adivinhasse a triste situação em que actualmente me encontro, por certo
me desculparia estas instantes linhas. Entretanto, impellida pelas
circumstancias, quero acreditar que Vossa Excellencia se não furtará a
vir procurar-me hoje mesmo.
«E n'esta esperança fecho esta carta, tendo a honra de ser
De vossa excellencia
serva respeitosa
S. C.
Lisbôa
Largo de Camões
A Viscondessa de B***
..............................
Virginia, tomando das mãos da Viscondessa este bilhete, competentemente
sellado com o carimbo da casa, sahiu na direcção acima indicada.
XXXVII
Uma victima
E Cecilia? que será feito d'ella?
Pela callada das trévas, á meia noite, ha sombras que vagueiam pelas
ruas como visões informes, famintas, esqueleticas. Á sahida dos theatros
abeiram-se de nós vultos esfarrapados, cheios de dôr e de vergonha, que
nos estendem a mão carcomida e triste. Cada um d'esses vultos
representa, no grande drama social, uma consciencia offendida ou uma
crença ludibriada. Não se descobrem nunca esses desgraçados, porque não
desejam ser reconhecidos. Se é mãe e tem filhos, pede em nome dos
filhos; se é pae e tem familia, pede em nome da familia; se é só e
miseravel, pede em nome da miseria.
Cecilia não estava precisamente n'este caso. Cedendo, ainda que
violentada, ás seducções do parocho, que por toda a parte a seguia com a
voracidade de um lobo,--a joven aldeã, para quem o ideal se não havia de
todo extinguido, veiu para a capital. Pobre mulher inexperiente,
coitada! que media o mundo pela craveira da sua innocencia...
Emfim, depois de muito indagar, de muito ouvir e muito procurar, soube
ella que o Sr. José Xavier era negociante e residia em Alcantara.
Sem delongas deu-se pressa a rapariga em chegar ao almejado paraiso.
Quando subia a escada, açodada e veloz, como uma gazella, um creado a
reteve.
--Que quer vm.^cê--perguntou-lhe o guarda portão.
--Desejo fallar ao Sr. Julio--retorquiu Cecilia.
--Não é aqui que elle mora; póde procurar n'outra parte.
--Ai! não, enganei-me; é ao Sr. José Xavier que eu pretendo...
E n'isto Julio descia a escada. Cecilia nem sequer o reconhecêra. De
passagem, perguntou Julio ao creado quem era aquella mulher.
--Uma desgraçada que pretende esmola--respondeu o interrogado.
--Pois bem: mande-lhe dar dez tostões.
E o amo sahiu, sem, ao menos, virar a cabeça.
O primeiro pensamento de Cecilia foi correr atraz de Julio. Mas não!
Ella estava vexada, profundamente vexada de si mesmo. Até quasi chegou a
duvidar que fosse aquelle o seu antigo amante.
--Não, decerto não é elle... reflexionava ella comsigo.
--Aqui tem--exclamava o creado, offerecendo-lhe dez tostões--aqui tem,
póde retirar-se.
Cecilia acceitou a esmola authomaticamente. Muda, sem proferir uma
palavra, olhou para o homem como uma alucinada. Só depois, cá fóra,
trémula e nervosa, reconheceu a degradação por que havia passado. Uma
dolorosa agitação lhe percorria os membros febris. Não podendo mais
conter-se, transbordando de raiva e de agonia, desmaiou sobre as pedras
da calçada.
Ó sociedade, ó mysterio dos mysterios, quanta victima tua, não terá
perecido assim, á fome, ao relento e ao frio?
Ó humanidade, ó triste e ignorado _Ashawerus_, como é espinhosa a tua
sorte e tremendo o teu fadario!
XXXVIII
Julio feito barão
--Póde vossa excellencia acreditar, senhora Viscondessa, que emquanto eu
viver nada faltará n'esta casa.
--Oh! Deus o abençoe, senhor barão...
--Agora--e antes de me retirar, permitta-me vossa excellencia, que sem
abusar da sua generosidade eu lhe narre em breves traços uma pequena e
eloquente historia ha pouco succedida entre nós: «Ha de haver já
bastantes annos que um homem ignorado (nada importa o nome) veiu
procurar trabalho em Lisboa. Fugido á lei que o perseguia e afastado da
mulher que amava--entrou n'um theatro. Entre as damas que pela sua
belleza mais realçavam destacava-se uma a quem esse desgraçado entregou
o coração e a vida. Mas, ai d'elle! A sorte perseguia-o horrivelmente.
Elle, coitado, era apenas um operario, um modesto operario, e ella uma
aristocrata, uma distinctissima aristocrata. Correram os dias. O
miseravel, vendo-se fortemente abalado na sua dolorosa existencia,
abandonou a fabrica, e fez-se escudeiro d'essa senhora. Nem um gesto
sequer elle perdera, emquanto lhe fôra dado viver n'aquella casa. Tudo
aproveitou o desventurado, curtindo a sós comsigo a immensa paixão que
tristemente o devorava. Um dia, porém, em que elle, porventura mais
agitado do que nunca, pretendêra subtrahir-se aos fidalgos olhares da
sua ama, uma fatal circumstancia o obrigou a deixar aquella casa.
--Então foi o sr. barão...
--Mais duas palavras, minha senhora, e eu termino: «Infamado e corrido
de vergonha entregou-se o desventurado moço ao trabalho com ardor.
Próspera lhe correra a fortuna. Amparado por dois velhos, hoje mortos,
que durante os primeiros annos lhe serviram de paes progrediu José
Xavier tornando-se honrado e bem quisto dos seus semelhantes. Depois...
oh! depois... Vossa excellencia sabe o resto...
--Sim! depois José Xavier foi feito barão, encontrando na Viscondessa de
B*** a sua mais pura e desinteressada amiga.
E Julio, curvando-se, beijou solemnemente a mão da Viscondessa.
XXXIX
Denuncias e suspeitas
Alfredo, sem recursos, recorreu ao ultimo expediente de um vadio bem
educado: tornou-se falsificador de notas.
Os proprios amigos d'outros tempos, ao saberem d'este facto,
denunciaram-n'o á policia.
Dahi em deante principiaram as indagações e as pesquisas. A lei não
afrouxára em seus esforços. E o certo é que uma manhã Alfredo acordou
n'um calabouço, quasi sem luz e abandonado aos vermes.
O processo correu perante o ministerio publico. Abundaram as provas.
Alfredo era realmente um criminoso. O jury, dando o seu _veredictum_,
houve por bem coudemnal-o a degredo perpetuo, para as costas de Africa.
Embalde lhe foi a appellação interposta pelo advogado para o Supremo
tribunal de justiça. Confirmada a pena o réu teve de partir.
No dia aprasado para a partida, Alfredo, inquieto, nervoso, tremulo,
agitado, pediu papel e tinta. Por uma graça especial fôra-lhe deferido o
requerimento.
Tomando a penna o degredado traçou no papel as seguintes linhas:
«Excellentissima senhora Viscondessa, e minha dedicada amiga.--Seria
vil, e muito vil, que eu, ao deixar esta cidade, me não lembrasse de
Vossa Excellencia. Cheio do contricção e de arrependimento permitta-me
pois, Vossa excellencia, que, por um pouco, ajoelhe ante a sua imagem
generosa.
«É um criminoso que lhe falla, minha Senhora. É um triste e miseravel
peccador que vem pedir-lhe perdão. Conceder-lh'o-ha Vossa excellencia?
Sim! Alfredo não existe já. Condemnou-o a sociedade em nome da lei.
Condemnaram-n'o os seus crimes.
«Dentro em pouco, vestida a estamenha do degredo, o meu nome não terá
razão alguma de ser. Vegetarei como um cadaver, que, privado do
espirito, se vai decompondo fibra a fibra.
«Os homens não me perdoaram. Foi-me negada a honra: tudo me foi negado.
E entretanto eu tinha de viver...
«Vossa excellencia de certo comprehende este terrivel problema do mundo.
Entre duas infamias preferi esta, justamente por ser a maior.
«E assim como os homens foram ingratos para commigo, assim tambem eu fui
ingrato para com Vossa excellencia.
«Perdão, perdão para mim, minha santa amiga, perdão para mim que não
pensava!
«Eu era apenas um triste alucinado, que á maneira de uma sombra, errava
vagamente pelo mundo, com o doloroso pesadello de uma longa enfermidade.
«E porque não morri eu, então, céus?
«Para que mais prolongar este acerbo calix de amargura?
«Não creio nos homens como não creio em Deus.
Deus!... Mas porque infinita maldição me sahe esta palavra dos labios?
«Ah! sim, está ali... bem o vejo... o infernal carcereiro...
«Mas como? Deus com aquella barba? Deus tão velho? Será possivel?
«Ai! senhora Viscondessa, que a febre escalda-me os labios resequidos.
Se ao menos, Deus me trouxesse agua...
«Adeus, minha boa e dedicada amiga; adeus para sempre.
«Nas suas noites de prazer não s'esqueça de libar por mim--por mim, pelo
miseravel condemnado da sociedade, sua irmã.
_Alfredo._»
..........................................................................
--Um pobre rapaz, coitado!--exclamou a Viscondessa, ao terminar a
leitura d'esta carta.
XL
Ao hospital
Do calabouço passaremos ao hospital. Tudo é enfermidade: com uma
differença apenas--e é que, n'uns adoece o espirito, ao passo que
n'outros adoece o corpo.
Ao percorrermos aquelles longos salões, onde só a doença tem o seu
throno e a morte o seu prestigio; ao pararmos junto d'aquelles leitos
empobrecidos, onde os gemidos da miseria se cazam tristemente com a
dolorosa suavidade da esperança; ao palparmos as chagas, as desventuras
e as mil angustias porque passa a humanidade n'este mundo; ao vermos
tudo isto, o espirito vacilla realmente, e o coração sente-se fatal e
impetuosamente abalado em tudo o que ha de mais santo, de mais nobre e
de mais digno á superficie da terra.
Adoecer na flor da edade, sem protecção, sem carinho, sem a meiguice de
uma irmã, de uma esposa, de uma filha--isso, só a pobreza o poderá
verdadeiramente avaliar.
Ha dores que se não exprimem, que se não definem, e que estão muito
acima das mundanas velleidades.
Como quer que seja, porém, Cecilia encontrou-se uma manhã no hospital de
S. José, doente, triste e perdida a esperança de melhores dias.
Uma phthisica fatal lhe devorava as entranhas, profundamente abaladas. A
tosse augmentava de minuto para minuto. As convulsões recrudesciam. Os
medicos desesperavam da cura. E os enfermeiros, os vis mercenarios do
corpo humano, abanavam as orelhas da cançados e aborrecidos.
Emfim soou a hora fatal. Após uma longa hemoptise, Cecilia abrio muito
os olhos, tornou-se verde--de um verde-negro e sombrio--fez um esforço
sobre si, regougou algumas palavras imperceptiveis, e cahiu para o lado.
Tinha expirado finalmente.
A aurora era então sem mancha; a cotovia annunciava um dia formoso. Tudo
vivia; a luz era o prologo do amor.
Arrastada para uma sala especial, unicamente destinada aos mortos, ficou
o seu cadaver em deposito, até que um esquife o levasse para o
cemiterio.
Sobre o corpo putrefacto d'aquella victima desventurada não houve sequer
quem derramasse uma lagrima.
É que o mundo, no seu estupido cynismo, pensa de ordinario mais em rir
do que em chorar!
XLI
Sorrisos e lagrimas
--Acredita-me, Mabilia: esta felicidade para nós é inalteravel. Deixa
que o mundo murmure no seu louco e estupido egoismo. Nada importa! A
openião das maiorias é, em quanto a mim, uma vil e dolorosa mentira.
Tendo-te a ti, que mais poderei eu ambicionar? Desafio os rios e os
mares para que venham arrebatar-me do coração a tua terna e doce imagem.
Que venham! E eu, impavido, arrostarei com elles, braço a braço, se
tanto fôr preciso.
--Oh! Julio, meu bom amigo, por Deus, não sejas mentiroso; não digas
aquillo que não sentes; se devéras me não amas, para que fallar em tal?
Olha que a experiencia, meu amigo, tem-me sido uma triste e dolorosa
desillusão n'esta vida...
--E és tu quem assim falla? Mas não vês, desgraçada, que essas palavras
me fazem escaldar o coração? Oh! por piedade, não me mates, Mabilia:
N'este comenos Virginia entrou na saleta. Interrompido o dialogo, o
nosso barão tomou, ao acaso, um jornal, que ligeiramente passou pela
vista.
Antes, porém, de o pousar, estacou em uma das locaes, e leu o seguinte:
«Falleceu hontem no hospital de S. José, victima de uma phthisica
pulmonar, uma pobre rapariga, por nome Cecilia da Silva. Parece que uns
amores mal correspondidos foram a causa de similhante infortunio. Por se
ignorar o nome do pae, que se suppõe viver na aldeia, foi o seu cadaver
sepultado no cemiterio dos Prazeres, com uma simples inscripção, gravada
n'uma pequena cruz de madeira.»
--Se me não engano já vi algures esta mulher!--regougou o barão,
repoltreando-se na cadeira, e lançando do seu excellente charuto
_havano_ uma longa e deliciosa bafurada de fumo.
XLII
Tableau
Agora o quadro.
Atravez os quatro personagens, distingue-se um mundo de miserias.
O barão dá o braço á Viscondessa; o dinheiro acaricia a formosura.
Eis a luz.
A doença caminha a par do degredado: o corpo corre parallelo com o
espirito.
Eis a sombra!
* * * * *
O espectador que ajuize.
Epilogo
Hontem o amor; hoje a pobreza; amanhã o esquecimento.
Post-scriptum
(Ao leitor)
Este romance não mira aos applausos da galeria. Tão pouco prima, nem
pelo complicado do enredo nem pelo difficil das situações. São capitulos
singelos, estes, que acabam de lêr-se, só pela arte inspirados e por
amor d'ella concluidos.
E a arte é a verdade.
Por muitos hão de estas paginas ser aborrecidas. Por muitos hão de ellas
ser odiadas. Nada importa. A consciencia acima de tudo.
Entendeu o auctor que era sobre tudo _descriptivo_ o romance moderno,
profundamente descriptivo, cheio de analyse, critica, de bom-senso e da
naturalidade; de pouco dialogo e de muita observação; havendo todo o
escrupulo em pôr de parte o devaneio, na dissecação dos homens e das
cousas.
Ao ideal d'este livro presidiram, pois, as realidades presentes e
passadas. O typo da Viscondessa, atraz esboçado, poderá não agradar a
todos, é verdade; mas é, no entanto, um typo real, perfeitamente real.
Uma mulher ingenua, simples, caprichosa, sacrifica o seu coração, a sua
tranquillidade, o seu amor a um elegante rapaz, filho dos restaurantes,
e, como os restaurantes, viciado e corrupto. D'aqui a perdição da heroina
e o triumpho do galã.
Outro tanto succede com a figura angelica da aldeã. Victima do
confessionario, cahiu, andorinha ferida, a quem roubam o ninho e os
filhos; sedenta de prazer, resvalou no abysmo.
Alfredo, se bem que generoso e sympathico, é, todavia, um moço perdido,
alucinado pelos vinhos e pelas grandes ceias, incapaz de conceber outros
pensamentos que não sejam o da sua indolencia e o do seu bem-estar.
Acaba porisso como, naturalmente, devia acabar--nas costas d'Africa.
O contrario quasi se dá com Julio. Trabalhando, vence os escolhos da
adversidade; convivendo com o mundo, torna-se como o mundo, calvo na
corrupção e no cynismo.
E muito de proposito, pois que não fallo aqui na mãe e na esposa,
dediquei este livro ás boas mães e ás boas esposas: ás boas mães, para
que sejam esmeradas na educação das filhas, e ás boas esposas, afim de
que saibam estimar a virtude, como a primeira e a mais indestructivel de
todas as riquezas.
A maternidade é uma fonte de boas acções. Quem sabe se foi este o
defeito da Viscondessa e de Cecilia? O santo amor de mãe despertaria
incontestavelmente n'estas duas mulheres outros mundos muito diversos
que não os da imaginação e os do capricho.
A logica não foi, pois, sacrificada. Antes pelo contrario temos fé em
que será ella a gloriosa redemptora d'este _enormissimo peccado_.
Coimbra,
4 de Fevereiro
da 1874
_O Auctor._
FIM.
INDECE
Pag.
Dedicatoria 5
Cap. I Um baile 7
« II A senhora Viscondessa 13
« III Alfredo 25
« IV Contrastes 37
« V No restaurante 45
« VI Sem sahir do mundo 53
« VII Entre amigos 59
« VIII De passagem 65
« IX Pobreza e miseria 71
« X Cousas dos homens 79
« XI Na taberna 85
« XII Perigos e consequencias 91
« XIII Continuação 97
« XIV Novos mundos 103
« XV Primeiros amores 107
« XVI Transformações 113
« XVII Allucinações 119
« XVIII O escudeiro da senhora Viscondessa 125
« XIX Falla o coração 133
« XX Casa burgueza 139
« XXI Considerações 143
« XXII Um hospede 149
« XXIII Transição 155
« XXIV Confidencia 161
« XXV Mais confidencias 165
« XXVI A Viscondessa 171
« XXVII Digressão 170
« XXVIII Ainda a Viscondessa 183
« XXIX Indecisões 189
« XXX Glorias do operario 193
« XXXI O que faz o talento 190
« XXXII Vestigios e ruinas 203
« XXXIII Causas e motivos 209
« XXXIV Latet anguis 213
« XXXV Critica 219
« XXXVI Toldam-se os horisontes 223
« XXXVII Uma victima 229
« XXXVIII Julio feito barão 233
« XXXIX Denuncias e suspeitas 237
« XL No hospital 243
« XLI Sorrisos e lagrimas 247
« XLII Tableau 251
Epilogo 253
Post-scriptum 255