Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
of public domain material from Google Book Search)
QUADROS
DE
HISTORIA PORTUGUEZA
QUADROS
DE
HISTORIA PORTUGUEZA
POR
I. F. SILVEIRA DA MOTTA
SEGUNDA EDIÇÃO
correcta e augmentada
LISBOA
LALLEMANT FRÈRES TYPOGRAPHOS
6, Rua do Thesouro Velho, 6
1870
Em dous grandes cyclos póde naturalmente dividir-se a historia
portugueza, cada um dos quaes abrange algumas epochas mais ou menos
importantes; no primeiro a nação constitue-se, desenvolve-se,
fortifica-se, estende o seu poder pelas terras de Africa, senhoreia
ignotos mares, dicta leis ao Oriente, ganha vastos e productivos
terrenos na America, abre caminho ao engrandecimento dos outros povos da
Europa, e a final decae rapidamente até chegar á sepultura de 1580;
no segundo resurge, reconquistando n'um dia a antiga independencia
politica, e, procurando depois rehaver no decurso de seculos não o
poderio de outras eras, mas os fóros de liberdade, e a robustez e
firmeza, que são os meios mais poderosos com que as nações, assim como
os individuos, podem luctar contra a adversidade e vencel-a.
Traçando este humilde esboço historico quiz o author rememorar alguns
factos e algumas phases do primeiro cyclo, que julga mais fecundo em
lição e exemplos; e publicando-o agora suppõe fazel-o em occasião
opportuna. Quando, no meio das dissensões partidarias, dos erros
politicos e das aberrações populares, nos fere os ouvidos a ameaça de
que a nossa autonomia e independencia não podem durar muito, é justo e
util buscar no estudo dos fastos nacionaes os titulos do nosso
direito, a memoria do que fizemos, e por ventura nobres estimulos para
que os nossos progressos intellectuaes e moraes mostrem ao mundo que, se
já não somos potencia maritima ou continental, pesando com decisiva
força na balança dos acontecimentos politicos, queremos, todavia, e
devemos ser respeitados pela sciencia, pelo trabalho, pela energia, pelo
amor da liberdade, pela severidade dos costumes, unicas armas com que o
espirito da nossa epocha ensina as nações civilisadas a combaterem n'uma
lucta generosa.
Possa esta tentativa não ser de todo perdida, e servir ao menos de
incentivo para que obreiros mais robustos levantem o monumento grandioso
das tradições nacionaes.
QUADROS
DE
HISTORIA PORTUGUEZA
I
Fundação da monarchia
1097 A 1179
Bem como a vida dos individuos a vida dos povos é dilatada ou curta.
Assim muitas nações, que existiam robustas e altivas durante a edade
média, annullaram-se ou desappareceram, absorvidas umas por estados mais
poderosos, desmembradas outras pelas conveniencias politicas; e
Portugal, apparentemente debil na origem, mas que por milagres
d'esforço e de perseverança chegou a constituir a nação mais forte e
audaz da Europa, vive ainda, e encontrará a sua defensão em saberem seus
filhos repellir, com energia, quaesquer suggestões traiçoeiras ou
tentativas violentas contra a terra que livres herdaram, e onde livres
querem morrer.
Qual tem sido, porém, a causa d'essa longa vida, d'esse vigor da
juventude e da edade viril, d'essa tenacidade que se conserva ainda no
seio da decrepidez? É o que procuraremos descobrir, examinando
rapidamente a historia dos seus primeiros annos.
Logo que o imperio wisigodo se desmoronou ao embate impetuoso do
fanatismo dos arabes, a reacção christã e europêa começou
immediatamente. Desde a batalha do Chryssus até o recontro de Cangas
de Onis mediou curto espaço, mas tanto bastou para que os mussulmanos
gastassem nas dissensões intestinas o provado valor, e para que os
godos, retemperados pelo infortunio, recuperassem a ousadia e firmeza,
que são as mais seguras armas dos povos ameaçados na sua existencia. O
poderio christão foi, pois, crescendo de novo e prosperando, lenta mas
persistentemente, e já, meado o seculo XI, Affonso VI, reinava sem
resistencia nas Asturias, Galliza, Leão e Castella, e conquistava ou
fazia tributarias as principaes cidades e provincias dos sarracenos da
Peninsula.
Para as suas guerras brilhantes muitos cavalleiros francezes
atravessaram os Pyrineos. Impellia-os a tendencia guerreira e aventurosa
da epocha; animava-os a idéa religiosa, que attrahia a pelejar contra os
infieis quantos homens de fé viva tinha n'esse tempo a Europa;
dava-lhes esforço, por ventura, a esperança de encontrarem fortuna n'um
paiz onde, no tumultuar de incessantes combates, se offereciam
frequentes conjuncturas para adquirir riqueza e gloria. Entre os
estrangeiros mais notaveis vieram a Hespanha Raymundo, conde de
Borgonha, e Henrique seu primo co-irmão. Ao primeiro deu Affonso VI em
casamento sua filha D. Urraca, havida da rainha Constancia,
encarregando-o ao mesmo tempo do governo da Galliza e da terra
portugalense; a Henrique concedeu D. Thereza, sua filha bastarda e da
nobre dama Ximena Muniones, entregando-lhe com esta alliança o governo
do districto de Braga, como condado dependente de seu primo. Em breve,
porém, todo o territorio desde as margens do Minho até o Tejo foi
destroncado definitivamente da Galliza, para constituir um vasto
senhorio, regido pelo conde Henrique, e sujeito apenas á supremacia da
corôa leoneza.
O illustre cavaleiro francez, que via realisados os seus designios ainda
para além do que imaginára, applicou provavelmente então toda a
actividade á guerra com os sarracenos, e posto que a viagem que
emprehendeu á Syria nos primeiros mezes de 1103 devesse retardar a sua
influencia e conquistas, é certo que já em 1106 havia concebido as idéas
de engrandecimento e independencia, a que deveu acaso Portugal a sua
existencia como nação. O pacto secreto celebrado entre elle e Raymundo
para a repartição dos estados do sogro, alliança que a morte do conde de
Galliza inutilisou; as sollicitações perante Affonso VI moribundo; e
finalmente o modo por que soube valer-se das discordias civis, a que o
fallecimento do rei de Leão deu origem, ligando-se ora com D. Urraca,
ora com o monarcha de Aragão, e ainda com os fidalgos de Galliza,
traduzem um pensamento unico:--converter o senhorio, que lhe fôra
concedido para reger como simples consul, em nucleo de um poderoso
estado ao occidente da Europa. E no meio das tempestades politicas, que
varreram o solo ensanguentado da Peninsula durante o governo de D.
Urraca, teria decerto satisfeito essa arrojada ambição, se a morte não
viesse ceifar-lhe os designios junto dos muros de Astorga.
Fallecido Henrique (1 de maio de 1114) e contando o infante Affonso
Henriques apenas tres annos de edade, tomou D. Thereza o governo, e
com elle o encargo de continuar a obra politica do marido.
Apresentava-se ardua e arriscada a empreza, mas a filha de Affonso VI
não desdizia das nobres tradições da sua raça. A leôa defendeu o antro
com o ardor e constancia de que seu fero senhor lhe deixára assombrosos
exemplos. Cercada dos seus vassallos, identificada com certo instincto
de nacionalidade, que já então animava todos, ambiciosa, astuta,
energica e tenaz, luctou durante quatorze annos para conservar intacta a
independencia da terra que lhe chamava rainha. Submettendo-se ao rigor
das circumstancias, inclinou por vezes o collo á soberania da côrte
leoneza; mas não hesitando em quebrar solemnes promessas, o que aliás
era frequente n'esses tempos de bruteza, e ainda hoje não é raro a
despeito da civilisação, recusou sempre a obediencia quando julgou
possivel resistir. Seguindo, emfim, o caminho traçado pelo conde
Henrique, alimentou habilmente rivalidades e rancores entre sua irmã D.
Urraca, e o cubiçoso e soberbo bispo de Compostella, e não obstante os
damnos e calamidades provenientes das invasões de christãos e
sarracenos, augmentou a extensão dos seus dominios ao oriente e ao
norte, dando-lhes ao mesmo tempo incremento em população, em riquezas e
em forças militares.
A affeição intima a Fernando Peres, um dos mais illustres ricos-homens
da Galliza, quebrou-lhe nos ultimos annos a cadeia brilhante de uma vida
aventurosa e feliz. Esquecida de que o terrivel neto de Roberto de
Borgonha deixára no mundo um successor do seu genio, a formosa rainha
entregára ao amante a administração dos districtos do Porto e
Coimbra, e é de presumir que lhe outorgasse tambem a supremacia sobre os
outros condes ou tenentes do paiz. Nenhum acto indica, talvez, que a
intervenção de Fernando Peres fosse desleal ou funesta para a
independencia da provincia, que procurava desmembrar-se dos vastos
estados leonezes; mas a fortuna do valido excitára desde o principio o
descontentamento e ciume dos barões portuguezes, e estes, aproveitando o
enthusiasmo de nacionalidade já então radicado no povo, e a sede de
poder que devorava Affonso Henriques, lançaram entre a mãe e o filho o
facho da discordia, e accenderam a guerra civil, quer conforme todos os
indicios, começou em 1127, para se decidir, decorrido um anno, na
batalha do campo de S. Mamede, junto de Guimarães, onde o exercito de D.
Thereza foi desbaratado, e ella ficou prisioneira.
Assumindo o poder que tanto ambicionára, o moço principe não se limitou
a recusar obediencia ao rei de Leão, cujo dominio toda a Hespanha
christã e ainda parte da França mais ou menos reconheciam; ousou invadir
por vezes as provincias limitrophes, fundando-se, por ventura, nas
convenções feitas com seu pae, e sobretudo na posse que D. Thereza
tivera dos districtos de Limia e Tuy. No meio de graves difficuldades,
Affonso VII, que por morte de D. Urraca empunhára irrevocavelmente o
sceptro de Leão e Castella, não poude a principio impedir essas
correrias, nem procurar submetter seu primo; mas em breve, favorecido
pela fortuna, aprestou um numeroso exercito, e dirigindo-se aos
territorios de Galliza, avassallados pelos portuguezes, repelliu de
toda a provincia os invasores. Entretanto, apesar das vantagens obtidas,
não se attreveu a proseguir na aggressão, e Portugal, que n'aquelle
tempo abrangia apenas metade do actual territorio, conservou sempre
hasteado o pendão da independencia.
Assim duraram as cousas até que o anno de 1137 viu de novo rebentar a
guerra. Seguindo a direcção do enthusiasmo popular e a do seu genio
inquieto e bellicoso, Affonso Henriques alliou-se com os condes Gomes
Nunes e Rodrigo Peres e com o monarcha de Navarra, e em quanto este,
quebrando a especie de vassallagem que prestára, rompia as hostilidades
contra Affonso VII, o principe portuguez caminhava de victoria em
victoria, sujeitava os districtos meridionaes da Galliza, desbaratava os
mais illustres capitães inimigos, e iria ávante em novas conquistas,
se a tomada de Leiria pelos sarracenos e as suas tragicas consequencias
não lhe attrahissem a attenção para a defensa dos proprios estados.
Depois de asserenada a tempestade, que expunha parte das fronteiras ás
irrupções dos arabes, Affonso Henriques voltou a Galliza, onde já estava
tambem o rei de Leão; mas avistando-se em Tuy, os dous primos celebraram
pazes, e como de accordo volveram os olhos para mais nobre empreza:--o
proseguir n'essa longa, patriotica e tenaz cruzada da Peninsula contra
os mussulmanos, lucta encetada havia mais de quatro seculos, e cujas
probabilidades de completo triumpho já claramente se mostravam
favoraveis áquelle dos dous contendores, que, combatendo pelo
christianismo, tinha por si a força e o enthusiasmo, fructo de
convicções profundas e da certeza moral do dever.
A guerra contra os infieis foi favoravel ao filho do conde Henrique.
Penetrando até o coração do Al-Gharb, onde nunca desde a invasão dos
arabes os christãos haviam chegado, ganhou a batalha de Ourique, e
saldou assim com os sarracenos os ultimos damnos recebidos. A tradição
engrandeceu a pouco e pouco o facto, exaggerando o numero dos vencidos,
inventando apparições e milagres, e tecendo uma notavel lenda, que as
regras da boa critica historica irrefutavelmente condemnam. Se as
circumstancias, porém, são fabulosas, nem por isso foram pouco
importantes os resultados moraes d'essa batalha, que, habituando os
portuguezes a affrontar em campanha os agarenos, lhes deu animo e
vigor para futuras conquistas.
Terminada esta empreza, volveu o intrepido principe á lucta com os
leonezes. Apoz varios successos, em que a fortuna das armas ora pendeu
para Affonso VII, ora para o infante de Portugal, o grosso dos dous
exercitos avistou-se perto de Valdevez; mas o captiveiro dos mais
notaveis fidalgos de Leão, que em recontros singulares foram vencidos, a
conhecida ousadia dos cavalleiros. e homens d'armas portuguezes, e emfim
a vantajosa posição que estes occupavam, tudo isso e talvez algumas
outras causas, que as memorias do tempo nos não dizem, constrangeram o
orgulhoso filho de D. Urraca a sollicitar a paz. Ajustaram-se então
tregoas, deu-se liberdade aos prisioneiros, restituiram-se os castellos
reciprocamente conquistados, e os dous principes abraçaram-se no
campo de batalha.
Estes acontecimentos converteram a separação de Portugal em facto
consummado e completo. Tomando o titulo de rei, que havia muitos annos
recebia já dos seus subditos, Affonso Henriques realisou, em fim, o
altivo pensamento concebido por seu pae, desenvolvido largamente por D.
Thereza, e abraçado com ardor pelos barões portuguezes; e quando em 1143
os dous primos assentaram em Samora uma concordia definitiva, o
imperador das Hespanhas ou de toda a Hespanha, como se intitulava nos
seus diplomas Affonso VII, não poude escusar reconhecer a realeza do
principe que pozera magestoso remate no edificio da independencia
portugueza.
Prevendo, todavia, futuras disputas sobre a legitimidade d'esse facto,
que aliás nem as armas nem os tractados tinham conseguido impedir,
Affonso I resolveu collocar o throno á sombra do solio pontificio.
N'aquelles rudes tempos, em que a exaltação das crenças se associava
intimamente com a ferocidade e soltura dos costumes, o poder dos papas
tornára-se uma especie de dictadura, que todos os monarchas christãos
directa ou indirectamente reconheciam; e a influencia da côrte de Roma
era a espada suspensa por um fio sobre os thronos mais firmes, e ao
mesmo tempo como que a columna de fogo, que dirigia as dynastias
recentes na carreira das suas ambições. Acceitando as doctrinas
theocraticas então por assim dizer incontestadas, e aproveitando-as para
o intento quasi exclusivo a que se votára, o novo soberano fez homenagem
do reino ao summo pontifice, promettendo obediencia a S. Pedro,
sujeição nominal mais supportavel do que o preito ao imperador; e depois
de longas evasivas e ambiguidades, vicio que já então caracterisava a
politica da sé apostolica, alcançou a confirmação da dignidade real por
bulla de Alexandre III de 23 de maio de 1179.
A esse tempo havia já o monarcha comprado o titulo por bem caro preço em
quarenta annos de lides contra os infieis. Depois da larga campanha com
o imperio leonez os portuguezes tinham escolhido para theatro das suas
emprezas os territorios sarracenos; á lucta de desmembração succedêra a
de assimilação; e as conquistas de Santarem, Lisboa, Cintra, Almada e
Palmella em 1147, as de Alcacer do Sal e de Beja em 1158 e 1162, e
finalmente as de Evora, Serpa, Moura e Aljustrel em 1166 haviam
constituido a nacionalidade portugueza com a seiva e robustez
bastantes para resistir ás procellas que agitavam a Peninsula.
Taes são os lineamentos capitaes da historia da fundação da monarchia.
Julgando imparcialmente os homens e as cousas, não hesitâmos em affirmar
que o esforço dos portuguezes neste longo periodo é uma das
manifestações mais solemnes dessa tenacidade heroica, que nem se inebria
com o triumpho nem desanima com os revezes; desse affecto generoso e
altivo, que nos leva a luctar com a fome, com a sede, com a morte para
defender a terra que cobre as cinzas de nossos paes; dessa abnegação
nobilissima, que no meio da rudeza da epocha constitue gloria pura e
immarcessivel. Volvamos, pois, os olhos para as velhas glorias da
patria. O tracto dos que foram grandes e fortes livrar-nos-ha,
talvez, do lethargo febril que nos consome, revocar-nos-ha, por ventura,
á energia social e aos vividos affectos de nacionalidade. No meio da
indifferença ou do terror, que cérca a geração actual, ouvem-se como que
umas melodias suaves que vem consolar-nos dos males que nos affligem, e
dar-nos animo e ousadia para arrostar as tempestades que se enxergam no
futuro. É o cantico de recordações que nos legou o passado, recordações
tanto mais fecundas, quanto nos alimentam a esperança de que este paiz
tem ainda nobres destinos a cumprir antes de se envolver na bandeira do
fundador da monarchia, e de ir, emfim, occupar no cemiterio da historia
o largo jazigo das nações que morrem.
II
Ultimos annos de D. Sancho II
1245 A 1247
Era deveras tumultuaria a situação do reino na epocha que pretendemos
esboçar. Bandos de salteadores, para quem o viver era acaso e a morte
espectaculo quotidiano, assolavam os campos, infestavam as povoações, e
refugiando-se nos logares do asylo zombavam do castigo; os officiaes
publicos, attentos principalmente a saciar a propria crueldade e cubiça,
commettiam em nome do fisco toda a casta de prepotencias; e a
propriedade, invadida e devastada, em vão pedia segurança e invocava as
leis. Na côrte o desbarate das rendas publicas tornava desastrado e
temeroso o estado da fazenda, os ministros succediam-se rapidamente, e
as luctas de valimento multiplicavam-se, não se astringindo á guerra de
tenebrosos enredos, mas semeando cruentas discordias, que depois
encontravam nos solares, nos mosteiros, nas municipalidades, nos
herdamentos, nas maladias, nos páramos terreno fertil para germinarem,
crescerem e fructificarem. A anarchia, emfim, era por todo o paiz como
os fogos de terreno vulcanico; ao passo que n'uma parte se extinguia o
incendio, rebentavam em outras turbilhões de chammas.
Dotado de indole generosa, D. Sancho II procurára ao principio
attrahir todos os animos turbulentos e ambiciosos para um pensamento
unico, collocando-se á frente dos barões, dos cavalleiros nobres, dos
homens d'armas, da cavallaria e besteiros dos concelhos para continuar a
guerra de crença e de raça, no seio da qual a nação surgira, e que
parecia ser para ella um dos primeiros elementos de vitalidade e
robustez. Nos campos de batalha, sobresahindo entre os guerreiros mais
esforçados, mostrára-se digno neto do fundador da monarchia, conquistára
muitas povoações mussulmanas de grande monta, taes como Elvas, Serpa,
Jurumenha, Aljustrel, Arronches, Mertola, Ayamonte e Tavira, e
finalmente dera á auctoridade real o prestigio das victorias; mas as
desordens do governo interno invalidaram em grande parte o resultado das
batalhas com que se dilatavam as fronteiras pelos dominios
sarracenos. Depois o principe, que durante largo espaço quasi nunca
descançára a espada de conquistador, e que ao mesmo tempo pretendêra pôr
em pratica as severas leis de seu pae com relação ao clero, deixára
esmorecer o esplendor da gloria em annos de indolente repouso; e os
prelados portuguezes, aproveitando os descontentamentos e perturbações
que enfraqueciam a acção da corôa, começaram a trabalhar com fundada
esperança n'essa longa têa de enredos, de corrupção e de hypocrisia,
cujo remate tinha de ser a deposição do monarcha.
Varias circumstancias, dentro e fóra do paiz, favoreciam mais ou menos
os designios facciosos. Consistia a principal na situação em que estava
o papa, cuja intervenção era indispensavel, não obstante já ter Roma
perdido, pela dobrez e perfidia da sua politica, grande parte da
força immensa que havia conseguido com as virtudes austeras dos
primitivos padres. A Gregorio IX succedêra na thiara Innocencio IV,
intelligencia vasta e energica, mas irascivel, ambiciosa e indomita, que
logo mostrára querer sustentar com vigor as antigas doutrinas de
Gregorio VII e de Innocencio III. Era o novo papa affeiçoado a Frederico
II, imperador da Allemanha, mas este só viu no exito da eleição a perda
de um amigo, e não teve esperança de que terminassem as luctas
implacaveis e freneticas, que, accendendo a irritação em todos os
animos, dividiam o sacerdocio e a realeza. De feito, depois de muitas
negociações e tumultos, Innocencio, perseguido e expulso de Italia pelo
imperador, e repellido de França por S. Luiz, de Hespanha pelo rei
de Aragão, de Inglaterra por Henrique III, dirigiu-se a Lyão, e ahi
tractou logo de reunir um concilio para depôr Frederico. No seu animo
deviam, pois, causar profunda impressão as amargas queixas dos prelados
portuguezes, e movel-o a desthronisar o principe que ousava resistir ao
poder ecclesiastico, esquecendo-se não só de que a sociedade civil era
apenas imagem grosseira da sociedade catholica, mas até do signal de
vassallagem, que outr'ora se offerecêra á sé apostolica, e que tornava o
paiz de certo modo tributario do solio pontificio.
As circumstancias internas favoreciam tambem a empreza. Os interesses
oppostos, os ciumes do poder, os odios que resultavam da vehemencia das
paixões, a cubiça, a soltura de costumes, o amor de licenciosa
independencia, todas as desordens communs em tempos de ignorancia e
fereza, achavam então ensejo favoravel para se patentearem com audacia;
muitos fidalgos, além dos que haviam seguido a França o conde de
Bolonha, eram adversos a D. Sancho; e o povo, offendido pelo esforço
brutal com que os nobres exerciam impunes tanta oppressão, quanta lhe
permittiam a extensão dos seus dominios e a fortaleza dos seus
castellos, parecia indifferente á sorte do monarcha. Finalmente D.
Sancho, impellido pela mais energica das paixões humanas, o amor
contrariado e impetuoso, casára com a viuva de Alvaro Peres de Castro,
D. Mecia Lopez, filha do senhor de Biscaya, Lopo Dias de Haro, e de D.
Urraca, bastarda de Affonso IX de Leão; e esse consorcio augmentára
ainda a desorganisação interna do reino, pela desigualdade da alliança,
e pelas emulações e despeitos que desde logo suscitára.
Em tal conjunctura só faltava aos conspiradores encontrar um chefe,
capaz de substituir no throno o desditoso monarcha. D. Affonso, irmão de
D. Sancho, e conde de Bolonha pelo seu casamento com a condessa
Mathilde, foi o indigitado. Talento militar e politico, fôra elle um dos
que mais se tinham distinguido na famosa batalha de Saintes, dada por S.
Luiz a Henrique III de Inglaterra; ambição energica e tenaz, podia pela
nobreza do nascimento, pela indole altiva e valorosa, e pela influencia
dos fidalgos que de Portugal o haviam acompanhado, reunir em volta de si
todos os interesses feridos, e ser efficaz instrumento do trabalho dos
conjurados.
Julgando, portanto, o terreno preparado, e tendo a quasi certeza de
realisar amplamente esperanças por muito tempo affagadas, partiram para
Lyão os prelados do Porto e de Coimbra e outros descontentes a reunir-se
com o arcebispo de Braga, e ahi se queixaram ao pontifice, attribuindo a
D. Sancho o estado lastimoso a que havia chegado o reino. Acolheu
Innocencio de bom grado os prelados portuguezes, predisposto já em seu
favor pelas negociações anteriores, expoz o assumpto ao concilio, e na
semana immediata ao encerramento d'essa notavel assembléa, expediu aos
barões, concelhos, cavalleiros e povo de Portugal uma bulla, declarando
os varios delictos praticados por D. Sancho, e nomeando para a regencia
do reino o conde de Bolonha.
Escudado com as comminações do pontifice, e depois de ter assignado as
vergonhosas promessas de subserviencia ao poder absoluto,
illimitado, omnimodo do clero, promessas que só esqueceu quando viu que
o podia fazer sem perigo, partiu D. Affonso para Portugal, onde de feito
chegou nos principios de 1246. Não alcançou, porém, immediatamente a
realisação dos seus desejos. Muitas povoações importantes sustentaram
seu preito ao monarcha, muitos cavalleiros-villãos e besteiros dos
municipios resistiram á usurpação, e entre os proprios membros do clero
encontrou D. Sancho quem não fraqueasse ante as poderosas armas do conde
de Bolonha, e o stygma espiritual das censuras.
Teve, pois, o infante de recorrer, por um lado aos assedios e batalhas,
por outro ás dadivas, ás promessas, ás seducções de toda a especie; e se
em muitos cavalleiros e alcaides de castellos os calculos interesseiros,
as ligações de parentesco, a recordação de antigos aggravos tomaram
o passo sem escrupulo ás mais justas considerações, alguns houve tambem
que pelo nobre procedimento constituem exemplos memoraveis de lealdade e
energia. A defensa de Coimbra por Martim de Freitas, em que este teve de
vencer a audacia e vantagem dos sitiadores, e o desalento e desespero da
propria guarnição, abatida pelas fadigas, pela fome, pela sede, e acaso
pelos terrores que gerára o anathema pontificio, é d'aquelles grandes
factos que symbolisam uma epocha; mas quando a tradição não referisse
outros, ou quando a todos faltassem bons testemunhos historicos, a
diuturnidade da contenda, em tempo que não existiam exercitos
permanentes, provaria por si só o denodo e constancia dos fieis
partidarios de D. Sancho.
Apesar de tudo, porém, a fortuna das armas pendeu para o lado do
infante, e o infeliz monarcha, depois de se ter defendido com a coragem
que sempre mostrára no fervor dos combates, teve, emfim, de soccorrer-se
á alliança com Castella. Um corpo de tropas castelhanas, capitaneado
pelo valente conquistador de Murcia, o filho primogenito de Fernando
III, e de que tambem fazia parte Diogo Lopez de Haro, irmão de D. Mecia,
veiu dar novo alimento á guerra, que se protrahiu até os fins de 1247.
Chegou já tarde, comtudo, esse soccorro. A ambição e astucia de D.
Affonso, juntas a valor intrepido, tinham aproveitado todos os recursos
para se firmar em bases solidas o novo poder, e os intuitos generosos,
tanto da invasão, como das diligencias perante a curia romana, a que
ainda recorreu o principe castelhano, foram completamente mallogrados.
Vergado o animo pela desdita, D. Sancho preferiu o desterro a viver
captivo na patria, debaixo do jugo do irmão, e escolheu Toledo para
residir. O exilio veiu então completar-lhe a escola do infortunio. O
orgulho offendido, o desejo de vingança, a compaixão pelas desgraças da
patria, os remorsos dos erros commettidos, as vãs esperanças, emfim, que
nunca abandonam o desgraçado, rebatiam-se, travavam-se, recuavam,
succediam-se consumindo-lhe o coração. As memorias saudosas da terra de
que fôra senhor, gravadas como sêllo de amargura no intimo d'alma,
tornavam-lhe detestavel o presente pelo contraste do passado. Capitão
victorioso em muitos combates, açoute e terror dos sarracenos, tinha-se
engrandecido com gloriosos feitos de armas no conceito de amigos e
de inimigos, de naturaes e de estranhos; depois conhecêra por dolorosa
experiencia as intrigas da politica, as conspirações dos partidos, as
ingratidões e perfidias dos validos, o ciume e rancor dos despeitados; e
a final via-se deshonrado por uma sentença calumniosa e infamante,
despresivel para o povo que só applaude o triumpho, e podendo a custo
desafogar em actos de piedade e penitencia a dôr causada na sua alma
pelos vicios, pelas torpezas, pelas traições, pelas negruras d'aquelles
de quem mais devia esperar lealdade e verdadeiro affecto.
Na solidão irremediavel do desterro abreviou-se-lhe a existencia, a
fronte curvou-se para a terra, e antes de passar um anno depois de
foragido (janeiro de 1248) falleceu em Toledo, pedindo em testamento
que o sepultassem no mosteiro de Alcobaça, onde jaziam as cinzas
paternas. Nem essa ultima vontade, porém, lhe foi cumprida. Ha
infortunios que perseguem o homem ainda além da campa.
III
Batalha do Salado
1340
Reinava em Portugal D. Affonso IV, e em Castella seu genro Affonso XI.
Protrahia-se com varia fortuna a guerra entre as duas nações, porque os
laços de familia não tinham podido suffocar as discordias entre os
principes, quando o rei de Fez, Aly-Abul-Hassan, preparando-se para
invadir a Hespanha, reuniu um dos mais famosos exercitos, que
atravessaram o Estreito emquanto o crescente dominou na Peninsula.
Apparelhado tudo para a expedição, começou o embarque dos sarracenos, e
no decurso de cinco mezes quasi não se passou um dia, sem que as galés
muslemicas viessem lançar nos portos de Gibraltar e Algeziras novos
esquadrões de soldados. Reuniram-se a estes as tropas do rei de Granada,
Jusef-ben-Ismail, e sitiou-se logo Tarifa, povoação importante e
excellente ponto estrategico para proseguir a invasão e conquista.
Defendia-se energicamente a guarnição da fortaleza. A presença da armada
christã, que fundeára proximo á cidade, impedia de algum modo o
transporte de viveres e munições para o campo dos mussulmanos; e dava ao
mesmo tempo aos cercados a esperança de soccorro ou de refugio. Em
breve, porém, uma terrivel borrasca destruiu-a completamente, e tudo
então pareceu annunciar que ia bater a derradeira hora do dominio da
cruz n'aquellas terras, regadas já com o sangue de tantos martyres.
Em presença do perigo, o orgulhoso Affonso XI tractou de celebrar pazes
com o sogro e de lhe sollicitar a alliança, a fim de resistir á procella
que ameaçava rebentar sobre os seus estados. Cedendo á força das
circumstancias, e humilhando-se perante aquella que tanto offendêra e
ainda odiava, enviou sua mulher a el-rei de Portugal, rogando-lhe
prompto e poderoso auxilio; e depois veiu elle proprio pedil-o,
ponderando a multidão dos barbaros, o aperto do sitio em que estava
Tarifa, o risco com que se defendiam os cercados, e o muito que
importava a brevidade de soccorro, da qual dependia talvez a sorte de
toda a Hespanha. Satisfez D. Affonso IV a instante supplica, e
dentro de breve tempo partia para Sevilha, á frente de uma lustrosa
companhia de gente escolhida, posto que pouco numerosa, adiantando-se ao
grosso do exercito, que tinha de marchar mais lentamente por causa dos
petrechos de guerra e provimentos.
Juntos os dous monarchas, convocaram-se os prelados, os barões, os
mestres das ordens militares, os ricos homens, e entre todos se disputou
a conveniencia de soccorrer Tarifa. O susto fez ahi seu officio, e
muitos aconselharam se entregasse a praça aos mouros como condição de
paz, evitando-se uma lucta, que n'aquella conjunctura só por milagre não
seria funesta. Venceu, porém, o voto contrario, que foi o do rei
portuguez e o dos seus vassallos, e depressa o enthusiasmo substituiu
pela confiança o temor. Achavam-se ali reunidos os principaes
cavalleiros das duas nações rivaes; tinham de ser julgados uns pelos
outros; tinham de se julgar mutuamente; e tanto bastou para que a
emulação d'esforço se accendesse em todas as veias, exaltasse todos os
animos, dominasse todas as vontades. Resolvida, pois, a guerra,
dirigiram-se sobre Tarifa os dous monarchas, fazendo pequenas jornadas
por esperarem as tropas que de instante a instante engrossavam o
exercito; e no dia 27 de outubro, ao cahir da tarde, avistaram, emfim, a
multidão dos infieis, cujas tendas, derramadas pelas raizes dos montes e
pelos cimos dos outeiros, formavam como que uma cidade vastissima,
cercada por selva de lanças.
Logo que nas asperas cumiadas de _Peña del Ciervo_ fluctuaram os pendões
de Castella e de Portugal, juntos ao estandarte da cruzada, as
tropas mussulmanas, que se calculavam em sessenta mil homens de
cavallaria e quatrocentos mil infantes, unindo-se com a rapidez do
relampago e deixando o recinto das tendas, arrojaram-se para as margens
do Salado, e ahi aguardaram firmes o acommettimento dos inimigos. A
noite, porém, aproximára-se, e os principes christãos não quizeram no
meio das trevas começar a terrivel batalha, em que a fortuna das armas
tinha de resolver se os filhos da Peninsula deviam de novo curvar-se ao
jugo dos africanos.
No dia seguinte já o sol ia alto, quando o som das trombetas, dos
tambores, das charamellas, dos anafis, dos atabales deu o signal de
combate. O exercito portuguez, entoando o psalmo _Exurgat Deus_,
arremeça-se pela planicie, transpõe o rio por entre milhares de
frechas, que sibilam nos ares como saraiva espessa, e encontrando-se com
a hoste do rei de Granada trava uma lucta implacavel, frenetica,
vertiginosa. No meio da ebriedade do sangue, baralham-se amigos e
inimigos; as espadas faiscam nas espadas; as lanças, topando em cheio
nos escudos, nos capacetes, nos arnezes dão um som profundo, que se
mistura com o estalar d'aquellas que voam despedaçadas; muitos ginetes
correm á solta, nitrindo d'espanto e de terror; muitos cavalleiros
pelejam a pé; e os elmos e cervilheiras rolam pelo chão fendidos e
amolgados. A final os mussulmanos vacillam, e as suas fileiras, vergadas
em semicirculos, recuam ante a gente portugueza, ondeam, espalham-se e
abandonam o campo, procurando na fuga a salvação. Por outro lado as
tropas castelhanas, capitaneadas pelo principe de Vilhena D. João
Manuel, dirigem-se contra o exercito de Abul-Hassan, e depois de renhida
peleja conseguem romper aquellas grossas muralhas de homens, affoutos e
impavidos no primeiro conflicto, mas incapazes de resistir tenazmente ao
embate incessante dos cavalleiros christãos, que, poucos mas bem
armados, investem como leões onde mais acceso vae o travar da batalha.
Não ignoram elles que da sua audacia depende nessa hora talvez a sorte e
a gloria da patria. Emfim a guarnição de Tarifa, sahindo da fortaleza,
apodera-se dos arrayaes mouriscos; fere, mata, vence quasi sem combate
os que encontra; e derrama assim a ruina entre os inimigos, que, no meio
de completa anarchia, chegam a pelejar uns contra os outros, ou expiram
sem defensa nem gloria debaixo dos pés dos cavallos e dos troços de
infanteria.
Então o terror consumma o desbarato; e, pela volta da tarde, apenas do
brilhante exercito dos mouros de Africa e de Hespanha alguns milhares de
fugitivos, acompanhando os reis de Fez e de Granada, correm desalentados
diante dos cavalleiros christãos, que os perseguem incançaveis até perto
de Algeziras.
Grande numero de mussulmanos ficaram captivos, e foi immenso o despojo
em ouro, prata, armas e preciosidades de toda a casta. Convidado a
escolher d'entre essas riquezas a parte que lhe aprouvesse, D. Affonso
IV acceitou sómente alguns alfanges e bandeiras, e um clarim que
pertencêra ao rei de Granada. Os despojos, porém, daquella famosa
batalha constituiam o preço de menos valia para o monarcha
portuguez. Mais graves eram, sem duvida, os resultados de ordem moral.
Sahindo victorioso da empreza em que nobremente se empenhára, D. Affonso
IV cingira-se ás tradições, por tanto tempo esquecidas, das instituições
wisigothicas, que consideravam como dever impreterivel do principe estar
sempre á frente dos seus subditos, na hora dos grandes perigos e das
grandes glorias; renovára o brado de guerra contra os infieis, que
parecia ter de todo emmudecido desde a conquista do Algarve; patenteára
ao rei de Castella qual era ainda a ousadia dos cavalleiros e homens de
armas portuguezes; e sobretudo livrára a Peninsula da invasão dos
africanos, e dera a estes uma aspera demonstração de que não era empreza
facil, nem talvez possivel, subjugar de novo a Hespanha e o
christianismo.
IV
Morte de D. Maria Telles
1377
De todas as obras da creação é a mulher aquella em que mais
profundamente está gravado o verbo indefectivel e supremo da providencia
omnipotente. O seu nome resoa-nos como o de um ente predestinado para
nos servir de guia e amparo nos trabalhos e alegrias da vida; as suas
graças infiltram-se por cada sentido, e são para cada desventura um
balsamo, para cada descrença um milagre; o gesto, a voz, os meneios,
o volver de olhos, a ternura do sorrir, o perfume e brilhantismo dos
cabellos, tudo tem encanto indecifravel, que domina as vontades mais
isentas; mas no coração principalmente é que ha thesouros inexhauriveis
de generosidade e innocencia, e uma suave melancolia, que parece não ter
objecto, e que só é por ventura a saudade incerta mas indelevel da sua
origem divina. No meio das tempestades da existencia acalma-nos as
aspirações insensatas, as paixões fervidas, as esperanças mesquinhas e
heterogeneas, e consegue salvar-nos de nós mesmos, esquecendo resignada
as proprias dores, e exaltando-nos pela ternura e pela constancia ás
regiões ideaes e bem-aventuradas do puro sentimento. Ás vezes, porém,
anjo despenhado, a mulher arrasta-nos comsigo; devora-nos, entre
fingidas lagrimas e seductoras caricias, os annos, a energia, os nobres
affectos, os sentimentos honestos, as noções da verdade e do dever;
suscita-nos, desenvolve-nos, completa-nos as más paixões e os ruins
instinctos, e faz com que aquelle, a quem um louco amor fascina, desça
ao infimo grau da abjecção. Uma dessas mulheres, excepções que
infelizmente não são raras, foi decerto Leonor Telles, de cuja terrivel
historia, longa iliada de crimes, procuraremos narrar um episodio.
A affeição cega de D. Fernando havia já annos que tinha satisfeito as
ambições da mulher de João Lourenço da Cunha, alma soberba e ousada,
cubiçosa e perfida, que não se contentára de vêr a seus pés, desvairado
pela paixão, o moço e generoso monarcha. A corôa real, por tantas
vezes divisada em sonhos, sentia-a, emfim, segura na formosa fronte; os
ultrages, que recebêra durante a lucta, lavára-os largamente com o
sangue dos homens que mais odiava; e perante o seu olhar, sublime de
altivez e energia, não havia cabeça que se não curvasse, nem coração que
não estremecesse.
Fôra-lhe para isso preciso supplantar considerações sagradas; vencer
obstaculos poderosos; derramar pelo reino a devastação e a miseria;
aviltar o homem que tudo lhe sacrificára, riquezas, poderio, gloria, a
honra propria e a do nome herdado; mas que importam desgraças alheias a
um animo profundamente egoista? As balizas, que separam a iniquidade e a
justiça, o crime e a virtude, a abominação e a sanctidade, desapparecem
aos olhos do espirito reconcentrado n'um pensamento unico, e contra
uma vontade assim inabalavel póde haver difficuldades, mas não ha
impossiveis. Um processo de divorcio, julgado por juizes affectos a D.
Leonor, livrára-a de seu primeiro marido, que atterrado fugira da
patria. O repudio da infante de Castella, cujo casamento fôra
contractado em celebração de pazes, annullára o outro obstaculo. A
alliança com o duque de Lencastre, tractado impolitico e perfido, que só
póde disculpar-se por ser obra de animo turbado por suggestões
estranhas, fizera com que D. Henrique, entrando de repente em Portugal,
tomasse Almeida, Pinhel, Linhares, Celorico e Vizeu, atravessasse a
Beira, offerecesse proximo a Santarem batalha a el-rei D. Fernando, que
este não ousou acceitar, e cercasse e destruisse na sua melhor parte
a capital do reino, realisando assim os calculos de fria e paciente
vingança, que o instincto de tigre ensinára a D. Leonor pelas affrontas
ahi recebidas. Finalmente a influencia irresistivel da rainha no
espirito fraco do soberano conservára na côrte só aquelles d'entre os
nobres, que por sympathia, por gratidão, por temor, por intuitos
interesseiros ou por ligações de parentesco se mostravam inclinados á
nova ordem de cousas, e substituira á severidade dos antigos tempos o
brilho e a devassidão de uma côrte voluptuaria.
Apesar de tudo, porém, no regaço da opulencia e do poder, essa mulher,
ora hypocrita e vil, ora insolente e orgulhosa, receiava a cada instante
ver derrubado o edificio da sua fortuna, cimentado com o sangue de
tantas victimas. Quando a vida lhe sorria sómente esperanças e
venturas, parecia que descortinava no horisonte a victoria definitiva
dos adversarios, e acaso se lembraria de que semeára odios na terra, e
de que ainda não colhêra o fructo.
Entre os nobres que mais temia contavam-se os filhos de D. Ignez de
Castro. D. Diniz, o filho predilecto do rei justiceiro, achava-se em
Castella, e era odiado pelo povo que aos seus conselhos attribuia a
invasão de D. Henrique em Portugal. D. João, todavia, era geralmente bem
quisto, e no caso de fallecer o monarcha, podia ser um emulo poderoso
contra os direitos da filha de D. Leonor. Demais, levado por amor que
reputava sincero, e que talvez então o fosse, o infante casára
clandestinamente com D. Maria Telles, a qual, apesar de não ter já o
viço da primavera da vida, conservava ainda a flor e a graça de uma
formosura rica de seiva, pura nas fórmas, e dotada do enlevo que mais
prende e mais seduz, o de uma alma cheia de bondade e affecto.
Irmã da rainha e viuva de Alvaro Dias de Sousa, fidalgo illustre e de
linhagem real, D. Maria era respeitada pela severa virtude do seu
caracter, e querida pelas mercês que fazia, para as quaes lhe
subministravam fartos meios as rendas das suas muitas propriedades, e as
do mestrado de Christo, que lhe fôra dado para o filho, e que em grande
parte usufruia. Vendo-a, e accendendo-se-lhe a imaginação com essas mil
seducções, concedidas pela natureza ao sexo fragil, para que não haja
alma que se lhe não franqueie, ousára o infante confessar-lhe o seu
amor, e como a bella viuva, entre indignada e piedosa, lhe
respondesse que de reis tambem vinha ella, e que não era dama que se
sacrificasse aos devaneios ephemeros de um capricho, crescêra com os
rigores o affecto, e D. João recebêra-a por mulher, celebrando um desses
casamentos clandestinos, vulgares na epocha que tentâmos descrever,
epocha em que a hypocrisia estava já longe de ser tão rara como
geralmente se cuida, posto que as paixões ainda se mostrassem muitas
vezes grosseiras, impetuosas, indomitas.
Chegada a noticia ao conhecimento da rainha, esta em vez de se lisongear
com tal consorcio, que lhe podia servir de esteio na situação a que se
tinha elevado, julgou-o contrario aos planos que formára para collocar
na cabeça da filha a corôa de D. Fernando, e desde logo a morte da irmã
foi resolvida. N'aquelle peito de marmore só existia um sentimento
sancto e suave, o amor materno; e esse mesmo affecto apenas lhe inspirou
o desenho de novos crimes. Como conseguir, porém, sacrificar a irmã, e
desfazer ao mesmo tempo o favor popular de que D. João já gosava pelo
genio aventuroso e esforçado? Soprando na alma d'este as duas paixões
mais ferozes do coração humano, a ambição e o ciume.
N'uma conferencia com o infante communicou-lhe João Affonso Tello, irmão
da rainha e inteiramente dedicado aos seus interesses, que esta desejára
a sua alliança com a princeza Beatriz, e que se o casamento d'elle
infante não tivesse vindo destruir designios e projectos de longo tempo
affagados, a preferiria muito á do duque de Benavente, principe de
origem castelhana, odiosa por em quanto aos portuguezes, em cuja
memoria não se tinham desvanecido antigas inimisades, e cruentos e
recentes aggravos.
A perfida insinuação produziu o desejado exito. Dominado pela cubiça de
succeder no throno depois da morte do irmão, o filho de Ignez de Castro
só pensou nos meios de se livrar da que havia escolhido por mulher, mais
n'um impeto de ardor brutal e ephemero, do que por esse affecto intenso
e intimo, que se dilata com sereno contentamento até os extremos
horisontes da vida. Acceitando como verdadeiras accusações
injustissimas, ou, o que por ventura está mais proximo da verdade,
creando elle proprio essas calumnias, partiu logo para Coimbra, onde
então estava D. Maria Telles, e dirigindo-se a furto ás casas que esta
habitava, mandou arrombar as portas. Acordada de subito, a irmã de
D. Leonor levantou-se assustada e afflicta, e envolvendo-se n'uma colcha
que lhe cobria o leito, perguntou ao infante a causa d'aquelle
procedimento que tanto a offendia. Na voz, no gesto, nas lagrimas da
desditosa mulher traduzia-se a innocencia e a candura; no arrebatamento
de pudor e de colera, que lhe abrasava as faces, havia um energico
protesto contra a suspeita infame; mas D. João tornára-se inaccessivel á
justiça e á piedade. Accusando-a em altas vozes de divulgar o segredo do
seu casamento e de trahir a fé conjugal, arrancou-lhe a unica vestidura
que lhe velava a formosa nudez, e com um bulhão, com que nas vesperas o
presenteára o conde de Barcellos como que indicando-lhe o destino, a
feriu no seio e no ventre. Um grito indizivel de angustia partiu dos
labios da pobre victima, que, cerrando para sempre os olhos enxutos,
porque n'elles a afflicção estancára as lagrimas, teve apenas tempo para
invocar com o ultimo suspiro a misericordia de Deus.
Então em todos os rostos se viu pintado o espanto e o terror; a triste
noticia percorreu logo a cidade, e no povo a irritação dos animos
depressa chegou ao seu auge, mas o infante já havia sahido de Coimbra, e
dentro de pouco tempo, tendo alcançado o perdão d'el-rei, era acolhido
na côrte, como se não tivesse sido o assassino feroz de sua mulher.
Entretanto só para arrependimento lhe serviu o crime commettido. Lançado
o cadaver da irmã sobre a estrada por onde suppunha que a filha subiria
ao throno, D. Leonor Telles nem tratou de disfarçar quanto se
inclinava de preferencia ao casamento de Beatriz com um principe
castelhano; e o infante, perdida de todo a fé no amparo e protecção da
côrte, fugiu para as provincias do norte, e d'ahi para Castella, onde
acabou a vida no meio da saudade e dos remorsos, justa punição que se
tornou ainda mais dura, quando depois da morte de D. Fernando conheceu
que tinha destruido toda a possibilidade de succeder no throno, ao qual
de certo o elevaria o povo se não fôra o seu crime.
Nos livros dos chronistas e nos contos populares se perpetuou esta
triste historia; e ainda hoje no antigo castello dos templarios, theatro
do tragico successo, se mostra o quarto onde foi assassinada a boa e
desditosa irmã da nossa Lucrecia Borgia.
V
Tomada de Ceuta
1415
Rica mais do que nenhuma em homens e feitos grandiosos é a historia da
gente portugueza. Quem, lançando os olhos para um mappa da Europa,
divisa ao occidente da Peninsula este paiz, encerrado na estreiteza de
breves limites, imperceptivel quasi no meio dos grandes imperios da
terra; e considera que ahi existe ha sete seculos uma nação
independente, e que chegou a estender o seu dominio por uma parte da
Asia, da Africa, da America, e até ás regiões encantadas e indefinitas
do Oceano Austral, antevê logo n'esse povo grandes virtudes politicas e
guerreiras, e nos seus fastos uma excellente escola de enthusiasmo e
heroicidade. E se depois d'isso volta o pensamento para as recordações
bellas e puras, para os tropheus e monumentos honrosissimos d'esta
mimosa e abençoada região, que não deixou parte alguma no mundo onde não
chegasse um ecco das suas glorias de todo o genero, o resultado d'esse
estudo é a confirmação incontrastavel das primeiras impressões.