D. BEATRIZ DE PORTUGAL

I

Todos nós fomos litterariamente educados com a MENINA E MOÇA, de Bernardim

Ribeiro, o mavioso livro das saudades. Temos de cór, pelo menos, as

primeiras palavras d'esse livro galante e cavalheiresco: «Menina e moça me

leváram de casa de meu pai para longes terras...» Todos nós nos costumámos

a vêr na MENINA E MOÇA, de Bernardim, a infanta D. Beatriz de Portugal,

filha do rei D. Manuel.

Diogo Barbosa Machado, na BIBLIOTHECA LUSITANA, deu curso á lenda,

assignalando a fonte onde a bebêra. E digo _fonte_ para não desaproveitar

um _calembour_, por isso que se trata da _Fuente de Aganipe_, de Faria e

Sousa.

Por sua parte diz Barbosa Machado:

«Arrebatado de impulsos amorosos (Bernardino ou Bernardim Ribeyro)

passava muitas noites entre a espessura e solidão dos bosques, explicando

junto á corrente das aguas, com suspiros e lagrimas, a vehemencia de

paixão tão violenta que o obrigou a emprehender impossiveis dedicando os

seus affectos á infanta D. Beatriz, filha do serenissimo rei D. Manuel,

como elegantemente o contou Manuel de Faria e Sousa...»

Costa e Silva, no ENSAIO BIOGRAPHICO-CRITICO, reproduziu a lenda d'esses

suppostos amores do poeta, desventurosos por desiguaes. Conta-nos o seu

desespero quando o rei de Portugal concedeu a mão da infanta ao duque de

Saboya; o seu ermar solitario pela serra de Cintra, bradando ás penhas e

entalhando no tronco das arvores o nome de Beatriz; finalmente, a partida

do trovador para Saboya, sob o disfarce de peregrino, e o seu furtivo

encontro em Saboya com D. Beatriz:

«Chegando alli depois dos trabalhos e perigos de tão longa jornada,

indagou qual era a igreja onde a duqueza costumava ouvir missa, e

esperando-a na porta, lhe pediu esmola quando passou. A duqueza, que logo

o conheceu, apesar da differença do traje e do transtorno que as maguas e

saudades haviam feito em suas feições, parou, e, dando-lhe esmola, lhe

disse baixo em portuguez:

—Já lá vai o tempo dos antigos galanteios.»

Segundo a versão de Costa e Silva, Bernardim Ribeiro, recolhendo á patria,

e voltando á serra de Cintra, ahi _terminou em breve os seus dias_.

Era natural, como aconteceu, que esta antiga lenda tão profundamente

sentimental se impozesse á imaginação dos escriptores portuguezes que

floresceram ao tempo de fazer-se entre nós a evolução romantica.

De facto, Garrett, no canto nono do CAMÕES, ensancha-a com felicidade na

descripção de Cintra:

Tradição é que nomeado vate,

D'alta beldade mysterioso amante,

Entre as fragas erguêra a mansão triste,

Onde cevou de tristes pensamentos

O coração cortado de saudades.

_Saudade_ pelas pedras entalhada

Se lia em caracteres bem distinctos;

E o nome de _Beatrix_, tambem gravado

Na silice do monte, lhe responde,

Como echo das endeixas namoradas

Do cantor da soidão.

Garrett não podia esquecer o poetico episodio da partida de Bernardim

Ribeiro para Italia:

Subito um dia, de bordão na dextra,

Na opa de peregrino disfarçado

Desce os montes da Lua, e mais erguidas

Serras demanda; em romaria aos Alpes

Parte, a levar o coração votado

A quem talvez, na purpura, suspira

Pelos andrajos do mendigo amante.

Vel-o-ha, o objecto de suspiros tantos,

De saudade tão longa, da romage

Devota, mas só vêl-o, e adeus eterno,

E para sempre adeus!... Crueis lhe vedam

Mais que esse adeus. Voltou á patria, e morre.

Na respectiva nota da primeira edição do CAMÕES, Garrett dá como factos

assentes o isolamento de Bernardim Ribeiro na serra de Cintra e a sua ida

de peregrino aos Alpes. Na segunda edição, porém, revela duvidas a respeito

dos derradeiros dias do poeta, dizendo que «eram a parte menos decifrada e

decifravel do _enigma_ de sua vida» e desculpando-se com ter seguido no

texto do poema a tradição mais vulgar.

No AUTO DE GIL VICENTE, representado com grande applauso no theatro da rua

dos Condes, Bernardim Ribeiro inspira uma dupla paixão a Paula Vicente,

filha de Gil Vicente, e á infanta D. Beatriz. A dedicação de Paula pela

infanta vai até o ponto de sacrificar o seu proprio coração á paixão que a

infanta nutre pelo trovador. Todo o entrecho d'esta peça inicial do moderno

theatro portuguez é fornecido por um auto de Gil Vicente, de que a seu

tempo nos occuparemos. O casamento da infanta realisa-se, e ella parte para

Italia a bordo do galeão «Santa Catharina». Bernardim conseguiu ir a bordo

dizer o ultimo adeus á infanta; mas el-rei D. Manuel chega pouco depois

para se despedir da filha. Bernardim encontra-se n'uma situação

desesperada, receiando comprometter a infanta e Paula Vicente. Prefere

morrer a desacredital-as: precipita-se no Tejo.

O lance é de effeito para um final d'acto, que de mais a mais é o ultimo. E

a responsabilidade historica de Garrett salva-se de algum modo, porque

Bernardim Ribeiro póde não ter perecido no Tejo. Isto mesmo diz Garrett em

nota á segunda edição do CAMÕES: «... Bernardim Ribeiro lança-se ao mar, no

AUTO DE GIL VICENTE, mas nenhum _nuncius_, nenhum _koros_ veio fóra, como

na comedia ou tragedia antiga, dizer ao publico: «Bernardim Ribeiro

afogou-se com effeito; _nunc plaudite_.»

Ora em uma das annotações com que o AUTO DE GIL VICENTE sahiu impresso,

escreveu Garrett:

«Em a nota E, ao canto nono do poema CAMÕES, no 1.º vol. d'esta

collecção, pag. 275, se promette illustrar o ponto d'estes amores de

Bernardim Ribeiro e da sua romanesca vida. Mas não me atrevo por ora a

cumprir tal promessa. Aqui atirei com elle ao mar, porque me era preciso:

e o publico disse que era bem atirado. É o que me importa. Se elle foi ou

não a Saboya depois, como eu já cuidei averiguado, se andou doido pela

serra de Cintra, tambem me não atrevo a certificar.—O que parece mais

certo é que _não morreu de paixão_, porque depois foi feito commendador

da ordem de Christo, e governador de S. Jorge da Mina, onde talvez

morresse de alguma carneirada: materialissimo e mui prosaico fim de tão

romantica, saudosa e poetica vida.

«Aprendei aqui, ó Beatrizes d'este mundo!»

No terceiro volume do ROMANCEIRO encorporou Garrett dois romances

extrahidos da MENINA E MOÇA, de Bernardim Ribeiro: A AMA, AVALOR; e o soláo

CUIDADO E DESEJO, que se encontra entre as eclogas do poeta, appensas á

edição da MENINA E MOÇA, feita em 1852 pela empreza da _Bibliotheca

portugueza_ (Lisboa).

Todas estas tres composições são precedidas de pequenos prefacios

elucidativos.

Fica pois bem accentuada a grande influencia que a tradição poetica dos

amores de Bernardim Ribeiro exerceu no espirito delicado e na imaginação

romantica de Garrett. O caso, em verdade, não era para menos. Cintra, a

formosissima Cintra, como tablado; como actores, uma princeza e um

trovador. E depois ainda a corrente tradicional dos costumes trovadorescos:

«não estava tão longe o tempo em que princezas e rainhas ouviam sem enfado

e acceitavam sem desaire as homenagens dos trovadores.»

Alexandre Herculano, no 3.º volume do PANORAMA, escreveu um artigo a

respeito dos amores de Bernardim Ribeiro com a infanta D. Beatriz. Acha

escuro este problema historico, mas acceita a lenda. Lamenta que Garcia de

Rezende, que tão curiosas informações nos legou sobre a partida da infanta

para Saboya, se abstivesse, talvez por considerações palacianas, de tocar o

assumpto. Cita Damião de Goes para mostrar que o casamento fôra mal

recebido dos portuguezes, que não reconheciam no duque de Saboya qualidades

nem de nascimento nem de posição para tomar por mulher uma filha do rei D.

Manuel. E não lhe parece que estas razões fossem as unicas que imperaram no

animo dos portuguezes para desestimar o casamento. Copía, em reforço da sua

opinião, um codice da primeira metade do seculo XVI, existente na

bibliotheca real, da qual transcreve os seguintes periodos com relação á

viagem da infanta:

«... e a um domingo, dia de S. Miguel, de setembro do anno de 521,

chegaram a Villa-Franca de Niça, porto do duque de Saboya, a uma hora

depois do meio-dia; e assi das náus como da villa se fez grão festa

d'artilharia. E o duque mandou pedir á infante, que não dormisse na nau;

e ella se escusou de sair por aquella noite; e vendo o duque sua escusa,

foi lá em pessoa com alguns gentishomens, e lhe pediu que com toda

maneira saisse: ella o fez por conselho do conde, contra sua vontade, e

de todos, e saiu com tochas; onde achou doze facas guarnecidas, para si,

e para as damas, e alguns chibaos para os fidalgos, porque d'alli a Niça,

onde era a povoação, pelo rio acima, era meia legua; e ahi foram ter. E a

duqueza de Nemuns (_Nemours_) irman do duque, e mãe d'el-rei de França,

que ahi estava, saiu fóra ao terreiro das casas, onde o duque pousava, a

receber; e ahi se fizeram grandes ceremonias e cortezias. E alli foi com

a infante para dentro, e assi a rainha por hospeda aquella noite. Ao

outro dia pela manhã foram ouvir missa a um mosteiro de S. Domingos,

pegado com as casas; e um cardeal, que ahi era, disse missa, e os

benzeu...

«O duque é homem pequeno de corpo, e alvo; de rosto comprido, e fêo de

tudo: tem um hombro mais alto que o outro, e é um pouco azumbado, e as

pernas delgadas, e muito prudente. A este casamento, eram vindos um

cardeal e tres bispos, e um marquez, e tres condes, e logo se tornaram.

Em Niça estiveram oito dias, nos quaes alguns justaram, e o duque deu

banquete aos portuguezes: e a cabo dos oito dias partiu com a infante

para Piamonte: e á partida a infante se achou só em uma faca, com dous

moços d'estribeira; e como ia de cá acostumada de andar d'outra maneira,

achava-se corrida, e não soube que fazer, senão tornar-se ás lagrimas,

porque a mór parte dos portuguezes eram já embarcados para se tornar. E

alguns outros que por a servir aqui se iam acompanhar, não o consentiram,

que assi lhes era ordenado do duque: e ao passar de uma ponte, uns cem

alabardeiros lhes pozeram as alabardas nos peitos, e não consentiram que

passassem ávante. As damas iam em chibaos d'aluguer, com varas nas mãos,

sem nenhuma companhia d'homem, caindo a cada passo por seguir a infante

pranteando e chorando sua orfandade, e a pouca honra e gasalhado que dos

saboianos recebiam; e dizendo d'elle muitas pragas, e a pouca virtude e

honra com que os tratava.»

D'estas passagens do codice tira Alexandre Herculano as conclusões que

fazem ao seu proposito. Ainda explica a repugnancia da infanta em

desembarcar por estar informada da figura despicienda do duque; mas para

explicar a dureza com que Carlos de Saboya trata D. Beatriz, poucos dias

depois de casada, sendo certo que empregára grandes esforços para obter a

sua mão, recorre Alexandre Herculano á conjectura de que «a noticia dos

amores da infanta com um cavalleiro portuguez teria chegado aos ouvidos do

senhor Vallaison (Claudio) que revelaria a seu amo, depois das nupcias, o

terrivel segredo que levára de Portugal, e porventura o receio de que entre

os que na viagem a acompanharam existisse o seu rival, e de que alguma das

damas o favorecesse.»

O quadro da desamoravel lua de mel, que a infanta D. Beatriz, segundo o

author do manuscripto, tivera em Saboya, não obstante a tradicional

formosura da infanta, contrastaria asperamente com as alegrias com que os

esponsaes foram celebrados na côrte de Portugal, onde Gil Vicente fez

representar a tragicomedia das CÔRTES DE JUPITER, um dos autos que, a nosso

vêr, melhor caracterisam a funcção truanesca que Gil Vicente desempenhava

no paço, pelas allusões pessoaes a personagens importantes que elle

irrisoriamente converte em peixes,—baleia, raia do alto, çafio, etc.

Veremos porém até que ponto, graças a um auxilio poderoso, lograremos

esmiuçar a verdade.

Historias de Reis e Principes · 第 27 / 74 题