E n'estas duvidas adormeceu a esposa do sr. Alves, merceeiro.

A noite, como todos os contrastes d'este mundo, corrêra alegre para uns

e triste para outros. A sr.^a Felisbella dormira umas boas oito horas,

ao cabo das quaes acordou, pensando no sr. Francisco.

--Ó Francisco, Francisco!--gritava a pobre da mulher com toda a força

dos seus pulmões.

E o sr. Francisco Alves assomou ao limiar da porta.

--Queres-me alguma cousa, Felisbella?--respondeu elle.

A mulhersinha enfiou, apenas viu o marido. Não sabendo com que

desculpar-se, calou-se. Porque a sr.^a Felisbella--diga-se já de

passagem--respeitava devéras o sr. Francisco, a quem na sua mocidade

entregára o coração e a vontade.

Como quer que fosse, porém, o sr. Francisco, prudente como os que o

sabem ser, entrou por si mesmo em explicações. Contou tudo o que durante

a noite lhe havia occorrido; recommendou finalmente o rapaz á vigilancia

de sua mulher, e sahiu.

Quando á tarde voltou a casa, communicaram-lhe que o doente já fallava.

Alegrou-se. N'esse dia bebeu mais um cópo de vinho ao jantar, e deu um

beijo na face direita da sr.^a Felisbella.

Decorrêra um mez.

Em casa do sr. Francisco Alves reina uma alegria desusada. É domingo.

Preparam-se todos para ir jantar ao campo. A sr.^a Felisbella dobra o

seu _chale de toukin_ branco e calça a sua luva de retroz preto. O sr.

Alves leva um chapéu de palha do Chili. E o nosso doente--agora já

restabelecido e companheiro de passeio--traja modestamente um fato

preto.

A comitiva, assim composta, seguia para Queluz. Impossivel nos fôra

descrever a amizade que n'esse dia reuniu aquelles tres entes queridos.

O sr. Francisco Alves brindou o seu hospede, appellidando-o com o doce

nome de filho. A sr.^a Felisbella sorriu devotamente; e a creada, a

velha creada, exclamou sentenciosamente:

«Deus sabe o que faz!»

XXIII

Transição

Na escolha do espectaculo manifesta-se, em geral, o bom gosto do

espectador. Não quero eu com isto dizer que, muitas vezes, não seja a

curiosidade o motor das nossas acções; mas, emfim, o que cumpre saber-se

é que n'um theatro, n'um circo, n'uma exposição está, por via de regra,

representada a civilisação de um povo.

O theatro é hoje o _rendez vous_ da moda. Nos espectaculos, e á vista de

dramas perfeitamente phantasticos e inuteis, aprendem as nossas

elegantes a soletrar os primeiros rudimentos do amor, do _coquettismo_ e

as supremas illusões.

Durante a representação, que devia ser eschola e estudo, occupam-se os

rapases em averiguar procedencias amorosas, em discutir escandalos, em

calumniar mulheres, em fomentar pequenas intrigas de bastidor, emfim, em

passar a vida, rindo á custa dos similhantes.

Ora a missão do theatro não póde, por fórma alguma, estar reduzida a um

mero passa-tempo, sem realidade e sem vantagem, que se possa dizer

immediata. O theatro não é simplesmente um divertimento para os olhos,

mas ainda mais uma lição para o espirito. Não se tracta apenas de seguir

a moda, o figurino, com receio de que os outros nos taxem de retrogados,

de inconvenientes, de provincianos. Por modo algum. Aqui o caso muda um

tanto de figura. É preciso que da nossa parte, haja o bom gosto na

escolha e o bom-senso da critica. Aliás não passaremos nunca de uns

miseraveis authomatos, sem consciencia, sem dignidade e sem brio.

Um dos primeiros empenhos do nosso seculo é agradar. E se é certo que o

habito não faz o monge, tambem não é menos certo que o monge se conhece

pelo habito.

É á França, aquella França egualmente grande pelo pensamento e pela

frivolidade, que nós devemos a introducção dos figurinos na sociedade

europêa. E note-se que o figurino em tudo preside actualmente, por

infelicidade nossa--na mesa, na litteratura, na industria, no commercio,

nas artes, na sciencia, absolutamente em tudo. Nas altas classes sociaes

pelo trajo de um homem avalia-se o trajo de todos os outros homens. No

campo da poesia pelo realismo de um poeta avalia-se o realismo de todos

os outros poetas. E assim seguidamente; porque a uniformidade, embora o

não queiram, é uma lei dos nossos costumes e das nossas cousas.

A elegancia é uma prova de bom gosto, indubitavelmente. Mas a elegancia,

como tudo o que nos pertence, deve ser individual, variada, como o

sentimento humano, e distincta, como o gosto de cada um, isto é deve ser

original.

Durante o inverno, por exemplo, vai-se ao theatro lyrico, não tanto

porque a musica nos delicie o ouvido e nos eleve o espirito,

obrigando-nos á concentração e á melancholia, mas, sim, e

principalmente, porque é do bom-tom, é _chic_ ter assignatura em S.

Carlos.

E apregoam-se já os beneficios da musica classica, como se a nossa

educação e o nosso temperamento nos permittissem ser uns perfeitos

entendedores das harmonias eminentemente profundas de Mozart, de

Beethowen, de Sthephenheller, de Schubert e d'outros mais.

D'aqui infere-se naturalmente que nós, um povo peninsular em quem deviam

brotar as magneticas expansões e os ardentes enthusiasmos, apenas somos

uns meros escravos da moda, indolentes por habito, sem o ideal que

seduz, e privados do raciocinio que illustra.

Os risos, francamente abertos e sinceramente verdadeiros, sóem ainda

encontrar-se nas classes medias, semi-burguesas, para assim o dizer. Só

o trabalho póde dar alegria. E porisso os que não trabalham conservam o

sorriso quasi permanentemente ao canto da bocca, um sorriso amarello,

felino, sorriso desgostoso e desconfiado.

O sr. Francisco Alves sabia rir, porque tambem sabia trabalhar. Não

frequentava os theatros, porque, á similhança dos da sua egualha,

desconhecia a moda totalmente. Vivia para a familia e com ella se

divertia. Tambem tinha amigos. Aos domingos chamava-os, reunia-os a si,

e ia para o campo, ficando-se por lá até á noite.

Comendo, bebendo e rindo á vontade, o sr. Alves estava no seu paraiso,

longe da serpente que tentou Eva a comer do fructo prohibido,

perfeitamente a bem com Deus e comsigo mesmo.

Bem hajam os que, como elle, comprehendem por este modo a felicidade

sobre a terra!

XXIV

Confidencia

Um dia a sr.^a Felisbella apparecêra de luto na missa da Ajuda, dando o

braço direito a um sympathico moço, alto e moreno.

Francisco Alves já não era d'este mundo. A mercearia passára a outro

dono.

«E uma vez que tanto lhe devo, sr.^a Felisbella--dizia o desconhecido

uma noite--forçoso se me torna narrar-lhe toda a minha vida. Fui pobre,

sem recursos. Minha mãe morreu-me nos braços. Coitada! Por amor de mim

soffreu e por amor de mim morreu tambem. Eu quiz trabalhar, e não

encontrei trabalho. Um dia prenderam-me sem culpa formada. Evadi-me da

cadeia. Vagueei incerto até que um honrado camponez me acolheu em sua

casa. Amei-lhe a filha, com quem prometti casar. Era uma boa rapariga;

chamava-se Cecilia. Envergonhei-me de estar n'aquella casa sem nada

fazer. Ella comprehendeu-me. Juntou as suas economias, e atirou-mas ao

regaço. Que prodigiosa abnegação, sr.^a Felisbella! E eu que até então

me chamava Julio vim para a cidade com este nome supposto. Alguns mezes

se passaram. Uma noite--que maldita noite aquella, minha senhora!--fui

ao theatro de D. Maria. Olhei para um camarote, e fiquei fascinado com o

rosto de uma Viscondessa. Depois vieram as allucinações. Tentei

esquecer-me d'ella, mas embalde! Fiz-me seu escudeiro. Apanhado n'um

armario, fui despedido por ladrão. Depois, oh! depois, cahi doente. O

sr. Alves encontrou-me...

(A sr.^a Felisbella limpou uma lagrima).

... e encontrar-me elle, o mesmo foi que estar eu com a Providencia.

Passou-me a loja--que me deu fortuna, e sobretudo passou-me o seu

nobilissimo espirito, que Deus tem em sua santa paz. A sr.^a Felisbella

sabe como eu o amei. Se nunca lhe pedi que me tratasse por Julio, e não

por José Xavier, foi--Deus me perdoe,--por suspeitar que elle se

irritasse contra mim.

E Julio, ajoelhando, beijou as mãos convulsas da sr.^a Felisbella de

Menezes.

XXV

Mais confidencias

Para muito se amar, quer-se silencio e solidão--dizia Balzac.

O amor é por natureza melancholico. Quem ama, soffre. A melancholia não

é uma doença physica, é apenas uma enfermidade moral.

Uma cousa é a tristesa, outra cousa é a melancholia: a primeira parte da

intelligencia e é, por via de regra, filha de intimas preoccupações; a

segunda origina-se no coração, e nasce de um sentimento, que só por meio

da pallidez do rosto exteriormente se manifesta. A velhice é quasi

sempre melancholica.

Entre a melancholia e a saudade existe uma profunda analogia: ambas se

concentram e ambas se alimentam no mesmo ideal, no amor.

A sr.^a Felisbella de Menezes, nos seus dias de vagar, sentava-se á

janella, e apoiando o queixo sobre as mãos, olhava vagamente as

montanhas, os rios e o céu.

Atravez a nuvem que passa e a estrella que scintilla e a lua que

enbranquece, existe sempre uma doce esperança infinita, ethérea,

incommensuravel, que nos é como que o acordar de um sonho de primavera.

Esperar é desesperar--diz o rifão. E entretanto todos esperam; porque a

esperança é o futuro, o glorioso amanhã da humanidade que soffre.

Para a mulher não existe o passado. Que importa o amor, que hontem se

finou com a ingratidão de um amante?

Deixae-nos correr um véu sobre as alegrias de hontem. Deixae-nos

esquecer, fingindo ignorancia e despreso.

O presente é um logogripho, que ninguem decifra. Se agora somos felizes,

quem nos diz, todavia, que essa felicidade se ha de prolongar,

tornando-se eterna e duradoura?

Ao passo que a curiosidade nos estimula o espirito em differentes

direcções, a esperança, pelo contrario, apenas nos incita na direcção de

uma linha recta, cuja extensão é o infinito, vagamente illuminado pelo

sol do futuro.

Oh! o futuro é a dourada cadeia, que põe directamente a terra em

communicação com o céu; o futuro, o que ha de vir, é sempre um orvalho,

que dulcifica os amargores da desventura.

Perguntae ao desgraçado que força occulta e mysteriosa o prende ainda a

este mundo de miserias.

Perguntae ao sabio porque estuda, e ao operario porque trabalha, e á mãe

porque ama, e ao filho porque obedece.

A esperança, para espiritos bem-formados, não é simplesmente uma suave

illusão, mas ainda mais uma verdadeira necessidade da nossa existencia.

Esperar é trabalhar com ardôr, viver com fé, existir com crença e

amizade.

De todas as virtudes sociaes a primeira inquestionavelmente é a

esperança.

O homem, de ordinario, procura a felicidade; a mulher espera-a. Por isso

a condição da mulher, embora mais triste e desconsolada que a do homem,

não deixa ainda assim de ser suavemente acariciada pelo balsamo do céu.

Ser feliz é saber esperar,

Julio adquirira em pouco tempo esta sciencia da vida, graças aos bons

conselhos da sr.^a Felisbella de Menezes.

Crêr, esperar e amar--taes são as tres joias preciosas, sem as quaes a

educação se tornaria esteril e inutil.

Sem crença não póde existir a sublime dedicação de esposa nem a adoravel

abnegação da mãe.

Sem amor, impossivel seria a vida da mulher, cuja missão é christãmente

consoladora e amiga.

Mulheres, que viveis na desgraça, se quereis ser felizes--acreditae no

santo amor de um filho, esperae de Deus a crença na maternidade, e vivei

na intima e doce consolação de vossos maridos.

A familia é amparo da misaria e arrimo dos que soffrem.

Felizes os que sabem cumprir sobre a terra a primeira e a mais

indiscutivel lei da natureza!

XXVI

A Viscondessa

São decorridos quatro annos.

A Viscondessa, docemente reclinada numa _chaise longue_, lê os annuncios

do _Diario de Noticias_, sorvendo, de quando em quando, uns gólos de

café, com a evangelica paciencia de uma mulher aborrecida.

Ao longo da parede do quarto destacam alguns quadros, representando,

entre outras, as magestosas imagens de Ninon de Lenclos, de Marion

Delorme, de Madame Pompadour, da Dama das Camelias, etc.

São nove horas da noite. Alfredo chega; põe o chapéu em cima d'uma

_ètagere_, onde, por acaso, se encontram algumas musicas em desalinho,

e, accendendo resignadamente um charuto havano, vem sentar-se n'uma

cadeira, defronte da Viscondessa.

Virginia, entrando pouco depois, trouxe uma bandeja de prata, coberta de

pequenas garrafas de licôr.

Alfredo sorri-se, o, com os dedos da mão esquerda, dá um geito gracioso

ás guias do bigode.

A Viscondessa, erguendo-se, dirige-se, a passo lento e medido, na

direção da porta de entrada.

--Então já Mabilia? (Era este o nome da Viscondessa.) Porque eu entrei,

assim te retiras immediatamente. Comprehendo tudo. Declaraste-me um amor

profundo, ethéreo, como só o sabe ter uma virgem, e hoje nem sequer

alimentas por mim uma indifferença vulgar, uma d'estas indifferenças que

um estranho facilmente dispensaria a outro estranho. Pobre de ti,

desgraçada, que jámais serás feliz n'esta vida... Quizeste ser rainha,

não é verdade? ao meu amor unico preferiste uma _coterie_ numerosa,

aduladora, que te lisongiasse o paladar já extincto? Pois bem: tu te

arrependerás um dia. Até lá, porém, lembra-te que será eterna e

implacavel a minha vingança, eterna como a Providencia e implacavel como

a tyrannia.

--E és tu quem me falla em vingança; tu, Alfredo, a quem eu, ainda pura,

loucamente entreguei o meu coração e o que é mais ainda a minha honra...

tu! o miseravel, que jurando amar-me te rias de mim nos botequins e nos

restaurantes; tu, emfim, o cynico seductor da minha ingenuidade e da

minha singelesa... oh! não... por Deus, não...

Alfredo, levantando-se, aproximou-se da Viscondessa, e, tomando-lhe a

mão direita, que elle apaixonadamente comprimiu contra o peito,

prorompeu nos seguintes termos:

--Mas ouve, Mabilia--tu bem vês que eu te amo; pois não reparas como

enlouqueço, se me negas a tua affeição? oh! não! tu não has de ser tão

cruel, que me despreses assim de um momento para o outro, não é verdade!

Ora escuta: não vês como bate este nobre coração? e tu has de deixal-o

assim... não... tu és boa, eu bem sei, e serias incapaz de commetter um

crime...

--Alfredo!... Alfredo!...

--Falla, Mabilia... dize, dize que ainda me amas só uma vez... e eu

serei teu, teu para sempre...

--Que te amo!... oh! se te amo!...

E a Viscondessa, pallida, cahiu desmaiada nos braços do seu amante.

No horisonte uma nuvem, passando, toldara momentaneamente o reflexo do

luar. Um doce silencio envolvia o aposento da Viscondessa, cuja face

livida se reflectira de um modo estranho á superficie de um longo

espelho de Venesa. Junto d'ella, ajoelhado quasi, estava Alfredo,

singularmente excitado e nervoso.

Um ignorado personagem, de longa barba até ao peito, baixo e gordo,

assomou ao limiar da porta.

--É a segunda vez, senhor Alfredo, que tenho a honra de o convidar a

sahir d'esta casa, disse o intruso.

--Com que direito?--retorquiu Alfredo, virando-se.

--Com o direito que me dá a minha honradez sobre a sua miseravel

corrupção.

--Senhor!..

--Duas palavras ainda; por Deus! não vale zangar: esta senhora que ahi

está prostrada e quasi morta, foi uma victima do seu cynismo, entende? É

mister que tudo isso seja pago e quanto antes. Aqui tem.

E passando-lhe uma pistola para a mão, o desconhecido, medindo dez

passos na sala, tomou a defensiva.

--Espero que a sua covardia se não estenderá ao ponto--continuou

elle--de fazer com que, em vez de um duello, se dê um assassinato n'esta

casa.

A Viscondessa, languida e sensual, descerrou as palpebras com infinda

morbidez.

No relogio da sala soavam onze horas da noite.

No céu a lua era sem mancha.

Um leve ruido apenas se deixava ouvir, produzido pelos passos na

calçada.

Subito uma detonação feriu os ares.

Alfredo, allucinado, desfechára a pistola sobre o desconhecido.

Uma nuvem de fumo envolveu, conjunctamente, a Viscondessa, a este tempo

já restabelecida, e o seu mysterioso protector, inanimado, ferido e

quasi cadaver.

Virginia correu veloz.

A Viscondessa, soluçando tristemente, chamava ainda Alfredo, sem de modo

algum haver notado a sua rapida fuga.

--Como eu sou infeliz, meu Deus!--exclamou ella.

E ao longe só os echos lhe repetiram os queixumes magoados.

XXVII

Digressão

A mulher nasceu para realisar a sua felicidade por meio do matrimonio.

Sem familia, pedra angular do grande edificio, chamado humanidade, o

progresso seria uma vã mentira e a civilisação um triste retrocesso.

O matrimonio é um complemento da vida humana. Se é verdade que para o

desenvolvimento do corpo carecemos de alimento e de hygiène, tambem não

é menos verdade que para o desenvolvimento do espirito carecemos de

amisade e de consolações.

Não ter familia o mesmo é que sentir o vacuo do espirito, isto é, o

isolamento da propria existencia e o horror da propria vida.

A prostituição da mulher não é simplesmente um vicio, por todos os

titulos condemnavel: é mais ainda--é a ausencia da familia.

Quantas mulheres se não terão perdido á mingoa do carinho maternal!

Entrae nos bordeis. Percorrei serenamente esses antros sombrios, onde a

sordidez se enlaça com o crime. Analysae o riso bestial da mulher

perdida. Não! Ella não se ri, porque ella, filha bastarda de uma

sociedade, que a repudia--ella, apenas, sabe contrahir-se, agitar-se,

fingir, e á maneira de uma féra, aproximar-se dos que lhe trazem comida.

A mulher, que uma noite se vê sem pão, sem officio, sem familia,

prostitue-se ao amanhecer.

E o mundo--que ingrato mundo!--cospe-lhe na face o negro anathema do

desdem o do desamor.

Mulheres, que habitaes a lobrega mansão da desgraça, sabei que se a

opinião vos condemna--o coração absolve-vos!

E depois, de que vos vale a opinião? Que vos trouxe ella na hora da

desdita? Sabe condemnar-vos? Pois bem, em vez da maldição pedi-lhe

virtude e amor.

Oh! a opinião! sua excellencia a deusa opinião, essa é que é de facto a

grande prostituta.

A necessidade conduz a mulher pelo caminho da perdição. É um fado de

todos os dias. Tambem é a necessidade quem conduz o homem pelos atalhos

do crime. Sabiamol-o. Ganhar para comer é uma lei da naturesa. Se os

meios são máos os fins é que são rigorosamente os mesmos. Deixemos as

lamentações para os Jeremias do seculo.

A opinião que se aproxime. Mas quem é ella?--o dinheiro que suborna? a

politica que corrompe? os parasitas que avassalam? o impudor que exulta?

o vicio que contamina? o luxo que esterilisa? a infamia que cresce?

E sabes tu, minha _cocotte_, porque te chamam mulher perdida, sem honra

e sem pundonor? Pois bem, fica aprendendo--é porque tu és simplesmente

uma filha da desgraça.

Queres, porém, ser honesta, virtuosa e candida?

Procura uma familia; trabalha na doce companhia de teu marido; mostra ao

mundo os teus filhos--os filhos das tuas entranhas e do teu amor: que te

importa depois a voz da opinião--a opinião está como a realesa, está

gasta e pôdre.

A Viscondessa não estava, de certo, n'este caso. Uma boa mãe, um bom

marido, um filho terno, tel-a-iam salvado do abysmo que a esperava.

E quantas vezes não é o instincto da maternidade a causa do vicio e do

crime?

XXVIII

Ainda a Viscondessa

No meio de todas as suas loucuras era a Viscondessa uma nobre e

esplendida mulher.

Uma trança preta, côr de azeviche, lhe cobria o cóllo de cysne. A bôcca

esculpturalmente pequena, quasi se desfazia n'um beijo, ethéreo,

imperceptivel, como o ar. Uns olhos verdes e profundos, como os abysmos

do mar, a tornavam simultaneamente imperiosa e meiga. A pequena mão

aristocratica, eclipsava-se-lhe por vezes sob as rendas e os _puffs_ do

vestido. E o pé, ai, o pé era um primor, um verdadeiro primor. Calçava

de ordinario um sapato de setim azul, perfeitamente ajustado a uma meia

de seda, cuja transparencia nos faria logo perguntar com Alphonse Karr,

onde ella collocava a liga--se abaixo se acima do joelho. O seio

arfava-lhe debaixo do espartilho n'uma suave e doce ondulação, symptoma

evidente de uns vedados e amorosos paraisos.

Ás vezes a Viscondessa sahia a cavallo, trajando de amazona. Um véu azul

lhe encobria as feições gentis--similhantemente ao sol, que de subito se

vê surprehendido por uma nuvem. Os admiradores seguiam-lhe o trote do

cavallo, até que ella se perdia na sombra das estradas.

Na praia, a Viscondessa, com os cabellos desgrenhados aos ventos,

poder-se-hia dizer uma actriz sublime, que, no ardor da tragedia,

embriaga os espectadores. E era de vêl-a depois, sahir do banho, com as

fórmas do corpo, exteriormente desenhadas n'um vestido de baetilha... um

encanto...

Depois dos successos precedentemente narrados, a Viscondessa entrára-se

n'uma mysteriosa e doce melancholia. Ninguem, absolutamente ninguem, lhe

poderá adivinhar os intimos pensamentos. Em que pensaria ella? que fatal

preoccupação a distrahia constantemente?

Imagine-se o leitor no mesmo quarto, onde se deu o triste incidente de

alguns dias. O desconhecido duellista, mais que restabelecido, devora um

charuto com solemne lentidão.

--E agora que estou melhor--dizia elle--deixe-me vossa excellencia

declarar-lhe tudo o que penso, tudo o que sinto e tudo o que quero.

Eu--senhora Viscondessa--era um negociante de poucos recursos.--Um dia

tive a fatalidade de a vêr. Segui-a, frustradamente. V. ex.^a, em meio

dos seus esplendores, nem sequer me notáva. Soube que havia um baile em

casa da senhora Viscondessa. Consegui ser-lhe apresentado. Entrei. Creio

que V. ex.^a nem attentou na minha pessoa. Desgraçado de mim! Estava

irremediavelmente perdido. E perdão, senhora Viscondessa! Occultei-me

indiscretamente atraz de um reposteiro. Depois... ai de mim... um punhal

se me cravára no coração. Louco, estupidamente louco, arremetti contra

Alfredo. Elle intimou-me a sahida. Fugi. Por todos os modos tentei

fazer-me observado por V. ex.^a. Vendo a impossibilidade dos meus

esforços, recorri a este ultimo expediente. Fui eu a victima. V. ex.^a

na sua generosidade, tratou-me e prestou-me todo o auxilio que

humanamente podia offertar-me. Pois bem. O meu nome é Henrique, e sou eu

que hoje lh'o declaro, e a sós, sem testemunhas--Amo-a, minha senhora, e

amo-a muito.

Perdão, senhor Henrique,--retorquiu gravemente a Viscondessa. O sr. é

meu hospede, e abusa tristemente da minha confiança. Depois da

provocação feita pelo sr. Henrique a Alfredo, o unico privilegiado do

meu coração, ser-me-ia de todo impossivel ter por V. ex.^a a minima

sympathia...

Henrique, exasperado e colérico, aproximando-se da Viscondessa,

segredou-lhe ao ouvido as seguintes palavras:

--Assim como soube amal-a, saberei tambem odial-a.

N'este comenos entrava Alfredo.

--Muito folgo--minha senhora e meu senhor--em os encontrar aqui

juntos--dialogou elle.--Á senhora Viscondessa, a quem sou devedor dos

maiores beneficios, venho pedir perdão do lamentavel facto aqui

succedido. A este senhor nada direi. Em breve conto partir para a

America; e n'este sentido me despeço de V. ex.^a minha senhora,

jurando-lhe a minha gratidão que será eterna.

--Então parte?--exclamou anciosamente a Viscondessa.

--Sim, minha senhora; negocios impreteriveis me chamam ao Rio de

Janeiro.

--E é, pois, irrevogavel a sua partida?

--Sem duvida; irrevogabilissima, senhora Viscondessa.

E Alfredo, despedindo-se da amante, sahiu.--Henrique acompanhou-o. Cá

fóra. porém, cada um tomou pela sua rua.

Mabilia ainda veiu á janella. Máu grado seu, Alfredo havia

desapparecido.

Julgando-se para todo sempre perdida, chorou então a Viscondessa, e

chorou como poucas mulheres talvez tenham chorado n'este mundo.

XXIX

Indecisões

O orvalho vem do céu á terra; as lagrimas sóbem da terra ao céu.

Mulher que chora, é mulher que sabe amar.

Porque muito chorou, perdoou Christo á Magdalena do Evangelho.

As lagrimas são como o balsamo: retemperam e dulcificam.

Felizes os que sabem chorar!

A creança é como a aurora: ambas choram e ambas alegram.

Em pranto de mulher não se póde crêr--diz o rifão.

Será verdade que ás lagrimas dos olhos nem sempre correspondem as

lagrimas do coração?

Chorar sempre é chorar--affirma um poeta e com razão.

Nada mais facil do que calumniar uma mulher. A nossa sociedade está

colmada de espadachins. Todos os nossos rapazes se apresentam com ares

de Juans Tenorios in _nomine_. Todos têm aventuras a contar. Poucos ha

que se não julguem com direito a insultar as mulheres, coitadas! que, em

verdade, pouco mais têm do que muita paciencia para os aturar.

A Senhora Viscondessa · 第 4 / 6 段