podia escapar ás leis da humanidade e ás vicissitudes dos grandes
imperios. A seiva da arvore social exhauria-se no bracejar immoderado, e
nessa lucta temeraria contra nações poderosas e soberanos traiçoeiros,
contra linguas, costumes, interesses, religiões e preconceitos
diversissimos, o que admira, attenta a nossa pequenez e a extensão
illimitada das conquistas, é que a estrella das nossas victorias não
declinasse mais depressa do zenith para o occaso. Não foi, todavia, sem
gloria essa mesma decadencia, porque os poucos portuguezes, que
dispersos pelo mundo defendiam as colonias, animosos na desgraça como na
fortuna, só as cederam depois de porfiada lucta, e diante de adversarios
contra os quaes não vale audacia nem esforço; acabando de se gastar mais
por fomes de assedios que por armas de peleja, e buscando honroso tumulo
nos rotos pannos de muros das desmanteladas fortalezas.
Mas não é da prolongada agonia do imperio portuguez na Asia e na Africa,
que por ora temos de tratar; chamam-nos factos e successos realisados
n'uma épocha em que ainda a nação se julgava cheia de vitalidade e
vigor, posto que os primeiros symptomas de decrepidez já fatalmente
se tivessem apresentado na perda de Cabo Aguer, e sobretudo no desamparo
de Safim, Azamor, Arzilla e Alcacer em tempo de D. João III.
Sabendo o scherif Muley-Abdalá, rei de Marrocos, de Fez, de Terudante,
de Suz, e de muitos reinos e provincias d'Africa, que a fortaleza de
Mazagão estava mal provida de artilheria e munições de guerra, e
guardada apenas por poucos arcabuseiros, determinou conquistal-a. Era
nesse tempo Mazagão um ponto verdadeiramente importante. Situada nas
praias do Atlantico, o mar banhava-lhe os muros, deixando-lhe nos fossos
sufficiente altura de agua, e tornando-lhe facil receber da metropole
soldados, viveres e toda a especie de soccorros. Podia, pois,
considerar-se excellente base de operações, e o padrasto mais de
receiar para a visinha cidade de Marrocos.
Com estas circumstancias as tentativas dos sarracenos para se apoderarem
da fortaleza, tentativas frequentemente repetidas e sempre mallogradas,
eram faceis de explicar. Desta feita, porém, parecia certa a victoria, e
por isso o scherif encarregou a seu filho Muley-Hamet, moço brioso e
valente, o mando de numerosas tropas, que um historiador italiano desse
tempo avalia em duzentos mil homens, mas que, conforme calculam
escriptores tambem coevos, a poucos mais poderiam subir de cento e
cincoenta mil. Fosse como fosse, era espantoso o numero em comparação
com o dos portuguezes, e havia sobretudo entre essa gente, em parte
collecticia e desordenada, muitos cavalleiros e infantes habituados
á guerra e á disciplina, e habeis capitães encanecidos nos cargos da
milicia e no tumulto dos combates.
Acampado o exercito a curta distancia de Mazagão, começaram os trabalhos
do cerco, e com tal actividade e enthusiasmo, que em poucos dias se
elevou defronte da fortaleza uma grossa trincheira, onde os mouros
assentaram as baterias com grave damno dos cercados. Estes por seu lado
não estavam ociosos, e Rui de Sousa de Carvalho, capitão mór na ausencia
de seu irmão Alvaro de Carvalho, accudia com diligencia a remediar o que
faltava na fortificação, mandando ao mesmo tempo jogar a artilheria
contra os trabalhadores do campo, e determinando por vezes sortidas e
escaramuças, em que o impeto dos portuguezes, repentino e devastador,
conseguia sempre assombrar a turba dos inimigos.
Soou depressa no reino a noticia do cerco, e desde logo muitos
cavalleiros e soldados quizeram participar dos riscos da empreza. Posto
que os habitos de luxo e as riquezas adquiridas na Asia tivessem de
certo modo amortecido as virtudes politicas dos nossos maiores, não
estava o caracter portuguez ainda gasto, como moeda velha, cuja marca o
roçar de muitos annos houvesse já extincto; e o ardor de patriotismo,
que então se revelou, recorda os actos mais heroicos da nossa edade
média. Moços illustres, a quem os brios sobrepujavam os annos,
embarcavam-se furtivamente; fidalgos velhos, exaltados por bizarria
sublime, emprehendiam a jornada de que aliás estavam isentos pela edade
e longos serviços; muitos imploravam como mercê e recompensa
affrontarem os combates e a morte; outros, reputando em pouco o
sacrificio da vida, levavam ainda á sua custa navios cheios de
soldadesca e munições. Havia como que uma embriaguez de enthusiasmo, o
esforço convertêra-se em delirio, e o espirito religioso associado á
cubiça de renome abrazava com tal intensidade os animos, que foi preciso
que a rainha D. Catherina, regente na menoridade de seu neto D.
Sebastião, prohibisse com penas severas novos embarques, e desse
terminantes ordens para que não partissem mais navios.
Entretanto os mouros preparavam-se para o assalto, disparando a
artilheria contra a fortalesa, e procurando ao mesmo tempo cegar o fosso
com faxina; e supposto que os tiros, os arremeços e as materias
escandecentes, que sem tregoa choviam das ameias, ferissem e
inutilisassem muitos dos que se empregavam n'aquelle trabalho, venceu,
afinal, a constancia dos sarracenos, que conseguiram não só entulhar a
cava, senão levantar proximo á muralha um grande terrapleno, que
emparelhou com a maior altura do baluarte, a ponto que assaltantes e
defensores pelejavam corpo a corpo, braço contra braço, á espada e lança
varada, como em desafio ou batalha campal. Nem assim, porém, poderam os
mouros entrar na fortaleza. Alvaro de Carvalho, que fôra dos primeiros
que chegára do reino, combatia á frente dos seus soldados, onde mais
acceso ia o fervor da batalha, sem todavia esquecer o officio de
capitão; e o nobre exemplo e a emulação de esforço tornavam invenciveis
os portuguezes.
Frustradas as tentativas de assalto, começaram os cercadores a
minar o principal baluarte; presentido o perigo pelos de dentro,
procedeu-se logo á contramina; e desta maneira as duas estradas
subterraneas desembocaram uma na outra, e os sitiadores topando ahi com
os sitiados travaram renhida lucta, em que por algum tempo se ouviu
sómente o tinir das espadas e alfanges, o bater das alavancas e alviões,
e rapidos gemidos de agonia abafados pelo praguejar dos que pelejavam.
Quem quer que, todavia, olhasse para os dous grupos, poderia facilmente
prever a qual delles pertenceria a victoria. De um lado os mussulmanos,
transbordando de colera por verem descoberto o ardil de que se tinham
valido, mais cuidavam de ferir que de guardar-se; do outro os christãos,
aproveitando a estreiteza das galerias, que de algum modo
neutralisava a desproporção de forças, combatiam com a serenidade e
confiança de quem evita o perigo sem o temer. Era a lucta do furor e da
intelligencia; indubitavel, pois, o desfecho. Não conseguindo quebrar
aquella muralha de homens, ligados pela cadeia fortissima da disciplina
e do renome, os sarracenos recuaram desesperados; e os portuguezes,
ficando senhores da obra, utilisaram-n'a desde então em damno dos
cercadores.
Seria longo descrever todas as scenas desta defensão heroica, lances e
episodios pasmosos, que a muitos parecerão hoje fabulas sonhadas. Baste
saber-se que durante quasi dous mezes os defensores da fortaleza,
combatendo peito a peito nos adarves, sustentaram o apertado cerco, e
detiveram no repetido acommettimento os innumeraveis assaltantes. Estes,
quebrados os animos pelas difficuldades imprevistas, fallavam já de
levantar o sitio, mas Muley-Hamet, que na sua soberba tinha crido facil
o triumpho, quiz proseguir na empreza, e no dia 1 de maio deram os
mouros ultimo assalto.
Durou elle largas horas, mais ardido e sanguinolento, mais bravo, mais
atroz, mais pavoroso do que nenhum outro tinha sido. Ao principio diante
dos sitiados, firmes e immoveis como rochedos, cahiram e despedaçaram-se
os esforços successivos dos esquadrões da mourisma; depois as duas
hostes, revolvendo-se, enlaçando-se, confundindo-se como as ondas em
sorvedouro profundo, formaram quasi um grupo unico, ennovelado,
convulso, monstruoso; emfim, já o sol se inclinava para o occaso, e
ainda a victoria estava indecisa. Assaltantes e defensores, julgando-se
instrumentos de missão divina, tinham um só pensamento, uma
esperança, uma vontade, um intuito, o da gloria da sua crença se
triumphassem, o da palma do martyrio se morressem.
A noite veiu pôr termo ao combate e juntamente ao cerco. Baldadas todas
as tentativas para submetter a fortaleza, o desalento apoderou-se dos
sarracenos, e Muley-Hamet, sem tentar mais fortuna nem feito de
importancia, levantou o campo d'ahi a poucos dias.
Desde então até que o poderoso ministro de el-rei D. José a cedeu por
tractado aos marroquinos, foi sempre Mazagão o ponto a que se dirigiram
as correrias, os acommettimentos, os asfaltos da flor das tropas
muslemicas; mas o nome dos defensores que luctaram como heroes, e em
frente de cuja firmeza expirou constantemente a furia dos adversarios,
jazem ignorados ou esquecidos, porque a guerra que durante tres
seculos sustentámos em Africa, theatro onde até mais tarde se patenteou
nobre e desinteressado o esforço portuguez, não teve Barros nem Coutos
que a escrevessem.
XIII
Desastre de Alcacer-quibir.--Reinado do cardeal D. Henrique.
1578 a 1580
As recordações da patria são como as memorias de familia; tem o quer que
é saudoso e sancto, que occupa suavemente as largas horas da solidão,
que attenua muitas dores do espirito, que povoa a alma de mais entes
para amarmos, e que engrandece e vigora o sentimento de nacionalidade,
suscitando, com as virtudes e façanhas dos nossos antepassados, o altivo
e nobre desejo de imital-os. Ás vezes, porém, esse fallar de avós
comprime-nos de amargura o coração, quando nos commemora certas epochas,
em que a patria, ludibriada e abatida, viu desfazerem-se uma apoz outra
todas as suas grandezas; epochas tanto mais desastrosas, quanto a
degeneração e ruina, que assignalam, contrasta com o poder e fortaleza
de outros tempos. A historia portugueza, aliás tão formosa e invejada,
não está isenta dessas paginas de luto, e uma dellas, e por certo a mais
triste, é a que lembra os reinados immediatamente anteriores á dominação
castelhana, espaço de poucos annos que bastou ás glorias de Portugal
para descerem do apogeo ao occaso.
O reinado de D. Sebastião é notavel por um facto unico, a derrota de
Alcacer. O projecto de submetter as terras da Berberia, berço das
nossas conquistas de alem-mar, não era tão louco como a desgraça o
apresentou, e devia encontrar favor na vontade popular, porque assentava
nas tradições e rancores de uma guerra de seculos, e na conveniencia
incontestavel de se alargar o territorio portuguez pelas fronteiras
costas africanas. A nação, comtudo, sentia-se cançada e pobre para a
ousada tentativa, e ainda que assim não fosse, invalidavam-lhe as
probabilidades de victoria, por um lado a cega vaidade do monarcha, por
outro a tenebrosa politica de D. Philippe II, cuja desregrada cubiça
contava por alliadas uma astucia e actividade inexcediveis.
Em tal estado de cousas, esmorecidas as grandes virtudes guerreiras da
edade média, julgou-se necessario que o monarcha, antes de se aventurar
longe da patria á sorte das batalhas, aguardasse que a febre da
discordia consumisse politica e moralmente as forças dos sarracenos; mas
até nisso foram mal logrados todos os bons planos de fortuna, porque o
imperio de Marrocos, apesar das luctas intestinas, e das perturbações e
males causados pelas oppostas parcialidades, não decahira a tal ponto,
que não podesse resistir com vantagem a uma invasão estrangeira.
Muley-Moluk, homem de extraordinarios talentos militares e politicos, e
de um denodo a que a escola do infortunio associára a prudencia, tinha
derrubado do throno seu sobrinho Muley-Hamet, que, frustradas todas as
tentativas para recuperar o poder, implorára por fim o soccorro dos
portuguezes. Essa alliança, porém, convertêra uma contenda domestica
n'uma lucta de religião e de liberdade, guerra sancta que dava aos
soldados africanos a força que resulta sempre do fanatismo
religioso e do amor da independencia, natural em todos os povos; e
Muley-Moluk fizera-se depressa estimado da maior parte dos mussulmanos,
não tanto pela firmeza com que restabelecêra a ordem e administração do
estado, como pela repugnancia que, conforme é facil de suppôr, excitára
nas multidões a liga do rei desthronisado e dos seus parciaes com um
povo inconciliavelmente inimigo por antagonismo de crenças e de raças.
Eram 4 de agosto de 1578 quando o moço rei portuguez, despresando o voto
cauteloso dos principaes capitães, determinou romper a peleja contra o
poderoso exercito dos mouros. Ao principio conseguiram os nossos
manifesta superioridade. A cavallaria que acompanhava o rei, intrépida
posto que pouco numerosa, e o terço de aventureiros romperam e
desbarataram, logo do primeiro impeto, a vanguarda dos adversarios, que,
incapazes de sustentar o violento embate e de resistir frente a frente,
se dispersaram, fugindo, pela extensão da planicie; Muley-Moluk,
buscando com heroico esforço reanimar os seus, cahira moribundo nos
braços dos alcaides; e os clamores de alegria com que os christãos se
arremessavam á refrega, como se o dar e receber a morte fosse o prazer
de um torneio, diffundiam o temor no centro dos infieis, que mal
obstariam á furia da torrente, se o grosso das nossas tropas,
aproveitando o ensejo, se empenhasse com egual denodo n'aquelle repto
tremendo. Mas em vez d'isso uma voz de desalento, produzindo nos
cavalleiros e peões um daquelles terrores panicos, de que não faltam
exemplos nem até entre os soldados que uma severa disciplina
prepára para a victoria, mudou n'um instante o aspecto da batalha. Os
arabes, conhecendo a desordem no arrayal contrario, e cobrando novos
brios com o auxilio das forças de reserva, voltaram a disputar o
terreno, que quasi haviam cedido sem combate, e em breve o sangue
europeu regou abundantemente os aridos campos de Alcacer.
Então, quando as fileiras dos velhos soldados de Castella, da Italia e
da Alemanha já debalde tentavam ordenar-se, e era grande a confusão e o
susto nos terços dos portuguezes, precipitaram-se contra o nosso
exercito as ondas dos cavalleiros mahometanos, e apoz elles a turba dos
alarves, que do alto dos visinhos montes observavam o resultado da
peleja, para baixarem, como aves carniceiras, sobre os restos dos
vencidos. Desde esse momento os signaes de derrota tornaram-se
dolorosamente certos para os nossos, que, todavia, ainda combateram só
com o fito na desesperada empreza de soccorrerem o soberano,
facilitado-lhe os meios de retirar-se a salvo.
D. Sebastião, porém, nascera com animo altivo e coração generoso. Os
mimos com que fôra tratado desde o berço; a educação acanhada que
recebêra na adolescencia; as maximas de castidade que o privaram dos
affectos puros e sanctos de familia, affectos que suavisam os caracteres
mais duros; as suggestões dos validos, que, despertando-lhe pensamentos
ambiciosos, lhe devoravam o socego, a reflexão e a mocidade; e
finalmente, como é certo, as intrigas e mesquinhos enredos da côrte
haviam excitado as más paixões, que fermentaram terrivelmente no seu
coração de mancebo, mas não tinham de todo prevertido os nobres
sentimentos da sua alma. Vendo a batalha perdida, não quiz sobreviver
aos seus, e, arrojando-se como leão onde quer que o combate era mais
acceso, recusou sempre com altivez o entregar-se ou fugir. Afinal cahiu
ou desappareceu no meio da multidão, e com a sua falta expirou o vigor
nos peitos mais esforçados. O resto foi uma larga carnificina com que os
mouros, senhores do campo, saudaram o triumpho, humilhando a intrepidez
e constancia dos cavalleiros e homens de armas portuguezes.
Chegada a Lisboa a noticia do tragico desfecho da jornada de Africa, e
duvidosos os animos sobre o destino do monarcha, foi entregue o governo
do reino ao cardeal D. Henrique, velho insensato e timido, tão sequioso
como incapaz do poder; e Portugal despenhou-se então sem amparo na
mais afflictiva phase da sua longa existencia. As virtudes militares e
politicas de nossos maiores, e sobretudo as antigas leis do paiz, em
completa harmonia com as suas necessidades e indole, haviam-nos até esse
tempo conservado livres do jugo de Castella, cuja tenaz ambição nunca
deixára de olhar para esta pequena faixa de terra como para uma
provincia rebellada; mas o estabelecimento do regimen absoluto sobre as
ruinas da monarchia liberal da edade média; o espirito de intolerancia,
que, perseguindo e expulsando os judeus, privou todos os dominios
portuguezes do trabalho, do conselho e dos capitaes de uma raça
intelligente e activa; a sede do ouro, que fez desestimar a agricultura
e industria do solo natal pelo engôdo das faceis riquezas que se
adquiriam na India e no Brasil; os desacertos economicos e
administrativos do governo da metropole, e dos seus delegados na Asia,
na Africa e na America; e por fim a ultima catastrophe nos campos de
Alcacer-quibir tinham produzido a irremediavel e extrema decadencia, que
nos obrigou a curvar o collo ao despotismo estranho.
Durante o curto reinado do cardeal D. Henrique, os animos estiveram
sempre alvoroçados com os receios, cada vez maiores, ácerca da
successão. O prior do Crato, o duque de Bragança e D. Philippe II eram
os pretensores que contavam maior numero de probabilidades, mas nenhum
dos dous portuguezes possuia as forças necessarias para tomar sobre os
hombros a empreza de D. João I, em quanto que o rei de Hespanha, dotado
de caracter energico e de uma perfidia sem limites, tinha todo o
poderio de vastissimos dominios para combater e debellar as resistencias
que encontrasse. Essas não foram longas nem obstinadas.
O velho cardeal rei, pouco favoravel no principio a D. Philippe II, em
breve mudou de resolução, compellido não menos por apprehensões
pusillanimes, do que pela cubiça e pelo odio, que foram as paixões
permanentes dos largos annos da sua vida. A principal aristocracia,
antepondo os calculos interesseiros ao nome illustre de seus avós e á
propria dignidade, não duvidou pactuar com os procuradores de Castella,
que, á força de ouro e promessas, arrastaram a nacionalidade portugueza
ao mercado das traições infames, dos enredos miseraveis, das torpes
vinganças, das abjecções ignavas. O povo, irreflectido e variavel
como o mar, que ora freme colerico e se despedaça em vagalhões gigantes,
ora se espreguiça brincando com os flocos de espuma que lhe saltam no
dorso; o povo, dilacerado pela fome, pela peste e pelos desastres da
guerra, não podia senão murmurar, porque os seus soldados, os seus
capitães, os seus jurisconsultos, os seus magistrados, os seus bispos,
os seus principes, tudo quanto no reino havia de nobre e rico por
illustração e por linhagem, ou tinha já desertado para o partido
estrangeiro, ou se conservava indeciso não obstante os riscos da patria.
Finalmente a persuasão commum de que a paz, individual e domestica, só
poderia conseguir-se com o sacrificio completo da independencia politica
tirava ás almas mais robustas aquella tenacidade fria, aquella firmeza
de vontade, que não mede os obstaculos e para a qual não ha
impossiveis.
Debalde nas côrtes, que se reuniram primeiro em Lisboa e depois em
Almeirim, côrtes que já eram apenas pallido reflexo de representação
nacional, alguns homens intrepidos e probos protestaram eloquentemente
contra a imbecilidade e corrupção dos poderes publicos; debalde a voz
auctorisada de Phebo Moniz, alto exemplo de virtudes publicas no meio da
prostituição geral, instou com os procuradores dos povos e com o
moribundo monarcha para que não se entregasse o reino ao dominio
estrangeiro, e se respondesse com energia ás ameaças de D. Philippe II;
debalde, emfim, a plebe, que é a ultima onde se desvanece o aferro á
terra da patria, dava visiveis signaes de supportar de máo grado a ruina
que lhe preparavam; a força moral da nação tinha desapparecido, e a
força material, que aliás é sempre illusoria quando falta a unidade do
pensamento e o ardor do enthusiasmo, havia-se dissipado, a pouco e
pouco, na extensão desmedida das conquistas, até acabar de todo nas
planicies d'Africa.
Assim, apenas fallecido D. Henrique (31 de janeiro de 1580), os
governadores do reino, nomeados anteriormente, dissolveram as côrtes,
receiando que podessem ser o centro onde se alimentasse energica
resistencia aos interesses de Castella; e a acceitação do filho de
Carlos V para rei de Portugal foi definitivamente resolvida. Pouco
depois um exercito de vinte mil homens, capitaneados pelo duque de Alva,
o sinistro _pacificador_ dos Paizes Baixos, entrava no Alemtejo para
lavrar com a espada o epitaphio das liberdades portuguezas; e o
monarcha odioso, denominado o demonio do Meio-Dia n'uma epocha em que os
progressos da civilisação ainda não tinham diffundido a brandura do
tracto entre os homens, conseguiu tomar posse do seu novo reino, tendo
só que vencer a fraca opposição de uma parte do povo, e desses raros
cavalleiros que, no meio de gente gasta e prevertida, conservaram sempre
os nobres sentimentos de integridade e patriotismo.
NOTAS
Pag. 9
«Fundação da monarchia»
Neste quadro e em parte do seguinte tentámos resumir em breves paginas o
que está admiravelmente exposto nos tomos 1.º e 2.º da Historia de
Portugal, do sr. A. Herculano. Sem este facho brilhantissimo ser-nos-hia
decerto impossivel sahir da confusão e obscuridade, em que se involvem
os primeiros tempos da monarchia.
Pag. 21
«Penetrando até o coração do Al-Gharb»
Em quatro grandes divisões, conforme a geographia arabe, se repartia a
Peninsula: Al-Djuf, o norte; Al-Kiblah, o meio dia; Al-Sharkiah, o
oriente; Al-Gharb, o occidente. Com este nome, por isso, se designava
n'aquelle tempo a vasta extensão de territorio, que comprehende hoje as
provincias do Alemtejo a Algarve, e que, juntamente com uma porção da
Extremadura hespanhola e acaso da Andaluzia, formava os estados dos
emires de Badajoz.
Pag. 30
«Nos herdamentos, nas maladias, nos páramos»
A palavra herdamento significou até o seculo XV o mesmo que herdade,
quinta, casal ou qualquer predio rustico, arrendado ou não arrendado, e
quer incluido dentro de muros ou marcos, quer composto de courellas
separadas.
A denominação de maladia, muito frequente nos documentos dos seculos XI,
XII e XIII, indicava o tributo a que eram obrigados os individuos, que,
incapazes por qualquer motivo de se defenderem e a seus bens, alcançavam
protecção de algum homem poderoso, do qual por esse facto como que se
constituiam servos. Chamavam-se tambem maladias as habitações e
terras, em que os serviços, foros ou pensões se pagavam.
O termo páramos equivalia ao de honras e coutos, e designava qualquer
porção de territorio, demarcado pela auctoridade do monarcha, e livre de
imposições ou alcavalas.
Pag. 34
«Dirigiu-se a Lyão»
Nessa épocha a cidade de Lyão, hoje uma das mais ricas e industriaes da
Europa, pertencia nominalmente ao imperio romano-germanico, mas era na
realidade tão independente do imperador da Alemanha como do rei de
França, e só de algum modo estava sujeita ao proprio arcebispo.
Pag. 45
«Aly-Abul-Hassan»
Os nossos chronistas, geralmente pouco escrupulosos em questões
de investigação e de critica, chamam-lhe Ali-Boacem. A inscripção
commemorativa que se encontra na cathedral de Evora, confundindo
o nome de familia com o do individuo, designa-o por Abenamarim.
Conde, na historia do dominio dos arabes, chama-lhe
Aly-Abul-Hassan-ben-Otman-ben-Jacub-ben-Abdelhac de-Beni-Merin.
Já que fallámos na inscripção que está na sé de Evora, junto á
capella da invocação da Cruz, transcrevel-a-hemos na integra, alterando
unicamente a extravagante orthographia do original, porque não podemos
comprehender que sirva conserval-a na publicação de antigos inéditos,
senão para difficultar a leitura destes.