Fernão da Silveira, filho primogenito do barão de Alvito, foi escrivão da
puridade de D. João II, e figura como poeta no CANCIONEIRO de Garcia de
Rezende.
Estas circumstancias dão-lhe fóros de homem notavel no seu tempo. Mas a
todas sobreleva, perante a historia, a de ter sido um dos conspiradores que
mais incommodaram D. João II.
Parece que o rei não tinha sobejos motivos para confiar no seu escrivão.
Certo dia mandára chamar, por um moço da camara, Fernão da Silveira. D.
João II não se queria referir ao secretario particular, mas a outro Fernão
da Silveira, o coudel-mór, tambem poeta como o seu homonymo.
Comparecendo o escrivão da puridade em vez do coudel-mór, D. João II
agastou-se e perguntou ao moço da camara:
—A quem te mandei chamar?
—A Fernão da Silveira.
—Não era este, replicou o rei, mas o _Bom_.
O escrivão da puridade julgou-se desconsiderado com estas palavras do rei
e, sahindo do Paço, como encontrasse no Rocio D. Martinho de Castello
Branco, desabafou com elle. D. Martinho procurou aquietal-o com bom
conselho, porém Fernão da Silveira insistiu em mostrar-se agastado contra o
rei, de quem jurou vingar-se.
—Mas o que podereis vós fazer? perguntou D. Martinho.
—Matal-o, respondeu o escrivão da puridade.
E correu d'alli a bandear-se com os conspiradores: o duque de Vizeu, o
bispo d'Evora D. Garcia, o irmão do bispo, D. Fernando de Menezes, D.
Guterres Coutinho, D. Alvaro Coutinho e seu filho, o conde de Penamacôr e
seu irmão D. Pedro d'Albuquerque.
D. João II soube das conferencias mysteriosas dos conspiradores, celebradas
em Santarem, fóra de portas.
Por mais de uma delação o soubera.
Tinha o bispo d'Evora certa manceba, de nome Margarida Tinoco, a cujo
irmão, Diogo Tinoco, ella revelára o segredo da conspiração. Foi este homem
que, disfarçado em frade, procurou o rei no convento de S. Francisco em
Setubal, e lhe denunciou os conspiradores, recebendo em troca uma larga
mercê, que a morte, devida talvez a peçonha mandada propinar pelos
denunciados, lhe não deixou gozar.
D. João II recebeu outra denúncia por D. Vasco Coutinho, a quem seu irmão
D. Guterres pozera ao facto da conspiração. D. Vasco arrecadou em premio o
condado de Borba, importando-se pouco com perder o irmão, que veio a acabar
preso na torre de Aviz.
Quando Fernão da Silveira teve conhecimento d'esta delação, e da explosão
da colera do rei para com o duque de Vizeu, exclamou:
—Soube D. Vasco aguçar os pescoços!
Foi, como se sabe, em Setubal que D. João II quiz por suas proprias mãos
fazer justiça no duque de Vizeu. E comquanto emprehendesse esmagar a
conspiração na pessoa dos chefes, não se esqueceu o rei de outros
conspiradores menos qualificados. Enviou officiaes a casa de Fernão da
Silveira para que o prendessem. D. João II sentia-se profundamente
indignado contra o seu escrivão da puridade, que desde pequeno creára no
Paço, pelo que lhe ficára o appellido de _Moço_, honrando-o e agasalhando-o
na côrte, onde o casára com D. Brites de Sousa, filha de João de Mello,
alcaide-mór de Serpa.
Os officiaes foram, e não acharam Fernão da Silveira. Encontraram apenas
uma barjoleta com muitos cruzados, que lhe havia confiado o duque de Vizeu
para occorrer ás despezas da conspiração.
O escrivão da puridade, não tendo já tempo para fugir de Setubal, fôra
esconder-se em casa de um velho escudeiro de seu pai, de nome João Pegas,
que não duvidou recebel-o, a despeito do perigo que por esse facto podia
correr.
Pegas metteu o filho de seu amo dentro de uma grande arca sem fundo.
Fingindo que guardava pão na arca, alimentava todos os dias o conspirador.
Uma escrava preta, que havia em casa, cuidou ouvir gemidos, que sahiam da
arca. Disse-o a João Pegas que, receiando se descobrisse o segredo, ordenou
á preta que se calasse até que elle no dia seguinte verificasse se era
verdadeiro ou não o caso dos gemidos.
Ao outro dia, a escrava tornou a ouvir gemer. Foi dizel-o a João Pegas, que
se levantou do leito immediatamente, e a mandou buscar um balde de agua ao
poço.
Quando a escrava estava tirando a agua, Pegas precipitou-a no poço,
esperando cautelosamente que ella acabasse de escabujar na afflicção
extrema dos afogados.
Logo que reconheceu que estava morta, gritou publicando que a escrava se
afogára.
Mas o segredo do escondrijo de Fernão da Silveira ficou no fundo do poço,
que era o que João Pegas queria conseguir.
Decorreu tempo, e o escudeiro tratou de fazer sahir de Portugal o seu
hospede. Valeu-se para isso de um mercador, que se chamava Bartolo, e que
levou comsigo para Sevilha Fernão da Silveira, disfarçado em mendigo.
Salvo em Castella, o foragido foi bem acceito na côrte de Izabel a
Catholica, e lá lhe acudia com auxilios pecuniarios o conde de Benavente,
fidalgo castelhano, que fôra grande amigo do pai de Fernão. Mandava-lhe
todos os mezes um saco com duzentos escudos, mas Fernão da Silveira só
tirava cinco, e devolvia o resto. O castelhano todos os mezes insistia em
igual remessa, e o portuguez não deixava de insistir na recusa da quantia
excedente a cinco escudos.
Comprehendeu o castelhano que era aquelle um homem retemperado de
invencivel altivez lusitana, e, para acabar de experimental-o, certo dia em
que se juntaram com outros fidalgos na ante-camara dos reis catholicos,
deixou o conde cahir uma luva. Fernão da Silveira, em vez de se dar pressa
em levantal-a, sentou-se n'um bufete. O conde de Benavente não desgostou
d'esta arrogancia tão conforme ao espirito hespanhol, e celebrou-a. A
noticia do facto espalhou-se com applauso na côrte de Castella, e chegou á
de Portugal, onde D. João II, comquanto sempre resentido dos aggravos
recebidos de Fernão da Silveira, e sempre implacavel nos seus projectos de
vingança, commentou a noticia com esta phrase sentenciosa:
—Fernão da Silveira aonde chegar ha de sempre ter lugar.
D. João II mandára citar por carta de éditos Fernão da Silveira, emquanto
estivera escondido em casa de João Pegas, para que se apresentasse perante
o rei e o seu conselho, no termo de quarenta dias, a fim de se livrar «da
dita traição e maldade que contra nós e nosso real estado, e contra o bem,
paz, e assesseguo de nossos reinos cometera, e para sobre todo ser ouvido
com o dito procurador fiscal da nossa justiça.»
Passou-se o praso de quarenta dias, e Fernão da Silveira não appareceu.
N'essa não cahia elle, que bem sabia a sorte que o esperava se apparecesse.
Chegou o dia da audiencia, e o porteiro do tribunal, João Trancoso,
apregoou o réo. Como se não apresentasse, nem outrem por elle, o procurador
da justiça offereceu o libello articulado sobre os seguintes factos
criminosos:
«Que nós criáramos o dito reo de moço pequeno, e que sempre lhe fizeramos
muita honra, gasalhado, e mercê, casando-o, e dando-lhe muita renda com
vontade, e tenção de o muito honrar, e acrecentar, e fiando nós d'elle
nossos segredos, e conselhos, encarregando-o muitas vezes de nosso escrivão
da Puridade, fiando nós nossa vida d'elle reo, e sempre o dito reo obrigado
a nos guardar lealdade não sómente como nosso criado, mas ainda como
vassalo, e nosso subdito, elle o fizera muito pelo contrario, antes como
desleal desobediente Portuguez, fizera, tractára, ordenára e aconselhára
contra nós, e nosso Real Estado, bem, paz e assesseguo, e prol comunal
d'estes nossos reinos e senhorios, as coisas que se adiante seguem. A
saber, que elle dito reo com o Bispo d'Evora, e com D. Diogo, que foi Duque
de Vizeu, tractou, conjurou, e ordenou muitas desleadades contra nós, e
contra o Principe meu sobre todos muito Amado, e Prezado Filho, tractando,
e ordenando muitas vezes, assim na Cidade de Evora como nas Villas de
Santarem e Setubal, e outros lugares de nos matarem, e ao dito Principe meu
Filho, e de se alevantarem com as Villas, e Fortalezas que o dito Duque
tinha, e outras quaesquer, que podessem haver, tractando de metter gente de
fóra d'estes reinos para poderem pôr em obra o seu mau e desleal proposito,
e para contra quem quer que lh'o embargar quizesse, sendo o dito reo o que
principalmente tractava contra nós, induzindo para isso o dito Duque, como
do feito induziu, e outros seus amigos, de que se elle reo fiava, e o
principal conspirador e ajuntador, dos que no dito tracto e conspiração
eram contra nós, e sendo o recebedor, e o que dispendia os dinheiros que
para as ditas traições, e maldades eram juntos, e o pagador d'elles, a quem
era ordenado, como dos ditos dinheiros pagára quinhentos cruzados a Pero de
Albuquerque, para abastimento da Fortaleza do Sabugal, e assim a D. Alvaro
d'Athayde, certa somma de dinheiro que vier em verdade. E que logo como o
dito Duque D. Diogo foi morto, e o Bispo, e alguns dos outros conjurados
presos, pelas ditas maldades e traições serem reveladas a nós, elle dito
reo, temendo-se do que feito tinha, logo sem mais detença se partiu, e foi
d'estes reinos, e amarou sem mais nunca n'elles apparecer, nem ser visto de
seus parentes e amigos, e dos que com elle tinham conversação.»[1]
Ouvido o libello pelo rei e seu conselho, foram julgados procedentes os
artigos de accusação, ordenando D. João II que se o réo tivesse artigos
contrarios, viesse com elles. Como não veio, correu o processo á revelia,
sendo admittida a prova do procurador da justiça, o qual offereceu a
inquirição devassa que por este motivo havia sido tirada.
Fernão da Silveira teve conhecimento dos éditos de citação; mas só quando
se viu salvo em Castella ousou denunciar o seu paradouro, não escrevendo
uma justificação judicial, mas dirigindo particularmente ao rei uma carta
audaciosa, de que vamos extrahir alguns periodos:
«... eu dias ha que estou n'esta Côrte de El-Rei e da Rainha de Castella,
meus Senhores, e bem se sabe em Portugal: poderia tambem responder a elles
(éditos) por direito, outras razões poderia dar n'este caso, mas não quero
alongar a escriptura e ainda d'estes me quero lançar fóra; sómente digo que
os éditos contra mim postos são mandados pôr por vós ante quem o direito
nem justiça não vale nada, nem ousa ninguem de os julgar que claramente
sobre os éditos que contra Ruy Lopes Coutinho mandaveis pôr, dizem de vós
os letrados que não era de direito de se pôrem na forma que querieis,
dissestes _que quem aquillo dissesse o mandarieis esfolar e cobrir a
cadeira de sua pelle_ e isto ao Doutor Nuno Gonçalves, que quizestes lançar
a perder por uma sentença que deu segundo lhe parecia direito no feito de
Cezimbra; d'estas taes pudera dizer muitas, mas, sobre cousa tão clara como
a vossa injustiça, não cumpre muitas provas, bem se sabe que nenhum homem
em vosso reino não ha de julgar, senão o que vós quizerdes, e bem se sabe
que é o que vós quereis; e deixando todas estas cousas, sómente digo que
apéllo de vós para Rei direito e justiçoso, e que o mereça e deve ser, e
ainda que para isto ahi não houvesse prova senão as obras que fazeis
abastariam afóra outras cousas que tenho caladas para quando cumprir, assim
que vossos éditos para mim não são de nenhum valor, nem força, e protesto
que cousa que n'elles digaes, nem sentença que por elles contra mim se der,
não me possa damnar nem empécer em nenhum tempo que seja.
Ora, Senhor, vos quero dar conta de mim e da causa que em minha sahida
d'esse Reino e o porque sei que tanto desejastes, e trabalhastes de me ver
á mão, o que principalmente foi, porque eu não contasse a verdade d'este
feito, e de como mal e como não devieis matastes o Duque de Vizeu que Deus
haja, e eu ouvindo a crueldade de sua morte e lembrando-me o mal que muito
tempo me querieis e mui sem causa, e quanto agora me quereis pelo bem que o
Duque me queria, pareceu-me que não devia estar á misericordia de quem não
tem nenhuma nem esperar vossas injustiças e crueldade, as quaes em mim sei
que muito desejaveis executar que pela grande que com o Duque que Deus haja
tinha cuidaveis que saberia a causa da sua morte, a qual não foi outra
senão o grande mal que sempre lhe quizestes e os grandes aggravos e
deshonras que lhe fazieis, as quaes seriam cousa larga de contar, se
houvesse de contar das escripturas e doações que lhe furtastes do cofre que
a Senhora Infanta sua mãe deixou em guarda da Rainha vossa mulher, e de
como nunca lhe confirmastes cousa que tivesse, antes lhe quebrastes cada
dia suas cartas e privilegios e mandaveis a letrados a revolver livros para
lhe tirar a vintena da Guiné, afóra na paga d'ella terdes tal forma que a
mór parte lhe levaveis, e quebrastes-lhe o trato da canella e fizestes que
em Côrtes que vos requeressem que lhe tivesseis as saboarias e o montado, e
tirastes-lhe o desembargador que trazia na casa e tirastes-lhe a
jurisdicção dos rendimentos das suas rendas, e dissestes que se vos não
tornasse a Ilha da Madeira por terras do Duque que lh'a deitarieis a
perder, e deixando estas cousas e outras muitas que contra elle tendes
feito e commettidas tocantes á sua fazenda, nas quaes ia a maior parte do
seu estado e em muitas todo lhe fazieis e ordenaveis outras em que lhe ia
honra e vida, são tratal-o mui descortez e soberbamente e fallares n'elle
mui feiamente chamando-lhe rapaz e necio, e que não era para nada, e
trazerdel-o em vossa Côrte a seu pesar, que por preso o haviam todos, não
querieis consentir que casasse com uma filha d'El-Rei meu Senhor, e mui
honradamente casára, nem quizestes que casasse Irman com elle desejando-o
ella, e tendo vós promettido á Infante sua Mãe que farieis n'isso o que
pudesseis, fizestes o contrario, por onde visto está, que querieis que elle
não casasse com ninguem por não haver filhos que herdassem o seu, e d'isto
ha outra mui mais certa prova que estas, que é certo que lhe mandaveis dar
cousa para não haver geração, e foi-lhe descoberto, depois lhe foi dito
como mandaveis alguns que o matassem de noite indo elle fóra só, fingindo
que o não conheciam, e foi avisado, e guardou-se, e depois foi avisado
agora em Santarem, que com um cosinheiro trataveis para lhe dar peçonha,
assim que claro está que dias ha que tinheis determinado de fazer o que
fizestes e mais o matastes porque vos elle devia matar que por querer
matar, que se elle tal quizera, não andára tão mal apparelhado para tal
negocio nem viera só ver-vos e deixára-vos os mais dos seus em Palmella,
nem os que com elle culpaes não estiveramos tão mal apercebidos, que eu
n'esse mesmo mez não mandára com meus Irmãos os meus escudeiros e
encavalgados, nem lhe déra os meus cavallos e armas de minha pessoa e
áquella hora estava em casa de meu Pai que Deus haja, sem saber que o Duque
era ido nem D. Alvaro de Athayde vos houvera de matar em Santarem nem D.
Pedro de Athayde inda no ventre, eu muitas cousas pudera dizer em prova
d'isto, mas abasta o que todo o mundo sabe, que matastes o Duque mal, e
como não devieis e por mau respeito, e isto pudera bem provar por direito e
leis e ordenações, mas porque seria longura será melhor que vamos pôr a
batalha: eu estou aqui e affirmo uma duas ou tres vezes, que matastes o
Duque mal e como não devieis, e aleivosamente, e o defenderei a quem por
vossa parte me desafiar, e isto darei empreza para vós mandares tomar a D.
Vasco não já que elle tomou, e d'esta guiza me devieis vós mandar matar que
não á traição, _como me dizem que mandais_ e se por vossa pessoa isto
houvera de ser feito, bem sei que vos não porieis n'este risco, assim
porque sabieis a verdade como por ali, e se isto se ordenar para que venha
a fim, por aqui se saberá a verdade, porque eu espero que será n'isto tão
inteiro juizo como em tudo, e se vos disto escuzardes n'elle espero que
mostrará tal juizo de vós o qual merecem essas obras, e que vingará no
sangue dos mortos, por mãos dos vivos, etc...»[2]
No final da carta, que é um documento importantissimo para a historia da
época, allude Fernão da Silveira á phrase dita por D. João II ao moço da
camara, phrase que determinou o seu procedimento contra o rei:
«... mas como natural e amigo d'esses reinos e por bem d'elles vos
desservirei em tudo o que puder, porque todo o desserviço e nojo que fizer
a vós vem a essa terra e gente d'ella assim grandes como pequenos, os quaes
praza a Nosso Senhor livrar da sujeição e captiveiro em que vivem, e de mim
digo que serei sempre tal inimigo como devem de ser todos os _bons_...»
O processo subiu concluso perante o rei em Relação com os do seu Conselho e
Desembargo, sendo proferida sentença condemnatoria a dez de junho de 1485,
dada na villa de Portel:
«... condemnamos, e mandamos onde quer que fôr achado, e tomado, e
comprehendido dentro em estes Reinos, e seus Senhorios, e em qualquer
Cidade, Villa, ou Lugar d'elles, logo morra cruel morte natural, e seja
esquartejado, e seus quartos de seu corpo sejam postos nas portas da
Cidade, Villa, ou Lugar onde fôr preso, e a sua cabeça seja posta no
Pelourinho: e isto sem elle mais ser ouvido, nem requerido, visto como este
maleficio é claro, e notorio, e que elle principalmente e primeiro o
commetteu, tratou, conspirou a dita maldade, e traição: e havemos todos
seus bens moveis, e de raiz, e assim os da Corôa do Reino, se os trazia, e
os patrimoniaes, e declaramos por confiscados e applicados á Corôa Real
d'estes nossos reinos, a que direitamente pertencem.»
Dois annos depois, ainda Fernão da Silveira estava em Castella, protegido
pelos reis catholicos, que se recusavam a entregal-o a D. João II.
Em 1487, n'um conselho realisado em Santarem, ventilou-se a questão de
assentar no destino a dar ás mulheres dos conspiradores, sobre as quaes
recahiam suspeitas de estarem em intelligencia com os maridos.
Os drs. Fernão Rodrigues e Nuno Gonçalves foram de parecer que deviam ser
enviadas com os filhos aos maridos, não só _para não peccarem com outros_,
mas tambem porque não deviam pagar pelas culpas d'elles. E ainda porque os
filhos dos conspiradores constituiriam um foco permanente de conspiração
pelo desejo que teriam de vingar os pais.
Ao dr. João Teixeira, chanceller-mór, pareceu melhor não renovar a
lembrança de factos que o tempo ia esquecendo. Que, mais aquietadas as
paixões politicas, bem podiam os filhos dos conspiradores ser leaes
servidores d'el-rei.
Por isso entendia que se deixassem sahir com seus filhos e haveres as que
quizessem ir reunir-se aos maridos; mas que não fossem obrigadas a fazel-o
todas, indistinctamente.
Os restantes membros do conselho concordaram com este alvitre. O rei tambem
concordou.
Então Ruy de Sousa disse saber que a mulher de Fernão da Silveira folgaria
de ir para o marido.
Ora um documento da época, que suppomos inedito, diz qual foi a resposta de
D. Brites de Sousa:
«Esta parte tomou el-rei de as não mandar constrangidamente, e mandou a
esta de Fernão da Silveira saber se se queria ir, e ella escolheu a parte
de estar no reino por então.»[3]
Uma tal resposta surprehendeu decerto o leitor, por não ser conforme com a
declaração que no conselho d'el-rei fizera Ruy de Sousa.
Tem comtudo uma explicação, e o leitor vai sabel-a.
D. Brites de Sousa tinha realmente manifestado desejo de ir viver com seu
marido em Castella.
Pesava-lhe a vida que levava longe d'elle, com um filho pequeno nos braços.
Chamava-se João o filho legitimo de Fernão da Silveira. O conspirador tinha
outro filho, illegitimo, que houvera de uma manceba de nome Izabel
Rodrigues, e que havia nascido em 1480.
D. Brites chegára a fallar aos do conselho d'el-rei para que lhe obtivessem
a concessão de passar a Castella. Mas obtida a concessão, soubera que
Fernão da Silveira tinha mandado ir a manceba e o filho.
O seu coração amantissimo não foi superior a este golpe. Resolveu não ir
para castigar a infidelidade do marido, que no homisio preferira as
consolações da familia illegal ás da familia legitima.
Eis-aqui a rasão que determinou a recusa de D. Brites.
O certo era que Fernão da Silveira vivia em Castella sem disfarces de
mancebia. A sua existencia, cortada de continuos sobresaltos e receios, que
o faziam esperar a toda a hora o punhal assalariado por D. João II, achava
lenitivo nas expressões affectuosas da manceba, que na desgraça se tornára
mais dedicada.
Sabia o foragido que o rei de Portugal procurava constantemente actuar no
animo de Fernando e Izabel para leval-os a entregarem-lhe o conspirador.
Receiava que os reis catholicos viessem a ceder, e n'esse caso contava com
uma infallivel morte ignominiosa, com uma vingança terrivel que nem os seus
restos mortaes respeitaria. A pelle do seu corpo serviria para cobrir a
cadeira de D. João II.
Em Castella, nas horas em que não frequentava a côrte, onde assiduamente
concorria para sondar a seu respeito o animo de Fernando e Izabel,
fraquejára por vezes aquelle homem forte, cuja altivez assombrára o conde
de Benavente, e merecêra elogio ao proprio D. João II.
Perante a rigidez indomavel do rei de Portugal, antolhava-se-lhe desolador
o futuro. Se lograsse escapar aos sicarios armados pela colera de D. João
II, o que era muito pouco provavel, teria que viver e morrer longe da
patria com o labéo de conspirador, sempre vexado pela necessidade de
receber agasalho e protecção.
As sombras da noite punham-lhe no espirito o constante receio de
emboscadas; atravessava as ruas com o sobresalto com que póde atravessar-se
um sertão povoado de féras. Não se permittia a fraqueza do medo, não
evitava as horas sinistras da noite, por mais que Izabel Rodrigues lh'o
pedisse; mas tinha sempre presente o espectro da morte por traição.
Quando recolhia a casa, esquecia nos braços carinhosos da manceba, que lhe
apresentava o filho, os sobresaltos d'aquelle dia, e repousava como o
naufrago n'um porto de abrigo.
Ás vezes tinha furias de raiva contra D. João II, o assassino do duque de
Vizeu, o flagello da nobreza portugueza, como elle lhe chamava. Retratava-o
moralmente como um tyranno sedento de sangue e poder. Justificava a reacção
da nobreza, e a sua, declamava como um verdadeiro jacobino do seculo XV,
como um _sans-culotte_ que se tinha antecipado trezentos annos aos da
demagogia franceza.
A manceba ouvia-o tremendo com o filho sentado nos joelhos, e procurava
aquietal-o com palavras brandas.
Mas Fernão da Silveira perguntava-lhe se poderia ter animo tranquillo e
sereno um homem a quem D. João II, se o apanhasse, faria esquartejar,
pregando-lhe os quartos nas portas de qualquer cidade ou villa, e a cabeça
no pelourinho da praça publica.
Lembrava-lhe que o odio de D. João II costumava ser tão profundo e
sanguinario, que não respeitava nem as regalias de nascimento nem os laços
de parentesco.
Perguntava-lhe se não sabia que o duque de Bragança fôra decepado no
cadafalso da praça de Evora; que em Abrantes cevára D. João II a sua
vingança na estatua do marquez de Montemór já que, por se ter refugiado em
Castella, não podéra ceval-a no seu corpo; que o duque de Vizeu, cunhado do
rei, fôra por elle proprio assassinado em Setubal. Agradecia á Providencia
o ter-se encarnado na pessoa de João de Pegas para o salvar; senão,
haver-lhe-ia acontecido o que acontecêra a D. Pedro de Athayde, que fugindo
de Setubal para Santarem fôra preso no caminho, publicamente degolado e
feito em quartos.
Os fidalgos castelhanos continuamente estavam avisando Fernão da Silveira
das repetidas instancias que D. João II fazia junto dos reis catholicos
para que lh'o entregassem. O conspirador teimava em não querer parecer
fraco, deixava-se ficar, sempre intimamente sobresaltado e desconfiado.
Mas em 1488, como D. João II enviasse a Castella uma embaixada a pedir para
o herdeiro da corôa a mão da filha primogenita dos reis catholicos, Fernão
da Silveira, receiando que pelo facto do casamento se estreitassem, como
era natural, as relações de amizade entre as duas côrtes, resolveu-se a
fugir para França acompanhado pela manceba e pelo filho.
Não devia, porém, considerar-se muito seguro em França um conspirador
representante da nobreza insurgida contra o poder absoluto dos reis.
Luiz XI, que tinha morrido poucos annos antes, em 1483, havia sido um
inimigo implacavel dos poderosos senhores do seu reino, que formaram contra
elle a celebre liga do _Bem publico_. Sabe o leitor que Luiz XI se fizera
rodear de gente de baixa estofa, que continuamente atiçava a colera do rei
contra a nobreza. Vivêra mano a mano com o seu barbeiro Olivier Le Daim, e
tratava por compadre o preboste Tristan, executor dos seus planos
sanguinarios.
Estava ainda muito viva a lembrança das crudelissimas represalias de Luiz
XI,—da vingança que tirára do seu ministro Jean Balue, que de simples
presbytero chegára a ser cardeal de Santa Suzana e que, suspeito de ter
atraiçoado o rei com o duque de Borgonha, fôra, no castello de Plessis,
encerrado n'uma gaiola de ferro, onde não podia conservar-se deitado nem de
pé; do supplicio horrivel de Jacques d'Armagnac, duque de Nemours, e de
seus filhos, na fortaleza de Loches; finalmente do drama tragico-burlesco
dos ultimos tempos da sua vida n'aquelle mesmo castello de Plessis, onde
Jean Balue padecêra, e onde Luiz XI, assaltado pelos terrores da morte,
fazia vigiar as avenidas pelo barbeiro Olivier e pelo compadre Tristan, que
se encarregavam de enforcar nas arvores do parque todo o individuo que
podesse inspirar-lhes desconfiança.
Luiz XI havia pois morrido em Plessis, onde passára os ultimos dias
passeiando ao longo d'uma vasta galeria, torturado pelo medo da justiça
eterna, sem que podessem tranquilizal-o o espectaculo dos combates de gatos
e ratos, as danças dos camponezes, as orações e as penitencias a que se
entregava, e sem que podesse avigoral-o o uso de beber o sangue das
creanças no intuito de fortalecer-se e remoçar.
Nem este tonico vivificante, nem o soccorro do eremita da Calabria, que
mandára buscar para consultal-o, e ao qual pedia a vida chorando, haviam
podido salvar da morte Luiz XI.
O herdeiro do throno, Carlos VIII, tinha treze annos quando foi proclamado
rei, e sua irmã, Anna de Beaujeu, investida na regencia, procurava
conservar intacto o poder real, dominando a nobreza.
Depois da batalha de Saint-Aubin, ferida em 1488, em que o duque de Orléans
cahira prisioneiro nas mãos da regente, que o conservou dois annos
encarcerado, diz-se que, principalmente, para vingar-se dos seus desdens
amorosos, Fernão da Silveira entendeu como mais prudente abandonar uma
côrte, onde a nobreza continuava a ser esmagada pelo poder real, e foi
estabelecer o seu _faux ménage_ em Avinhão, a cidade sagrada, que um legado
do papa governava.
Em Avinhão, Fernão da Silveira tinha horas de cerrada melancolia, quando
ermava contemplativo junto ao tumulo da Laura de Petrarcha, e aproximava o
seu destino do destino do poeta italiano, ambos infelizes, posto que por
differente motivo.
Petrarcha apaixonára-se aos vinte annos pela bella Laura, que nunca foi
sua, pois que desposára Hugues de Sade, a quem, victima da peste de 1348,
deixára viuvo com a descendencia bem pouco lyrica de onze filhos.
Fernão da Silveira, menos infeliz pelo que respeitava ao feminino, tinha
comsigo, em mancebia adulterina, a sua Laura, a qual procurava suavisar-lhe
as horas amargas da vida, que eram todas ou quasi todas.
Mas como poeta e exilado, comprehendia a solidão dolorosa de Petrarcha em
Valchiusa, á beira de cuja fonte o portuguez ia muitas vezes sentar-se
juntando idealmente as suas angustias ás do poeta que, tendo alli cantado
um seculo antes, vivêra solitario como elle e como elle perseguido pela
fatalidade do destino.
Entrado o anno de 1489, o espirito de Fernão da Silveira principiou a ser
assaltado por sombrios presentimentos, que elle baldadamente procurava
reprimir.
Tinha frequentes accessos de colera, que o sorriso de seu filho, creança de
pouco mais de oito annos, não lograva serenar.
Imprecava violentamente D. João II, que continuava a denominar o tyranno de
Portugal.
Dizia muitas vezes a Izabel Rodrigues que a justiça do céo havia de cahir
tarde ou cedo sobre o tyranno, e feril-o na mais sensivel fibra do coração,
se aquelle coração tinha alguma coisa de humano. Parecia que Fernão da
Silveira adivinhava n'esse momento a catastrophe que, tempo depois, havia
de victimar em Santarem o joven principe D. Affonso, herdeiro da corôa.
Recommendava-lhe que, no caso d'elle morrer assassinado por ordem de D.
João II, como presentia, educasse seu filho no odio ao tyranno e no amor da
liberdade.
Mostrava alimentar a esperança de que a sua morte e a dos outros
conspiradores seria vingada pelo veneno ou pelo punhal na pessoa do rei.
Ainda n'isto se não enganou Fernão da Silveira, porque os intestinos de D.
João II parece terem cedido lentamente á acção toxica das drogas preparadas
por mestre João de Masagão de accôrdo com o duque de Beja.
O inverno de 1489 havia sido cruel em toda a Europa. Estava-se em dezembro,
os dias eram plumbeos, as noites tempestuosas.
Fernão da Silveira dizia muitas vezes a Izabel Rodrigues:
—A cada silvo do vendaval sinto-me estremecer interiormente, como um predio
que vai desabar... É o presagio da morte, Izabel. Morro longe da patria,
longe da familia que eu constitui em tempos de felicidade. Morro ao pé de
um filho, e tenho saudades de outro. O coração é assim feito. Foi o tyranno
que me casou, porque na côrte dos reis poderosos nem o coração é livre.
Nunca tive nem podia ter por minha mulher a febre de amor com que tu me
incendiaste os sentidos. É a ti que eu amo, boa alma, que tanto te tens
doído das minhas dôres. Vivo comtigo com o mesmo direito com que o tyranno
abandonava a rainha para se ir emboscar em Cernache do Bom Jardim com D.
Anna de Mendonça, a mãe do bastardo. Se alguem n'este ponto podesse
tomar-me contas, não era por certo o tyranno, tão fragil com mulheres. Mas
da esposa que não amei nunca, tenho um filho que sempre tenho amado, e
peza-me que elle haja de arrastar na sociedade a infamia com que o tyranno
enlameou protervamente o meu nome. Outro filho tenho... é o teu, é o nosso,
Izabel, e d'esse me peza duplamente, porque só póde ser meu filho para
compartir da deshonra do pai com o irmão.
Izabel Rodrigues acudia com palavras carinhosas a desviar-lhe o espirito
para menos lastimosos pensamentos, mas o conspirador quedava-se triste,
calado, dando a perceber que continuava mentalmente os raciocinios que a
manceba meigamente pretendêra interromper.
No dia 8 de dezembro, Fernão da Silveira lembrára-se saudosamente de
Portugal, recordando com grande nitidez de memoria muitos episodios da sua
vida da côrte. Izabel Rodrigues tentou distrahil-o; e como no céo,
anteriormente caliginoso, se fossem rasgando clareiras azues, lembrou-lhe
que sahisse a passeio.
Dos labios do conspirador escaparam em resposta estas palavras presagas:
—Sahir! Procurar a morte!
Mas como se de subito se envergonhasse da sua fraqueza, disse a Izabel
Rodrigues que sahiria.
Lembrou ella que levasse comsigo o filho, que bem podia attrahir-lhe a
attenção para as suas graças infantis.
Fernão da Silveira sahiu, e levou o filho.
Foram, caminho fóra, conversando os dois.
Obedecendo á teimosia dos seus pensamentos, Fernão da Silveira ia fallando
de Portugal ao filho, gravando na sua memoria, a traços de fogo, o retrato
odiento do tyranno.
Á volta de uma rua, encontraram-se a pequena distancia com um fidalgo
catalão, cujo nome e situação Fernão da Silveira muito bem conhecia. Era,
como elle, um conspirador, que andava foragido de Castella: o conde de
Palhaes.
O catalão, em vez de se dispôr a saudar Fernão da Silveira, levou a mão
direita ao peito, insinuando-a no gibão. E, ao passar junto de Fernão da
Silveira, cravou-lhe rapidamente um punhal no coração.
Não teve o portuguez tempo para resistir; cahiu desamparado na rua.
Mas o pequeno Alvaro, vendo o pai morto, desatou em gritos dilacerantes,
que despertaram as attenções, e chamaram gente.
O conde de Palhaes foi logo preso, conduzido ao carcere em nome do rei de
França, que não era já Luiz XI, como sabemos, porque Luiz XI havia morrido
seis annos antes.
A opinião publica alvorotára-se com este acontecimento, pela significação
que realmente tinha. O braço do conde de Palhaes fôra manifestamente armado
por D. João II, que ao catalão fizera _mercê de muita somma de ouro, em que
se primeiro concertou_, como escreve Garcia de Rezende. Não podéra o rei de
Portugal ser feliz nas negociações que para haver á mão Fernão da Silveira
entabolára com os reis catholicos e com o rei de França. Ter-lhe-ia sido
por certo bem mais agradavel que essas negociações houvessem surtido
effeito, porque lhe permittiriam vingar-se do escrivão da puridade pelo seu
proprio braço, como fizera ao duque de Vizeu, ou pelo braço do algoz, como
fizera ao duque de Bragança. Mas, posto falhassem os meios a que primeiro
recorrêra, não desistíra da vingança. Empregou outros, o da corrupção pelo
ouro, sob promessa talvez de que, além do ouro, a sua protecção salvaria o
sicario.
N'este ponto enganou-se D. João II.
Morto Fernão da Silveira pelo conde de Palhaes, o rei de Portugal quiz
effectivamente valer-lhe, como decerto havia promettido. Mas o mais que
pôde conseguir foi que a regente, em nome do rei de França, lhe commutasse
a pena de morte em prisão perpetua.
É natural que o catalão désse ao diabo a empreza, vistos os resultados. O
ouro que recebêra não podéra ganhar-lhe a liberdade; e D. João II apenas
lográra salvar-lhe a vida.
Alvaro Rodrigues, o bastardo de Fernão da Silveira, fôra conduzido a casa
por pessoas compassivas que o acompanharam. Levava o fato salpicado de
sangue do pai, e impressos para todo o sempre na memoria os pormenores do
seu tragico assassinato.
A mãe abraçou-se chorando ao filho, e rompeu em apostrophes violentas
contra o tyranno que assalariára o sicario para que elle, á luz do dia,
perpetrasse um homicidio dentro da cidade dos papas.
Na memoria infantil do pequeno Alvaro condensaram-se, em torno da
recordação do cadaver do pai, todos estes lugubres accessorios, que as
lagrimas e os clamores da mãe a cada momento renovavam.
Quando a noticia chegou a Portugal, outra mãe, D. Brites de Sousa,
esquecendo na sua dôr as infidelidades do marido, recordou a João da
Silveira, seu filho, a historia lacrimosa do pai. Era então menino de
poucos annos João da Silveira, mas a recordação do pai, sempre avivada pela
narrativa da viuva, fez-lhe grave e triste o caracter. Demais a mais, João
da Silveira herdára o talento poetico do pai. Foi, mais tarde, um dos
glosadores dos serões da côrte, e um dos poetas do CANCIONEIRO de Garcia de
Rezende.
Educou-o a expensas suas D. Diogo Lobo, seu tio, e tambem poeta.
D. Manoel, subindo ao throno, tratou de rehabilitar os conspiradores. A
Fernão da Silveira rehabilitou-o na pessoa do filho legitimo, que começou a
sua carreira publica por ir servir em Çafim. João da Silveira chegou a ser
commendador de Montalvão, governador de Ceylão, trinchante de D. João III,
e seu embaixador em França. Morreu em Evora, e foi sepultado na capella do
Espinheiro.
Os dois filhos de Fernão da Silveira nunca se deram. A bastardia de um
explica naturalmente o facto. Izabel Rodrigues, recolhendo a Portugal, não
recorreu á protecção de D. Brites de Sousa, nem D. Brites de Sousa lh'a
offereceu.
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