O café é uma invenção puramente da cidade. _Rendez-vous_ de todas as

classes sociaes, é elle para a humanidade o mesmo que a familia é para o

homem. Á noite, ao cahir da tarde, quando as tristesas--aquellas vagas e

mysteriosas tristesas do crepusculo--começam de entrar comnosco, nós,

incitados por um desejo ardente de meigas e salutares expansões,

procuramos o café naturalmente. Para alli nos dirigimos, como se elle

nos fôra um templo sagrado; lá temos a nossa communhão de ideias e

interesses--uma profunda e natural communhão, onde os amigos se

encontram e os estranhos se abraçam.

E o theatro? e os circos? e os passeios? e a musica?

Imagine-se, pois, o leitor no theatro de D. Maria. A récita é dada em

beneficio de um asylo. A plateia está replecta de espectadores, e nos

camarotes, como que resplandecem, em glorioso desafio, as mais

encantadoras formosuras de Lisboa: Como se disse no segundo capitulo

d'este romance, o drama escolhido para esta noite era a _Vida de um

rapaz pobre_. Apparecêra a Viscondessa, n'uma das frisas da frente,

ostentando, um delicado decote, um cóllo d'alabrasto, ao qual estava

cingido um valioso collar de pérolas. Proxima d'ella, e na frisa

immediata, uma condessa rica, enlêvo dos negociantes accreditados,

mostrava uns braços gordos, a cujos pulsos, por egual gordos e sadios,

se enroscavam umas pulseiras de diamantes, compradas na mais afamada

ourivesaria de Paris. Mais além uma menina loura, ha pouco sahida do

collegio, tomava _poses_ incontestavelmente estudadas ao espelho,

olhando de soslaio para um moço ainda imberbe, _soi-disant_ litterato de

botequim e _claqueur_ improvisado.

E assim succediam os factos, as pessoas e as cousas. Nas torrinhas

estavam, segundo o costume, alguns rapazes, ao parecer entendedores--uns

bons rapazes despretenciosos, á mistura com alguns operarios zelosos e

trabalhadores.

No fim do 3.^o acto, quando Alfredo entrava na frisa da Viscondessa, um

ignorado personagem se levantou nas torrinhas, replecto de amor e de

febre. Desceu as escadas com desusada precipitação, e entrou no

restaurante. Pediu aguardente de canna e bebeu, bebeu sempre... Pediu

uma folha de papel de carta, e com um lapis que trazia no bolso do

casaco, escreveu um bilhete.

Embuçado e trémulo, esperou que o espectaculo terminasse. Quando, por

entre a multidão que sahia do theatro, lobrigou a Viscondessa, sem

atinar com a intenção dos seus actos, allucinado, doido,

perdido--acercou-se della, entregou-lhe o bilhete, e fugiu.

Pobre de ti, meu Julio, espirito leviano e generoso, e agora já

transformado em José Xavier, em virtude das leis do teu paiz.

O ar da cidade, para ti renovado, foi o abysmo que se te abriu aos pés.

Sem mesmo querer, olvidavas a aldeia, que te fôra consolação momentanea

nas agruras da vida; e n'esse esquecimento involuntario ia-se-te a alma

partida com a doce imagem da mulher honrada que por ti velava dia e

noite.

Pobre de ti, meu poeta! e pobre d'aquelles, que, como tu, soffrem as

mesmas e tristes inconstancias, a cujo horrivel imperio não ha nunca

resistir n'este mundo de phantasmas e de vadios.

Pobre de ti!

XVII

Allucinações

Quando alguma ideia nos preoccupa o espirito fortemente, o nosso

primeiro movimento é estar só, isolado, em intimo colloquio com os

nossos desejos.

Momentos ha em que aborrecemos a luz, como supremo escarneo aos nossos

soffrimentos. N'este caso é a conversa de estranhos muitas vezes levada

á conta de uma ironia pungente. Queremos fallar, e não podemos.

Desejamos abrir os olhos, e conservamol-os fechados. Esforçamo-nos por

chorar, e as lagrimas não correm. Então, sequestrados da sociedade, e a

sós com a nossa dor, imploramos de Deus o soccorro da morte e a hora

suave do passamento.

Julio estava perdido. Tentou ser homem, mas embalde.

Pela primeira vez na sua vida entrou n'uma casa de jogo. A sorte foi-lhe

adversa.

Com os cabellos em desalinho, os olhos chammejantes, e o corpo numa

ancia infernal, entrou o apaixonado moço n'um botequim.

Bebeu, e embriagou-se.

A paixão é muitas vezes creança. O amor é caprichoso, quasi sempre

doentio, e por via de regra em extremo exigente.

Ora a febre tem um periodo de excitação, o qual, apenas terminado, gera

o aborrecimento e um indefinivel mal-estar.

É louco o homem que ama sem raciocinio, doidamente entregue aos excessos

da imaginação e da phantasia. Acima do amor está a amisade.

O amor é um relampago em céu de trovoada: passa, e não dura.

A amisade é um sol que, mesmo atravez das tempestades, se conserva: não

tem azas como a aguia, mas em compensação tem raizes como a arvore.

A amisade é sempre amorosa; o amor nem sempre é amigo.

Para amar basta que se seja um bom amigo; para ser amigo é que não basta

só o amor.

O amor é um capricho, que póde provir de uma apparencia mal entendida.

A amisade não! A amisade nasce da reflexão combinada com o tempo.

Quantas vezes não é o amor filho do ciume?

Quantas vezes nos não deixamos nós arrastar por uma simples exaltação do

nosso temperamento?

A nossa esposa deve ser a nossa primeira amiga. Na convivencia ha tempo

para estudo. Ai! d'aquelle que se deixar arrastar pelo fogo das paixões,

porque para esse devem ser as as desillusões um quasi assassinato moral.

Julio estava cego; caminhando ás apalpadellas mal podia atinar com o

caminho.

Depois de ter jogado, depois de ter bebido, sahia para a rua.

Se o jogo é como o vinho uma embriaguez, nem porisso o amor deixa de o

ser tambem.

Quasi nunca a paixão apparece só. Um homem apaixonado é um aventureiro,

um espadachim, que anda atraz da sorte, desafiando-a. E porisso é que os

tres irmãos gemeos--o jogo, o vinho e o amor--caminham sempre unidos e

accordes.

Julio, ébrio, ameaçou as estrellas, riu-se da lua, escarneceu do céu, e

insultou-se a si.

A embriaguez tem d'estas oscillações inexplicaveis: no principio é

vigorosa, athletica, muscular, até que a pouco e pouco enfraquece,

tornando-se inerte, covarde, miseravel: similhante a um homem que,

cahindo no abysmo, solta a principio uns gritos agudos, lancinantes, e

que a final, desesperado e sem força, se deixa escorregar para o fundo,

onde adormece no leito do universal esquecimento.

Julio, sem ser cadaver, era no entretanto um alucinado. E o alucinado só

dista do cadaver, em que aquelle é um morto ambulante, ao passo que este

é apenas um morto inerte, estupido e incapaz de movimento.

XVIII

O escudeiro da senhora Viscondessa

Apenas sahido do theatro o primeiro pensamento de Julio fôra

suicidar-se.

Alguma cousa, porém, impossivel de explicar-se, o prendia á vida. Demais

elle era novo; contava vinte e seis annos, se tanto; possuia aspirações

em larga escala; vastos affectos lhe referviam na mente escaldada. É

verdade que até ahi a pobresa o não deixára sahir do seu silencio. Que

lhe importava, comtudo, a obscuridade do presente, se o futuro lhe podia

ser de amor e de rosas?

Uma lucta desesperadora se lhe travou então no espirito irrequieto.

--Sim! a vida--exclamava elle--oh a vida... e chama-se a isto vida...

Mas se ella de facto me pertence, porque me não hei de eu desfazer

della? se por naturesa, Deus me creou livre; se para mim nada existe na

terra, além d'este fardo importuno a que chamam miseria, para que

persistir n'elle. Não! É mister sahir d'este salão, d'este vil salão!

cuja área denominam universo: procurar um outro, cujo começo é o

cemiterio, e o fim, talvez, a eternidade da materia... Os homens... que

são os homens? uns tristes egoistas sem consciencia e sem pundonor, uns

mercenarios torpes, altivos invejosos e estupidos... perfeitamente como

os outros animaes... Mas aquella mulher! e qual? Cecilia? oh, Cecilia é

uma andorinha cheia de castidade, muito pura e muito simples. E

depois--que lhe devo eu? se me teve amor, tambem eu a amei... se me deu

affectos, tambem eu lh'os retribui. Acima d'ella, porém, está a

Viscondessa. Comparál-as? oh! não, por Deus, Cecilia é uma pobre

rapariga sem arte; falta-lhe a elegancia da Viscondessa, não sabe

fallar, não se sabe vestir, não se sabe pentear... para que hesitar,

pois? Ah! louco, que eu sou na verdade! mas se esta imagem me persegue

por toda a parte, se a não posso apagar da memoria, porque me está aqui

parada, aqui, aqui bem dentro, n'este coração maldicto... Sou pobre!

Embora! tornar-me-hei rico; irei ao Brazil; amontoarei dinheiro sobre

dinheiro; far-me-hei negociante e vendedor de café.

Assim monologava o moço operario, de si para comsigo, sem outro alento

que não fosse uma paixão profunda, ardente, vulcanica. Sobre a espaçosa

fronte cahira-lhe o cabello n'um singular desalinho. Os braços, crusados

ao longo da mesa, bem patenteavam a afflicçao que n'aquelle momento o

devorava. No interior do peito referviam-lhe as negras chammas do

supplicio--aquellas chammas infernaes, remordentes, que nos são, como

que o appêlo de Satan sobre a terra.

Adormeceu. Um languido torpôr se lhe apossou dos membros cançados.

N'esses raros momentos de nervosa agitação, uma hora de somno vale mais

positivamente, muito mais, do que uma noite bem dormida.

Quando voltou a si era dia claro no horisonte. Abriu a janella, e tomado

d'uma ancia incuravel, alongou os olhos pelas montanhas longinquas.

Similhante ao peregrino, que, com os olhos ávidos, mede a extensão do

deserto, assim elle tambem mediu a extensão da sua dôr. Se era grande ou

pequena, só o espirito ao certo lh'o poderia affirmar.

Entretanto a Viscondessa, nem sequer se lembrára mais do bilhete

recebido no theatro. No dia seguinte, porém, seriam quatro horas da

tarde, quando Virginia lhe annunciou a visita de um operario.

A Viscondessa, na sua proverbial delicadesa, mandou-o entrar para a

sala.

Um minuto depois parava ao limiar da porta um sympathico rapaz de bigode

preto, macillento e moreno. Trajava modestamente uma bluza azul e uma

calça côr de cinza.

--Disseram-me que a senhora Viscondessa precisava de um

creado--principiou o desconhecido.

--Como se chama?--interrompeu a senhora.

--José Xavier.

--José! pois bem: agrada-me o nome. Póde ficar. Virginia que lhe diga o

que tem a fazer.

E, sem mais, virou-se a viscondessa para o outro lado, retomando a

primitiva posição.

Ao jantar alguns incidentes notaveis se deram. Julio servia á mesa. Com

os olhos sempre fitos na Viscondessa mal pestanejava, o pobre do rapaz.

Por algumas vezes lhe cahiram os pratos da mão; por algumas vezes

substituiu um prato lavado por um outro sujo; por algumas vezes se riu

Virginia a bom rir. Para tal, porém, nem sequer a ama reparou em meio

das suas caprichosas divagações.

Os dias iam correndo em silencio. Julio, ardendo em amor, seguia, como

um cão, os mais insignificantes passos da Viscondessa. Quando ella

passava pelo corredor, occultava-se atraz das portas; se podia,

beijava-lhe a fimbria do vestido; quando ella sahia, entrava-lhe no

quarto de vestir e ali se ficava horas esquecidas n'uma d'estas

allucinações que só conhecem os espiritos febris e nervosos. N'um

momento de cegueira, roubara-lhe o, retracto do album; com elle

adormecia todos os dias, e com elle tambem entrava no serviço da casa.

Entretanto o diabo arma-as, quando menos a gente as espera.

Julio penetrára no quarto de sua ama. Involuntariamente se demorou mais

do que o costume. A Viscondessa entrou cêdo n'esse dia. O escudeiro mal

tivera tempo de se esconder d'entro de um guarda-roupa.

Ia Virginia, segundo o seu habito, a abrir o armario; quando Julio,

dando um pulo para fóra, deixou espavoridas ama e creada.

--Ai! credo! Jesus! gritou Virginia--Ladrões em casa; ladrões, minha

senhora.

--Que é? que é?--exclamou a Viscondessa.

--Pois não viu? O tratante do José aqui fechado!

--O José--retorquiu a senhora!

--O José, sim, minha senhora, o José...

--É verdade, senhora Viscondessa; fui eu, fui eu que commetti este

enorme attentado--obtemperou Julio, trémulo de colera e de raiva. E para

prova, aqui me tem a seus pés, sollicitando-lhe perdão.

--Virginia, disse a Viscondessa, paga a este miseravel, o manda-o

embora.

--Já, minha senhora.

--Bem me queria a mim parecer--murmurava a esperta da creada--que aqui

andava sua cousa encoberta.

XIX

Falla o coração

Será verdade que o coração tambem falla?

Uma cousa é amar, outra cousa é desejar. O amor deriva do coração, foco

de toda a vida humana; o desejo nasce dos sentidos. Ao primeiro pertence

o amor-sentimento, ao segundo o amor-sensação. Até aos trinta annos o

amor póde dizer-se sentimento; o que, por via da regra, não succede já

d'ahi por deante, em que elle se transforma n'um desejo material.

O amor depende, sobretudo, da educação; e assim póde ser maior ou menor,

consoante o estado moral do individuo em que elle se manifesta.

O amor mais verdadeiro é aquelle que se não exprime. A attracção de

sympathias deve dar-se naturalmente sem necessidade de expansões, que

lhes viciem a puresa inicial.

O selvagem, por exemplo, ama até ao ciume. Quando não póde saciar os

seus desejos, apunhala-se a si ou apunhala a amante. É que o selvagem,

na sua natureza desordenada, é um diamante por lapidar.

O ciume accusa falta de confiança na mulher a que nos dedicamos, só por

um inconcebivel egoismo poderemos ser arrastados a um vicio tão

execrando, como abjecto.

Julio amava a Viscondessa com um amor selvagem, forte, violento. Tinha

ciumes della; seguia-a por toda a parte; e não raro succedia fechar-se

n'um quarto, e ahi, com o retracto deante de si, chorár e chorar

copiosamente.

Ora a Viscondessa era de facto uma mulher bem educada, mas soberanamente

viciada pela lisonja dos homens.

Tres são de ordinario as causas do orgulho na mulher: a formosura, a

riquesa e o nascimento.

A formosura, pela demasiada contemplação das proprias qualidades, gera o

_coquettismo_; a riquesa a vaidade; o nascimento a soberba.

A mulher formosa tem em si mesmo a causa da sua destruição. Lisonjeada

pelos homens, torna-se inconstante. Depois, note-se--a inconstancia é um

excesso de ternura, uma superabundancia de bondade.

A simulação é propria ás mulheres. Ao amor fingido de uma mulher

corresponde de ordinario o amor mentiroso de um homem. As mulheres

fingem, porque, desde creanças, as ensinaram a fingir. É um vicio de

educação.

A riquesa é a antithese da virtude. Foi a pobresa que gerou a caridade.

Mulher rica é mulher, quasi sempre, voluntariosa; muito senhora de si,

deseja ser obedecida como rainha.

O nascimento nem sempre é um prejuizo. Ha mulheres aristocraticas em

cujas acções se revela a suprema distincção. É mais para temer-se o

excesso de republicanismo, do que o excesso de aristocracia.

A Viscondessa era simultaneamente formosa, rica e nobre. Se desattendia

as expansões do operario, invisiveis para ella, não era tanto por

orgulho, que realmente não tinha, como, e principalmente, por uns

ligeiros, mas inapagaveis, vestigios da infancia.

É justo que o coração do homem seja equilibrado pela intelligencia da

mulher. Mas Julio amava sem ser amado, o que é decerto uma loucura,

baptisada com o nome de martyrio.

Amor não correspondido, é amor que degenera em odio.

Homem allucinado não reconhece meio termo: ou ama com paixão, ou odeia

com rancor.

Julio, qual outro viajante, deixara-se seduzir por uma miragem doce e

agradavel. Olhou. A vertigem toldára-lhe a vista. Quando descerrou as

palpebras á luz do dia, um peso enorme lhe obscurecia o cerebro. Quiz

pensar e não pôde.--Mas que terei eu, interrogava a si mesmo. E, em

redor d'elle, tudo annunciava um vago e mysterioso silencio.

Estava apaixonado.

O coração batia-lhe d'entro do peito com viva e prolongada violencia. A

cabeça era fria, e os sentidos mal davam accordo de si.

Ai! d'aquelles que só a voz do coração escutam, porque para esses é a

paixão um ignorado martyrio e a vida um tristissimo cemiterio.

XX

Casa burguesa

Era um gosto entrar a gente em casa do sr. Francisco Alves. Tudo

respirava ali um aceio, por tal fórma invejavel, que o espirito em

verdade se sentia bem, muito bem, ante aquella limpesa, tão rara em

Portugal como prodiga em qualquer outro paiz.

No bairro de Alcantara era o sr. Francisco conhecido como um modelo de

philantropia e de bons sentimentos. Os jornaes por vezes resavam da sua

pessoa, assim como da sua catholica esposa, a sr.^a Felisbella de

Menezes.

Emfim o sr. Alves era modesto sem ostentação, simples sem atavios, e

amavel sem rancor.

O sr. Francisco Alves era o que em boa linguagem se póde dizer--um

portuguez de lei.

De um rico tio provinciano herdára elle uns dez contos de reis, em metal

sonante, com os quaes comprou uma mercearia bem fornecida e já bem

accreditada na capital.

Atirou-se, pois, o sr. Francisco ao negocio, e sempre com fortuna e

sempre com bons auspicios.

Um dia virou-se elle para a esposa, e disse:

--Ó Felisbella, se tu quizesses, uma vez que foi esteril o nosso

matrimonio, traziamos um rapasito para casa, e adoptavamol-o como nosso

filho? Que dizes?

--Olha, menino--tu bem sabes que eu estou por tudo o que tu quizeres.

Vae tu mesmo a um asylo se assim te apraz, e escolhe-me lá um pequenote;

mas que seja bonito, entendes?

--Pois está dito, mulher! amanhã tratarei d'isso.

E, com taes intenções, deitou-se á noite o sr. Francisco Alves, n'um

bello colxão de commoda lã.

Veio o rapaz para casa. A sr.^a Felisbella queria-o para doutor, o sr.

Francisco, para merceeiro.

O pequerrucho era engraçado, muito engraçado, cheio de bons ditos e de

palavras amaveis.

Á sr.^a Felisbella tratava elle por _mamã_, e ao sr. Francisco por

_papá_.

--Sempre tem uma graça, este pequeno!--dizia o Alves, ás vezes para a

mulher.

--E os ditos então? se tu lh'os ouvisses... retorquia a bondosa da sr.^a

Felisbella.

--Pois, menina, parece-me que dá em doutor o diabo do rapazelho.

--Ora! se eu bem t'o dizia.

--E tinhas razão, tinhas, lá isso tinhas. E ha de ser um doutor, assim

elle queira.

O rapaz cresceu. Foi para a escola, e deu boa conta de si. Foi para

Coimbra, e tomou grau em direito. Depois metteu-se advogado, e é hoje um

dos mais distinctos homens de lettras do nosso paiz. Sempre grato á

sr.^a Felisbella, visita-a todos os dias. Ao sr. Francisco Alves já

advogou algumas questões, e, ao parecer, com gloria para ambos.

Não parava, porém, aqui a abnegação do sr. Francisco.

Acontecia frequentemente elle vir para casa mais tarde do que desejava.

Se por acaso encontrava algum pobre estendido na rua, ao relento e ao

frio, levantava-o, e trazia-o comsigo. Chegado ao lar mandava-lhe

arranjar uma boa ceia, vestia-o no dia seguinte, e deixava-o seguir o

seu caminho.

E a isto, leitor generoso, chama o mundo ser boçal.

XXI

Considerações

A nossa sociedade é essencialmente burguesa. Actualmente todos gritam

contra o burguezismo, e entretanto ninguem está isento d'esse peccado,

se peccado se lhe póde chamar. E cousa singular! ao passo que a

aristocracia vai descendo até ás regiões do plebeismo, a burguezia, por

seu turno, eleva-se, e tenta em breve ser a Excellencia do paiz.

O moderno fidalgo portuguez não existe já. Antigamente um aristocrata,

_pur sang_, tornava-se respeitavel por uma educação sisuda e por uma

illustração opulenta. Hoje dá-se perfeitamente o contrario. O bom

fidalgo, _faia_ de recente data, abandalha-se na convivencia dos

cocheiros, tocando o fado pelas ruas, durante a noite, picando touros,

usando jaqueta e facha de seda e vivendo entregue á ociosidade, que é o

vicio, e á embriaguez, que é a doença e muitas vezes a morte.

Outr'ora havia um certo pundonor em conservar intactas as tradições de

familia, demonstrando-se assim que a honradez do nome é um dever

sacrosanto para verdadeiros fidalgos.

Agora não! Uma pateada, dada num theatro a uma actriz, um conflicto

levantado em qualquer praça publica, uma desobediencia á authoridade, um

adulterio commettido com a mulher do seu amigo intimo: tudo isto são

peripecias galantes para a nossa mocidade, que, á falta d'outro, tem o

estimulo do egoismo e da arruaça.

Ora eu peço licença a s. ex.^as, os srs. viscondes, para lhes notar que

não é esse o caminho da nobresa. Deus me defenda de offender melindres,

que muito longe estão d'esta regra. Excepções existem, e aliás excepções

respeitaveis.

Afigura-se-nos, porém, que a instrucção é presentemente mais peculiar á

burguesia do que á aristocracia. D'entre os burgueses raro é aquelle que

não tem a sua livraria sufficientemente enriquecida de bons auctores, e

rarissimo ainda mais aquelle que não lê tres ou quatro jornaes todos os

dias.

Os filhos da burguesia seguem as escolas publicas, occupam os primeiros

logares do estado, e possuem actividade e intelligencia em larga escala.

Onde existe maior gráu de moralidade: na aristocracia ou na burguesia? E

o trabalho, d'onde sahe elle? E as revoluções, a quem as devemos nós,

senão á burguesia?

Não ha classe alguma da sociedade que, passado um certo numero de annos,

se não corrompa.

As classes são na sociedade como as instituições: gastam-se e

aniquilam-se, decorrida uma certa phase historica.

A burguesia vai cahindo nos mesmos defeitos da antiga

nobresa--sabemol-o; sem embargo a burguesia tem ainda vantagens sobre a

aristocracia.

Entre a burguesia e a plebe existe, porém, uma outra classe, que ao

mesmo tempo participa da segunda pelo seu nascimento e da primeira pela

sua actividade: esta classe não tem nome; vive do producto das suas

lojas, das suas propriedades e da sua economia. A ella pertencia o sr.

Francisco Alves, expressão de bondade christã e de virtude evangelica.

Aos domingos encontram-se estes _pequenos negociantes_--que outro nome

não sei eu que elles tenham--em longo e aturado passeio pelos campos e

pelas estradas. Ahi, reunidos em familia, comem o seu pedaço de queijo

com pão, e bebem o seu meio quartilho de vinho. E isto apenas aos

domingos, que, aos dias de semana, a alvorada vem quasi sempre

encontral-os no trabalho.

O sr. Alves enfileirara-se n'este grupo ignorado, e delle herdára os

habitos e as tradicções.

E o certo é que se não foi um anjo, na verdadeira acepção da palavra,

foi pelo menos um bom homem, honrado e caritativo.

XXII

Um hospede

N'uma noite tempestuosa em que a caridade, silenciosa sempre e occulta

quasi sempre se encarrega de velar pela miseria sobre a terra,--voltava

o sr. Francisco Alves a Alcantara, onde anciosamente o esperava a

carissima metade da sua alma.

Na occasião, porém, em que descia a calçada da Pampulha, notou elle

vagamente uma sombra que a um recanto permanecia n'uma mudez quasi

sepulchral. Aproximando-se, reconheceu um homem, mais cadaver do que

outra cousa. A tristesa tomou-o, então, dos pés á cabeça. Cheio de

terror, livido, nervoso, lembrou-se o senhor Alves de chamar a policia.

Não era essa, todavia, a tendencia do seu coração generoso e leal. Emfim

esperou. Casualmente passava um trem de praça. Chamou o cocheiro, e

levantando o homem que elle supposéra ebrio, introduziu-o na carruagem.

A sr.^a Felisbella, como de antiga e patriarchal usança era n'aquella

casa, resava a sua corôa, correndo o rosario entre os dois dedos da mão

direita--o index e o polgar. Auxiliava-a em tão piedoso, quanto

catholico mister, uma creada velha, beata pelos modos, quarentona já,

mas amiga da sua ama.

A sala, em que ellas estavam, chamada casa de engommar, representava um

quadrado perfeito, com vinte pés de comprido sobre vinte de largo,

rodeada por doze cadeiras de coiro, antigas, segundo todas as

apparencias, herdadas de parentella abonada.

Ao centro, uma mesa de páu preto, caprichosamente torneada, recebia

invariavelmente, todas as noites, um velho candieiro de metal amarello,

comprado n'um leilão de ferros velhos.

O sr. Francisco Alves, entrando em casa, nem sequer se déra ao trabalho

de incommodar sua mulher. Arrastou o moribundo para um quarto, cuja cama

principalmente sobresahia pela alvura da roupa, e foi elle mesmo chamar

um medico.

N'este comenos concluía a sr.^a Felisbella a sua nocturna devoção.

Ignorando tudo o que em volta d'ella se passava, pegou no candieiro,

pela aza superior; e, arrastando-se com difficuldade--porque a sr.^a

Felisbella era gorda e rheumatica--dirigiu-se para o quarto, parando no

corredor umas tres ou quatro vezes.

A ausencia do marido incommodava-a, porém, sobremaneira. Terá elle sido

preso?--monologava ella de si para comsigo.--Mas o meu Francisco nunca

foi atreito a barulhos. Nada. E quem me diz a mim que algum namorico...

A Senhora Viscondessa · 第 3 / 6 段