alguns farrapos, que ainda lhe restavam d'outr'ora, arranjou a cobrir o
corpo infectado e pestilente de sua mãe. Porque o principal
effectivamente era occultar o crime _d'esta grande peccadora_...
Entretanto a sociedade ria-se nos botequins, e as tabernas continuavam
sempre atulhadas de povo.
O mesmo Julio teve a coragem de transportar o cadaver para o cemiterio e
de ahi lhe prestar as derradeiras homenagens.
Como não havia carniça, não appareceu o abutre!
Consciencia de Cain é jóia que só se mercadeja no alto mercado.
Foi mais uma lei do mundo.
Convêm, comtudo, registral-a para desafogo de todos nós.
X
Cousas dos Homens
Permitta-nos a leitora que um pouco nos demoremos sobre este incidente
do nosso romance. Mais tarde volveremos a fallar da viscondessa. Por
agora historiemos os factos que mais concorreram para o triumpho da
nossa heroina.
Quem era Julio? quem era Maria? e porque motivo foram elles chamados
para aqui?
Leitor: conheces a miseria? porventura já te foi dado contemplar esse
estranho espectaculo, que a cada passo se nos representa diante dos
olhos?
Á beira da estrada, _ella_, estendendo-te a mão carcomida e triste,
pede-te esmola; na escuridão do templo, cheia de vergonha, _ella_
occulta-se ás vistas da gentalha; no recesso das florestas, arrasta-se
como um reptil, de tal maneira que nós não sabemos quem _ella_ é, se um
animal, se um homem.
E, todavia, _ella_, a canalha, é filha de Deus como nós.
E, todavia, _elle_, o _Ninguem_ errante da sociedade, o _anonymo_
sublime do universo, elle, o, _trabalhador_, tambem, como nós, tem
intelligencia sentimento e vontade.
Quantas vezes, ao passar por uma rua escura e humida não tropeçamos nós
com um d'esses desherdados, de faces lividas o aspecto sombrio, que, não
tendo um travesseiro, onde repousar a cabeça, nem uma bilha d'agua, onde
refrigerar a sede, nem um vestido, onde aquecer as carnes, vive ao
acaso, alumiado, apenas, pela luz das estrellas da noite, alentado pelo
orvalho do céu e ao abrigo vil das lageas das escadas?!
E, no entretanto, este ser existe.
Existe nas officinas do trabalho, e chama-se proletario; existe nos
campos, e chama-se jornaleiro; existe nos hospitaes, e chama-se
miseravel; existe nas prisões, e chama-se criminoso; existe nas rodas e
nos hospicios, e chama-se engeitado; existe nas ruas e nas escadas, e
chama-se maltrapilho; existe no universo, por toda a parte espalhado, e
chama-se escravo.
Sim! o escravo é o leproso sem familia, a quem só é dado sentir a dôr
das suas chagas. Elle, coitado! não tem casa, nem tem jardim, nem
flores, nem amigos, nem alegrias; elle, o escravo, tem apenas, como um
magro cão vadio, uns ossos que róe durante o dia e umas tristesas que o
acompanham durante a noite.
E nada mais tem, o escravo!
O vicio é, em geral, uma triste consequencia da falta de meios.
Perguntae ao pobre, porque se embriaga, á mulher porque se prostitue, e
ao escravo porque se vende.
Embriago-me--responder-vos-ha o pobre--porque me quero esquecer do
sangue que vertem as minhas feridas.
Prostituo-me--dir-vos-ha a mulher--porque tenho fome.
Vendo-me--exclamará o escravo--porque a sociedade me repudia.
E teem razão. Todos tres procuram o vicio, como alivio, como necessidade
do seu espirito.
Julio era um d'esses: pertencia á rara pleiade dos independentes,
d'aquelles que o Estabelecido odeia e renéga.
Muitas vezes, em creança, o pobre moço, sentado na areia da praia, e
olhando o mar além, dissera em conversa intima, em que o homem interroga
a consciencia, a razão, e tudo quanto o cerca:
«Como é grande o mundo, meu Deus!»
E n'uma esperança eterna, e n'uma ambição sem limites, Julio ficava-se
horas e horas em prodigiosa concentração, que bem lhe denunciava a
lucta, a cada passo travada no espirito nervoso e inquieto.
Mas n'este mundo são as ambições como as espumas do mar: um vento as
traz e um vento as leva.
Que importavam as illusôes, se com as primeiras folhas do outomno, ellas
tinham de cahir uma a uma?
As flores d'alma vão-se com o outomno da vida.
Nem sempre porém as borboletas adejam sobre as flôres; nem sempre o
mesmo sol illumina as campinas.
Ante o cadaver de sua mãe, Julio emmudecera. Quando a sério, e a sós
comsigo mesmo pensou na vida que no futuro o esperava, quasi
instinctivamente teve vontade de se suicidar.
Olhando, porém, para o céu, ajoelhou. Um raio de esperança lhe
illuminava a alma, até então em trévas.
Felizes os que, como elle, sabem esperar!
A esperança conduz Colombo, e descobre mundos!
XI
Na taberna
Entrava-se por um beco immundo, torcia-se á direita, e estava-se lá, no
antro do crime, em que a vida e a fortuna se joga, o bem estar, a
tranquilidade, o socego, toda a harmonia da existencia humana.
Exteriormente, apresentava a taberna um aspecto mesquinho e lugubre. Um
distico, apenas, no alto da parede indicava aos transeuntes que ali «_se
vendia vinho verde_.»
No largo portal da entrada, coroado por um ramo de louro, viam-se uns
traços obscenos, riscados a giz, e, ao parecer, escriptos em maré de
embriaguez.
Portas a d'entro, reinava uma alegria feroz, confusa e tristemente
desconsoladora.
Uns jogavam, riam outros, e gritavam todos.
--Salto no valete--dizia um.
--Mico no terno--interrompia outro.
E assim, ébrios de vinho e ambiciosos de fortuna, jogavam elles, sem
outro alento que não fosse o vicio e o esquecimento.
De subito, uma gargalhada estrugiu pelos ares.
Por uma das mesas, esgravatada e cebenta, rolou veloz um enorme cangirão
de vinho, por onde á porfia bebiam os convivas alegres.
A taberneira, mulher roliça e de cabello na venta, servia com respeito
os freguezes, na maioria lavradores e campinos.
A um canto, e sobre o junco, que cobria o lagedo da sala, estava um
berço, onde uma creança dormia tranquillamente, em companhia de um gato
malhado, velho hospede na casa.
Ao lado do berço um cão, apoiado sobre as mãos e com a orelha levantada,
olhava filamente na direcção da porta de entrada.
Para além do balcão, duas pipas de vinho e uma pratelleira, cujas
divisões continham pão, queijo e figos; tudo, já se vê, velho,
amarellecido pelo tempo, e modico no preço.
--Viva o nosso Julio!... viva!...--exclamaram os jogadores, voz em
grita.
O saúdado moço, de braços crusados e em mangas de camisa, nem sequer
lhes respondeu.
Entrou, passeou a vista pela sala, e quedando-se com pesar, vociferou:
--Nem mãe, nem... dinheiro...
Como por encanto, fez-se um silencio sepulchral na taberna. O jogo
parou; e instinctivamente erguidos, correram todos á presença do Julio.
Prestes, porém, se apagou a mudez, a fim de novamente ser interrompida
pela mais temerosa de todas as vozerias.
--Não póde ser; não póde ser. Abaixo a tyrannia. Vamos a acabar com
elles. Malhados de uma figa... Queremos sangue e mais sangue... que nem
um só escape... Querem-nos roubar o nosso trabalho... os infames...
Ladrões abaixo... Não queremos ladrões... A elles... todos a elles...
A taberneira exasperada, pedia ordem, levantando os braços. Em cima do
balcão latia o rafeiro agudamente. O gato, espreguiçando-se, escoara-se
com mysteriosa perfidia, por entre as pipas vasias. Um raio de lua,
reflectindo-se phantasticamente sobre a cara da creança, que chorava,
produzia um contraste singular, e sobremaneira interessante. Dir-se-hia
que pela innocencia velava o céu em toda a sua magestade e grandesa.
N'um momento a porta rangeu nos gonzos.
--Em nome da lei declaro presos os desordeiros--bradou um vulto.
--Em nome de que lei?--retorquiu um dos agitadores.
--Em nome da nossa lei, em nome da lei portugueza--insistiu o primeiro,
descobrindo-se.
Á vista do policia, até a taberneira gritou. Vergado ao peso de uma mão
de ferro, aspera e cortante, e apanhado a sós, o espião do governo,
atravessado por tres fortes navalhadas, rolou immediatamente aos pés de
Julio, que para elle olhava desconsoladamente.
Momentos depois a taberna estava só, escura, e triste.
* * * * *
Quem, dois dias depois, entrasse n'esta mesma casa, e attentasse nos
personagens, ali reunidos, pouca differença de certo havia de notar.
Lia um dos operarios em voz alta a _Revolução de Setembro_, quando
inopinadamente se lhe deparou a seguinte local:
«Ante-hontem, cerca da meia noite, deu-se um grave tumulto n'uma taberna
situada para as bandas de Alfama. A policia anda em cata dos
desordeiros, e de crêr é que, em breve, elles soffram o justo castigo
das suas loucuras.»
Taes palavras foram, como é natural, ouvidas com terror, da parte dos
circumstantes.
Um silencio profundo envolvera a taberna. Mudos e reflexivos, ninguem
ousava proferir uma palavra.
De repente apagou-se o gaz. O ruido tornara-se insupportavel, medonho,
confuso.
--Traição... traição...--repetiram todos.
E o silencio recomeçou de novo.
XII
Perigos e consequencias
N'este nosso paiz ficam muitas vezes impunes os crimes mais graves,
castigando-se os mais insignificantes.
A lei penal muitas vezes dá existencia aos crimes, imaginando penas para
delictos imaginaveis.
Parece que a justiça social nem sempre cumpre o seu dever. O roubo corre
muitas veses authorisado pela lei, n'um inpudor por tal fórma insólito,
que de vergonha faria córar uma bachante.
A cada passo, e com a maior facilidade, se sancciona uma injustiça. Quem
não tem padrinho, morre mouro--diz o rifão. E o certo é que o pobre, o
eterno Job da orphandade,--se não morre mouro, morre, pelo menos, de
atrophia, indigente, sem pão, sem agua, e o que é mais, sem espirito.
Ao percorrer as humidas cavernas--morada e abrigo dos proletarios--de dó
se nos enlucta o sentimento. Como é que a Providencia tão prodiga e
generosa; como é que o sol, alargando seus raios encantadores, tanto
pelas cumiadas das montanhas mais longinquas como pela escuridão dos
valles mais reconditos--como é que todo este mixto de luz e de céu, póde
consentir o infortunio no mundo?
A aspiração é sêde que se não extingue. Mas aspirar sem esperança;
anceiar sem uma possibilidade de realisação final, deve ser triste,
muito triste, para já não dizer desesperador.
Para voar, concede a naturesa azas á aguia. Assim tambem para sermos
livres, rigorosamente livres, para executarmos os vastos planos da nossa
vontade, carecemos nós de meios, sem os quaes tudo nos seria baldado e
inutil.
E dizem que a lei é egual para todos!
Entre dois cidadãos--um casado, outro solteiro, um pobre outro rico--que
soffrem a mesma pena, onde é que está a egualdade?
Divagando, porém, iamos fugindo do nosso caminho. Voltemos ao romance.
A policia não afrouxára nos seus esforços. Indagou, correu, perguntou.
Ao cabo de uma semana, estavam seis individuos dados por suspeitos.
Entre elles indigitára-se Julio como um dos principaes cumplices no
crime acima descripto. Se fôra ou não acertada a escolha, isso só os
factos posteriores o poderão affirmar. Por agora basta que o leitor nos
acompanhe.
Dolorosa é a recordação do carcere. Sem luz e sem ventilação, são as
nossas cadeias uns verdadeiros antros, cuja atmosphera impregnada de
particulas venenosas, quasi sempre gera no seu seio os vicios mais
execrandos e as doenças mais incuraveis.
Um drama simples e vulgar ao mesmo tempo, poderá, talvez, iniciar-nos
nos verdadeiros mysterios d'este inferno.
Ouçamol-o.
Um homem rico decahira um dia da sua fortuna. Habituado ás commodidades
da vida, encontrou-se repentinamente privado do necessario. Acostumado
aos falsos amigos, viu-se sem amigos. Olhou. Quatro filhos o encaravam.
Uma esposa lhe sorria. Fôra bom o seu coração. Nunca até ali se dera um
unico facto que lhe manchasse a consciencia. Examinou os bolsos.
Dinheiro não havia já. Recorreu ao trabalho. O trabalho fez-se esperar.
Mendigou. Ainda era pouco. Os filhos continuavam a chorar. A esposa
continuava a morrer. Que fazer, pois? Roubar. E roubou. Roubou um pão
porque tinha fome. E dois. E tres. E quatro. A lei, inexoravel como a
Parca, encontrou-o uma noite. Levou-o para o Limoeiro. Pediu-se,
sollicitou-se, em nome da desgraça. Tudo embalde! Os poderes publicos
cumpriam o seu dever. N'uma casita humida, situada ao Salitre,
definhavam, ao cabo de cinco dias, quatro creanças e uma mulher. No
Limoeiro creava-se mais um monstro, e inutilisava-se um homem. E tudo
isto com uma prodigiosa simplicidade.
É a historia de Valjean sem o auxilio do arcebispo!
Ao moço-operario não succedeu, felizmente, outro tanto. A Providencia
encarregou-se de velar por elle. E o certo é que a evasão de cinco
presos deu-se rigorosamente n'esta época. Julio foi um dos que, a salvo
da prudencia, recuperaram a liberdade.
XIII
Continuação
Seriam 2 horas da madrugada. A lua brilhava em pleno espaço. O Tejo era
Sereno. Apenas de longe em longe um rumor surdo, vago, incomprehensivel,
acordava a naturesa do seu pacifico somno nocturno.
Por sobre as mansas aguas deslisava um bote suavemente. As estrellas,
reflectindo-se na bahia, similhavam, pela vivacidade irrequieta do
brilho, um cardume de peixes em debandada. A viração era fresca, e
deliciosamente salutar.
Cantavam os remeiros, umas tristes canções, repassadas de melancholia e
de patriotismo. Os remos, batendo na agua, produziam o effeito de um
chrystal facetado, em desordem, mas atrahente.
Nem uma dissonancia sequer apparecia n'este immenso panorama, a um tempo
eloquente e respeitavel.
É que a alma da naturesa, symbolo do infinito sobre a terra, é
incomparavelmente superior á alma do homem, expressão do contingente e
do relativo.
As montanhas, elevavam-se a distancia, na firme immobilidade de
phantasmas. Dormia a cidade socegadamente. No convez de um navio
mercante ladrava um cão da Terra-Nova. Nas embarcações de guerra
ouvia-se distinctamente e com rarissimos intervallos o passo moroso das
sentinellas.
Os catraeiros cantavam sempre:
«Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia noite com vagar soou;
Que paz tranquilla! dos vaivens da sorte
Só tem descanço quem ali baixou.»
E ao longe os echos repetiam a ballada do poeta.
O escaler abicou, emfim, á praia. A aurora começava a roxear o
horisonte. Uma luz delicada, fina, como a porcellana, transparecia por
entre nuvens.
Um vulto de homem, embuçado n'um largo capote, saltou á praia.
Julio, fugitivo, tomára a prompta resolução de por algum tempo se
occultar no bairro de Alcantara.
Duas palavras ainda sobre elle:
Julio era um rapaz ambicioso. Amava egualmente a liberdade e o trabalho.
De têmpera rija, era o seu caracter. Odiando o jesuitismo, por
instincto, não poucas vezes chegára a commetter excessos e desvarios.
Frequentava a taberna, do mesmo modo que nós frequentamos o café; ali
discursava com os companheiros, concluindo sempre em favor da liberdade
e contra a reacção.
Na noite em que o prenderam exclamára elle para os camaradas de
trabalho:
«Nem sempre a escravidão ha de pesar sobre nós. Quem tiver coragem,
acompanhe-me. Uma vez que não querem a paz, acceitaremos a guerra, mas
uma guerra sem tréguas, uma guerra eterna e violenta.»
D'este modo Julio era a perfeita personificação do escravo, que,
sentindo a grilheta ao pé, deseja emancipar-se e tornar-se homem, como
os seus similhantes.
Alfredo, não tendo coragem para realisar os seus planos, embora bom e
generoso no fundo, tornara-se devasso, e adormecera inconscientemente
nos braços da sensualidade estupida. Julio, não! Julio estava puro;
reagia ainda com heroicidade contra a geral corrupção da sociedade.
Entre estes dois homens, ambos moços e sympathicos, existia uma
differença apenas: Alfredo pertencia á mocidade dos cafés,
incomparavelmente mais inutil que a mocidade da taberna, composta, na
generalidade, por operarios honestos, como Julio.
Mais tarde, porém, nos encontraremos novamente com Alfredo.
XIV
Novos mundos
Penetremos em Alcantara.
É um bairro pobre, habitado por operarios, n'uma grande parte, e por
homens do mar.
Na extrema do riacho, para a direita, alveja uma pequena casa, situada
na falda de um monte.
Para ahi entrou Julio, a fim de se occultar ás pesquisas da policia.
Durante o dia conservava-se fechada a casa, como querendo demonstrar ao
publico, que ella era realmente deshabitada.
Á noite quatro operarios, voltando do trabalho, batiam de mansinho á
porta.--Julio percebendo pelo toque ser os companheiros, levantava-se da
enxerga em que de ordinario jazia, e dava volta á chave.
No interior da habitação reinava a miseria em toda a sua hediondez.
Uma enxerga apenas, abrigava, durante a noite, cinco esqueletos de
homens, sem alegria, sem pão e sem futuro. Os mumias da desgraça!
De manhã, ao levantar, reuniam quatro ou seis trapos velhos, e, por
vergonha, occultavam á multidão os proprios ossos do corpo.
Na cosinha existiam, por acaso, duas côdeas de brôa, arrancadas aos
dentes das cadellas leprosas, uma bilha com agua e um pequeno ramo de
carqueja.
A estes quatro animaes, trabalhadores n'uma fabrica de lanificios, se
incorporara Julio.
Pouco tempo, porém, durou similhante situação. Ao cabo de alguns mezes a
policia lançára as suas vistas para os lados de Alcantara. Isto
soube-se, e chegou aos ouvidos de Julio, a este tempo já viciado por
toda a casta de corrupção.
Com nova tão para desesperar, quasi endoideceu o moço-operario. Uma
noite mesmo, encontrando um policia civil, e tomando-lhe da mão direita,
disse:
--Olé--sabe quem eu sou? Ah! não sabe? pois bem: fique sabendo...
E fugindo, estendeu-o no chão com uma fortissima bofetada.
Assim se passaram alguns dias, de louca anciedade. Por tradicção
conhecia Julio um velho aldeão, de quem a mãe repetidas vezes lhe
fallára. Uma noite, deixando o casebre de Alcantara, demandou a
provincia, onde lhe sorriram os primeiros raios de felicidade.
Mas Julio já não era o mesmo homem. O desanimo ganhara-o por momentos. É
condão da miseria transformar o homem physica e moralmente num monstro
de paixões.
A barba crescera-lhe. O corpo definhava-se-lhe a olhos vistos. No
coração principiavam os espinhos a crescer e a vegetar. Emfim, aos pés
do operario um abysmo, um immenso abysmo se abria.
E ai do homem, que um momento escorregar no precipicio; porque para esse
não haverá salvação possivel.
A mulher, que uma vez peccou, habilita-se a ser uma eterna peccadora. O
homem que um dia se prostituiu, fica para sempre prostituido.
Nem sempre, porém, nos abandonam os anjos do céu.
Á beira do despenhadeiro tivera Julio o seu anjo da guarda.
Abençoada a mão, que n'um raio de amor nos traz a esperança e a
consolação!
XV
Primeiros amores
Um sol ardente batia de chapa sobre um eirado de pedra, em cujo espaço
se abrigava cuidadosamente o fructo de uma boa colheita de milho.
Ao lado, e fóra do alpendre, elevavam-se tres medas de palha, unico
alimento annual, aos pacientes trabalhadores d'aquelle campo.
Por entre as louras e amontoadas espigas brincavam em candida innocencia
duas formosas e galantes creanças.
A tarde declinava docemente. No pinheiral longinquo gemia a rôla uns
tristes e magoados queixumes. Os cantos jubilosos dos lavradores iam
perder-se nas solidões distantes. O céu era sem nuvens; e as aguas de
chrystal, mansas e innocentes, como as lagrimas de uma creança,
deslisavam com ligeiros attritos, atravez dos terrenos pedregosos.
Um cão preto, guardador de gados, saltando alegremente, annunciára em
repetidas curvas, a proxima chegada de seu dono.
A pouca distancia d'ali assomou logo um velhote de rosto prasenteiro e
agradavel. As duas creanças, erguendo-se de um pulo, desappareceram por
entre a sombra do arvoredo.
Apenas um moço, altivo, de tez morena e bronseada, permanecêra na mesma
posição sem dar por cousa alguma do que em de redor d'elle se havia
passado.
O velho chegou, trazendo os dois pequenos pela mão. Olhou com piedade
para a estatua da tristesa, que tão profundamente o impressionava,
abeirou-se d'ella, e prorompeu nos seguintes e magoados termos:
--Então que é isso, meu Julio? tão triste e pesaroso? já lhe não valem
de nada as palavras d'este velhote, que tanto do coração lhe quer? e
esta familia que é a sua? Ora vamos, mostre-se alegre para comnosco.
Aperte-me esta mão que é rude, mas honrada. Seja-me franco, se alguma
cousa o afflige. Nada receie. Olhe que todos nós o estimamos devéras.
--Meu Pae...--exclamava Julio, debulhado em lagrimas,--meu bom Pae...
O lavrador, puxando por um lenço encarnado, que habitualmente trazia no
bolso direito da jaqueta, muito de soslaio limpou os olhos humedecidos.
As duas creanças, acompanhando-o, como que por instincto lhe beijavam as
mãos bemfazejas.
O sol, atufando-se nas aguas do oceano, reverberava por sobre a terra
silenciosa os seus derradeiros raios. A brisa era tépida, como a noite.
Algumas folhas sêccas, prenuncio do outomno, alastravam o sólo.
Julio entrara-se em doloroso scismar. A sós comsigo mesmo, pensou muitas
vezes no suicidio, companheiro e amparo dos que soffrem. Mas não. Uma
esperança o alimentava. Um vago ideal o seduzia.
Após profundo meditar alçou a cabeça para o céu. A imaginação cedera o
seu logar á intelligencia. Julio estava salvo. A seu lado respirava um
archanjo celeste.
Olhou. Cecilia, a pomba immaculada, depositara aos pés do seu amante uma
bolsa, cheia de libras, thesouro de trabalho e de economia.
Que esplendida creança! e que nobilissima abnegação!
--Tu aqui, Cecilia?...
--Sim, aqui, ao pé de ti, meu Julio. Tudo adivinhei. Se é preciso que
partas, parte: vae procurar a fortuna, por que tanto anceias. No entanto
lembra-te sempre de que deixas n'esta casa não só um pae que te estima
mas tambem uma mulher que te ama.
--Cecilia, meu doce amor, como eu quizera ser feliz comtigo. Mas tu bem
vês, minha filha: sou pobre, nada tenho. Repudiado pela sociedade, que
me julga um criminoso, apenas a tua e a minha desgraça poderia fazer
n'este momento. Parto ámanhã. Com o nome mudado, entrarei n'uma fabrica.
Trabalharei, trabalharei muito. E tu, Cecilia, que és boa e meiga, como
as estrellas do céu, não me esqueças nunca nas tuas piedosas orações.
Deus ha de ouvir-te, porque Deus tambem é bom. Um dia, quem sabe?
voltarei rico a esta casa. Tenho fé em Deus que hei de voltar. E tu
tambem tens fé, não é assim, Cecilia?
--Fé, meu amigo, só eu tenho na morte. Alguma cousa me diz que a
felicidade não foi feita para nós. Paciencia. Que, ao menos, o céu nos
receba!--é este o meu maior desejo.
Um curto, mas doloroso intervallo se seguiu a estas palavras. Cecilia,
sufocada pelos soluços rasgava com os proprios dentes as pontas do
avental, chorando amargamente.
Julio envidava todos os seus esforços afim de a consolar. Nem um nem
outro, porém, sabiam o que faziam.
--Vamos, meu Julio, assim é preciso. Animo, animo e adeus...
Um abraço os reuniu; e um beijo--um prolongado e triste beijo os
separou.
..........................................................................
Oito dias depois, Cecilia mostrava a seu pae uma carta de Julio, cuja
leitura elle terminou chorando.
--Pobre rapaz!--exclamava o bom do velho, limpando os olhos com as
costas da mão.
E voltando-se para sua filha, começou de beijal-a ardentemente.
Doce esperança do céu lhe illuminára a fronte, encanecida na virtude e
no trabalho!
XVI
Transformações
Eu não sei qual seja melhor: se o ar do campo, se o ar da cidade.
É certo que muitos preferem a provincia á capital. Tambem é certo que os
doentes, por via de regra, se não dão bem nos grandes centros:
Entretanto a cidade, se bem que despida da ingenuidade nativa da aldeia,
tem para mim o supremo encanto da actividade e do trabalho. O silencio
prolongado degenera as mais das vezes n'um aborrecimento deploravel,
quando não é elle o gerador de graves e dolorosas molestias.
A cidade tem as suas ruas illuminadas. Os restaurantes attrahem-nos
docemente. O ruido dos cafés desperta em nós o desejo da mutua
confraternidade. Se por acaso atravessamos uma rua bastante concorrida,
paramos instinctivamente; olhamos para as _vitrines_ das lojas,
admiramos um objecto mais do nosso agrado, e com isso nos deleitamos.
Sobretudo apraz-nos a cidade no inverno, no tempo em que as arvores,
despidas das esplendidas _toilettes_ do verão, se nos mostram tristes e
sombrias como a velhice. Então é-nos o calor mui doce e suave lenitivo.
Á luz pallida do gaz distendem-se-nos os musculos enregelados, e
enchem-se-nos de vida os membros confrangidos.