na côrte de D. Affonso V, habituados a illimitado poder dentro dos seus
coutos e honras, unidos, em fim, pela communidade de interesses e de
perigos, de boa e de má fortuna, offenderam-se de que o rei ousasse
tomar-lhes contas das violencias de um valimento, ao qual a impunidade
de largos annos quasi dera fundamento legitimo. D. Fernando, duque de
Bragança e de Guimarães, marquez de Villa Viçosa, conde de Ourem, de
Barcellos, de Arrayolos, de Neiva e de Penafiel, senhor de trinta
villas, e por nobreza e possessões o principe mais illustre das
Hespanhas, foi escolhido como chefe dos descontentes, e isto bastou para
o seu tragico fim. As expressões arrogantes dos fidalgos contra a quebra
dos seus fóros, os alvitres suggeridos a alguns procuradores do povo, as
vãs ameaças, os secretos conluios, e até os actos inoffensivos e
indifferentes, tudo foi traduzido, decifrado, envenenado e exposto com
as côres necessarias para que D. João II podesse, de um só lance,
satisfazer os aggravos de rei e as vinganças de homem. Prevenido a tempo
dos riscos que o cercavam, o duque de Bragança não soube ou não quiz
evital-os; e em vez de se refugiar em Castella, asylo fiel contra a
cólera do monarcha, dirigiu-se á côrte, que então estanciava em Evora, e
ahi foi recebido com taes demonstrações de contentamento e affecto, que
chegou a julgar-se tão seguro ao lado do seu implacavel inimigo,
como no palacio de Villa Viçosa no gremio dos seus parciaes.
Não tardou, todavia, que a confiança se lhe convertesse em
arrependimento, e que ao bater a hora da desgraça, conhecesse por
dolorosa experiencia que um coração como o do monarcha, abysmo
insondavel de perversidade e hypocrisia, podia disfarçar odios, mas não
sabia esquecel-os. Indo n'um dia, ao cahir da tarde, despedir-se de D.
João II para voltar ás suas terras, conduziu-o este a uma casa apartada,
onde, certo de que não vibraria já em vão o golpe, lhe disse que
convinha ficasse preso até se averiguarem as suspeitas do crime de
rebellião que lhe imputavam. Vendo o perigo que corria o duque, muitos
fidalgos offereceram dar a el-rei suas alcaidarias em refens pelo
nobre vassallo; e porque, ao tempo em que essas propostas foram feitas,
ainda D. João II receiava as consequencias do terrivel lance que
tentára, quasi conveiu em acceital-as. Apenas soube, porém, que as
comarcas, villas e fortalezas que mandára cobrar tinham sido entregues,
e que de Castella não havia a temer clamores importunos, mandou logo que
o caso se visse e determinasse por justiça. Assim se exprimem os dous
panegyristas do principe perfeito, Ruy de Pina e Garcia de Resende,
pobres homens cujo espirito cortezão nem sempre soube esconder a
tenebrosa astucia e a suprema perversão moral do heroe dos seus fastos.
A justiça fez-se vingança, e a execução significou sómente um assassinio
judicial, fria e solemnemente resolvido. Accusado por testemunhas
vis e por inimigos inexoraveis, julgado tumultuariamente por juizes
não seus pares, aos quaes a presença do rei coagia além d'isso o voto, o
amigo e conselheiro de D. Affonso V foi condemnado sem o ouvirem, e
entregou a vida ao cutello do algoz, no meio dos brados e doestos de uma
multidão sem piedade nem pudor, que de toda a parte corrêra frenetica
para assistir ao cruento espectaculo. N'esse mesmo dia (20 de junho de
1483), e depois de ter ficado exposto o cadaver por espaço de uma hora,
os conegos da sé de Evora sepultaram no mosteiro de S. Domingos os
restos do homem, que fôra por muito tempo talvez o arbitro do reino.
Á conjuração, por ventura chimerica, succedeu outra verdadeira. O
desgosto dos grandes, durante algum tempo sopeado pelo temor ou pela
esperança, convertêra-se em odio profundo. Decididos a vingarem a
morte do duque de Bragança, e a restabelecerem os fóros e immunidades da
nobreza, accordaram que o meio mais adequado aos seus intentos era
assassinarem o monarcha. O duque de Vizeu, o bispo de Evora, seu irmão
D. Fernando de Menezes, Fernão da Silveira, D. Gutterres Coutinho, D.
Alvaro e D. Pedro de Athaide, o conde de Penamacor e Pedro de
Albuquerque eram os cabeças da insurreição; o bispo de Evora, porém, é
que, como a aranha no centro da têa, urdia e combinava os planos. D'ahi
lhes proveiu a ruina, porque o incauto prelado não soube prever a
traição, e foi justamente essa falta, que destruiu todos os seus
calculos. Fiado na apparente amisade de Diogo Tinoco, cuja irmã
seduzira, revellou tudo a esse homem, não se lembrando de que lhe
dava assim ensejo de vingar offensas, que não podia ter esquecido; e o
aviltado cavalleiro preveniu logo Antão de Faria, camareiro do rei e seu
privado, e, encontrando-se depois com o proprio D. João II no convento
de S. Francisco em Setubal, relatou-lhe circumstanciadamente os
projectos dos conspiradores.
Agradecendo a Tinoco com dadivas e promessas o serviço que prestára, o
rei recommendou-lhe inviolavel segredo, e continuou, como se tudo
ignorasse, abalançando-se indefenso no meio dos conjurados, oppondo
dissimulação a dissimulação, e enganando com fingido affecto aquelles de
quem mais se temia. Era a calmaria que antecede a procella. No seio das
trevas o filho de D. Affonso V ia aperfeiçoando os planos de vingança,
e por isso aguardava sem impaciencia o dia propicio em que podesse
colher no fôjo os seus mortaes inimigos.
Este finalmente chegou. Depois de terem por vezes tentado em vão
assassinar o rei, os fidalgos assentaram esperal-o em Setubal, ao
desembarcar vindo de Alcacer, e realisarem então o seu intento. D. João
II, porém, que lhe presentia os movimentos, fez o caminho da Landeira
por terra, bem acompanhado pelos ginetes de Fernão Martins, e pelos
besteiros e espingardeiros da guarda; e chegando a Setubal no dia 22 de
agosto de 1484, mandou logo na manhã seguinte chamar o duque de Vizeu,
que pousava em Palmella. Resolvêra, emfim, tirar a mascara, e a explosão
devia ser tanto mais terrivel, quanto fôra duradoura e profunda a
necessidade de conservar latente, debaixo de superficie de gelo, o
ardor de odio intenso e concentrado.
Entrando o duque no palacio ao anoitecer, chamou-o el-rei ao aposento
que lhe servia de guarda-roupa, e ahi, accusando-o de traição, o matou
ás punhaladas, na presença de alguns cavalleiros, que para assistirem a
esse acto tinham sido convocados. Na manhã seguinte via-se sobre um
estrado, no centro da egreja matriz da villa, o cadaver do duque de
Vizeu, com o rosto descoberto e dez feridas de punhal. D'ahi a poucos
dias o bispo de Evora, preso na camara da rainha, morria envenenado no
castello de Palmella; D. Fernando de Menezes, D. Pedro de Athaide e
Pedro de Albuquerque eram degollados na praça publica; e D. Gutterres
Coutinho expirava ás mãos do carrasco no fundo de um calabouço. Emfim,
passados cinco annos, Fernão da Silveira, a quem a nobre dedicação
de um amigo salvára do patibulo, cahia assassinado em França por mandado
do rei de Portugal.
A negrura de semelhante proceder é evidente; e se as cousas da terra
podessem despertar o profundo somno dos mortos, os cadaveres d'esses
homens deveriam muitas vezes apparecer á consciencia de D. João II,
tornando ainda mais penosas as desgraças, que lhe enlutaram o coração
durante os restantes annos do seu curto reinado.
VIII
Primeira viagem de Vasco da Gama á India
1497 a 1499
Julgam profundos historiadores que os descobrimentos além do cabo
Bojador, posto que encetassem para o reino uma grande epocha de gloria e
prosperidade, foram talvez a causa capital da rapida e angustiosa
decadencia a que chegámos nos fins do seculo XVI. Entretanto não seremos
nós que condemnaremos esse espirito aventuroso e intrepido, que levou os
nossos marinheiros e soldados a practicarem tantos feitos
assombrosos de ousadia, de abnegação, de patriotismo. Das victorias que
alcançaram já nem existem tropheus, das nações que se prostraram ao seu
esforço indomavel são outros hoje os senhores, do respeito e temor em
que os tinha o mundo apenas resta a lembrança, e todavia a maravilhosa
narração das façanhas d'aquellas eras, das homericas batalhas de poucos
homens contra exercitos, das expedições e conquistas que ergueram uma
nação pequena e pobre ao fastigio da soberania e da opulencia, ainda nos
alvoroça o coração de enthusiasmo e amor patrio, não obstante as
preoccupações prosaicas e calculadoras do seculo em que vivemos.
O descobrimento do caminho maritimo para a India é, sobretudo, um
d'aquelles factos extraordinarios, de que o espirito mais
penetrante mal póde medir a extensão. Não fallando já dos paizes e
regiões incognitas que acrescentámos á communhão europea, do
aperfeiçoamento da navegação e do commercio, do novo e immenso mercado
que abrimos a todas as industrias, do ascendente da classe média que
eficazmente fomentámos, basta dizer-se que ás victorias dos portuguezes
na India deve talvez a Europa não ter succumbido ao jugo mahometano. Ao
passo que nós e os castelhanos nos preparávamos para dilatar os ambitos
do mundo conhecido, hastear por toda a parte a cruz, e estabelecer em
redor d'ella uma transformação social; ao passo que as outras nações
christãs, agitadas por muitas e diversas causas, se entretinham em
luctas feudaes de castello com castello, e de paiz com paiz; os
mussulmanos iam crescendo em poder, as suas dynastias radicavam-se
desde o Indostão até o Mediterraneo, os seus navios sulcavam todos os
mares, o monopolio do commercio asiatico constituia os povos em
vassallagem dos seus mercados, e os seus exercitos, animados pelo amor
da guerra e pelo fanatismo da crença, ameaçavam de nova invasão os
estados da christandade. Veneza, a rainha do Adriatico, ousava a custo
contrastar em parte a influencia de Constantinopla, mas esse obstaculo
depressa desappareceria se as conquistas dos portuguezes não viessem
produzir no mundo completa metamorphose mercantil e politica. Malaca e
Ormuz, os dous principaes emporios das producções indianas, abriram seus
portos sómente aos novos dominadores; as armadas turcas e as do Achem e
Jaoa, os exercitos de Cambaya e Cananor, as forças do Samorim, dos
reis de Dekan, do Hidalcão e do soldão do Egypto não conseguiram
arrancar das nossas mãos o imperio da Asia; e as nações mussulmanas,
perdido o principal elemento da sua força, foram-se desmembrando,
fundindo, esvaecendo, e eil-as as que restam, fracas e decrepitas,
alongando humildemente os olhos para o occidente, na esperança de que os
filhos do christianismo estendam um braço que ampare os representantes e
sectarios do propheta.
Foi essa a epocha da nossa gloria mais esplendida. Quem examinasse então
um mappa cosmographico, desde a linha que distingue a Europa e a Africa
até ao cabo da Boa Esperança, quasi não encontraria ilha, promontorio,
costa, golpho ou enseada, onde a fama do nome portuguez não
guardasse por si só a conquista; e montando o cabo veria tremular o
pendão das quinas nos pontos mais importantes do Oriente, e ainda nos
remotos archipelagos que depois se deviam chamar a Oceania. Antes d'essa
epocha, porém, houve uma lucta, que durou perto de um seculo, e que
votou ás paginas da historia universal e ao applauso da posteridade a
memoria d'esses homens valorosos, que alteraram os destinos do mundo em
proveito do christianismo, da civilisação e da politica. Os
descobrimentos de Gonçalves Zarco e Tristão Vaz, de Gil Annes, de Nuno
Tristão, de Gonçalo de Cintra, de Lançarote, de Gonçalo Velho, de
Antonio de Nolle, de João de Santarem, de Pedro d'Escobar, de Diogo da
Azambuja, de Diogo Cão, de Bartholomeu Dias e João Infante foram como
que os preliminares dos grandes commettimentos. D. Manuel, subindo
ao throno no anno de 1495, resolveu continuar a empreza de seus
antecessores, porfia magnanima que tantos sacrificios tinha já custado.
Ao infante D. Henrique haviam-se devido os primeiros trabalhos e
tentativas que prepararam o descobrimento da India; D. João II fundára
na Africa o imperio portuguez, e deixára ao seu successor abundantes
materiaes para o estabelecer na Asia; ao monarcha venturoso estava
destinada a missão de traduzir n'um facto estupendo este vasto projecto.
Vigorosa foi, comtudo, a resistencia que D. Manuel encontrou nos seus
conselheiros. Reprovavam estes o descobrimento como origem infallivel de
ruina, lembrando os riscos de mar e terra, o acanhamento do reino e
de seus recursos, a vastidão e difficuldade da conquista, e
propondo que a vida energica da metropole se applicasse exclusivamente a
explorar as possessões adquiridas, o que aliás era já difficil encargo
para um povo tão pouco numeroso. Mas nem duvidas nem suggestões abalaram
a vontade do monarcha, que, na febre do enthusiasmo que o incitava á
tentativa, como que antevia a aurora do triumpho. Encarregou, pois, de
executar a empreza a Vasco da Gama, filho do alcaide mór da villa de
Sines, Estevão da Gama, e, entregando-lhe em acto publico a bandeira,
determinou a partida.
Prestes a armada, que se compunha de duas naus, _S. Gabriel_ e _S.
Raphael_, da caravella _Berrio_, e de um navio de mantimentos,
embarcaram-se em Restello todos os que deviam ir na expedição, e que
seriam cento e sessenta homens entre marinheiros e soldados. Magestoso
espectaculo offereceram então aquellas praias. Era o dia 8 de julho de
1497. O sol esplendido banhava de luz o Tejo, as suas margens e a pobre
ermida da Senhora da Invocação de Belem, ermida que o infante D.
Henrique mandára construir para animar a devoção dos maritimos, e que
depois tinha de converter-se no grandioso templo dos Jeronymos. D'ahi
sahia uma procissão, guiada pelos freires da ordem de Christo, e seguida
de grande concurso de povo, que consternado tinha vindo despedir-se dos
audazes navegadores. O fito que attrahia a multidão provinha do enlevo
que excitam sempre as tentativas arrojadas, e esse sentimento achava-se
ahi concentrado como no seu grande fóco, ancioso pelas contingencias da
viagem, afflicto pela probabilidade das catastrophes, engrandecido pela
communicação rapida, electrica, fascinadora, irresistivel de tantos
espectadores. Tristes estavam todos, excepto os que partiam, porque a
esses animava o fervor e alvoroço da empreza, não obstante irem cruzar
mares nunca navegados, dobrar promontorios, evitar restingas, resistir a
tempestades e correntes, domar barbaros de Africa, combater os mouros,
procurar, emfim, o desconhecido com todos os seus encantos e esperanças,
mas com todos os seus assombros e perigos.
Desfraldadas as velas partiram-se de foz em fóra, aportaram a Cabo
Verde, entraram na bahia de Sancta Helena, e depois de montarem o cabo
da Boa Esperança com menos tormentas e riscos do que os marinheiros
temiam, e de passarem pela aguada de S. Braz, pela costa do Natal,
pelo rio dos Bons Signaes, chegaram, no fim de quasi oito mezes de
viagem, a Moçambique, d'onde logo desaferraram algumas barcas, ahi
chamadas zambucos, que vieram abicar ás naus. Guarneciam-n'as muitos
indigenas, e entre elles alguns brancos que pelos trajos e linguagem se
conheceu serem mouros. Por um d'elles, natural de Fez, mandou Vasco da
Gama ao xeque d'aquella terra, dizendo que se dirigia á India, e que
para esse fim lhe pedia um piloto. Prometteu o xeque satisfazer o pedido
e veiu visitar os navegantes, porque, a despeito das informações
obtidas, cuidava ainda que seriam turcos; conhecendo, porém, que eram
christãos, determinou destruil-os, e quando, desfeitos os varios ardis
que para a traição empregára, se viu constrangido a entregar um
piloto, instruiu-o para que em vez de guiar os navios procurasse
perdel-os. A fortuna, todavia, que no meio dos seus caprichos se inclina
a proteger os que muito ousam, salvou os portuguezes, que no dia 7 de
abril de 1498 chegaram a Mombaça, cidade importante e para esses tempos
civilisada, onde tambem escaparam a graves perigos. Em Melinde, em fim,
o rei, não obstante o antagonismo de crenças e de raça, entendeu que
devia soccorrer os estrangeiros, e com esse intuito acolheu-os sem
perfidia e deu-lhes um habil piloto que os levasse á India.
Vinte e tres dias depois de terem partido de Melinde suppozeram os
marinheiros ver terra. Já por vezes, em dias anteriores, se lhes tinha
affigurado o mesmo, e haviam estremecido de contentamento e esperança;
mas o tempo mostrára sempre que taes imagens eram apenas
hallucinação, e a alegria se lhes transformára em profunda tristeza,
porque cousa alguma abate mais os animos do que essas alternativas de
illusões e desenganos, que são como os sarcasmos do destino.
Desalentados, pois, e fitos sombriamente os olhos no horisonte, os
mesmos homens, que com tão escassos recursos, e estando ainda na
infancia a arte nautica, se haviam affoutado aos abysmos com
desassombrada resolução, trepidavam agora, e quasi que sentiam as
angustias do desespero. D'esta vez, porém, apresentava-se a realidade
incontestavel, e não tardou muito que distinctamente se conhecesse a
proximidade de um continente vastissimo. Appareciam afinal essas praias
da India, que eram já para os atrevidos navegadores o sonho, o
enlevo, a paixão que a todos avassallava, paixão que fôra crescendo
com os obstaculos até constituir a idéa fixa, o pensamento constante
d'aquellas almas energicas.
Chegada a noite tornou-se necessario virar de bordo, porque fôra
perigoso no meio das trevas entestar com a terra, mas no dia seguinte,
ao romper da manhã, corria a armada ao longo da costa com vento
bonançoso. Uma cadeia de montanhas, tendo por corôa as nuvens,
sobresahia em distancia; por entre florestas de palmeiras divisavam-se
soberbos edificios; o Oriente, emfim, o recesso dos mysterios, a região
dos prodigios, cujas fabulas nebulosas eram ainda inferiores ás
maravilhas que já se presentiam, patenteava-se com toda a magestade da
sua vegetação opulenta. Avisinhavam-se n'aquella costa tres povoações:
Calecut, Capocate e Pandarane. Os marinheiros, tomando a segunda
pela primeira, por engano de Canacá, o piloto indiano, dirigiram as naus
a Capocate, pobre aldeia de pescadores; mas, sabendo ahi qual das
povoações era Calecut, foram lançar ferro na enseada da cidade.
Considerava-se n'esse tempo Calecut uma das mais importantes escalas
commerciaes da India, e era sem duvida a mais poderosa de todas as
terras do Malabar. Viam-se girar no seu commercio os diamantes e pedras
preciosas das ricas minas de Narsinga e do Pegú, as perolas de Kalckar,
o oiro de Sumatra, o ambar das Maldivas, o marfim, a porcelana, as sedas
e damascos da China, o sandalo de Timor, o algodão, o anil, o assucar,
as especiarias mais apreciadas, tudo, emfim, quanto póde contribuir para
o uso e delicias da vida. Capital do reino do mesmo nome,
constituia Calecut a séde do sacerdocio e do imperio; tinha, além de
innumeraveis casas feitas de madeira e cobertas de palma, muitos
palacios, templos, arcos e torres soberbas; e estendia-se por largo
espaço, contendo, segundo o computo dos naturaes, cerca de duzentos mil
habitantes. Fundada com pouco poder, havia ganho dentro de breve tempo
aquelle grande esplendor, e o seu rei, a que chamavam o Samorim, era o
mais respeitado e temido entre os monarchas do Indostão.
Annunciada a vinda dos portuguezes, recebeu-os o principe com affago,
deu audiencia a Vasco da Gama, e declarou acceitar a alliança do rei de
Portugal, promettendo que na frota lhe enviaria embaixadores. Os mouros,
porém, costumados de longo tempo aos lucros commerciaes d'aquella
terra riquissima, e receiando que a influencia dos portuguezes não lhes
consentisse de futuro nem protecção, nem accordo, nem tregoas, nem
misericordia, começaram a urdir traições, tentando persuadir o Samorim
de que os navegantes eram piratas miseraveis que levariam o terror do
seu nome aos confins do imperio, como já em Moçambique e Mombaça tinham
deixado vestigios de crueldade e perfidia; e de que ainda quando fossem
subditos de monarcha poderoso, eram decerto homens orgulhosos e ávidos,
que não pretendiam, sob as apparencias de paz e amisade, senão a
conquista e posse exclusiva do solo descoberto. Convenceu-se facilmente
o principe indiano, e desde logo se lhe transformou a boa vontade,
dissimulando apenas o seu odio para encontrar ensejo favoravel de
colher ás mãos os estrangeiros.
Debellados, todavia, os tramas pela intrepidez e astucia de Vasco da
Gama, levantaram ancora as naus, e depois de quasi tres mezes de demora
n'esse paiz inimigo, seguiram viagem para Portugal, tendo que vencer de
novo graves perigos, e perdendo tantos a vida com as febres, que dos
cento e sessenta homens que partiram poucos mais de sessenta regressaram
á patria.
Em Portugal a noticia do descobrimento da India encheu de enthusiasmo
todo o reino. Estavam depostos os temores, patente o caminho, encetada,
em summa, a nova cruzada de religião, de guerra, de industria e de
gloria, que ia devassar as barreiras da antiga civilisação oriental.
Justificára-se o firme proposito que vencêra as apprehensões
anteriores, e D. Manuel, depois de premiar Vasco da Gama e os famosos
companheiros, acrescentou aos titulos do seu dictado os de senhor da
conquista, navegação e commercio da Ethiopia, Arabia, Persia e India.
O soberbo mosteiro dos Jeronymos foi o padrão erguido á grandeza do
emprehendimento, á fortuna do resultado, ao favor da providencia; a
torre de S. Vicente de Belem, edificada quasi no mesmo periodo,
tornou-se a testemunha gloriosa do immenso poder que depois alcançámos,
e que ao passo que avassallava o imperio da Asia, vencia na Berberia as
bellicosas turbas agarenas, cravava marcos de posse em quasi tres mil
legoas da costa oriental da Africa, e dava á Europa a primazia entre as
outras partes do mundo, abrindo caminho á grande revolução
intellectual, moral, politica, mercantil e guerreira, que tornou o
seculo XVI talvez a epocha mais maravilhosa da historia da civilisação.
IX
Descobrimento do Brazil
1500
No anno seguinte ao da volta de Vasco da Gama encarregou D. Manuel a
Pedro Alvares Cabral, senhor de Belmonte e alcaide mór de Azurara, o
mando de uma armada de treze velas, que devia na sua derrota correr a
costa de Sofala, visitar o rei de Melinde, chegar a Calecut, e proseguir
na empreza, a um tempo mercantil e guerreira, iniciada com tanta fortuna
pelo primeiro descobridor. Era a frota magnifica e poderosa, e
tinha como capitães entre outros, além de Pedro Alvares Cabral, Nicolau
Coelho, que fôra na anterior expedição, e Bartholomeu Dias, o primeiro
que ousára dobrar o cabo da Boa Esperança, e que no seio das suas
tormentas ia encontrar d'esta vez o perpetuo somno da morte.
Preparado tudo para a partida, levantaram-se ancoras, desfraldaram-se
velas, e cortando as aguas sahiu a armada de mar em fóra no dia 9 de
março, e seguiu viagem próspera até ás alturas de Cabo Verde, onde um
temporal desfeito de tal modo agitou os mares, que os navios, envolvidos
entre serras de ondas, ora eram alçados no cume das vagas como se ellas
os quizessem expellir de si, ora quasi se submergiam na concavidade do
abysmo. Acalmada a procella, juntou-se toda a frota, á excepção de
um navio que depois arribou a Lisboa, e continuaram os doze restantes
pelo oceano, affastando-se das costas d'Africa, ou para evitarem as
calmarias de Guiné, como já o practicára Vasco da Gama, ou porque para o
proseguimento de tal rumo influisse de algum modo o espirito aventuroso
e obstinado d'esses homens energicos, que tudo arrostavam e a tudo se
atreviam com o ardor que só deriva do verdadeiro enthusiasmo.
As plantas maritimas encontradas no dia 21 de abril, as aves
redemoinhando nos ares ou pousando sobre as aguas, um halito perfumado
impregnando a atmosphera, annunciaram aos navegantes a proximidade de
regiões desconhecidas; e por isso, na manhã seguinte, apinhavam-se todos
nos chapiteus da proa, fixa a vista no extremo dos mares, onde já
se divisava como que um ponto escuro que gradualmente ia crescendo.
Afinal a voz do gageiro da nau capitania bradou no cesto da
gavia--_terra!_--, e durante minutos só esse grito de contentamento
indisivel resoou em todos os navios. A ligeira nevoa avultára no
horisonte, a frota surdia sempre ávante, e por fim já distinctamente se
observava um monte de fórma arredondada, largas serranias para o sul, e
ao longe uma extensa planicie, vestida de sombrios arvoredos. Aproaram
então as naus á terra, que pela ignorancia d'aquellas eras julgaram os
pilotos que só podia ser uma grande ilha, como alguma dos Açores ou das
Antilhas, ancoraram perto da costa, e na manhã seguinte sulcavam as
aguas em direcção á praia.