procedia de baixo nascimento, era
junto de Henrique VIII um ministro absoluto. Ora á rainha Catharina pesava
que todo o poder residisse de facto nas mãos d'esse homem ambicioso, e como
o cardeal o soubesse, espreitou occasião propicia para tirar vingança da
rainha.
Conhecendo que Henrique VIII estava namorado de Anna Boleyn, filha do
gentilhomem Thomaz Boleyn, procurou despertar na alma do rei certas duvidas
a respeito da legalidade do seu casamento com D. Catharina d'Aragão,
casamento que aliás havia sido realisado por auctoridade de uma bulla do
papa Julio II.
A rainha Catharina, mais velha seis annos do que Henrique VIII, tinha-lhe
dado cinco filhos, mas só uma sobrevivêra: a princeza Maria. N'isto quiz o
cardeal Wolsey vêr castigo do céo, porque o Levitico fulmina penas contra
todo aquelle que desposar a viuva do irmão. S. Thomaz d'Aquino, o auctor
predilecto do rei, parece que tambem diz a este respeito alguma coisa. Mas
dissesse que não dissesse. O que o cardeal queria era explorar em proveito
proprio a paixão do rei por Anna Boleyn.
Henrique VIII gostou de encontrar uma porta aberta ao divorcio. E sem mais
demora apparentou os seus escrupulos á rainha.
D. Catharina d'Aragão disse que apenas um anno fôra casada com o principe
de Galles, que, pelo seu mau estado de saude, não podéra consummar o
matrimonio. Que depois, para o segundo casamento, houvera dispensação de
Roma. O rei objectou que desejava vêr a bulla. E a rainha expediu logo, a
buscal-a, um gentilhomem seu que se chamava Montoya, e que dentro de vinte
dias viera a Hespanha e voltára a Inglaterra com a bulla.
Então Henrique VIII procurou um novo subterfugio: que queria saber de Roma
se a bulla era falsa ou verdadeira.
E ordenou que, durante dez dias, ninguem, a não ser o seu emissario de
confiança, podesse sahir para Roma.
A rainha, como isto soube, valeu-se ainda de Montoya para que sem demora
partisse occultamente para Antuerpia, e d'alli, tomando um navio flamengo,
procurasse chegar a Roma primeiro do que o postilhão do rei.
Assim aconteceu. O papa, recebendo Montoya, disse-lhe que a bulla era
verdadeira, e que a enviaria a Inglaterra por mão do cardeal Campeggio. E o
mesmo respondeu ao emissario de Henrique VIII, que ficou desesperado quando
teve conhecimento do modo como as coisas haviam corrido.
A rainha, para segurar a vida de Montoya, mandou-lhe recado que se
demorasse em Brugges, e ahi esperasse ordens suas.
Entretanto chegára a Inglaterra o cardeal Campeggio. O rei tomára por seu
patrono o cardeal Wolsey, a rainha o cardeal Campeggio, e marcou-se o praso
de um mez para que cada um dos conjuges litigasse o seu direito.
Catharina de Aragão mandou procurar em Brugges um advogado que, tendo medo,
não acceitou a procuração, de modo que a rainha ficou sem outro defensor
além do cardeal Campeggio.
E reunido um conselho de dezeseis lettrados, oito por parte do rei, oito
por parte da rainha, declarára um dos lettrados do rei que o principe de
Galles, segundo duas testemunhas podiam jurar, tivera conversação com D.
Catharina, porque certa manhã, sahindo da alcôva, dissera alegremente que
tinha passado a noite em Hespanha...
A rainha, ouvindo isto, levantou-se indignada, replicando:
—Que o testemunho era aleivoso, por quanto o rei Henrique bem sabia como a
havia encontrado.
E, ouvidos tambem os debates theologicos entre os cardeaes inglez e
italiano, o conselho dos lettrados reconheceu a dispensação por boa e
authentica, ficando resolvido que aquelles dois dignitarios da Igreja
dariam sentença no dia seguinte.
O cardeal de Wolsey, vencido n'esta lucta, foi desculpar-se junto do
monarcha, que o repelliu agrestemente, accusando-o de não ter sabido levar
a cabo o seu plano.
E Henrique VIII, como cada vez estivesse mais namorado de Anna Boleyn,
chamou os duques de Norfolk e Suffolk, e outros grandes senhores do reino,
para que no dia seguinte, quando os dois cardeaes se reunissem, lhes
dissessem da sua parte que não queria que dessem sentença.
Os duques e os outros grandes senhores cumpriram a ordem do rei, e os
cardeaes não ousaram dar a sentença, indo o de Wolsey lançar-se de joelhos
aos pés de Henrique VIII para que lhe perdoasse e o deixasse sahir incolume
da côrte.
Ora o rei, apesar do que se tinha passado, dissera em segredo a Anna Boleyn
que estivesse certa de que elle a havia de desposar e fazer coroar rainha.
Despedindo o cardeal Campeggio, Henrique VIII fez-lhe saber que estava
resolvido a não reconhecer por mais tempo a auctoridade do bispo de Roma, e
logo, reunindo o seu conselho, communicára-lhe esta resolução, bem como a
de desposar Anna Boleyn.
Foi resolvido que se convocassem côrtes.
Mas, para não perder tempo, o rei Henrique, que estava então em Greenwich
com a rainha, ordenou que Catharina de Aragão partisse sem demora para
Kimbolton, a vinte e seis leguas da côrte, sahindo elle proprio para
Richmond.
A pobre Catharina de Aragão partiu com os seus fieis criados, e o rei casou
em Richmond com Anna Boleyn, sendo celebrante o arcebispo de Cantorbery.
O rei Henrique teimára em passar através de todas as difficuldades.
Uma d'ellas suggeriu-lh'a a propria mãi de Anna Boleyn, filha do duque de
Norfolk, que lhe pedira reflectisse no que ia fazer.
—Porque, disse a mãi de Anna, se vossa magestade examinar bem a sua
consciencia, ha de achar que minha filha tambem é sua filha.
Mas o rei não achou nada.
Henrique VIII, voltando a Greenwich, mandou dizer á cidade de Londres que
passaria n'aquella cidade para ir a Westminster coroar a nova rainha, e
Londres apercebeu-se pomposamente para receber o rei Henrique e a rainha
Anna.
Tres dias depois, Henrique VIII embarcou com Anna Boleyn no bergantim real,
seguido de uma flotilha flammante, sendo saudado tão estrondosamente pela
artilheria, que não ficou n'aquelle dia vidraça inteira desde Greenwich até
Londres.
O rei e a rainha pernoitaram na Torre e, no dia seguinte, Henrique VIII foi
no bergantim real para Westminster, sahindo pouco depois Anna Boleyn com
igual destino, n'umas andas descobertas, precedida de toda a cavallaria e
de gentishomens e damas em hacaneas e coches.
Anna Boleyn levava um vestido de brocado carmezim constellado de pedraria,
no collo um collar de perolas maiores do que amendoas, na cabeça uma
grinalda á maneira de corôa, e nas mãos um _bouquet_ de flôres raras e
bellas.
Na rua de Cheapside havia um arco triumphal, no sitio onde a cidade costuma
dar aos reis que vão coroar-se mil libras sterlinas, que lhes são entregues
por um anjo que desce do arco.
A rainha Anna recebeu a bolsa com o dinheiro, e guardou-a. Logo o povo, que
se lembrava de que a rainha Catharina havia mandado distribuir igual
quantia, quando lh'a deram, pelos alabardeiros e lacaios, ficou ainda mais
desconfiado do que estivera até ahi, dizendo com os seus botões que aquillo
era outra loiça de rainha.
Á porta de Westminster, o rei Henrique VIII esperava a rainha Anna, e,
dirigindo-se todos para o templo, foi a rainha coroada, havendo durante
oito dias grandes justas e torneios, coisa espantosa de se vêr.
Ora o parlamento confirmou tudo quanto o rei havia feito: ratificou o
casamento com Anna Boleyn, jurou a legitimidade da successão que d'elle
resultasse, reconheceu a Henrique VIII o titulo e o poder espiritual de
chefe supremo de igreja anglicana, e outorgou-lhe os rendimentos outr'ora
destinados ao thesouro pontificio.
Como alguns catholicos permanecessem firmes na sua antiga crença, e não
quizessem jurar, foram presos e executados: entre outros João Fisher, bispo
de Rochester, e o chanceller e escriptor Thomaz Moore, a quem Erasmo
dedicou o _Elogio da loucura_, e que fôra, junto de Henrique VIII, o
successor do cardeal de Wolsey.
Tambem quiz o rei obrigar a rainha Catharina e os seus fieis criados a
reconheceram por juramento Anna Boleyn como rainha, e elle como chefe da
igreja anglicana. Catharina de Aragão recusou-se dignamente, mas não queria
sacrificar os criados. Elles limitaram-se a jurar que o rei se tinha feito
cabeça da igreja, negando-se porém terminantemente a reconhecer Anna Boleyn
como rainha de Inglaterra.
Roma fulminára terriveis excommunhões contra Henrique VIII. Paulo III, como
já havia feito Clemente VII, anathematisára o rei de Inglaterra, citando-o
a comparecer perante o tribunal de Roma.
Mas o rei Henrique fez ouvidos de mercador, e ordenou que a filha de Anna
Boleyn, que veio depois a reinar com o nome de Izabel e o cognome de
_Virgem_ (que virgem!) fosse jurada princeza de Galles, sendo declarada
bastarda madama Maria, que tambem foi rainha, filha de Catharina de Aragão.
Desde que na rua de Cheapside a rainha Anna tinha arrecadado a bolsa com as
mil libras sterlinas, que lhe dera a cidade de Londres, ficou-se sabendo
que, na balança do seu coração, o amor ao rei não pesava mais do que o amor
ao dinheiro.
Assim foi que ella cobiçou a corda e as joias que pertenciam á rainha
Catharina.
Ora a rainha Catharina podia, como a condessa de Chateaubriand, quando
Francisco I lhe pediu todas as joias para as dar a Anna de Pisseleu, tel-as
mandado derreter no fogo. Mas não fez assim, devolveu-as honradamente, com
excepção da corôa, porque estava guardada da mão de lord Rutland, que não a
quiz entregar emquanto a rainha Catharina foi viva.
Lord Rutland é o Martim de Freitas inglez.
Mas aquelle e outros golpes acabaram por dilacerar o coração atormentado da
boa rainha Catharina, cujos padecimentos se aggravaram mortalmente.
No seu leito de agonia escreveu ao rei uma carta, que o abbade Millot com
razão classifica de _lettre touchante_, mas que nós, graças á chronica
hespanhola de Julian de Pliego, tão sabiamente annotada pelo marquez de
Molins, podêmos reproduzir na integra:
«Senhor meu e rei meu e marido amantissimo:
«O profundo amor que vos tenho faz-me escrever-vos n'esta hora e agonia de
morte, para admoestar-vos e lembrar-vos que tenhaes conta da saude eterna
da vossa alma mais que de todas as coisas fallazes d'esta vida e de todos
os regalos e deleites de vosso corpo, por cuja causa me haveis dado tantas
penas e fadigas e vos haveis embrenhado n'um labyrintho e pélago de
cuidados e angustias. Perdôo-vos de boa mente tudo o que tendes feito
contra mim, e supplico a Nosso Senhor que tambem vos perdoe. O que vos rogo
é que olheis por Maria, nossa filha, a qual vos recommendo; e vos peço que
para com ella tenhaes cuidados de pai. Tambem vos recommendo as minhas tres
criadas, e que as cazeis honradamente, e todos os outros criados, para que
não padeçam privações; e além do que se lhes deve, desejo que se lhes
entregue o salario inteiro de um anno. E, para concluir, senhor,
certifico-vos e affirmo-vos que não ha coisa mortal que os meus olhos mais
desejem do que vós.»
Boa e santa alma de mulher, que morre amando o seu verdugo!
No céo—e, se o ha, deve ser para os martyres que se volvem anjos—foi
Catharina gozar a eterna felicidade: aquellas grinaldas, de que falla
Shakspeare, e que ella esperava ser digna de gozar.
Porque, a proposito vem dizel-o, uma das tragedias de Shakspeare tem por
assumpto e titulo Henrique VIII. Foi Izabel, a filha de Anna Boleyn, que
lhe pediu que a escrevesse. Ora a obra do tragico inglez, a respeito de
Henrique VIII, é um producto convencional, destinado á filha da rainha
intrusa que depoz Catharina de Aragão.
Anna Boleyn tinha estado na côrte galante de França, fazendo parte da
comitiva da princeza Maria, irmã de Henrique VIII, ultima esposa de Luiz
XII, e saboreára ahi nas festas ruidosas do castello de Blois a vida alegre
e frivola cuja effervescencia é capitosa. Quando a viuva de Luiz XII, que
por amor d'ella se extenuára, voltou a Inglaterra, Anna Boleyn, educada á
franceza, acompanhou-a. Vinha _coquette_. De mais a mais Henrique VIII era
um marido que se saciava de afogadilho, e que nos seus caprichos amorosos
tinha azas como a borboleta, para voar de flôr em flôr.
Anna Boleyn, que começára amando a dança e a musica, acabou por amar os
dançarinos e os musicos.
Assim era que bailava nos seus aposentos com sir Henry Norreys, com Weston
e William Brereton, dois gentishomens de segunda ordem, ao som de uma
orchestra de tangedores, de que fizera parte Marcos Smeaton, um
aventureiro, filho de um carpinteiro pobre, mal vestido e afadistado.
Este Marcos Smeaton foi levado á presença da rainha para exercer a sua
prenda de menestrel, emquanto ella bailava com o primeiro gentilhomem do
rei, sir Henry Norreys; mas a rainha, impressionada pelo filho do
carpinteiro, quiz bailar com elle, mandando a uma dama que tangesse.
Não vá cuidar-se que esta democracia reles era privativa da côrte dos
bretões.
Conta André de Rezende, na _Vida do Infante D. Duarte_, que este infante
tomára por companheiro um tangedor castelhano de appellido Ortiz, que lhe
tocava na guitarra _fados_ contra o papa, e trocava em sucia com o principe
graçolas obscenas de calão fadista.
Marcos Smeaton entrára com o pé direito nos aposentos e nas danças da
rainha Anna, porque, pouco tempo volvido, uma servilheta velha, alcoveta
industriosa, levava de noite o Marcos até ao leito da rainha.
Sir Henry Norreys e William Brereton descobriram mouro na costa, e
recalcitaram. Armou-se uma embrulhada de ciumes, tanto maior quanta era a
pompa de vestuario e galanices que o Marcos exhibia, indicando tolamente as
boas fortunas de que gozava junto da rainha Anna.
A ousadia pimpona de Marcos Smeaton desbragou-o a ponto de se mostrar
altaneiro com lord Thomaz Percy, conde de Northumberland.
Ora ainda n'esta ousadia chibante do menestrel andava o ciume, porque
Thomaz Percy, antigo namorado de Anna Boleyn, lográra ser, á sombra de
Henrique VIII, o mais feliz dos amantes.
A rainha ordenou com descaro a Percy que não maltratasse o Marcos, mas
Percy, ferido talvez mais pelo ciume do que pela desconsideração, foi
denunciar os novos amores da rainha a Thomaz Cromwell, ministro do rei
Henrique.
Cromwell attrahiu a Londres Marcos Smeaton e, pondo-o na tortura,
arrancou-lhe a confissão das relações adulterinas da rainha com os
tangedores e bailarinos da côrte, incluindo elle.
D'alli foi Marcos Smeaton mandado para a Torre de Londres, onde não
tardaram a ser igualmente encerrados Henry Norreys, William Brereton e o
poeta Thomaz Wyat, muito protegido do ministro Cromwell.
N'este lance da nossa historia precisamos conversar um pouco a respeito do
poeta Wyat, aliás famoso, comquanto amorosamente fosse mais pateta do que
poeta.
Creado desde pequeno com Anna Boleyn, estabeleceu-se entre os dois um
d'aquelles idyllios infantis de que Bernardin de Saint-Pierre deixou uma
photographia generica na pastoral de Paulo e Virginia.
Mas os devaneios d'essa idade são gorgeios de rouxinol que ascendem ao
azul, e por lá ficam pairando n'uma alada melodia, que lembra toda a vida
com maior _fiasco_ do que saudade.
Emquanto a pureza dos idyllios platonicos se libra nos ares, as mulheres
positivas que os inspiraram vão cá na terra saboreando as iguarias do
peccado com grande menospreço pelos poetas bucolicos que não souberam ir
além do platonismo piégas.
Conta Pliego que a alcoveta de Anna Boleyn, na noite em que introduzira na
camara da rainha Marcos Smeaton, e no momento de o occultar com o espaldar
do regio catre, dissera para disfarce, pondo junto ao leito uma bandeja:
«Senhora, aqui está a marmelada.»
A marmelada era Marcos Smeaton.
Foi a isto que eu chamei metaphoricamente iguarias do peccado.
O pobre Wyat, quando Anna Boleyn subiu de marqueza de Pembroke a rainha de
Inglaterra, o mais que fez foi chorar sobre as ruinas do seu proprio
platonismo. Compoz, ahi por 1535, uma elegia com o titulo de _Forget not
yet_, que, em versão descolorida, sôa pouco mais ou menos assim:
Não te esqueça a constancia que meu peito
No amor provado tem.
Trabalhos que soffri alegremente
Não esqueças tambem.
Não te esqueça do meu antigo affecto
Seu antigo soffrer.
Quanto implorei captivo e atormentado
Não deves esquecer.
Provas por que passei, desdens, supplicios
Na memoria retem.
_Delongas que soffri pacientemente_
Não esqueças tambem.
Não esqueças o tempo que vai longe
No seu longo correr.
_Que jámais julgou mal meu pensamento_,
Não deves esquecer.
Não te esqueças do eleito teu d'outr'ora,
Do amor que teve e tem.
Do seu peito a constancia inquebrantavel
Não esqueças tambem.
Mas o sentimentalismo levava Wyat por caminho errado. Anna Boleyn, na côrte
de Inglaterra, gostava mais dos musicos que das elegias.
Pensam alguns auctores que Thomaz Wiat nunca mais se avistára com Anna
Boleyn. O chronista castelhano desfaz, porém, este equivoco, dando conta da
prisão de Wyat, pouco antes da propria rainha ser presa em Greenwich, onde
acabava de se celebrar um torneio e onde a sua ultima galanteria fôra
deixar cahir o lenço, como favor concedido aos seus amantes. Mas quem
categoricamente tira todas as duvidas é o proprio Wyat n'uma carta que
escreveu ao rei.
Quando os escandalos da rainha chegaram ao conhecimento de Wyat, aggravados
até pela suspeita de incesto commettido com o visconde de Rochford, seu
irmão, achou elle que o melhor que tinha a fazer era chorar menos e
atirar-se mais.
Uma noite, estando Anna Boleyn a oito milhas de Greenwich, Wyat montou a
cavallo e, dirigindo-se ao palacio da rainha, teve artes de se introduzir
na sua camara. Glosou-lhe, á beira do leito, uma nova declaração de amor.
Mas como a rainha se calasse, e como quem cala consente, ousou apolegar-lhe
as carnes. Estavam as coisas em bom caminho, quando de repente ouviu bater
com o pé no pavimento do andar superior. E a rainha, que esperava de certo
este signal, levantou-se do leito e desappareceu por uma escada interior.
Wyat esperou por ella uma hora, mas Anna Boleyn, quando voltou, despediu-o
ariscamente.
Os platonicos, mesmo quando se propõem mudar de escóla, passam por uma
iniciação desastrada e ridicula.
Mas oito dias depois, como era justo, pois que tanto chorára e esperára, o
poeta Thomaz Wiat não foi menos feliz do que Marcos Smeaton e outros
musicos.
Tudo isto contou Wyat ao rei, n'uma carta escripta da Torre de Londres, e o
rei, depois de a lêr, mandou soltar o poeta e ficou estimando-o tanto, que
em 1541 o enviou como embaixador á côrte de Carlos V, mas Wyat morreu dos
incommodos d'esta viagem.
Os outros cumplices de Anna Boleyn não tiveram igual felicidade: o visconde
de Rochford, Henry Norreys, William Brereton e Marcos Smeaton foram
degolados. A alcoveta Margarida foi queimada.
Presa na Torre de Londres, Anna Boleyn negou os crimes de que a accusavam.
Ao bispo de Cantorbery disse ella:
—Eu bem sei a causa de tudo isto. O rei anda namorado de Joanna Seymour, e
achou este meio de se desfazer de mim.
A accusação e a defeza eram por igual verdadeiras.
De nada valeu á rainha encarcerada a carta que da Torre de Londres
escrevêra ao rei, e que o rei leu sem commoção.
Sobre o cadafalso, Anna Boleyn pronunciou um discurso muito habil para não
enganar Deus nem os homens.
—Não penseis, bom povo, que me peza morrer, nem que eu fizesse coisa que
merecesse esta morte: tudo procede da minha grande ambição e do grande
peccado que commetti fazendo com que o rei abandonasse a boa rainha
Catharina por minha causa. Rogo a Deus que ella me perdôe. E para que todos
o ouçaes, digo que sou injustamente accusada. A principal razão da minha
morte é Joanna Seymour, como eu fui a razão da morte da boa rainha
Catharina.
E assim, humilhando-se diante de Deus sem se penitenciar diante dos homens,
foi decapitada no dia 19 de maio de 1536.
Dividem-se as opiniões a respeito do comportamento de Anna Boleyn.
Os escriptores protestantes divinisam-lhe as virtudes; os catholicos põem
em evidencia o desbragamento das suas libertinagens.
A sentença condemnatoria, assignada por Henrique VIII, accusa Anna Boleyn
de traição, adulterio e incesto.
Guilherme Cobbett, comquanto protestante, faz resaltar o contraste da
devassidão dos costumes da rainha Anna com a existencia virtuosa da rainha
Catharina.
David Hume, o notavel historiador inglez, lança as graves accusações
levantadas contra Anna Boleyn á conta das apparencias de _coquetterie_, que
em grande parte ella havia aprendido em França, e das machinações facciosas
dos seus inimigos, incluindo a viscondessa de Rochford, cunhada da rainha,
que insinuou a suspeita do incesto.
Na chronica castelhana de Julian de Pliego vem a designação de que o
auctor, talvez acobertado pelo pseudonymo, fôra contemporaneo dos factos
que narra.
É certo que elle commette alguns anachronismos, como nota o marquez de
Molins, mas não padece duvida que na sua chronica, facilmente escripta, com
uma discreta sobriedade de rhetorica, pouco vulgar nos historiadores
hespanhoes, ha grande copia de preciosas noticias, de interessantes
pormenores, que a fazem estimabilissima.
Em Portugal Anna Boleyn ficou sendo, na tradição popular, sob a
translitteração de _Anna Bolena_, o typo da mulher corrupta e corruptora,
enredadeira e devassa, perturbadora e intrigante.
No que, porém, todos os historiadores estão de accordo é em attribuir a
summaria decapitação de Anna Boleyn ao amor que o rei alimentava por Joanna
Seymour, filha de sir João Seymour, dama formosissima, que fazia parte da
casa da rainha Catharina.
No dia da execução de Anna Boleyn, Henrique VIII, para mostrar a alegria do
seu coração, e porventura a «pureza» das suas intenções, vestiu-se de
branco; e no dia seguinte desposou Joanna Seymour.
David Hume observa, para fazer elogio á consciencia de Henrique VIII, que
este rei não queria conhecer outras ligações além das do casamento. A
desculpa afigura-se pueril e inexacta, porque o rei viveu tres annos
amancebado com Anna Boleyn, antes de se divorciar de Catharina de Aragão.
Fizeram-se grandes festas para solemnisar o casamento de Henrique VIII com
Joanna Seymour, que, tendo sido _dama de honor_ da rainha D. Catharina, se
mostrava muito affeiçoada á princeza Maria, a qual o rei seu pai não tinha
visto havia mais de tres annos.
Esta princeza, que, como se sabe, depois do casamento de Henrique VIII com
Anna Boleyn apenas recebia o tratamento de _madama_, foi educada mais ou
menos sob a influencia dos conselhos de sua mãi, D. Catharina de Aragão, de
quem Rivadaneyra publíca uma carta, dirigida á filha, na qual se lê o
seguinte periodo: «Dá recommendaçoes minhas á condessa de Salisbury:
dize-lhe da minha parte que tenha firmeza de animo, porque não podêmos
ganhar o reino dos céos sem cruz e attribulações.»
A condessa de Salisbury, Margarida Plantagenet, virtuosa dama, fôra aia da
princeza Maria. Morreu justiçada aos setenta annos de idade, em 1539, por
odio do rei, nas luctas contra os catholicos, aos parentes do cardeal Pole,
que era filho da condessa.
Graças á intervenção de Joanna Seymour, a recepção feita pelo rei á
princeza Maria, que não sem repugnancia se havia submettido ao scisma, pois
que a sua educação tinha sido catholica, pareceu ser muito cordeal.
E logo, invertendo facilmente os papeis, ordenou o rei que a filha de Anna
Boleyn passasse a receber o tratamento de _madama_, e a filha de Catharina
de Aragão o de princeza.
Mas Joanna Seymour déra tambem á luz um filho, _o mais lindo que jámais se
viu_, diz Julian de Pliego.
O nascimento de um herdeiro varão causou alegria a Henrique VIII, não
obstante as difficuldades que esse facto trazia para resolver a questão
dynastica, e ter custado a vida de Joanna Seymour, que morreu doze dias
depois do parto.
Como diz Hume, a dôr do esposo foi absorvida pela satisfação do pai, que
fez jurar principe de Galles o filho de Joanna Seymour, concedendo por essa
occasião a dignidade de conde de Hertford a Eduardo Seymour, irmão da
mallograda rainha, já anteriormente nomeado lord Beauchamp.
O baptisado fez-se com grande pompa, recebendo a creança o nome de Eduardo,
que foi o sexto rei d'aquelle nome, e veiu a morrer aos dezeseis annos sem
deixar successão. A princeza Maria, a cuja guarda Henrique VIII confiou o
filho, tocou por madrinha; o conde de Hertford, irmão de Joanna Seymour,
por padrinho.
De todos as mulheres de Henrique VIII foi Joanna seguramente a mais
estimada. Encontram-se de accordo n'este ponto os historiadores. Mas a
razão está decerto, attenta a volubilidade do rei, em que elle não teve
tempo para se enfastiar.
Assim foi que Joanna Seymour logrou morrer rainha, como observa Cobbett, _e
na sua cama_, felicidade que outras esposas de Henrique VIII não gosaram.
Mas o rei, apesar do grande sentimento que lhe causára a morte de Joanna
Seymour, pensou logo em casar.
Deitou primeiro as suas vistas para a duqueza viuva de Longueville, filha
do duque de Guise. Mandou pedil-a a Francisco I. A resposta foi que a
duqueza estava já promettida ao rei da Escocia. Henrique VIII ficou
desesperado, e enviou a França um emissario para o informar da impressão
que a duqueza produzia. O emissario disse que era bonita e gorda. Esta
ultima informação coroou a primeira, porque o rei, que estava então muito
nutrido, preferia uma esposa de gordura condigna á sua.
Francisco I, posto reconhecesse que a alliança da Inglaterra lhe seria mais
proveitosa do que a da Escocia, manteve a sua palavra, mas offereceu a
Henrique VIII, para lhe calmar o animo, Maria de Bourbon, filha do duque de
Vendome.
Henrique VIII, sabendo, porém, que o rei Jacques da Escocia, seu sobrinho,
havia recusado Maria de Bourbon, rejeitou a proposta.
Então Francisco I offereceu-lhe qualquer das duas irmãs mais novas da
duqueza de Longueville.
Henrique VIII respondeu pedindo a Francisco I uma entrevista em Calais, e
indicando-lhe que se fizesse acompanhar das duas princezinhas de Guise e de
todas as mais bellas mulheres da côrte de França, para elle escolher.
Queria um bazar de mulheres, uma feira de noivas!
Francisco I não obtemperou ao pedido. _Picou-se_, como dizem os francezes,
fosse que lhe repugnasse o papel de alcaiote officioso ou que, sendo elle
proprio galanteador do bello sexo, lhe desagradasse a idéa de expôr
mulheres _comme des chevaux au marché_.
Então Henrique VIII lançou vistas para a Allemanha, o que politicamente não
deixava de convir-lhe para encontrar allianças nos principes da liga
protestante contra o imperador Carlos V.
Cromwell indicou-lhe Anna de Cleves, filha do duque d'este titulo.
Mandou-se pedir um retrato. Executou-o Holbein, celebre pintor, que se
gozou das boas graças de Henrique VIII e da amisade de Thomaz Moore e
Erasmo. Conta-se até que estando Holbein a trabalhar um dia no seu
_atelier_, fôra bater-lhe á porta um dos primeiros senhores da côrte.
Holbein desculpou-se de não poder abrir por estar trabalhando. O fidalgo
insistiu. Holbein, impacientado, abriu a porta, e atirou-o pela escada
abaixo. Receioso das consequencias d'essa imprudencia, correu a pedir a
protecção de Henrique VIII, a quem o fidalgo foi sem demora queixar-se. O
rei tentou congraçar o fidalgo com o pintor, mas, vendo que os seus
esforços eram inuteis, disse ao fidalgo, que se vangloriava do titulo de
conde:
—Eu posso facilmente fazer sete condes como vós; mas de sete condes não
poderei fazer um Holbein.
Holbein, comquanto cultivasse a pintura historica, não faltando quem pense
que elle seria o auctor do famoso quadro da Misericordia do Porto, foi
principalmente notavel nos retratos. Pois apesar da habitual fidelidade do
seu desenho e da exacta expressão do seu pincel, Holbein, no retrato de
Anna de Cleves, obedeceu um pouco á adulação palaciana que mandava alindar
os retratos das princezas, embora ficassem menos parecidos.
Um seculo depois dizia o joven Luiz XIV a respeito de Margarida de Saboya:
_Elle est agréable, et, contre l'habitude, ressemble à ses portraits_. O
nosso grande José Estevão, apesar de inventada já a photographia, disse uma
vez no parlamento que todas as princezas eram formosas.
Depois de examinado o retrato, justou-se o casamento, sem embargo da
opposição do eleitor de Saxe, chefe da liga protestante, casado com uma
irmã do duque de Cleves.
Impaciente de vêr a sua quarta noiva, Henrique VIII dirigiu-se
mysteriosamente a Rochester, e esperou-a ahi. Viu-a, e não gostou.
Arrependeu-se então de ter confiado no retrato em vez de adoptar o
expediente que anteriormente havia proposto a Francisco I.
Além de feia, a princeza só fallava o hollandez, lingua que Henrique VIII
não entendia.
O rei reuniu conselho para vêr se seria possivel romper o contracto de
casamento, mas acobardou-o uma consideração politica.
Carlos V e Francisco I estavam então reconciliados. Como surgissem novas
perturbações na Hollanda, principalmente em Gand, Carlos V, que residia em
Hespanha, quiz ir pessoalmente calmal-as. Mas como a viagem por Italia e
Allemanha seria muito longa, o imperador pediu ao seu prisioneiro de Pavia
licença para atravessar a França. Francisco I mostrou-se magnanimo, deu a
licença pedida e recebeu com grandes festas Carlos V. Alexandre Dumas, como
o leitor deve estar lembrado, descreve-as no seu romance _Ascanio_. Ora,
dada a conciliação de Francisco I e Carlos V, bem podiam estes dois
principes, movidos pelo zelo religioso, cahir sobre a Inglaterra com todo o
pezo dos seus exercitos.
Portanto, mais do que nunca, importava a Henrique VIII uma alliança com os
principes allemães, para o que désse e viesse.
Henrique resignou-se por algum tempo, vivendo separado da rainha de dia e
de noite. Dava como desculpa a suspeita de que Anna de Cleves não estava
virgem quando a desposou. E secretamente mandou á Allemanha um emissario de
confiança, o gentilhomem Vaughan, para averiguar o que podesse a este
respeito.
O rei, já a esse tempo enamorado de Catharina Howard, sobrinha do duque de
Norfolk, queria encontrar um pretexto para repudiar Anna.
Partiu Vaughan com dinheiro á ufa e, chegando a Cleves, reuniu em banquete
alguns gentishomens, com o proposito de os embriagar. _In vino veritas._
Depois de haverem esgotado os picheis, elles diriam o que soubessem. Assim
aconteceu. Um d'elles, mais expansivo na embriaguez, posto fosse criado do
duque de Cleves, disse á mesa que a princeza havia desposado um cavalleiro,
que morrêra na Allemanha de desgosto quando soube que acabavam de casal-a
com Henrique VIII.
Surprehendido este fio da meada, Vaughan procurou desfial-a, fazendo-se
acompanhar de cartas justificativas.
Interrogada a propria Anna por Henrique VIII, respondeu que tinha sido
desposada com o duque de Lorena, mas que lhe disseram que elle havia
morrido, e que de mais nada sabia.
Hume assevera que o casamento com o duque de Lorena fôra effectivamente
tratado com Anna de Cleves, quando ambos estavam na infancia, e desfeito
depois por commum accordo.
Todavia isto bastou para que Henrique procurasse divorciar-se da rainha
Anna, allegando que não déra o seu consentimento interior para o casamento,
e que não o consummára.
Esta ultima desculpa não é menos absurda do que a primeira, visto que
Henrique VIII declarára que Anna de Cleves já não estava virgem.
O duque de Norfolk, aproveitando o amor do rei pela sobrinha, conspirou
contra o ministro Cromwell, e empolgára o poder que elle, proscripto por um
bill, fôra obrigado a largar. O clero e o parlamento ratificaram o
divorcio, e Anna de Cleves foi, sem se importar muito com isso, enviada
para Cornwall, onde viveu entregando-se ao prazer, fazendo alegres partidas
de caça.
O seu temperamento frio de allemã não soffreu pois grandemente com o
divorcio, mas altivo, como todos os de sua raça, levou-a a não querer
voltar para a Allemanha.
Diz-se que escrevêra uma carta ao irmão, pois que o pai tinha fallecido,
affirmando-lhe que fôra sempre bem tratada na Inglaterra.
A situação politica da Europa tinha mudado; a reconciliação de Francisco I
com Carlos V não havia sido duradoura. Foi o que valeu a Henrique VIII,
porque as suas relações com os principes da liga protestante esfriaram
depois do divorcio. E o que valeu a Anna de Cleves foi o receio que
Henrique tivera dos principes allemães. Se assim não fosse, em vez de ir
para Cornwall, teria ido para a Torre de Londres, e d'ahi para o cadafalso.
Henrique VIII estava então nos seus quarenta e nove annos. Mas as
velleidades amorosas eram as de um moço. Indo uma vez a casa da princeza
Maria, a cuja guarda estava confiado o principe de Galles, disse a
Catharina Howard, então viçosa donzellinha de quinze annos, que ajoelhára:
—Não mais, Catharina, quero que tornes a ajoelhar-te; bem ao contrario,
ajoelharão diante de ti todas as damas e cavalleiros do meu reino.
Tal foi a explosão amorosa do coração do rei.
O casamento fez-se logo, e Henrique VIII delirava de jubilo por possuir uma
esposa bella e graciosa, julgava-se o mais feliz dos maridos, instituira na
capella real uma oração em acção de graças, e exigira que o bispo de
Lincoln compozesse, pelo mesmo motivo, um hymno gratulatorio.
Catharina, vendo cingidos os seus cabellos com a corôa de Inglaterra,
pompeou esplendores de _toilettes_ e joias nunca vistas. Era uma _coquette_
de peior estofa que Anna Boleyn. Não precisára ter estado em França para se
desmoralisar; o vicio era-lhe ingenito. _Coquette_ e dominadora. Ciosa das
honras dispensadas á princeza Maria e ao principe de Galles, fez com que o
rei lhes pozesse casa á parte. E o rei, preso nos seus amavios,
obedecera-lhe.
Comprehende-se facilmente que um marido de cincoenta annos não bastasse ás
exigencias voluptuosas de uma _coquette_ como Catharina Howard.
Aquillo já vinha de traz.
Frequentava a côrte um gentilhomem, de nome Colepeper, que havia merecido
favores amorosos a Catharina Howard, quando solteira. Colepeper, depois que
Catharina fôra desposada por Henrique VIII, sentira, como sempre acontece,
maior paixão por ella e, na côrte, mostrava-se melancolico para significar
á rainha a sua saudade pelas felicidades do passado.
Catharina Howard trocava com elle olhares furtivos, mas brilhantes de
esperança, scintillantes de promessas.
Animado por este estimulo, Colepeper resolveu-se a escrever á rainha, e um
dia, dançando com ella, entregou-lhe uma carta, a que Catharina respondeu,
decerto confirmando as promessas dos seus olhares. A resposta foi entregue
a Colepeper pela rainha, tambem n'um sarau dançante em que bailaram
emparceirados.
Henrique VIII foi uma victima da dança,—sempre que as rainhas dançavam.
Certo dia Catharina procurou sondar uma criada sua, Maria se chamava ella,
dizendo-lhe:
—Se soubesse que não me denunciarias, confiava-te um segredo.
A criada respondeu:
—Guardarei segredo do que me disserdes, comtanto que não toque pelo rei.
Sangrava-se em saude, a criada, lembrando-se certamente de que a confidente
de Anna Boleyn havia sido queimada.
A rainha disfarçou:
—Outro dia fallaremos n'isso. Mas não é coisa que toque pelo rei.
Passado tempo, Catharina tentou sondar outra criada:
—Joanna, desejo fazer-te bem e conseguir que el-rei te case honestamente.
E, juntando os factos ás palavras, deu-lhe alguns vestidos e joias.
Corridos dias, a rainha abriu-se confidencialmente com a criada.
Disse-lhe que amava Colepeper, que pensára mesmo em casar com elle antes do
rei a requestar. E pediu-lhe que a auxiliasse para ter uma entrevista com
Colepeper, visto que o rei ia sahir para Rionsirche.
A criada teve medo, recusou-se e foi denunciar a rainha ao arcebispo do
Cantorbery. Mas parece que outra criada, menos timida, favorecêra os
intentos de Catharina, porque depois se averiguou, como vamos vêr, que a
rainha tivera effectivamente um _tête-à-tête_ com Colepeper.
O arcebispo soube mais por um individuo chamado Lascelles, cuja irmã havia
estado ao serviço da velha duqueza de Norfolk, e lhe revelára segredos da
vida de Catharina quando solteira, que dois officiaes da casa da duqueza,
Derban e Mannoc, haviam sido admittidos no seu leito, sem que d'isso
fizessem mysterio.
Julgou o arcebispo, depois de ter conferenciado com o conde de Hertford, e
com o chanceller, que devia contar tudo ao rei, e fel-o com certo embaraço,
como era natural. Henrique VIII mostrou-se incredulo, no primeiro momento,
mas o arcebispo, desejando justificar-se, activou decerto novas
investigações. Lascelles foi a Sussex fallar com sua irmã, a qual não só
confirmou mas até ampliou as revelações anteriores. Mannoc e Derban, presos
e interrogados pelo chanceller, disseram tudo o que podiam dizer. Revelaram
pormenores escandalosos. Contaram que tres jovens criadas da duqueza de
Norfolk conheciam o segredo da devassidão de Catharina, porque tinham
algumas vezes passado a noite entre Catharina e os seus amantes.
Averiguou-se mais que a rainha realisára a entrevista com Colepeper, e,
como era natural, suspeitou-se do facto de haver Catharina escolhido
Derban, um dos antigos amantes, para seu criado.
Todos os depoimentos foram lidos ao rei que, apesar de estar habituado a
estes lances, chorou.
Interrogada a rainha sobre as accusações que lhe eram feitas, negou-as a
principio; mas quando lhe apresentaram todas as provas, confessou que
effectivamente se havia conduzido mal antes do casamento, insistindo,
porém, na declaração de que não tinha trahido o rei.
O parlamento, vingador das infelicidades conjugaes de Henrique VIII, tomou
conhecimento do facto.
A rainha, a viscondessa de Rochford, cunhada de Anna Boleyn, sua inimiga, e
confidente dos amores de Catharina, Colepeper, Derban, a duqueza de
Norfolk, avó da rainha, lord William Howard, seu tio, a mulher de lord
Howard, a condessa de Bridgewater, e mais nove pessoas, foram proscriptos.
Como Anna Boleyn, Catharina Howard subiu ao cadafalso, em Tower-hill.
A dois passos do garrote e do algoz, fallou ao povo.
Confessou o seu amor por Colepeper, e que a ambição de ser rainha a
perdêra. Lamentou não ter casado com Colepeper, pesando-lhe que elle por
sua causa morresse. Accrescentou que morria rainha, mas que preferiria
morrer mulher do homem que tinha amado e que a amava.
Um idyllio sobre o cadafalso!
No outro dia foi decapitado Colepeper, que se limitou a pedir ao povo que
rogasse a Deus por elle.
Tambem morreu decapitada a viscondessa de Rochford, com applauso do
publico, que se lembrava de que fôra ella quem mais contribuira para a
perda de Anna Boleyn.
Henrique VIII, afim de se precaver contra novos desastres conjugaes, levou
o parlamento a votar uma lei em que a todos os cidadãos se impunha a
obrigação de denunciarem secretamente ao rei quaesquer infidelidades da
real consorte, e á real consorte o dever, sob pena de alta traição, de
revelar ao rei as faltas que porventura houvesse commettido antes do
casamento.
O povo inglez, vendo através d'esta lei o projecto de um novo casamento,
desatou ás gargalhadas.
Ora Henrique VIII algumas vezes dizia rindo que ainda havia de cahir n'uma
viuva. Chalaça do rei, porque a bem dizer a maior parte das suas mulheres
não eram outra coisa. E não deixa de ser curiosa a coincidencia de que dois
reis femeeiros, Henrique VIII e Luiz XIV, acabassem ambos por desposar uma
viuva authentica, Henrique VIII Catharina Parr, viuva duplicada, de lord
Nelvill e de lord Latimer; Luiz XIV a viuva Scarron.
Catharina Parr ia muitas vezes á côrte visitar a princeza Maria. O rei
escolheu-a para sexta esposa, confiado em que, por ter já conhecido dois
maridos, e contar trinta e seis annos, não prevaricaria extra-canonicamente
no sexto mandamento como as outras.
O casamento fez-se um pouco á capucha. Sem embargo, Anna de Cleves assistiu
e, longe de se mostrar pezarosa, gracejou sobre o caso.
—Que grande peso, disse ella, vai tomar Catharina Parr!
Anna de Cleves fizera um _calembour_, porque o rei estava descommunalmente
obeso.
Posto de parte o _calembour_, a situação de Catharina Parr não era para
invejar. Deviam passar-lhe pela imaginação os espectros das duas esposas
decapitadas de Henrique VIII, tanto mais que, sendo Catharina partidaria de
Luthero, os seus inimigos catholicos não deixariam de trabalhar para
perdel-a.
E quasi o tiveram conseguido.
Henrique VIII, comquanto adversario do papa, zelava a orthodoxia dos
dogmas. Succedêra que Catharina Parr fallára um dia com certa franqueza e
favor a respeito da reforma, acabando por emittir o seu parecer ácerca da
eucharistia.
Soube-o o rei e queixou-se a Gardiner de que a rainha tivesse a ousadia de
pensar de maneira differente d'elle. Chegaram a formular-se officialmente
artigos de accusação contra a rainha; e passou-se a respectiva ordem de
prisão. Este documento cahiu, porém, da algibeira do chanceller, e foi
encontrado por um partidario da rainha, o qual correu a mostrar-lh'o.
Catharina dirigiu-se immediatamente aos aposentos do rei, que, por ser esse
o seu gosto, e para experimental-a, fallou de assumptos theologicos.
Catharina esquivou-se tenaz e artificiosamente a entrar na questão,
dizendo:
—As mulheres estão sujeitas ao homem desde a origem do mundo. O homem foi
creado á imagem de Deus, e a mulher á imagem do homem; é pois ao esposo que
cumpre regular as opiniões da esposa. Mas, como quer que seja, o dever da
mulher é adoptar cegamente os principios do marido. Quanto a mim, obriga-me
um duplo dever, pois que tenho a felicidade de possuir um esposo que, por
sua intelligencia e saber, póde illustrar não sómente a sua familia, mas
até os mais eruditos espiritos de todas as nações.
O rei, muito lisongeado, respondeu:
—Por Santa Maria! sois mais sabia do que o doutor Kate, e estais mais no
caso de dar que de receber lições!
Catharina Parr declinou o elogio por immerecido, dizendo ao marido que o
seu unico empenho era distrahil-o por alguns instantes dos seus grandes
trabalhos e soffrimentos.
Henrique VIII replicou com alegria:
—É pois assim?! Bem está. D'aqui por diante seremos dois bons amigos.
No dia seguinte, o rei e a rainha, completamente reconciliados, conversavam
no jardim quando o chanceller chegou acompanhado de quatro homens, para
prender Catharina.
O rei obeso rebolou-se para elle, e desfechou-lhe epithetos injuriosos.
Quando o chanceller sahiu corrido, a rainha esforçou-se por tranquillisar o
rei.
Henrique VIII disse-lhe:
—Pobre tontinha! Nem tu sabes o que deves a este homem!...
Não sabia a rainha outra coisa! Mas a sua astucia feminil e a experiencia
de um terceiro casamento seguram-lhe a cabeça sobre os hombros.
Desde esse dia o chanceller ficou desprestigiado aos olhos do rei.
E Catharina redobrou de amabilidades para com seu marido, servindo-o á
mesa, curando-lhe carinhosamente as feridas que elle tinha na perna
esquerda e cantando-lhe trovas, para o adormecer, quando o rei, insomnioso,
difficilmente rebolia na cama a sua incommoda rotundidade.
Conta Pliego que Henrique VIII, sentindo avisinhar-se a morte, no anno de
1547, se despedira ternamente da rainha, recommendando-a aos grandes do
reino, e ordenando que lhe dessem sete mil libras, todas as suas joias e
vestidos, se quizesse tornar a casar.
Accrescenta ingenuamente o chronista castelhano: E a boa rainha não pôde
responder pelo muito que chorava.
A sinceridade d'essas lagrimas avalia-se pela fogosa paixão que Catharina
Parr desentranhou pelo almirante Thomaz Seymour, que era amante de Isabel,
filha do rei e de Anna Boleyn. O almirante desposou a rainha viuva, mas os
ciumes de Isabel e a inveja que sua cunhada, a duqueza de Somerset, tinha
da rainha atormentavam-n'o grandemente. Catharina Parr morreu envenenada,
segundo se diz. Havia dado á luz uma creança que não vingou, sem que se
soubesse ao certo se era filha do rei ou do almirante, tão pouco tempo
depois da morte do rei casára ella com o almirante.
Catharina Parr, a respeito de casamentos, lia pela cartilha de Henrique
VIII. A terra lhe seja leve, já que os maridos o não foram.
O almirante teve motivos para sentir a morte da esposa, porque lhe
arrebatou o rendimento annual de sete mil libras. Como compensação,
mancommunou-se com os piratas e ia feito nas extorsões que elles
praticavam. Enriqueceu. Vendo-se rehabilitado, quiz casar com a princeza
Izabel, sua amante, talvez para conseguir que fosse entregue aos seus
cuidados o joven rei Eduardo VI, sendo que estava usufruindo esta honra seu
irmão o duque de Somerset, condecorado com o titulo de protector. O irmão e
a cunhada, para cortar-lhe o vôo das ambições, perderam o almirante,
accusado de cumplice nas extorsões dos piratas. O proprio duque assignou a
sentença de morte do irmão, que foi decapitado.
Henrique VIII deve ter-se encontrado no outro mundo com as suas seis
mulheres, que, se lá se julga melhor, como eu creio, do que cá em baixo,
hão de tel-o visto condemnado pela justiça eterna.
As atrocidades sanguinarias que commettêra contra os catholicos e a bagagem
dos seus vicios far-lhe-iam decerto grande carga.
Elle mesmo, ao expirar, se accusou de não ter poupado algum homem na sua
colera, nem alguma mulher nos seus desejos.
Mas, como quer que fosse, a igreja catholica, inspirando-se na misericordia
christã, deve perdoar-lhe, tanto mais que Henrique VIII, que depois de
velho não cria no Purgatorio, deixou muitas missas com medo d'elle.
Eu até me sentia disposto a rezar um Padre-Nosso por alma de Henrique VIII,
se me não lembrasse de que alfim deve já lá em cima ter recebido alguma
compensação de haver sido casado seis vezes, quasi sempre com maior peso do
que o que canonicamente era justo.
<span id="chapIII">III