corações privilegiados. Não ha odio que ás lagrimas não cêda.
A Viscondessa via fugir-lhe a felicidade. Chorava.
A esposa tambem chora, ao ver desapparecer o navio, que, ao longe, lhe
conduz o esposo querido.
Santas e doces lagrimas, que tantas vezes tendes suavisado sobre a terra
os intimos e dolorosos soffrimentos, como é grandioso o vosso poder!
E vós mesmos, ó scepticos mascarados, que tão estupida e egoistamente
sabeis illudir as pobres victimas da vossa stulticia--dizei-nos--em
quantos escriptos, arrancados a corações honestos e indefesos, não
tendes vós encontrado o vestigio de uma lagrima?
Não ha sympathia que pela lagrima não brote e se enraize.
A lagrima é como um lago, na serenidade do seu correr e no reflectir das
suas imagens.
Para esse sangue d'alma--na suave expressão de um poeta--apenas ha um
remedio--a consolação.
A Viscondessa chorava e continuava indecisa.
Semelhante a um arbusto, que, açoutado pelo vento, deixa cahir sobre a
terra o orvalho; assim a Viscondessa, ao dar accôrdo de si, deixou cahir
no seu candido seio as perolas consoladoras do seu espirito.
Bemaventuradas perolas! e oxalá que todos assim as tivessem!...
XXX
Glorias do operario
Entretanto o nosso operario, agora já transformado em negociante, vai
seguindo o seu caminho, a despeito da intriga e da inveja, com que a
sociedade, em geral, costuma premiar o trabalho e a honradez.
Julio, retemperado no cadinho dos grandes soffrimentos, fizera-se homem
repentinamente. Julgando apagada a imagem da Viscondessa no seu
espirito, dedicou-se ao trabalho com fervôr. Levantava-se habitualmente
ás seis horas da manhã, ia receber as ordens da sr.^a Felisbella, e
partia. Só regressava a casa ás oito ou nove da noite, hora em que elle
tomava chá. E este programma, assim praticado, com a regularidade de um
pendulo de relogio, poucas vezes era transgredido, a não ser n'um ou
outro domingo.
A mercearia prosperara a olhos vistos. Diziam os freguezes, e com razão,
que a bôa alma de Francisco Alves em nada ficára a dever ao sr. José
Xavier.
Além da loja tinha, porém, Julio um escriptorio de commissões maritimas,
de cuja responsabilidade auferia annualmente sólidos e lucrativos
interesses.
Em poucos annos adquirira Julio o senso pratico, tão prudente, como
indispensavel nas cousas da vida. O nome de José Xavier acreditara-se
solidamente na _praça do commercio_. Muitos invejavam já a fortuna do
mercieiro; muitos o calumniavam tambem. Entretanto Julio, com aquelle
orgulho que só a consciencia sabe dar, era invariavel, senão implacavel,
na missão que voluntariamente se imposera.
Um dia apparecera-lhe na loja um conhecido, parasita do Chiado.
--Desejo fallar ao sr. José Xavier, começou o _Maryalva_.
--Um seu creado, respondeu Julio.
O recem-vindo descobriu-se solemnemente.
--Um negocio importante me traz aqui, continuou. Acabo de saber por um
amigo intimo que é V. Ex.^a não só um dos mais generosos cavalheiros
d'esta cidade, senão tambem que são brilhantes as qualidades que adornam
o elevado espirito de V. Ex.^a...
--Bem! e depois..., interrompeu o mercieiro.
--E depois, precisando eu de dinheiro, estou certo que V. Ex.^a m'o não
negará...
--A outra porta, amigo, rematou Julio.
--Sempre é bem malcreado..., rosnou o pretendente.
E sahiu.
Com estes factos, porém, contrastavam outros, dignos do maior elogio.
Amanhecera-lhe um mendigo á porta do escriptorio.
--Que quer aqui?, perguntou Julio.
--Eu senhor, sou pobre, não tenho cama, nem pão...--respondeu o
desgraçado.
E Julio, tirando uma libra do bolso, disse:
--Póde procurar-me todos os mezes para receber egual quantia.
E seguiu para o trabalho.
Julio transformára-se, pois, n'um homem severo, sem as paixões que
arrebatam, nem os egoismos que offendem. Á parte a propria felicidade e
a da sr.^a Felisbella, a quem elle tratava por mãe, pouco mais lhe
interessava n'este mundo.
Com a convivencia dos homens tornara-se concentrado, desconfiando de
tudo e de todos. Advogando de preferencia os proprios interesses, era,
todavia, generoso, para quem o devia ser.
Os pobres conheciam-no de longe. E Deus abençoava-lhe as acções,
tornando-o um homem rico, forte e corajoso.
XXXI
O que faz o talento
Uns sóbem e outros descem: é a roda do mundo. Á dos alcatruzes se
similha, segundo Sá de Miranda: uns para baixo, outros para cima, uns
cheios, outros vazios.
A vontade conduz á felicidade. Homem que sabe querer é homem de talento
ordinariamente.
O talento, por si, deixará de ser uma superioridade; quando a egualdade,
sob o mesmo grau, nivelar a educação e a instrucção.
O talento, comtudo, é variavel e complexo: para uns, ter talento é saber
grangear fortuna; para outros, é saber escrever e orar e discutir; para
outros ainda, o talento cifra-se na gravidade da apparencia, e no modo
austero da vida.
A mulher resume por via de regra o seu talento n'um olhar profundo, num
sorriso angelico e n'um espirito facilmente maleavel e insinuante.
A educação faz com que só o homem se ostente em meio do viver social.
A mulher tem uma esphera limitada: o seu mundo é a familia; a sua
convivencia o marido, os filhos, os parentes e os creados. Porisso se
crê, embora erradamente, que só ao homem aprouve Deus conceder o
talento.
A curiosidade é a fonte, não só da sciencia, em geral, como tambem de
toda a humana descoberta. Ora a mulher é sobretudo curiosa. D'aqui a sua
aptidão para todo e qualquer ramo da actividade social.
Somos pela emancipação da mulher. Desejára-mos vel-a ao lado de um
doente, consolando-o e distrahindo-o; desejáramos que as creanças
recebessem d'ella os primeiros rudimentos da linguagem; desejáramos, é
verdade, que por ella fossem exercidos muitos dos mesteres da vida: mas,
a par de tudo isto, somos abertamente contra a sua emancipação politica.
O talento não tem sexo. Ante a critica, ante a illustração, ante o
bom-senso, todos somos eguaes.
Joanna d'Arc, o typo da virilidade e do patriotismo, é por ventura
tamanha como Victor-Hugo, o grande, Victor-Hugo, o humanitario; George
Sand cathedra á altura de Byron, o primeiro poeta do universo.
Para que hesitar, pois? Onde o direito de menospresar aquillo que, ao
contrario, e em consciencia, devêramos santificar?
O que perde o homem é o orgulho, quando não é a inveja. A par de tantas
ambições vale-nos a preguiça, que as domina e refreia.
Porque subira Julio? que força occulta o tornava sympathico e favorecido
da fortuna?
Perguntae á felicidade quem a creou, quem lhe deu origem, quem a tornou
forte e independente!
O acaso é, muitas vezes, e sem o sabermos, a causa da nossa ventura e
das nossas acções.
Mas o acaso não é cego. Depende de uma certa presciencia do futuro.
Julio era modesto, primeiro titulo de recommendação. A modestia torna
sympathicos o talento e a virtude.
Depois, havia n'elle o bom-senso de esperar com resignação tudo o que,
durante a vida, lhe podesse sobrevir. Nada o surprehendia. Estava sempre
prompto para qualquer eventualidade, fosse ella de que natureza fosse.
Tinha, portanto, a rara sciencia de conciliar com a prudencia o
bom-senso.
Porisso tambem subiu, e porisso tambem subirão todos aquelles que assim
procederem.
O mundo depende de geito, apenas. Tão despresiveis são os demasiadamente
Catões como os demasiadamente relaxados.
No meio-termo está a lei de toda a sociedade humana.
XXXII
Vestigios e ruinas
Similhante a um velho castello roqueiro, coberto de hera e parietarias,
assim Alfredo vivia, doente, sem dinheiro, arruinado, mas generoso no
fundo.
O seu fato preto, invariavel em todas as estações do anno, principiara
de tornar-se velho e esverdeado pela acção corrosiva das chuvas doentias
e dos sóes abrasadores. A camelia desapparecera-lhe para sempre do seu
logar habitual. Emfim Alfredo, esgotados os derradeiros recursos
patrimoniaes, era mais um authomato da indigencia, do que
verdadeiramente um homem de espirito, critico e mordaz, qual n'outros
tempos o havia sido.
A sua extrema liberalidade, com os donos dos restaurantes e cafés, fez
com que, ainda durante algum tempo, elle podesse frequentar
gratuitamente estas casas. Passados mezes, porém, os donos dos
botequins, attentando-lhe nas botas rotas e nas calças fragmentadas,
quasi o despediram de vez, mostrando-lhe uma má e feia catadura.
Em tão afflictivo lance recorreu aos camaradas d'outr'ora. Nenhum delles
apparecia já. Todos--e cada um por sua vez,--o tentavam afastar.
Finalmente Alfredo, envergonhado de si e enfastiado do mundo, só de
noite apparecia. Evitando os credores, e cosendo-se com a sombra das
paredes, elle, o filho da luz e do magnetismo da vida, sollictou dos
amigos o pão ázimo da desventura. Á sahida dos theatros--pois que em
casa difficilmente os encontrava--esperava resignadamente a turba
jubilosa dos espectadores conhecidos; por vezes conseguira d'ella uns
magros vintens; por vezes tambem lhe sahira mallograda a tentativa.
Lembrou-se da Viscondessa, a quem, por um louco capricho, mentindo,
affirmára que partiria para o Brazil. Tudo em vão. O orgulho--desgraçado
orgulho!--abafára-lhe no peito esse passo miseravel.
Começou, então, o desalento, como um vidro moido, de consumir-lhe a, já
de si, inutil existencia.
N'um momento lucido em que o espectro da fome, esqualido e magro como
Satan, se lhe desenhava deante dos olhos com as cem boccas hediondas,
Alfredo, a par de um suor glacialmente cortante, experimentou o que
jámais e em sua vida experimentára--uma ancia de trabalho, para o qual,
em verdade, nunca se sentira predisposto.
Embalde, porém, lhe foram essas visões. Passageiro e ephemero se lhe
antolhou o iris da redempção sobre a terra.
Sonharia acaso? Trabalhar... e em que? A intelligencia havia-se-lhe
apagado, ao contacto de uma embriaguez quasi habitual. Sentir, era-lhe
impossivel, uma vez que do coração nada mais restava, além de uma
sensação perfeitamente estupida e material: e vontade, se a tinha, quasi
nem já se revelava.
Do rapaz d'outros tempos, galanteador e elegante, apenas restava uma
sombra. A barba medrára a esmo. O cabello, cobrindo-lhe a góla do
casaco, imprimia-lhe um aspecto singularmente triste e repugnante.
Encaral-o de frente o mesmo era que tomal-o por um salteador disfarçado.
Um dia, foi Julio casualmente surprehendido, no seu escriptorio, por
esta desgraçada victima de uma exaggerada e dolorosa ociosidade.
--Que me quer? interrogou o negociante.
--Eu, senhor, fui rico, e sou hoje pobre, Em nome da mulher, que ambos
amámos, venho pedir-lhe um emprestimo de duzentos mil réis...
--Em nome da mulher que só eu amei e que o senhor perdeu--convido-o a
retirar-se d'esta casa.
--Muito bem! uma vez que assim o querem, far-me-hei ladrão--exclamou
Alfredo.
E fez-se fabricante de notas falsas.
XXXIII
Causas e motivos
Diz-se geralmente que a humanidade esta enfêrma.
A mocidade padece uma horrivel molestia--o tédio.
A corrupção physica caminha a par da corrupção moral. As aguas são
detestaveis; o ar pouco sadio, contaminado de miasmas e de putrefacção.
De modo que as nossas cidades modernas são uns verdadeiros sorvedouros
de existencias humanas, onde os obitos crescem sobre os nascimentos na
razão de um por mil.
Com o movimento das calçadas o pó levantado, introduzindo-se pelos
olhos, pela bocca, pelo nariz, é tambem uma causa de lenta, mas real,
consumpção.
As phthisicas abundam. As molestias de garganta são quasi geraes. Os
homens sentem-se tristes, abatidos, sem espirito e sem vitalidade. As
mulheres, na maioria franzinas e chloroticas, arrastam uma vida
authomatica, sem consciencia nem utilidade.
Faltam os grandes prazeres do campo, os robustos passeios da caça, as
salutares digressões pelos pinheiraes, onde os pulmões se purificam ao
contacto do ar resinoso e sadio.
As praias frequentam-se por moda. Toma-se o banho, e vai-se a um salão,
eschola de dança e de galanteria. Ninguem pensa em passeiar á beira-mar;
e mesmo quando casualmente se passeia pela praia é mais por comprazer do
que por uma natural necessidade do organismo.
Ora tanto o mar como o campo são bons pelo resultado, que d'elles se
tiram. Não só o corpo, mas tambem o espirito devem tomar parte nos
vastos panoramas, nos horisontes limpidos e no vago da natureza.
É verdade que a demasiada concentração póde conduzir a uma nostalgia
perigosa; entretanto, entre dois males, é muito preferivel a tristesa,
embora sombria e consumidora, á alegria extravagante, brutal e
insensata.
Não, meus bons rapases, não é assim que se vive. Vocês são doentes,
porque não têm um ideal, um trabalho util, uma missão civilisadora.
De que vos servem os cafés, com os seus jogos de _dominó_?--Antigamente
conversava-se, contavam-se anecdotas interessantes, e ria-se a gente com
a familia, mas com aquelle bom riso infantil, que é a demonstração de
festa e de regosijo. Hoje não. Hoje, como nos bons tempos romanescos, ha
a cima de tudo isto o aborrecimento de tudo e por tudo.
Ora, minhas senhoras, se a vida em si é triste, façamos por tornal-a
agradavel e util--util sobretudo.
Alfredo era a perfeita imagem do que deixamos dito. A syphilis
contaminara-lhe o organismo. Á pobresa de sangue reunira-se a pobresa de
espirito.
É o que succede com a maioria dos rapazes: quando chegam a completar um
curso estão velhos na intelligencia e gastos no corpo.
Para tamanha molestia um unico remedio ousamos aconselhar:
_--limpeza--_
isto é:
_--campo e mar--_
Que s. s.^as, os senhores facultativos, se não irritem comnosco por tão
interessante descoberta.
XXXIV
Latet anguis
A primavera, a doce filha da harmonia e da luz, desentranhava-se em
flôres e fructos. Rejubilavam as aves no arvoredo frondente. O céu era
azul, limpido. Nem uma nuvem lhe maculava a superficie chrystallina e
pura.
Nada mais delicioso do que esta rapida transição de uma estação, agreste
e fria, para uma outra agradavel e sympathica. Dir-se-hia que um velho,
sulcado do rugas, se metamorphoseára subitamente, como o Fausto, n'um
elegante moço, cheio de vida e de aspirações.
As arvores, toucadas de flôr, recebiam das auras vaporosas o amoroso
abraço de todos os annos. O sol, dourando com as suas palhetas luminosas
os arbustos vividos e scintillantes--reflectia-se suavemente sobre as
aguas do ribeiro, que, em amoravel ondulação, serpeavam atravez os
terrenos pedregosos, parando, ora atraz de um rochedo, com o qual
confidenciavam ternamente, ora atraz de uma planta, com a qual se
enroscavam de passagem.
Ao longe os pinheiraes acordavam as solidões com as vibrações da sua
harpa plangente. O rouxinol, casto como a andorinha, desferia a medo o
seu eloquente hymno de amor. É que elle o artista, filho do céu e do
canto, pressentira, primeiro que nenhum outro ser da creação, o
aproximar alegre do sol e da vida.
Meiga como uma mãe dedicada, a pomba, symbolo de virgindade, arrulhava
de manso, muito de manso, como amante que não deseja ser escutada. E a
aguia, a altiva rainha do espaço, guindara-se, por entre nuvens, até ás
ignotas regiões do infinito.
Entretanto--e como que para contrastar--o peixe, o maldicto das trevas,
mal elevara a gélida escama ao lume d'agua, para logo a mergulhar de
novo, no lodo, sua morada habitual. O insecto, o desprotegido do dia,
esperava a noite, sua irmã, para assim deixar em paz o lobrego buraco,
para onde um raio de sol prestes o afugentara.
Os campos eram verdes e promettedores. Percorria-os o boi, quasi sem
cessar, na extrema paciencia dos animaes possantes.
A montanha, despindo o lençol, que durante mezes a envolvera--deixara de
alvejar, afim de se tornar um throno de contemplação e de magestade.
E de facto subia o lavrador á cumiada do seu monte, e de lá, passeando
os olhos avidos em volta do campo, com o qual, em verdes annos, se
matrimoniára--entoava cantos jubilosos e amigaveis.
E a aldeã, resplandecendo de feliz contentamento, apurava a sua saia de
chita que para os dias santos havia sido feita e arranjada.
Cecilia, porém, está de lucto. Os olhos verdes, fartos de chorar,
brilham profundamente como o abysmo dos mares. Ella é triste, coitada! e
sem esperança. Morrera-lhe o pai.
--Olha, Cecilia--dizia-lhe o velho na sua derradeira hora--parece-me que
o teu noivado só no céu poderá ter logar. Perdôa tu ao ingrato assim
como eu lhe perdôo...
E expirou.
Quatro mezes volvidos sobre este caso estava a pobre rapariga
profundamente mergulhada nos seus mais intimos pensamentos, quando uma
leve pancada, vibrada sobre o vidro da janella, a fez estremecer e
agitar.
Mal se levantara ella e já uma sombra, abrindo a vidraça, saltava de um
pulo para o centro da casa.
--O senhor prior por aqui?--exclamou a ingenua catholica.
--É verdade, minha filha. É justamente o teu prior que Deus manda a esta
casa... Sabia que estavas triste. Haviam-m'o dicto as estrellas do céu.
Consolar os tristes é um dever do bom parocho.
--E minha mãe, senhor padre João, consentirá ella...
--A cima de tua mãe está a voz do céu que aqui me traz. Conta-me a tua
vida, Cecilia. Não tenhas receio de mim. Eu saberei aconselhar-te.
A Egreja para tudo tem remedio. Só Deus sabe premiar os bons e castigar
os máus.
E o padre, procurando um escabello, foi sentar-se ao pé de Cecilia.
A rapariga, córando de pejo, conservára os olhos cravados no chão.
Assim durou, por alguns minutos, esta scena.
--Como tu és boa, minha filha--rompeu alfim o padre.
E, sem mais, imprimiu-lhe um beijo na face.
Assim, como a pomba ferida por caçador experiente, assim tambem Cecilia
tentara esquivar-se ás grosseiras amabilidades do seu respeitavel
parocho.
--Embalde--gritava o padre. É Deus que assim m'o ordena!...
E, ao longe, um guitarrista que passava cantava tristemente a seguinte
quadra de Gonçalves Dias:
«O amor da mulher é qual nuvem
Que o vento impelle no ar;
O amor da mulher é voluvel
É tão vario, como a onda do mar.»
XXXV
Critica
Nós não somos d'aquelles que exageradamente comdemnam o clero.
Nada mais santo, nada mais suavemente consolador do que o bom padre,
especie de medianeiro entre Deus e os homens.
Para quem não tem um pai natural; para aquelles que a Providencia exilou
do seu lado, e que a miseria acolheu no seu seio; para aquelles que,
longe do ruido e das alegrias do mundo, a sós comsigo mesmo sentem o
gottejar das proprias chagas; para os desgraçados, para os infelizes,
para os tristes, o padre, pela sua apparencia christãmente cariciadora,
é mais do que um companheiro, porque é um pai, enviado pelos anjos do
céu aos anjos da terra.
Não foram um simples vicio, uma vã ostentação, e um estulto prurido que
nos levaram a condemnar aquillo que, por sua natureza, deve ser
exemplar, vivo e sacro-santo.
Não! Se condemnámos o máu padre, como planta nociva á humanidade, foi
por um dever.
Quem tem irmãos, e filhas e esposa, não póde existir ao acaso, sem a
necessaria superintendencia em todos os actos da sua vida, d'ellas.
A mulher, que do collegio não tirou a educação conveniente, que um dia
experimentou a immoralidade do confessionario e os espinhos do mundo,
póde ser tudo, menos uma esposa, menos uma irmã, menos uma mãe.
O padre toma parte nas scenas mais luctuosas da familia: se adoecemos, é
elle que nos traz o balsamo ao espirito em trévas; se desesperamos, é
elle que nos faz ver o iris da bonança; se hesitamos, é elle que nos
encaminha e nos dirige.
Então, e porisso mesmo, é que o padre deve ser um bom homem.
O esboço que no precedente capitulo deixámos delineado, posto que
excepção, foi por nós fielmente observado.
Que se não illudam os espiritos timoratos e frageis. Quando máu, ninguem
mais severamente merece ser condemnado do que o padre.
Nas aldeias os exemplos multiplicam-se. A ociosidade, por um lado, e o
celibato, por outro, muito têm concorrido para essa cadeia de lorpesas,
a cada passo relatadas na imprensa e nas differentes casas de reuniões
publicas.
O fanatismo nunca foi religião. Seguir os preceitos do Evangelho, não é
perfilhar as doutrinas do sr. Sousa Monteiro nem as diatribes da
_Palavra_.
Amae-vos uns aos outros como eu vos amei--disse Christo.
Amemo-nos, sim, mas sem corrupção, sem egoismo, sem impuresa.
Que a esposa seja uma conselheira de seu marido e uma perceptora de seus
filhos--tal deve ser o desejo do bom padre.--Porque um padre é acima de
tudo um educador, e como tal carece de muita illustração, de muito bom
senso e de muita heroicidade.
Se os rapases não podem satisfazer a esta nobre missão, escolham-se os
velhos. Se com o clero periga a honestidade das mulheres, acautellem-se
os homens, e aprendam por uma vez a distinguir o bom do mau, aquillo que
lhes convém d'aquillo que lhes não convém.
D'outro modo continuaremos eternamente divididos, odiando-nos como
inimigos, e pelejando uns contra aos outros, cegamente, loucamente, sem
ideal, sem raciocinio e sem vontade.
XXXVI
Toldam-se os horisontes
Nem sempre a felicidade nos sorri. Quando menos o acreditamos,
embacia-se o prisma que sonhavamos perpetuo e immorredoiro, e as
illusões começam de cahir uma por uma.
É assim a vida; é assim o mundo: rodeado de formosas apparencias e
colmado de negra podridão.
Áquelles que possuem o raro condão de saber disfarçar as mais intimas
tristesas da vida; áquelles a quem Deus não dotou com o precioso
instincto da arte; áquelles, emfim, para quem a paciencia é a norma, e
que se não apaixonam, que se não arrebatam, que se não enthusiasmam,
gelados, mudos, frios como o sepulchro.--a esses, pouco pódem importar
as tristesas do poeta e as suas profundas melancholias, que são como que
o lento e sombrio finar da existencia.
Ó noites de agonia, noites de isolamento--como vós sois tristes e duras
de passar! O mundo, que vos detesta, ó doces e amargosas horas da
experiencia, foje de vós! Ao vosso lado só tendes os poetas e os
artistas e os sábios e todos aquelles que no horror da noite procuram o
ideal da humana perigrinação.
Bemdictas sejaes vós, companheiras do tumulo, porque me ensinastes o
soffrer!
* * * * *
A Viscondessa era um d'esses raros typos angelicos, que despresando a
opinião das maiorias, porventura o mais estupido de todos os
preconceitos. se entregam febril e vertiginosamente nas azas do seu
capricho, sem outro intento que não seja o louco voar atravez as
idealidades que de continuo se lhe desenham na mente esbraseada.
Eu gósto d'estas mulheres, d'estas candidas andorinhas, que,
superiormente ás outras mulheres, suas irmãs, se alimentam no tepido
halito da primavera, embriagadas e seduzidas pela doce irradiação do
céu.
Se péccam não é d'ellas a culpa. Quem poderá dizer á ave, á meiga filha
da luz: tu voarás para aqui? e ao rouxinol, o adoravel amigo dos poetas:
tu cantarás a taes horas? e ao oceano, o titanico athleta da creação: tu
não correrás? Quem?
A Viscondessa era uma creança com sêde de amor, boa e ingenua como todas
as creanças. Infeliz ou não--o certo é que um dia ella se encontrou sem
amante e sem dinheiro. Alfredo roubara-lhe o coração, e o que é mais
ainda--a crença no amor; Henrique, ingrato explorador, subtrahira-lhe os
titulos da sua fortuna. N'estes termos, que fazer? A quem recorrer se o
amor, assim e tão de subito--se lhe transformára em inimisade e a
fortuna em pobreza?
A Viscondessa, perplexa, hesitante, nervosa, chamou pela sua creada.
--Sabes Virginia--dizia ella á sua amiga--que estamos roubadas?
--Roubadas... minha senhora?!
--Sim, roubadas... e roubadas por Henrique, a quem nós n'esta casa
tratamos com um carinho de irmãs...
--Oh! meu Deus!... meu Deus!... e que havemos de fazer, minha senhora?
E Virginia beijou pela primeira vez na sua vida a angelica fronte da
Viscondessa.
A desgraça tem este condão mysterioso: torna-nos irmãos
involuntariamente.
--Não é verdade, Virginia, que tu nunca me has de abandonar?
--E quem pensará em tal, senhora Viscondessa?
--Pois bem: espera um bocadinho, que me has de levar uma carta á rua da
Emenda.
--O que V. Ex.^a quizer, minha senhora.
A Viscondessa sentou-se á mesa; tomou uma folha de papel e principiou a
escrever nos seguintes termos:
«Excellentissimo senhor Barão: