mesmo tempo o já então vastissimo imperio de Leão e Castella, e o poder
ainda formidavel dos bellicosos sarracenos, e todavia não só lhes
resiste com intrepidez e constancia, mas até ousa invadir o territorio
dos seus dois temiveis inimigos, conservando sempre hasteado o pendão da
nacionalidade. Depois, logo no começo da monarchia, os portuguezes,
movidos pelo amor da patria, affecto que amadurecêra e se radicára nos
animos de um modo indestructivel, conquistam uma grande parte da
Hespanha mussulmana, terra abundante de população, enriquecida pela
industria, cheia de villas e cidades importantissimas, fortificada por
todos os meios que a experiencia d'aquelles tempos ensinava, e defendida
por homens naturalmente esforçados, e aos quaes o aferro á terra natal e
o fervor religioso ainda, como é de crer, multiplicavam os brios. Depois
estabelecem-se em larga escala os concelhos; promove-se a vinda de
colonos; povoam-se granjas e aldeias; arroteam-se charnecas e
mattos; repairam-se e abastecem-se castellos; organisa-se a milicia, a
administração, a magistratura judicial, a fazenda publica; consolidam-se
intimas allianças com algumas das maiores nações, e dá-se sufficiente
vigor ao espirito municipal, que em parte alguma talvez, durante a edade
media, teve mais viva influencia no progresso da civilisação. Em
seguida, apenas Portugal se vê collocado vantajosamente com relação aos
varios povos da Peninsula, já não lhe basta a certeza da sua
inviolabilidade, e confiado nas proprias forças e destinos, eil-o que se
apressa em ir pagar ao islamismo, no solo abrazado de Africa, a divida
da invasão e os trances do jugo estranho.
Reinava então em Portugal D. João I. Ao monarcha inconstante e frivolo,
cujos defeitos como homem bastam para escurecer os actos do
legislador, succedêra o principe mais popular que se encontra nas nossas
dynastias de imperantes; a um rei hereditario um rei eleito. Ganha a
victoria de Aljubarrota, recuperadas uma a uma as praças de guerra, de
que o soberano estrangeiro se havia assenhoreado; firmada, emfim, a paz
com Castella depois de longos annos de lucta frenetica, começaram os
infantes a instar com D. João I para que emprehendesse conquistar Ceuta,
a famosa cidade que desde o tempo dos romanos até ao fim do reinado de
Witiza fôra dependencia de Hespanha; conquista que lhes daria ensejo de
alcançarem com honra o grau de cavalleiros, e que dilataria ao mesmo
tempo os limites do imperio e os da fé. Folgou com a idéa o monarcha, a
quem os annos não haviam amortecido o pensamento fixo de gloria, a
que devem attribuir-se quasi todos os actos da sua vida, mas não quiz
resolver-se sem pesar cuidadosamente os perigos e vantagens do
commettimento, que não se limitava ao assalto de uma praça, aliás bem
defendida e guardada, mas que era de feito um repto aos infieis, que,
inflammados em brios nacionaes e em fanatismo ardente, formariam cem
exercitos poderosos e intrepidos contra os temerarios invasores.
Reflectiu, pois, em todas essas circumstancias; ponderou o voto dos
guerreiros illustres, a censura dos conselheiros leaes, as preoccupações
populares; avaliou com exacção a importancia dos esforços e a escacez
dos recursos; viu que ia travar uma lucta em que todo o odio e valor da
raça inimiga haviam de empenhar o ultimo alento; mas lembrou-se de
que era preciso não deixar esquecer aos seus soldados o duro mister da
guerra, de que o unico systema consequente e legitimo de engrandecimento
para o reino era alargar-lhe os limites pelas fronteiras costas
africanas, de que celebraria assim com um feito memoravel o occaso da
sua venturosa carreira, e decidiu-se por fim á expedição mais
determinado, mais perseverante, mais enthusiasta do que os proprios
filhos. Conciliando, todavia, a confiança na sua fortuna com as
admoestações da prudencia, tratou dos apercebimentos adequados á
magnitude da empreza, e para evitar suspeitas que de certo trariam raiz
de taes preparativos, resolveu que se aproveitasse o pretexto da
pirataria com que os hollandezes infestavam as nossas costas, e se
reclamasse satisfação do conde de Hollanda com ameaças de guerra.
Fernão Fogaça, veador do principe, homem astuto, cauteloso e atrevido,
foi enviado a Hollanda para proclamar em embaixada publica os aggravos e
exigencias do soberano portuguez, e revelar secretamente ao conde a
verdadeira causa da sua vinda. Prestou-se este ao disfarce, lisongeado
pela demonstração de confiança, ou por ventura aterrado com a lembrança
de que as ameaças podessem ainda traduzir-se em factos, e o artificio
produziu o desejado effeito de socegar até certo ponto as populações de
Hespanha e Africa, posto que não tanto que os reis de Castella, de
Aragão e de Granada não mandassem immediatamente embaixadores a
Portugal, renovando todas as garantias de paz e amizade.
Preparado tudo, levantou ancora do porto de Lisboa a poderosa armada aos
25 de julho de 1415, não obstante haver fallecido poucos dias antes
D. Philippa de Lencastre, chamada pelo povo a boa rainha, e a cujas
virtudes e desvelos deveu acaso Portugal a mais generosa prole, que tem
rodeado um throno. Partiu em demanda das praias sarracenas; em
desaffronta dos gravames n'outro tempo padecidos; em nome da raça
romano-gothica contra o islamismo que lhe lançára a luva; da supremacia
da civilisação christã contra as caducas instituições politicas,
estribadas nas doutrinas falsas ou incompletas do koran. Partiu, sem que
nem um leve estremecimento pelo futuro quebrantasse o enthusiasmo dos
que iam participar dos riscos da empreza; o excitamento religioso, o
espirito aventureiro, a emulação de esforço, e em muitos ainda a cubiça,
menos hypocrita que n'estes nossos tempos, erguiam com demasiada
força aquelles animos para que lhes consentissem vacillar.
O mysterio da expedição, na qual tomavam parte os grandes, os nobres, os
infantes, o herdeiro do throno e o proprio monarcha, assustou de novo
toda a costa de Africa, e não menos a de Hespanha, que ainda occupavam
mouros; mas sobretudo as terras de Gibraltar, por se verem abertas e mal
defensaveis. Em breve, porém, se dissiparam esses receios, porque,
consultados em Algeziras os principaes capitães, foi fixado o dia 12 de
agosto para se caminhar contra Ceuta.
Ahi de feito surgiu a frota no dia designado, mas depois de duas
tentativas de desembarque, que o temporal estorvou, foi constrangida a
voltar para Algeziras. O contratempo desanimou alguns. Eram esses de
voto que não se tentasse outra vez o desembarque em Ceuta, que para
gloria bastava já o arrojo da empresa, e que se não deviam tornar ao
reino sem tingir as mãos em sangue inimigo, se dirigisse a armada a
Gibraltar, que n'aquella conjunctura se offerecia como facil conquista,
e que daria campo aos valentes para mostrarem esforço, ao passo que
satisfaria as ambições do povo e os interesses da patria. Nenhuma
consideração, todavia, dissuadiu D. João I do intentado proposito.
Perseverante como o homem que, apontando fixamente ao alvo, não desvia
nem por um momento a arma senão depois de acertar, desprezou os avisos
cautelosos, que aliás já não poderiam ser acceitos sem desaire, e, como
é facil de suppor, foi a vontade do monarcha que afinal prevaleceu.
Entretanto os mouros, attribuindo a medo a demora dos portuguezes,
trataram de despedir as tribus numidas que os tinham vindo auxiliar,
Soldadesca indisciplinada e feroz, que nem só entre os inimigos deixava
largos vestigios de ruinas e estragos; mas ainda ellas mal tinham
sahido, quando no dia 20, ao declinar da tarde, se dirigiu contra a
cidade toda a armada christã. Confiados na fortuna, os habitantes de
Ceuta pareciam desprezar a procella que de perto os ameaçava, e quando a
noite desceu com denso manto de trevas, illuminaram-se as casas em
signal de torva alegria.
Com a primeira luz da manhã seguinte a gente da armada, mettendo-se nas
fustas, dirigiu-se para a cidade, e os infantes D. Henrique e D. Duarte,
saltando em terra com cento e cincoenta soldados, começaram a peleja com
os mouros que fóra das portas os desafiavam, terçando lanças,
arremessando azagaias, e animando-se uns aos outros com pragas e
insultos contra os invasores, intelligiveis para estes pelos gestos de
rancor dos que as proferiam. N'aquelle primeiro impulso os alfanges
sarracenos cruzaram as espadas portuguezas com todo o estrepito do
enthusiasmo guerreiro, com todo o ardor do excitamento religioso, com
todo o fogo de uma colera por muito tempo concentrada. Dir-se-ia, ao ver
a furia do combate, que só adejaria a victoria sobre um dos campos
quando tivesse cahido sobre o outro a total ruina. No entanto foram
desembarcando mais soldados portuguezes, e, havendo já na praia
trezentos homens escolhidos, apertaram estes com os mouros, que, levados
mais pelo temor que pelo perigo, voltaram costas retirando-se para a
cidade. Lembraram-se então os infantes de que n'aquelle mesmo dia
poderiam talvez dar fim á empresa, evitando assim o trabalho e combate
incessante de semanas e mezes, que naturalmente resultaria de um longo
assedio, e os perigos a que se expunham n'uma terra callidissima, onde
de certo recrudeceria a peste que de Lisboa os seguíra. Decidiram, pois,
entrar na cidade com os que fugiam, e, lançando mão do ensejo que o caso
offerecia, perseguiram rijamente os mouros, arrancando-os de todas as
posições, e fazendo-os apinhar sobre as portas.
Ahi foi terrivel o recontro e disputada tenazmente a victoria. O
apertado revolver das armas formava uma selva de ferros, atravez da qual
já quasi não era possivel abrir caminho sem galgar por cima dos
cadaveres amontoados, que embargavam os passos dos vivos; nem os
invasores desistiam nem os da cidade affrouxavam, e de um e outro lado
os contendores haviam chegado áquelle paroxismo de furor, que faz
desprezar a vida para só cuidar em produzir a morte. Por fim, não
obstante o muito que os defensores trabalharam, não poderam cerrar as
portas, nem tolher entrarem os nossos de involta com elles. Os
portuguezes dividiram-se então em dous bandos; D. Duarte, capitaneando
um d'elles, foi subindo aos logares altos e fazendo-se senhor de todos
até chegar á maior eminencia da cidade; D. Henrique tomou por outras
ruas; e ambos encontraram porfiada resistencia, porque aos habitantes de
Ceuta, reduzidos á defensiva, o affecto, que nos costuma prender ao lar
domestico, redobrava alento e brios. Afinal, porém, essa mesma
resistencia acabou; os vãos esforços da população mussulmana para
salvar Ceuta foram os clarões derradeiros da lampada que se extinguia. A
audacia dos infantes e dos que os seguiam, a cobardia do chefe
sarraceno, Salat-ben-Salat, que fugiu apenas soube ter sido entrada a
cidade, e o habito da victoria, que, desde a batalha das Navas de
Tolosa, os proprios mahometanos, consideravam como devendo tarde ou cedo
pertencer definitivamente aos inimigos da sua crença, facilitaram a
conquista de uma das povoações de Africa mais de receiar para os povos
christãos do mediterraneo. El-rei, tendo posto em terra toda a sua
gente, mandou fazer alto, e logo que soube estar a cidade de todo ganha,
deliberou começar a combater o castello. Depois, impellido pelo
enthusiasmo religioso, entrou n'uma mesquita, e ahi de joelhos agradeceu
a Deus esse feliz resultado de uma tentativa que a muitos parecêra
loucura. Recebendo então a noticia de que o castello estava sem defensa
e despejado, mandou arvorar na mais alta torre o estandarte real; e os
raios do sol, que se escondia no occidente, já não encontraram a
bandeira de islam, derribada n'esse dia para nunca mais se erguer sobre
os muros da soberba Ceuta.
Assim, por meio de uma victoria alcançada em poucas horas, dilatou D.
João I as fronteiras da monarchia pelos territorios africanos,
principiando a realisar o grande pensamento dos reis chamados da
primeira raça, e abrindo caminho aos vastos projectos, ás atrevidas
empresas, aos descobrimentos e conquistas, que deram a esta nossa boa
terra portugueza uma epocha de gloria e predominio, das maiores que o
mundo tem visto.
VI
Regencia do infante D. Pedro.--Combate de Alfarrobeira
1439 A 1449
O cadaver do virtuoso D. Duarte havia descido ao sepulchro, onde, emfim,
repousava das amarguras de tão curto como desditoso reinado. Para a
menoredade de seu filho Affonso V, que então contava seis annos, ficára
regente do reino a rainha D. Leonor. Esta, sentindo a necessidade de
buscar na côrte seguro esteio contra a má vontade dos subditos, que lhe
não perdoavam ser mulher e estrangeira, e sobretudo ter contribuido
com solicitações e conselhos para a funesta empresa de Tanger, procurou
associar ao imperio o infante D. Pedro, duque de Coimbra,
promettendo-lhe ao mesmo tempo o casamento do rei com sua filha D.
Isabel, e julgando prendel-o assim pelo esplendor da invejada alliança.
Em breve, porém, instigada pela cubiça do poder, que foi a paixão
predominante dos ultimos annos da sua vida, ligou-se com o conde de
Barcellos, filho natural de D. João I, e á frente dos seus parciaes,
aproveitando todos os pretextos, tentou de dia em dia coarctar a
auctoridade do infante.
Então o povo de Lisboa começou a alborotar-se, e depois de muitos
tumultos e desordens proclamou regente e defensor do reino o duque de
Coimbra. Suppondo que pouco duraria um poder, assente em tão movediço
alicerce como é o favor da plebe, a rainha acolheu-se a Alemquer,
onde se fez forte; mas as côrtes, reunindo-se immediatamente,
confirmaram a nova regencia, e resolveram que a educação d'el-rei e de
seu irmão fosse confiada a D. Pedro.
O estado da nação n'aquella épocha era, na verdade, lastimoso. Parecia
que uma estrella aziaga tinha constantemente presidido aos destinos do
fallecido monarcha. A peste assolava o reino; a miseria publica tomava
todos os aspectos; o infante D. Fernando, heroe e martyr, jazia captivo
em Africa; as prophecias de mestre Guedelha, o astrologo judeu,
realisavam-se fatalmente; e as gloriosas recordações de Aljubarrota e de
Ceuta tornavam ainda mais duros os flagellos com que a fortuna, como que
arrependida de ter sempre protegido D. João I, se vingára em
crueldades sobre o seu successor. Por cumulo de infortunios o prior do
Crato, o conde de Barcellos e outros fidalgos, poderosos em influencia e
valor, julgaram opportuno o ensejo para realisarem projectos de ambição,
e proclamando a resistencia em nome da viuva de D. Duarte, constrangeram
o regente a empunhar as armas para os conter. Apezar de tudo, porém, D.
Pedro dirigiu com tal prudencia o leme do estado, que dentro de pouco
tempo desvaneciam-se os fumos da discordia, e Portugal respirava á
sombra das leis, dilatando as forças e engrossando as riquezas no seio
de perfeita bonança.
Chegado el-rei aos quatorze annos, edade em que, segundo o fôro de
Hespanha, qualquer principe devia haver inteiramente posse do seu reino
e senhorio, quiz o duque de Coimbra entregar-lhe o supremo poder,
que D. Affonso, ainda não pervertido por suggestões calumniosas, recusou
acceitar. A inveja, comtudo, não se enfreia nem com as ligações de
familia, nem com as obrigações de gratidão, simples vinculos moraes que
a historia tem muitas vezes mostrado serem fracos para conter a
violencia das paixões; e as intrigas do conde de Barcellos, já então
elevado á dignidade de duque de Bragança por aquelle mesmo contra quem
conspirava, fizeram com que o moço rei exigisse pouco depois ao infante
os fios da administração, para os sujeitar ás influencias de uma nobreza
aventurosa, insoffrida de todo o jugo, mais habituada aos enredos da
côrte que ás pesadas occupações do governo, e incapaz por isso de
sustentar com lealdade, energia e destreza os interesses da monarchia.
Tornados d'este modo reis de facto na resolução das questões mais
importantes, os conselheiros de D. Affonso V sentiram recrudecer ainda a
aversão contra o principe, cujo caracter generoso e firme os havia
confundido ou humilhado. Ha almas impiedosas, abysmo de odios violentos
e de paixões profundas, que, no momento em que se realisa a ventura por
largo tempo sonhada, se deixam, todavia, subjugar por estranho
sentimento de benevolencia; n'outras, porém, a perversidade é singular
genero de fome que quanto mais damno causa mais appetece, é lodaçal que
até entre formosas paizagens impregna a atmosphera de miasmas
pestiferos. No regaço da fortuna continuaram, pois, esses homens a
malquistar o infante com o monarcha, que, apesar de ter já casado com
sua prima D. Isabel, entrou a afastar o sogro e a dar-lhe claros
signaes de que condescendia sem hesitar com as villezas d'aquelles, por
quem mostrára sempre decisiva predilecção. Dotado de indole altiva e
pouco soffredora, lasso do serpeiar flexuoso dos cortezãos, D. Pedro, em
vez de permanecer junto do sobrinho a fim de lhe expungir da mente as
perfidas calumnias, retirou-se logo para Coimbra, deixando d'esse modo
livre o campo aos adversarios para a seu salvo satisfazerem rancores,
que o tempo cada vez mais exacerbára.
Debalde correu então á côrte a defender o irmão o infante D. Henrique,
que já n'essa quadra residia em Sagres; debalde o conde de Avranches, D.
Alvaro Vaz de Almada, o mais illustre cavalleiro da Peninsula, alma
grande, generosa, leal e intrepida, reptou os accusadores do duque de
Coimbra, nenhum dos quaes se atreveu a levantar o guante; debalde
interveiu a propria rainha, procurando entre lagrimas e caricias
reconciliar o marido com o pae. Tudo foi inutil. Dominado pela
contumacia dos validos e cego pelo orgulho dos verdes annos, D. Affonso
V prohibiu ao sogro que voltasse á côrte, e como este se recusasse a
entregar as armas que possuia em Coimbra, allegando que necessitava
dellas para se defender dos seus inimigos, declarou-o rebelde e partiu
contra elle á frente de um poderoso exercito.
Este procedimento do monarcha operou no animo de D. Pedro uma revolução
moral, d'essas que só as grandes crises podem produzir; foi sobresalto,
embate, transformação repentina de todas as suas idéas e sentimentos.
Entretanto, aconselhando-se com aquelles em que principalmente
confiava sobre o que havia de fazer, acceitou o aviso do conde de
Avranches; e, partindo de Coimbra com diminuta hoste, determinou buscar
o sobrinho e genro, pedir-lhe justiça contra os que o infamavam, e se a
moderação e firmeza não bastassem, rota a ultima barreira, repellir a
força com a força, arvorando o pendão negro da revolta.
Chegando proximo a Alverca, assentou D. Pedro arrayal nos plainos de
Alfarrobeira em sitio assás defensavel. Ahi o encontrou el-rei, e logo o
cercou completamente, mandando ao mesmo tempo apregoar por seus arautos,
que seriam tidos por traidores todos os que não desamparassem o infante.
Essa intimação, todavia, não produziu o ambicionado exito, e pelo
contrario alguns cavalleiros e soldados, movidos por nobre sentimento de
generosidade, vieram unir-se áquelle que o soberano tratava como
rebelde. Emquanto isto succedia, e talvez fosse possivel evitar o
funesto conflicto dos dous bandos, um acontecimento fortuito apressou o
desfecho do terrivel drama.
Os bésteiros e espingardeiros do exercito real, abrigados uns pelo denso
arvoredo que sombreava o ribeiro de Alfarrobeira, collocados outros no
cimo de um outeiro que dominava o acampamento, começaram a varejar com
tiros o arrayal do infante. Vendo este os seus leaes companheiros
immolados sem combate nem gloria, mandou disparar algumas bombardadas,
uma das quaes acertou perto da tenda de el-rei. Então a briga
empenhou-se decisivamente. De uma parte estava um troço de homens
intrepidos, aos quaes a desesperança augmentava o esforço; da outra
um exercito numeroso e aguerrido, contra cujo poder seria impossivel a
resistencia. Como se não bastasse, porém, a desegualdade entre os dous
contendores, o infante, ferido por uma setta que lhe varou o corpo,
tombou por terra logo ao principio da peleja, e com a sua morte feneceu
em redor d'elle todo o esforço dos animos mais robustos. Sómente o conde
de Avranches, que havia jurado não sobreviver a D. Pedro, luctou
denodadamente contra os de el-rei, já senhores da victoria. Cegos de
furor, cavalleiros e peões arrojavam-se e cahiam diante d'aquelle vulto,
como os vagalhões de mar tempestuoso se arremessam e desfazem em frente
dos rochedos da costa. No meio de larga clareira, só, impavido e
magestoso, D. Alvaro derribava a seus pés quantos d'elle se aproximavam,
e parecia, como o Campaneu de Stacio, ameaçar os deuses e os homens.
Afinal, perdidas as forças, baqueou por entre os inimigos, que a poder
de golpes depressa o acabaram.
O sangue do infante, vertido n'esta carnificina, a que mal podemos dar o
nome de batalha, não ficou inulto. Da filha do duque de Coimbra nasceu o
principe que tomou sobre si a obra terrivel da expiação. O cadafalso de
D. Fernando de Bragança vingou o assassinio do infante D. Pedro, e mais
uma vez se realisou a terrivel sentença biblica, que ameaça punir nos
filhos as iniquidades dos paes.
VII
Conspiração da nobreza contra D. João II
1481 A 1484
Nos ultimos annos de D. Affonso V a aristocracia tinha chegado ao apogeo
do predominio, e as instituições feudaes, que se haviam mesclado com a
nossa primitiva organisação social, achavam-se enraizadas e vigorosas,
parecendo poder resistir perpetuamente aos esforços do povo e do
monarcha. Já D. João I, o rei de boa memoria, quizera destruir a quasi
independencia dos orgulhosos barões, que governavam nos seus
solares como senhores absolutos, não hesitando, sob quaesquer pretextos,
em arvorar o estandarte da revolta, e até em combater contra a patria;
mas os principes, que se lhe tinham seguido, haviam governado com tal
frouxidão e timidez, que a nobreza retomára o antigo valimento, e
preparára-se para defender a todo o custo os seus fóros e prerogativas.
Foi então que subiu ao throno D. João II, alma energica, robusta e
negra, que conseguiu debellar o poder dos fidalgos, apoiando-se no braço
do povo, e enfraquecer o braço do povo, pesando depois sobre elle com
toda a força e intensidade do poder da corôa.
A uma falta absoluta de escrupulos juntava D. João II grande firmeza de
genio, extraordinaria sagacidade e o retrahimento bastante para
occultar, debaixo de um aspecto frio e de sorrir forçado, o ardor
de violentas paixões. Os chronistas, que escreveram sob o patrocinio dos
immediatos successores d'este soberano, chamaram-lhe o principe
perfeito. Poucas vezes, porém, escriptores cortezãos e lisongeiros têm
respeitado menos a verdade dos factos. Retrato vivo do seu contemporaneo
Luiz XI de França, manifestou sempre, quer nas leis geraes, quer nos
actos proprios e espontaneos, a influencia de um pensamento capital, a
que sujeitou todos os affectos e considerações; e esse foi o de alluir
de vez a preeminencia e immunidade dos grandes vassallos da corôa. No
seu reinado tem de ir tambem buscar o historiador a fixação das fórmas
politicas, que ressumbram em toda a legislação subsequente, e a que
poderemos chamar a transfiguração do absolutismo em despotismo,
como a estructura social anterior se póde igualmente considerar um meio
termo entre a monarchia e as instituições representativas.
Tal era o inimigo com que a nobreza tinha de combater para conservar a
sua preponderancia nos negocios publicos, inimigo formidavel não só pelo
seu caracter, mas ainda pelo prestigio que o rodeava, e pelas
circumstancias que favoreciam os planos da sua politica. O throno,
affagando as sympathias democraticas do terceiro estado, que já começava
a conhecer a sua força, lançava mão do instrumento mais seguro para
assentar o poder em bases solidas. O resultado, pois, da lucta não podia
ser duvidoso. Nos paizes governados pela vontade de um só homem, quando
á pressão enorme d'essa vontade se associa a opinião popular, o
pensamento que vive no animo do principe e das multidões, quer justo
quer iniquo, hade triumphar infallivelmente, e a lucta dos que lhe
resistem pode ser grande e nobre, mas é inutil esforço.
Logo que falleceu D. Affonso V, o primeiro acto de D. João II foi a
convocação das côrtes em Evora, onde lhe prestaram homenagem os
senhores, villas e cidades do reino. Ahi começaram os golpes profundos
na propriedade, na jurisdicção e em toda a especie de regalias das
classes privilegiadas; reformas cujo fim capital era abater a nobreza e
em parte o clero, invalidando-lhes duas poderosas armas, a que dá a
riqueza e a que provém da opinião. Exigiu-se, pois, dos alcaides e
donatarios nova fórma de menagem, chamaram-se a exame as cartas de
mercês e doações, cerceou-se muito a jurisdicção criminal, que os
fidalgos exerciam em suas terras quasi sem peias nem termo, e ampliou-se
o direito de appellação para as justiças reaes.