Produced by Pedro Saborano
A SENHORA VISCONDESSA
A SENHORA VISCONDESSA
ROMANCE ORIGINAL
POR
S. DE MAGALHÃES LIMA
COIMBRA
Imprensa Commercial e Industrial
1875
A TI
_A ti, que hoje és ideal, e que um dia serás mãe; a ti, que foste
filha e que has de ser esposa; a ti, mulher, a ti,_
Consagro este livro.
_Magalhães Lima_
I
Um baile
Temos baile em casa da sr.^a viscondessa de B ***.
Á porta do palacete param trens sem conta. Descem os convivas,
profusamente almiscarados.
No salão crusam-se os pares: _elles_, fragrantes, como uma rosa de
Bengalla; _ellas_, voluptuosas e tépidas, como uma brisa do Oriente.
A sala é vasta, enorme, quadrangular. A cada canto uma mesa de marmore
oleosa e de difficil lavôr. Do tecto dourado e semicircular pende um
lustre de sessenta lumes, adornado de flores artificiaes e de vidrilhos
verdes. A mobilia, de um estofo azul e assetinado, rivalisa em symetria
com os mais encantados jardins de Granada.
As janellas abertas atraiçoam os segredos dos namorados. Como
relampagos, reflectem-se na praça as vertigens da walsa.
Por sobre a sombra do arvoredo ondeia a luz phantasticamente. A cada um
d'estes banhos despertam as aves nos seus ninhos. E a lua, a doce
companheira da tristeza, vae illuminando o espaço, o mar e as solidões.
As flores derramam uns aromas acres e inebriantes. N'um esplendido vaso
de porcellana de _Sévres_, abre uma mimosa camelia as suas longas e
avelludadas petalas.
Umas plantas exoticas, orientaes, adornam o espaço ladrilhado das
janellas de sacada.
Entra a viscondessa na sala. Os grupos cessam de falar. Em redor d'ella
tudo se apinha, tudo se confunde, tudo se baralha.
A valsa recomeça. Nos espelhos de crystal reflectem-se as estranhas
imagens, que, n'esta noite, povoam o salão. Sobre as piscinas de marmore
debruçam-se as avesinhas artificiaes--pobres avesinhas implumes feitas
de pedra e de calcareo.
Estremecem docemente os cortinados da janella. Os peitos arfam de
cançados; e na parede o papel, como que exhala uns mysteriosos e
prolongados calores.
--Quer v. ex.^a conceder-me esta valsa?--diz um cavalheiro, offerecendo
o braço a uma gentil dama de vinte annos.
E entrou no turbilhão.
--Mas perdão, senhora viscondessa... bem vê que na minha posição...
--Acompanhe-me, Alfredo.
E os dois seguiram para uma saleta proxima, situada á direita do salão.
Os creados serviram o chá. Na varanda fumavam e conversavam os
cavalheiros. Algumas senhoras refaziam a sua _toilette_, em parte
desfeita pelos ardores da dança.
--E acredita a senhora viscondessa, que eu realmente lhe podesse ser
affeiçoado nas condições em que me acho?
--E por que não, Alfredo, se eu o amo loucamente.
Um leve ruido interrompeu o dialogo.
A saleta era assaz confortavel. Uns moveis escuros a guarneciam
tristemente. Ao longo da parede destacavam uns quadros sombrios, meigos,
phantasticos. Em cima do fogão agitava-se o pendulo do relogio, como se
effectivamente nos quizesse recordar uma pulsação dolorosa.
A viscondessa, airosamente sentada n'um fofo sophá, volvia os olhos
nervosos na direcção da porta do baile.
--Ninguem nos ouvirá--exclamava ella de si para si.
E continuou a fallar para Alfredo, que, a longos passos, percorria a
sala de um a outro extremo.
Entretanto a orchestra convidava a uma quadrilha.
Um elegante moço entrou na saleta.
--Venho lembrar a v. ex.^a, minha senhora, que esta quadrilha me
pertence.
A viscondessa acompanhou-o.
Alfredo só, roia um charuto furiosamente, quando novo ruido o despertou.
Defronte d'elle, e ameaçando-o com um punhal, estava um rapaz, cheio de
febre, de odio e de vingança.
--Ouvi tudo--exclamou o intruso. Ou tu me promettes nunca amar a
viscondessa, ou eu te assassino aqui, como um miseravel que és.
--Nunca!...--vociferou Alfredo, arrancando-lhe o punhal da mão. Primeiro
cahirás tu, desgraçado. Já, já fora d'esta casa...........................
..........................................................................
Este incidente, como é natural, perturbou a quadrilha, que então se
dançava. Acorreram todos. Os dois contendores haviam desapparecido da
saleta.
O baile continuou.
II
A Senhora Viscondessa
É uma mulher da moda--chlorotica, anemica, febril.
Olhar vivo, e transparente, como um chrystal. Na sua doce pallidez o que
quer que seja das visões de Schiller. No andar, porte altivo, donairoso,
esbelto. As longas insomnias, apaixonadas, tornaram-n'a triste e
contemplativa, como uma virgem de Murillo.
É viscondessa; faz muitas esmolas e possue trens faustuosos.
Acabam de soar duas horas nos relogios da cidade. Um calor intenso
abrasa as calçadas. Corria o mez de Maio de 1859. No Largo de Camões, o
sol, batendo de chapa, sobre um telhado visinho, reflectira-se
estranhamente nos aposentos da viscondessa.
No corredor presentira-se o ranger de um leito. O cortinado de cambraia
foi delicadamente afastado por uma mão de marfim, pequena e esculptural.
--Virginia, Virginia--gritou uma voz sonora, de timbre metalico e
adocicado.
A porta do quarto, abrindo-se, deixou entre vêr o rosto de uma formosa
creança, loura como um cherubim e tentadora como Eva.
--V. ex.^a chamou, minha senhora?
--Sim, chamei.--Traze-me o meu roupão branco e vem ajudar-me a vestir.
E a viscondessa, bocejando infantilmente tornou a cahir no travesseiro,
doida de somno e ébria de amor.
Adormeceu de novo.
Uma hora volvida veio Virginia encontral-a sentada n'uma poltrona,
defronte do espelho.
Fingia que lia. Do regaço pendia-lhe um romance francez. Com a mão
direita desviava as tranças fartas, que, por vezes caprichavam em
cahir-lhe sobre o peito. O braço esquerdo, abraçando o espaldar da
cadeira, servia-lhe de encosto.
De subito ergueu-se como uma estatua. Procurou um pente e largou-o com
desfastio. Olhou para o relogio, tocou a campainha, e tornou a
sentar-se.
--Estou aqui, minha senhora. Deseja alguma cousa?
--Ah! Estavas aqui. Ora vejam que cabeça a minha que nem sequer havia
dado por tal.--Manda-me arranjar o almoço, anda.
--Por mais que me digam a senhora não anda bôa--murmurava a ladina da
creada, correndo espevitadamente.
A viscondessa, sempre inquieta, ergueu-se novamente. Percorreu o
corredor e entrou na sala de jantar. Dirigiu se a um periquito, que ali
tinha, tirou-o da gaiola e começou de afagal-o meigamente.
--Coitadinho do meu _bijou_--exclamava ella com doçura.
Foi-se depois ao canario, trouxe-o para a mesa, e destribuindo com elle
a comida, que mal provava, introduziu-o no seio.
Um cão pequeno, felpudo, ensaboado e luzente, como verniz, fazia
_pendant_ com os dois personagens, acima descriptos. _Joli_ lhe chamava
a viscondessa. Nunca sahia da sala de jantar. Era o seu theatro d'elle.
Ali aprendêra a ser guloso e concupiscente. Quando a senhora chegava,
elle, de um pulo, saltando lhe ao regaço, para logo principiava de
lamber-lhe as faces e os cabellos. A dona da casa aceitára, sem
repugnancia, este tributo quotidiano.
Alêm do cão havia um gato maltez, elastico, como uma serpente e
indolente como um chin.
Entre o cão e o gato existia uma mediadora: era a viscondessa. Por fim
os dois rivaes fizeram tréguas. Chegaram até a comer no mesmo prato,
brincando como dois amigos.
Nos seus dias de melancholia, a viscondessa, orphã de pae e mãe, sem
parentes, só no mundo e senhora de ricos haveres, reunindo em redor de
si tão variada e interessante familia, sentia-se mais feliz, e
porventura mais esquecida do que nunca.
O gato aquecia, o cão lambia, e as aves entretinham, cantando.
Emfim bateram quatro horas. A Viscondessa bocejou mais uma vez.
--Se elle, ao menos, me amasse...--dizia ella, erguendo-se.
E, continuando pelo corredor, entrou no _boudoir_, onde a esperava a
cabelleireira.
Vestiu um chambrão de cachemira azul; e, sentando-se na cadeira que lhe
offereceram divagou, ao acaso, durante uma hora.
Quando acordou estava realmente encantadora.
O cabello, frisado a capricho, imprimia-lhe um aspecto senhoril e grave.
O rosto desanuviara-se-lhe. Foi ao espelho, e, como flôr que ao sol
desabrocha, sorriu-se maliciosamente.
--Achas-me bonita, assim?--perguntou ella a Virginia.
--Deslumbrante--minha rica senhora.
E a viscondessa, toda vaidade e tentação, foi-se até á cosinha,
pretextando umas ordens para o jantar.
Voltou depois ao quarto. A um ligeiro impulso cahira-lhe o roupão.
Sorrindo-se, envergou umas saias pesadas e cheias de gomma. Remirou-se
novamente ao espelho. Com um pincel, mergulhado em carmim, deu côr ao
rosto, naturalmente desmaiado. Apertado o espartilho e collocada a
_tournure_ enfiou um rico vestido de setim. Chamou Virginia e pediu
alfinetes. Pregou o vestido, pregou o cabello, pregou as saias,
pregou-se a si e sahiu do _boudoir_.
--Ora esta! e não me ia agora esquecendo o _crême
imperatrice_--monologava ella, voltando á saleta.
Defronte do espelho, recuando dois passos e fazendo tregeitos para um o
outro lado, empoeirou-se gravemente.
Extrahiu do gavetão um lenço de cambraia; destapou um vidrito de
_jockey-club_, perfumou-se e entrou na sala do baile.
O piano estava aberto. A viscondessa sentou-se. Dedilhou, ao acaso, uma
escala e aborreceu-se.
Olhou para um espelho, mudou um dos ganchos do cabello e abriu a
janella.
Uma brisa tépida soprava apenas. O sol ia declinando no horisonte. Nas
ruas mexiam-se as multidões apressadamente. Alguns cavalheiros de chapéu
na mão limpavam o suor da testa. As damas, mesmo á janella, agitavam os
leques phreneticamente. Os freguezes entravam nos botequins, e pediam
sorvetes.
Estava proxima a hora do passeio, a hora de luar, a hora de amor.
Seriam oito horas, quando a viscondessa cerrou a janella. Chegára-lhe
finalmente a vontade de jantar.
Caminhou lentamente, deixando após de si um rumor surdo, e mui
semelhante ao remexer de folhas, agitadas pelo vento.
Insaciavel, hysterica, nervosa, sentou-se á mesa pela segunda vez
n'aquelle dia. Provou de tudo sem comer de nada. Bebeu um gólo de
_malvasia_ e fez-lhe uma careta insupportavel. Limpou os labios de coral
e mandou arranjar o trem.
Prompta a carruagem e calçadas as luvas dirigiu-se para o theatro de D.
Maria.
Representava-se a _Vida de um rapaz_ pobre n'essa noite. A Viscondessa
admiravel de bellesa e encanto, provocava de continuo os binoculos das
plateias.
No fim do 3.^o acto a porta da frisa abriu-se. Era Alfredo que entrava.
A Viscondessa sorriu-se.
--Sabe, Alfredo, que o esperei hoje todo o dia?
--E não o ter eu adivinhado, senhora viscondessa?
--Se imaginasse o aborrecimento em que vivo decerto não seria tão cruel
para commigo.
--Mas, minha senhora, a minha posição... emfim... eu não sei...V.
ex.^a...
E a orchestra, tocando uma symphonia, deu o signal de despedida.
--Alfredo, enleiado e timido, sahiu da frisa. A Viscondessa
cumprimentou-o, e, como sempre sorriu-se tristemente. O espectaculo
continuou.
Á sahida do theatro, quando a Viscondessa, acompanhada por um creado,
punha o pé direito no estribo da carruagem um desconhecido, abeirando-se
d'ella entregára-lhe um pequeno bilhete, ligeiramente perfumado.
Os cavallos partiram a galope. Apenas chegada a casa, a senhora, toda
receio e anciedade, abriu o bilhete.
Desengano, desengano cruel! Não era de Alfredo a letra...
Mas de quem poderia ser? A quem attribuir aquellas palavras ardentes?
«Amo-te--escrevêra o anonymo.--Doidamente te amo. Tu decidirás da minha
sorte. Sou pobre, sou operario. Embora! Hei de conquistar-te ainda mesmo
atravez do sangue do meu rival.
--Sempre é muito atrevido!...--exclamava a viscondessa, despindo-se já.
Acendeu depois um charuto, um excellente charuto havano.
A pouco e pouco foram-se-lhe os olhos estreitando. Para um lado pendeu a
cabeça abrasada, e para outro o braço, cuja mão deixava cahir o charuto,
quasi apagado.
Languida, abatida, sensual a senhora adormeceu finalmente.
Virginia chegára pé ante pé e retirára a luz. O palacete, envolto em
trévas, acompanhára o somno da sua rainha.
E assim se passava a vida da Viscondessa.
III
Alfredo
Alfredo da Silveira nascêra embalado pelos sorrisos da fortuna.
Teve uma casa que vendeu. E que bonita casa! Situada na orla da praia
extendia-se deante d'ella o oceano como um vasto lençol, cujas dobras
phantasticas se encolhiam e desencolhiam, consoante as horas e as marés.
N'essa casa viu a luz Alfredo. Ahi, envolto com o maternal carinho,
aprendera elle a entoar as primeiras trovas da infancia; ahi tambem
suspiroso, como um lago, e candido, como o céu, aprendêra a ser um filho
honrado e um cidadão benemerito.
Mas a infancia, esvaecida n'uma manhã de rosas, deixára após de si o
lucto de um coração e a orphandade de uma familia.
A solitaria vivenda, circundada de festões e madre-silvas, sentira-se
isolada e triste. Na viração da tarde já as flores silvestres não
derramavam, como outr'ora, uns aromas tão vivos e tão profundamente
salutares e amenos.
Ausentara-se dali a mulher angelica, boa, virtuosa, cujo espirito,
evolado nas azas da saudade, fôra perante Deus rogar pela felicidade de
seu unico filho.
E Alfredo chorou e chorou deveras...
Estava, porêm, na primavera da vida. Auspiciado pelas brisas da mocidade
demandou a capital, cujo ruido o captava em extremo.
Dirigiu-se para Lisbôa e ahi fixou residencia.
Para qualquer que o visse seria o seu rosto gentil e levemente
effeminado o mais seguro passa-porte de uma fina e aprimorada educação.
Usava de ordinario fato preto a que dava realçe uma esplendida camelia,
artisticamente collocada na _boutonniére_.
Elegiaco por condição nada havia que o satisfizesse. Um vacúo immenso
lhe torturava a existencia. Filho do tédio e vivendo para o tédio o seu
espirito, agrilhoado por uma nostalgia sem limites, experimentava de
continúo um mal-estar insupportavel, atroz, corrosivo, e porventura uma
doença impossivel de definir-se.
A sua compleição delicada, e consumida pelos vinhos, agitava-se
alternadamente entre dois mundos infinitos e contradictorios. Amava e
não amava, queria e não queria, pensava e não pensava.
Alto, magro, nervoso tudo o impressionava com uma fatalidade
irresistivel. O mundo era-lhe um phantasma sombrio, chimerico, cuja
sombra elle amaldiaçoava, a todas as horas, no café, na rua, no bordel,
na sociedade emfim.
Mulheres havia que sonhavam com o seu bigode louro, a sua cabelleira
phantastica, e os seus sorrisos provocadores, ingenuos e ligeiramente
ironicos.
Elle, porêm, detestava as mulheres em espirito, aproveitando-lhes o
corpo e a carne, como um mero passa-tempo social.
Só uma vez amou, e, como Christo, doidamente, loucamente, profundamente.
Então foi ditoso muito ditoso.
A felicidade mirara-se n'elle, como uma donzella no seu espelho. Não lhe
faltaram nem as crenças do berço nem as extravagancias da juventude.
Tudo lhe sorrira, desde o leito que primeiro o amamentou até ao vinho,
ao terrivel vinho que ultimamente o prostituiu.
Fôra ditoso...
Viajando viu muita coisa!
Viu mulheres novas que se abandonavam aos velhos; creanças loucas que se
entregavam ás orgias, cuspindo na face das mães; politicos mercenarios,
que, á maneira das mulheres de Babylonia, alugavam ao primeiro, que na
estrada passava, a honra e a consciencia; exploradores sem conta,
eternas Shylocks da publica miseria; paes que despresavam os filhos,
irmãos que matavam os irmãos, mães que vendiam as filhas.
Viu muita coisa...
Passeando, admirou muito!
No Oriente encontrou mulheres formosas, pallidas, sansuaes. Depois
passou á Grecia, a sábia, a divina mãe, onde Corina mais tarde teve o
seu berço de flores. E ainda percorreu Roma, aquella Roma dos Cesares e
da _rocha tarpeia_ e Verona a patria de Julietta, e a Escocia o theatro
de Macbeth.
Admirou muito...
Bebeu sempre!
Provou o incomparavel tokai, esplendido _falerno_ dos tempos modernos,
encheu-se de absyntho e saboreou o alcool com delicia.
Bebeu sempre...
Fumou com ardôr!
O chibuca, o opio, o havano tudo lhe embriagou os sentidos, fazendo
d'elle uma alma pagã e um corpo lascivo, môrno, cheio de tédio e de
languidez.
Fumou com ardor...
Amou delirantemente!
Lembro-me tão bem...
A onda brincava travêssa sobre a praia longinqua. Uma brisa tépida,
apenas, semelhando um leque de plumas, agitava docemente as vagas do
Oceano. Como o arfar de uma mulher aos vinte annos, assim a natureza
suspirava languida, nervosa, etherea.
E ao longe, atravez das brumas phantasticas, scintillaram seus vestidos
brancos, suas faces pallidas e seu olhar azul.
Sorrira-lhe pela primeira vez o ideal no horisonte da vida.
Aproveitou a serenidade do crepusculo para lhe fallar. Disse-lhe o que
sentia. A creança encarou-o duas, tres, quatro, cinco vezes, sorrindo-se
amavelmente.
Volvidos dias tornou-se a encontrar com ella n'um immenso, escuro
pinhal. Ali confidenciaram largamente. Juraram amar-se.
E elle na sua louca estulta ingenuidade ousou acredital-a.
Desgraçado do moço, que tinha um coração, impossivel de esmagar.
Quando, passados annos, lhe disseram que ella se havia tornado uma
grande mulher do mundo, a eterna _bas-bleu_ dos salões, sentiu-se
inanimado quasi, imbelle, exangue.
Tentou afastar de si o gélido phantasma que o perseguia sem cessar, e
que mesmo em vida lhe seria triste mortalha. Em cata d'ella correu,
voou. Precipitou-se, finalmente n'um theatro, onde, pela quarta vez, a
contemplou mais scintillante que uma esmeralda e mais loura ainda que um
archanjo.
Á sahida do espectaculo experimentou um estranho choque no seu hombro
direito. Olhou e viu-a a ella que lhe acenava com uma das mãos.
Aproximou-se então. No lagedo da sala existia um pequeno bilhete que
elle apanhou cuidadosamente.
«Espero-o amanhã, á uma hora da tarde»--escrevêra ella a lapis.
E, cheio de anciedade, tambem elle esperou pela aprazada hora.
Ao penetrar no seu quarto, d'ella, tremeu involuntariamente. Um singular
ruido lhe captou os sentidos. Emilia jogava, e, na febre do jogo, ria
descompostamente.
Sentou-se ao lado de um desconhecido.
Terminado o jogo seguira-se o _Cognac_.
Beberam todos.
Emilia levantou-se depois, e cerrou hermeticamente todas as janellas do
quarto. Derramaram-se perfumes em larga escala. No centro foi collocado
um braseiro.
D'entro em duas horas estavam todos adormecidos. Só Alfredo, sentindo-se
abafado, morto, enraivecido e não podendo conter mais a asphyxia que
lentamente o devorava, começou de gritar terrivelmente, terminando por
desfechar dois tiros de revolver na direcção da porta de entrada.
Acorreu muita gente. A porta foi arrombada.
Entraram todos.
O feio silencio do tumulo envolvia a casa d'aquella mulher. Para um lado
seis cadaveres de homens com os olhos arregalados, a bocca semi-aberta e
o corpo ensanguentado; para outro lado uma mulher com os vestidos rotos,
o cabello arrancado e as faces horrivelmente maceradas.
«Emilia, Emilia...--exclamava elle repetidas vezes.
E só os echos repeliam:
«Emilia, Emilia...[1]
Desde então para cá Alfredo, endurecido no cynismo e na indifferença,
tem arrastado uma vida monotona, semsabor, aborrecida.
Levanta-se ordinariamente á uma hora da tarde doente, triste, sonhando
uns males terriveis, imaginarios.
Não almoça nunca. O appetite fugiu-lhe com as extravagancias do
estomago. Nem mesmo tem já paladar.
Percorre as ruas authomaticamente olhando as _vitrines_ das lojas, a
cujas esquinas estaciona.
Frequenta os bailes, mais por uma necessidade de espirito do que por um
enthusiasmo juvenil.
Como Falstaff ceia muito: espantosamente, loucamente. Pela madrugada
recolhe-se a um quarto solitario, que alugou e onde vive só, sem creado
nem creada.
Lê e escreve no restaurante, sua habitual residencia.
Na noite em que o encontrámos no salão da viscondessa, recolhia-se elle
a casa mais melancholico do que o costume.
--Mas quem será o maldito rival?--monologava elle de si para comsigo.
Acham pouco ainda? pois bem. Tambem tu cahirás, minha querida
viscondessa. Tentou-te o demonio estupido: serás uma das suas victimas.
E entrou no café.
[1] Este facto que para muitos passará por inverosimil, deu-se,
todavia, proximo de Lisbôa, em 1854.
IV
Contrastes
O amor é o laço que une duas almas.
Quando as tempestades rugem, e os ventos bramem, e os mares se
encapellam, a mãe, candido alento, apertando o filho contra o peito, diz
amor; e o amor que é medo, afujenta o medo, e o amor, que é aprehensão,
combate a aprehensão, e o amor, que é timidez, destróe a timidez.
Felizes, mil vezes, aquelles, que sabem amar e que tambem são amados!
A vida, sombria em si desabrocha por um beijo de mãe; e n'esse beijo,
sêllo de Deus sobre a terra, que immensa effusão de affectos e que
nobilissimo trasbordar de enthusiasmo.
Ó minha mãe, ó meu abrigo, tu, com o teu coração, foste o anjo
providencial, que em mim encarnaste o sentimento do bem.
No esplendido poema da creação, em que tomam parte as aves com os seus
cantos maviosos e os homens com o seu trabalho, quasi se poderia dizer
que um suave perfume, ethereo e subtil, põe a terra em communicação com
o céu.
Perguntae ao rio, porque geme, e ao oceano, porque brame, e ás arvores,
porque crescem, e á terra, porque produz, e á nuvem, porque corre, e á
flor, porque perfúma? Perguntae...
Amar, ser amado...--que sublime virtude, minhas senhoras.
Ás horas da tristesa, á tardinha, n'aquelles raros momentos, em que as
arvores, estatuas da melancholia, nos deixam ouvir um funebre soluço; á
hora em que o gentil pegureiro desfere na frauta umas sentidas notas;
n'essa hora em que os crentes, saudando o creador, ajoelham aos pés da
cruz:--como não é esplendida a visão do nosso espirito, iriada pelas mil
côres da ventura e do amor.
Apparecei, sonhos da mocidade! Surgi de novo, ó santas crenças da minha
vida!
Porque é que, com os primeiros raios do amor, desapparecem as alegrias
primeiras, os indiscretos descuidos da infancia, os mimosos cantares da
meninice?
Porque é que a mulher, amando, deixa de se pertencer a si, perdendo a
individualidade e a iniciativa, a fim de se consagrar exclusivamente a
um homem, ideal de perfeição e de virtude?
Porque é que o amor nos faz tristes, abatidos e concentrados?
Quem não sentiria, uma vez, ao menos, na sua vida, a dôr, que nos
arrebata o coração e as lagrimas que nos inundam os olhos, ao
despedir-mo-nos da pessoa que amamos?
Mulheres, que tendes amado o que na austeridade do sacrificio, tendes
aprendido a virtude e o desinteresse--fallae por mim.
Homens, que em meio de vossos trabalhos e avergados ao peso das paixões
vos sentis, muitas vezes, desfallecer--abri o coração, mostrae a dôr que
vos opprime.
É doce o amor--pensa o mundo. Mas para amar, quantas inquietações,
quantos supplicios!
É verdade que todos invejam uma mulher amada; é verdade que todos
anceiam esse ineffavel momento, de poder dizer a um ser bom, generoso,
sincero, sympathico, um ser, que nos delicia pelo seu olhar e que nos
apraz pela sua bellesa--amo-te, sou teu; sim, sou teu, porque tu és o
bom amigo sonhado em noites de intimos affectos; adoro-te, porque tu és
a minha inspiração, a minha alma, a minha vida, o meu eterno pensamento:
mas para tudo isto que lucta, que enorme lucta, meu Deus!
Amar é comprehender: comprehender a verdade, elevar-se ao bem pela
contemplação do que é perfeito, subir até ao bello, guindar-se até ás
luminosas regiões da arte e da consciencia.
O mundo fica-nos para traz; esquecem-nos as ambições; perdem-se os
enthusiasmos; fojem-nos as lucidas chimeras da juventude: tudo se
desvanece pelo amor.
Amar, ter um filho... que superior ventura se póde comparar a esta?
Um filho é uma parte de nós mesmo, uma continuação do nosso nome, da
nossa existencia, do nosso viver.
Um filho?!... Quem se não terá enternecido ao contemplar essas louras
creanças, vestidas de branco, e que, durante o dia, brincam nos jardins?
Um filho?!
Como é bella esta palavra e como ella sôa bem aos nossos ouvidos.
Ó santo amor paternal, ó paes, ó mães--vós que tendes chorado com as
dores de vossos filhos e rido com as suas alegrias--dizei-nos--haverá,
porventura, n'este mundo felicidade que se vos compare?
O amor de mãe é muito, mas não é tudo. Aos quinze annos, todos nós
sentimos um vago ideal, que nos illumina o espirito, umas seductoras
imagens que nos transportam a um ser longinqúo, mas realmente existente,
um ser que é nosso, porque o sonhamos e que nos pertence, porque desde a
infancia o anteviramos, claro, limpido, transparente, á semelhança de um
horisonte que um dia contemplamos e que não mais nos esquece.
Esse ser é um marido; esse ser é uma esposa: um vinculo os prende--o
amor; um ideal os incita--os filhos; uma virtude os reune--a
conveniencia.
Á viscondessa tambem lhe chegára a sua vez. Sonhára e fora feliz.
Alfredo era o doce amante, que lhe alimentava a phantasia ardente;
Alfredo, o louro rapaz, era a formosa visão, que aos quinze annos, ella
tivera por companheira inseparavel da sua vida.
Sejamos como a viscondessa. Amemos e seremos felizes.
V
No restaurante
Um mez volvido, após os acontecimentos, acima descriptos,--em Junho de
59--entrava eu casualmente n'um café do _Caes do Sodré_, situado por
baixo do _Grand Hotel Central_--quando ouvi a voz de Alfredo, que de
longe me chamava.
Ebrio e tumultuoso extendeu-me a mão direita, offerecendo-me um banco de
palhinha em um dos extremos da mesa.
Com elle estavam quatro amigos, por egual risonhos e embriagados.
Sobre a pedra de marmore, pegajosa e cheia de cinsa de charuto, viam-se
entre outras cousas cinco chavenas de café, quasi esgotadas, duas
garrafas de cognac e uma de absyntho.
--Não podias vir em melhor occasião--exclamava Alfredo com o cotovello
direito apoiado sobre a mesa e a cabeça inclinada sobre a mão.
--Antes de mais, vae-me bebendo esse cognac e ouve-me depois.
Alfredo tirou em seguida um masso de cartas do bolso interior da
sobrecasaca, e desatando uma fita verde que as envolvia, começou de
abrir uma por uma.
--Mal sabem vocês que temos por aqui uma paixão fidalga. Nem mais nem
menos do que de uma viscondessa.
Esgotou um calix de absyntho, accendeu o charuto e encetou a leitura.
..........................................................................
«Meu bom Alfredo.--Sabes que te amo e que te amo devéras. Não se passa
uma hora, um minuto, um instante em que a tua doce imagem, pura como
Eva...
--Devem notar que este pura como Eva tem sua graça e é
original--reflexionava Alfredo.--Ah! Evas! ah, puras! ah, vestaes do
lodo e da chocarrice...
«... pura como Eva, não venha irradiar-se sobre mim como luz redemptora
e supremo consolo. Nem eu sei dizer-te o que sinto, meu amigo. Tenho
ciumes dos que te acompanham. E não ser eu tambem homem para te seguir
sempre e por toda a parte!
--Variante á mulher-homem de Girardin... Adeante.
«Que triste condição a da mulher, impellida a viver isolada do mundo e
da sociedade...
--Sim, sim, bem te entendo, meu anjo.
«Vem, Alfredo, vem; vem ver-me muitas vezes, se queres que eu viva feliz
e alegre.»
«A Viscondessa de B***.»
--Ora aqui teem Vocês o primeiro specimen da feminil intelligencia.
Vamos ás outras e sem commentarios.
E n'isto Alfredo esvasiou de novo um calix de absyntho.
«Meu unico amigo.--Uma immensa, uma profunda saudade me agita o
espirito. Sinto que me és e serás sempre um alento magnanimo.
«Á meia noite, quando a lua campeia no seu eterno throno de magestade e
de bellesa, apraz-me pensar em ti, nos teus caprichosos desejos, e nas
tuas phantasticas promessas.
«Eu amo o silencio, porque é vago, ethereo e cheio de sombras. Ha dias,
entrando n'um pinheiral, cuja verde ramagem se agitava doce e
harmoniosamente, como uma harpa do céu,--lembrei-me de ti.
«Ao acaso procurei um outeiro, onde me sentasse. Ao longe o oceano, como
um leão esfaimado, enchia a terra com a sua musica rouquenha e
sepulchral. Aproximava-se o crepusculo. Umas nuvens ainda, retintas
pelos raios afogueados do sol, percorriam o espaço de norte a sul.
«Sentindo-me isolada e só, tremi involuntariamente. Soltei um grito e vi
uma creança que para mim corria de braços abertos. Foi uma apparição de
Deus.
«Que linda, que formosissima creança!
«Pensei, então, em ti, meu amigo, mais do que nunca; e, Deus me perdôe,
pensei na creança, que, um dia, fructo das minhas entranhas, uniria para
sempre as nossas duas existencias, n'um unico beijo, n'um unico abraço,
n'uma unica ideia.
«Adeus, meu filho. Crê em mim, crê no futuro.
«A Viscondessa de B***.»
Alfredo, não podendo mais suster o riso, soltou uma furiosa gargalhada,
deixando, ao mesmo tempo, cahir a carta que mal sustinha entre os dedos
frouxos e nervosos.
--Ah! Ah! Ah!... Parecia-me mesmo um lyrio esta viscondessa, um lyrio a
desabrochar. Se não fosse eu, ainda hoje estaria romantica. Ora oiçam
esta, que é a ultima.
..........................................................................
«Meu Alfredo.--A tua convivencia modificou-me fortemente. Comtigo
murcharam as doces illusões que outr'ora me sorriam como estrellas do
céu.
«Como a flor tristemente pisada pelo pé do viandante, assim o meu
espirito succumbiu, sob a influencia do teu halito febril.
«Sem embargo, eu adoro-te, Alfredo.
«Tu polluiste-me as faces com os teus beijos escaldados, profanaste-me o
corpo com as tuas paixões impuras, fizeste de mim uma mulher material,
viciosa, corrupta.
«Eu pedia-te um amor puro, nobre, immaculado, e tu só me deste um desejo
vil, trivial, insensato.
«Que fizeste da minha honra, Alfredo?
«Porque me não amaste d'outro modo?
«E queres-me ainda assim? pois bem: serei tua, tua para sempre.
«A Viscondessa de B***.
--Absyntho, rapaz--gritou o amante da viscondessa, batendo com a bengala
no marmore da mesa.
E o creado, desarrolhando uma garrafa, offereceu-a ao freguez.
No relogio do restaurante soaram, então, 2 horas da madrugada.
Alfredo, bebendo sempre, resmungava imperceptivelmente. Ao lado d'elle
os amigos proseguiam na mesma tarefa.
O dono do restaurante, vendo que o caso se demorava, mandou vir um trem.
Sobraçou Alfredo, a este tempo, já quasi debaixo da mesa, e introduziu-o
na carruagem, cuja almofada era simultaneamente occupada por um cocheiro
e um policia.
Fez o mesmo aos restantes e fechou as portas do estabelecimento.
Eu sahi tambem; mas, ao contrario dos outros, aterrado e confuso, com o
que ali havia presenciado e ouvido.
Pensei em Luiz Veuillot e segui para casa.
VI
Sem sahir do mundo
Alfredo era um rapaz do seu tempo, e, como tal, um filho dedicado dos
cafés, um amador do fumo e um apreciador exaggerado _du vieux cognac_.
No proprio desalinho ostentava elle uma generosidade fidalga, que o
tornava sympathico e bem quisto por todos os que com elle mais de perto
privavam.
Era exaltado em extremo, inconstante e leviano. Quando lhe fallavam em
amor sorria-se meigamente.--Amor?...--respondia elle, como que acordando
de um longo somno--Sim! já gostei d'elle. Hoje troquei as boas amigas
pelos bons manjares.
E virava costas de aborrecido,
E, no entanto, as mulheres gostavam d'elle--talvez por essa rasão.--Não
gostam as flores das borboletas?
A vida exterior, activa, intelligente é que, por via de regra, gera a
inconstancia. De modo que aquillo que n'uma mulher constitue um crime de
lesa-dignidade, é para o homem uma quasi urgencia, filha, sem duvida,
das circumstancias especiaes que o rodeiam.
O homem obedece, em geral, mais ao seu organismo do que á sua vontade. A
leviandade provêm, muitas vezes, de um impulso de temperamento. A
imaginação nem sempre póde ser domada. Á uniformidade oppõe-se a
variedade. A phantasia aprecia melhor esta do que aquella.
Ora semelhantes rasões não se dão já na mulher. A mulher tem uma vida
limitada, restricta, puramente interior e domestica. Deve ter na sua
existencia um unico amor, um unico interesse, um unico pensamento. E
desde o momento que isto se despresar--podeis acreditar-me--em vez de
uma mãe, em vez de uma esposa, em vez de uma irmã, apenas tereis deante
de vós uma amante, isto é, uma companheira para alguns meses de praser e
de sensualidade.
Creio porêm que tal vicio é puramente peninsular. Em Portugal é costume
fazer a côrte da rua para as janellas. O namoro, se existe, é
simplesmente no olhar. Tudo falla, menos o coração. E só depois de
casados, reconhecem, então os noivos, que realmente os não fadára Deus
um para o outro. Triste inconsequencia, na verdade, que muitas vezes
traz comsigo o divorcio e emquanto a nós o peior de todos os desgostos,
o desgosto do lar domestico.
Entre nós é a educação da mulher um fado quasi secundario. Que aprendem
ellas nos collegios? que sabem ellas quando se casam? Por ventura
saberão talhar os seus vestidos? porventura saberão manter o aceio e a
limpesa, tão necessarios á cosinha como ao resto da sociedade conjugal?
Tudo, menos isso. Diz-se mulher do _high-life_, aquella que melhor valsa
n'uma sala, a que mais prende pelos arrebiques do _coquettismo_, emfim,
a que fôr mais imaginosa, a que tiver lido alguns romances francezes e a
que mais amada souber fazer-se, n'um salão. Pouco monta que seja
dedicada a seus filhos, e amiga do seu marido. A questão é ter côrte. O
resto de nada vale, porque está abaixo dos sentidos; e os sentidos, são,
n'este assumpto, uns mui respeitados directores.
Não quero eu com isto dizer que a educação do homem seja superior á
educação da mulher. Os rapases nascem egoistas. Não amam o desinteresse,
porque são naturalmente utilitarios e desconfiados. Desejam uma esposa,
mais pelo dinheiro que ella lhes traz do que pela estima que os póde
tornar felizes. D'esta maneira o casamento entre nós é um acto de
commercio uma garantia de futuros interesses, muito de preferencia a uma
garantia de amor.
Alfredo, porêm, desviára-se d'esta norma. De creança aprendêra elle a
sondar a sociedade com todas as suas corrupções e inconsequencias. De
sobejo sabia que a dança, toda exterior e ficticia, era a perversão do
ideal conjugal. Por instincto aborrecêra o salão, soalheiro de intriga e
de pequeninas miserias. Conhecedor dos homens, e das cousas cahira,
finalmente, n'um indifferentismo, até certo ponto, deploravel, para um
rapaz, mas, de certo, necessario e fatal para todo o organismo, digno de
outra aspiração que não fosse a do animal, por naturesa inerte e
estupido.
Alfredo resumia, portanto, uma energica reacção contra o estabelecido, e
um vago aspirar para um futuro, ainda não bem definido.
Saudemos esse futuro.
VII
Entre amigos
Tudo disposto e preparado.
Somos quarenta convivas á mesa. A viscondessa está bella,
verdadeiramente bella, sem os artificios que deslumbram, nem as vaidades
que enojam. Completa agora vinte e seis annos, volvidos entre o regaço
da mãe que se finou e os beijos do pae cuja existencia, por duvidosa, se
ignora. Alfredo está tambem, mas triste, acabrunhado, pesaroso, olhando
indifferentemente as pessoas que o rodêam, comendo pouco, bocejando
muito e bebendo mais.
Dois creados serviam a sôpa. Pelo lado direito da mesa,
parallelo-grammo, offerecia-se a sôpa _Julienne_ alternada pela esquerda
com a sôpa _allemã_.
Um mysterioso silencio envolvia quasi todos os hospedes. Umas leves
palavras apenas se trocavam de par para par. Nos calices transparecia o
_xerez_--o louro e ingenuo xerez dos estomagos delicados.
Esgotados os primeiros copos e retirada a primeira coberta de peixe com
molho á ingleza, appareceu o _Chateau-Lafitte_. Alfredo, reclinando-se
na cadeira, sorriu-se meigamente. Um cavalheiro importuno,
levantando-se, de cópo erguido, disse:
«Minhas senhoras e meus senhores: n'este vinho, eu saúdo a França, mãe
desvelada do pensamento moderno.»
E todos beberam.
Entretanto o silencio recomeçara novamente. Os creados, em nervoso
phrenesi, retiravam os pratos sujos para logo os substituir por outros
lavados. Telintavam os talheres de prata. Quatro bicos de gaz alumiavam
a mesa, matisada de flôres, cuja côr deliciava todos os olhos e cujo
perfume embriagava todas as pituitarias. Na parede, pintada a
azul-dourado, destacavam uns quadros comicos, alegres, folgasões, uns
quadros de caçador logrado, perfeitamente pittorescos, perfeitamente
escolhidos.
Estava-se n'um _vol-au-vent_ de frangos. O vinho correspondente era, se
bem me lembro, Madeira sêcco. Conversava-se já de extremo para extremo.
Algumas damas, agitando os leques, abriam os olhos, afogueadas em calor.
Por ordem da viscondessa abriram-se as janellas. Uns cégos, que, então,
passavam na rua, começaram de tocar uns velhos landúns, perfeitamente
detestaveis e anachronicos.
«O fado! o fado!--gritou Alfredo.
E os homens principiaram a tocar o fadinho das salas.
Servida uma _mayonnaise_ de linguados, servida ainda uma _galantina_ de
gallinha com aspic, passou-se a um _ponche à la romaine_. As rolhas do
champague saltavam ferventes e impetuosas, como uma catadupa de
topasios. Os creados corriam como possessos. As senhoras apoiavam as
faces rubras, sobre o hombro direito dos namorados. No espaço campeava a
lua, na sua doce pallidez, espreitando meigamente o festim da
viscondessa.
Seriam dez horas da noite, quando, depois de concluidos os
assados--patos com azeitonas, perús com truffas e espargos--se começou a
tirar o doce. Comiam uns podim _saboyon au rhum_ e outros _bavaroise_ de
fruta. O licôr escolhido era o _Chartreusse_. Alfredo, erguendo-se,
propôz um brinde.
«Bebo á saude da senhora viscondessa--exclamou elle--á saude da sua
felicidade, e á saude de seu futuro filho.»
E, sem mais poder suster-se de pé, cahiu sentado na cadeira. Todos o
olharam com um olhar interrogativo. A viscondessa, encarou-o, com uma
santa e terna delicadesa. Os outros, por prudencia, calaram-se.
Cá fóra numerosas tropas atravessavam as ruas. Portugal, constitucional,
saùdava o seu nunca--esquecido vinte e quatro de Julho.
Terminados os brindes, que foram immensos e ruidosos, continuaram todos
para o salão. Só Alfredo, por confiança na casa, ousou ficar á mesa, a
cujo extremo adormeceu. E, suspeitando que fumava, dormiu um longo e
pesado somno.
Quando realmente deu por si soavam tres horas nos relogios da casa. Meio
adormecido e meio acordado, olhou e viu duas sombras, que, a um recanto
do aparador, se agitavam docemente. Aproximando-se mais reconheceu então
uma das creadas da casa, conversando airosamente com um garboso gentil
homem.
--Ora pois!--regougou elle.--Nem mais nem menos. Tudo corre bem e todos
teem rasão...
E sahiu, assobiando a carta adorada da Grã-Duquesa.
Na carta que eu tive, Amelia formosa,
Me disseste amor...
VIII
De passagem
Entre um bom jantar e um bom espirito existe, ao que parece, uma
profunda analogia. _Tous les gens d'esprit sont gastronomes_--dizia
Balzac. De todos os animaes, o unico, que sabe comer, é o
homem--escrevia um outro auctor francez. D'este modo o jantar entre
amigos é uma quasi necessidade da nossa existencia e um salutar
incentivo a duas ou tres horas de boa e franca jovialidade.
Em Portugal dão-se jantares, mais como ostentação vã, do que
verdadeiramente como meio de melhor expandirmos os nossos affectos, as
nossas ideias, os nossos desejos, as nossas ambições. A nossa mesa
distingue-se das mesas estrangeiras, não só pela má escolha das comidas,
senão tambem pela exaggerada seriedade com que costumamos assistir a
taes solemnidades. Dir-se-hia que, em taes momentos, estamos
presenciando o enterro de nossos paes.
Ora o jantar, o bom jantar, sadio e leve, deve sobretudo correr alegre,
isento de malquerenças, semeado de phrases espirituosas e de anecdotas
interessantes. O jantar é, por via de regra, um pretexto para
solidificar velhas relações de amisade; um pretexto para nos rirmos á
vontade, um pretexto para conversarmos intimamente.
Os estrangeiros, comprehendem de ordinario estas festas, tirando os
casacos, bebendo bem e comendo melhor. Nós outros, os portuguezes que,
não obstante sermos uma caricatura viva de tudo quanto vem de fóra,
tanto queremos primar pela gravidade que comprehendemos perfeitamente o
contrario. Mal nos rimos, porque nem mesmo rir sabemos. O espirito nem
sempre se amolda com todas as modulações de linguagem. Parece que á
lingua portugueza foi vedado o dizer ligeiro, amavel, faceto, que tanto
distingue a França moderna. Nós somos um povo, naturalmente indolente,
um povo de _apaixonados_, como tão bem nos definiu M.^me de Sevigné.
Voltemos, porém, á cosinha.
Tem um grande defeito: falta-lhe como em geral ao nosso viver, a boa
elegancia, o sabor, a pimenta, que torna as comidas mais gostosas e mais
facilmente digestivas. Não temos originalidade, e por isso imitamos. O
unico prato que a meu vêr existe classicamente portuguez, mas
soberanamente enjoativo, é o leitão. Na provincia, sobretudo, assa-se um
leitão a proposito de qualquer festa. São nossos, exclusivamente nossos,
o leitão e os foguetes.
Depois note-se--na nossa mesa não ha aquelle aceio que tanto seria para
desejar, e que tão proverbial é entre os ingleses. Uma toalha,
perfeitamente branca, aromatica, transparente, é já de si um notavel
passo para um bom jantar. As indigestões nascem quasi sempre do mau
tempero das comidas: parece que se odeia a agua e lavam-se os
mantimentos como em baptismo de mouros.
Entre as classes mais altas da sociedade são despresadas as comidas
vegetaes. Só o povo as aprecia; e porisso tambem é elle em geral mais
robusto, mais fortemente organisado, e mais naturalmente atreito á
espontaneidade e ás alegrias da vida.
O temperamento depende das condições alimenticias em que nos
encontramos. O bom e o mau humor tambem d'ellas provêm. No modo, porque
nos alimentamos reside, pois, uma grande parte da nossa felicidade.
As comidas, demasiadamente gordas, geram a obesidade tão peculiar aos
nossos provincianos; ao passo que o alimento vegetal torna o homem
ligeiro, amavel e espirituoso.
Á mesa da viscondessa respirava-se um invejavel aceio e uma limpesa
pouco vulgar entre nós. A propria toalha attrahia, não só pela sua
extrema brancura, senão tambem por uma deliciosa fresquidão, que de
ordinario exhalava.
Grave era a viscondessa, mas espirituosa. Ninguem sabia tratar melhor os
seus hospedes, nem com mais liberdade. Como aphorismo passava já em
julgado que eram bons, substanciosos e alegres os jantares da
viscondessa.
É que, á parte os seus caprichos, a viscondessa comprehendeu a vida
moderna, tal qual ella deve ser: commoda, aceiada e elegante.
Nem porisso lhe queiramos mal, mas antes façamos por imital-a.
IX
Pobresa e miseria
É singelo o quadro; tocante até.
Uma pobre velha, habitando uma alcova humida e sombria, treme de frio,
gemendo por vezes. Serve-lhe de leito uma pouca de palha enxarcada e
nauseabunda. Ao lado uma panella velha, tosca e ligeira, cuja grande
utilidade é aparar a agua, que a miudo se despenha do telhado.
Por uma fresta, lavrada no alto da parede, côam-se tristemente uns
tenues raios de luz. Dir-se-hia que á desgraça até o sol é vedado.
Pelo soalho esburacado e carcomido occultam-se uns bichos infernaes,
molles, gellalinosos. O tecto, artisticamente cinzelado pelo longo e
imperioso trabalho da aranha, quasi se não distingue d'entre a escuridão
que cerca o aposento.
E Maria, a desventurada creatura, jaz immersa em intima dôr, abandonada
aos vermes que lhe róem as carnes syphiliticas, negras, cobertas de
pustullas e de putrefacção. Querem conhecel-a?
Rica e formosa, fôra esta mulher. Cheia de venturas e mimos deslisára a
sua vida, sem mais attritos do que aquelles que ordinariamente nos dá o
tempo e a natureza.
Acariciada pelo anjo do amor e embalada nos sonhos gentis da opulencia,
Maria sentiu-se a um tempo admirada e requestada pela mais guapa
fidalguia do seu paiz.
Seus paes, habituados áquelle unico thesouro, eram inexoraveis no
cumprimento das suas profundas e intimas affeições. Nada exigia, que
para logo não fosse satisfeito. O mais leve capricho tentavam-no elles
realisar com a satisfação de um escravo, que por sua senhora arriscára a
vida.
Assim cresceu aquelle arbusto. Descuidado e candido, não houve vento que
lhe açoutasse as tenras vergontesa. O sol, saúdava-o todas as manhãs, e
a primavera encontrou-o viçoso, coberto de flôr e de esperanças.
Veiu, porém, a tempestade. O sul rugiu temeroso. No espaço
precipitaram-se as nuvens, prenhes de electricidade. A arvore, mal
segara, tremeu na sua raiz, e desappareceu da terra.
Onde estava Maria? Porventura iria ella em busca de algum anjo bom, seu
irmão?
Fragil, como qualquer mulher, Maria não ousára resistir á fatalidade que
a dominava. Fugiu. Fugiu romanticamente, por um lençol, atado á janella
de sacada, e á meia-noite.
Como quer que fosse o facto, em si escandaloso, excitou naturalmente a
indignação publica. A burguesia commentou-o á noite nos clubs e cafés,
concluindo por ver n'elle uns laivos de obscenidade, impossivel de
admittir-se no seio de uma familia honesta e séria.
Em que pese, porém, aos nossos indigenas sociaes, o caso era mundano, e
frequentissimo até em mulheres demasiadamente imaginosas.
Ao cabo de dois annos, Maria resuscitou; não para a vida, mas para a
morte.
O rosado do rosto transformára-se-lhe subitamente numa pallidez
transparente, sepulchral, doentia. Os olhos, encovados, haviam perdido o
seu primitivo brilho. Nada existia já que não fosse triste e
profundamente doloroso.
A mulher virtuosa cahira victima indefesa, ás mãos de um maltrapilho
infame. O miseravel seductor, retirára comsigo o seu dinheiro e o seu
carinho.
Abandonada a si, Maria, refractaria ao trabalho, sem pae, sem mãe, sem
irmãos, sem amigos, olhou em redor de si, e viu a sociedade que de longe
lhe acenava.
Correu a ella com um filho nos braços. Engolphou-se nos seus prazeres,
trocou a honra pelo pão quotidiano, pôz em almoeda a consciencia pelo
futuro do innocente, que ao lado d'ella soffria e chorava tambem.
Era nobre, e pagava pela corrupção commum...
A mocidade ganhou-a, como poude. Viveu-a, e tanto bastava.
Depois chegou a velhice e a tristesa; depois a pobresa e a miseria.
Julio, a este tempo já era crescido, e velava pela mãe sollicitamente.
De que poderiam comtudo valer os minguados ceitis com que lhe era
remunerado o seu trabalho de todos os dias?
Se elle e ella adoecessem, quem mais os trataria? quem, porventura, se
amerciaria d'aquella terrivel indigencia?
--Ninguem!...--respondia-lhe logo a consciencia.
E a consciencia não costuma mentir.
* * * * *
Julio viera, pois, da fabrica e encontrára sua pobre mãe moribunda, sem
remedio, sem medico e sem dinheiro.
Parou no limiar da porta. Encarou a velha de frente e viu-lhe os braços
estendidos em signal de compaixão. Extactico, cego, allucinado,
entrou-se o desventurado moço em profundo scismar.
Ao descerrar as palpebras amortecidas por um somnambulismo
infernal--Julio, emxugando os olhos, com uma ponta da blusa, sorriu-se,
como se do céu houvera baixado uma inspiração sagrada.
--Desgraçado de mim!--exclamava elle doridamente.--Trabalhar um dia
inteiro e não ter á noite que comer... É triste... muito triste...
Esgotar o sangue das minhas veias, em alheio proveito, e receber, no fim
da semana, um vil salario, que mal me chega ás primeiras necessidades da
vida... É infame... muito infame... Alugar as minhas faculdades e o meu
pensamento, sem outro fim que não seja o proprio aviltamento e a propria
degradação... É vil... muito vil.. Oh! meu Deus!... antes a morte! mil
vezes a morte...
E assim cahiu inanimado o honrado moço sobre o desventurado cadaver de
sua santa mãe.
A scena era realmente tão obscura, que mal poderia provocar as vistas
d'esse mundo, que é louco e grande.--Passou, como tudo o que é modesto,
desapercebida e ignorada.
* * * * *
No dia immediato um raio de sol, espreitando muito de soslaio pela
fresta do telhado, apenas encontrára a solidão e a ruina, na mesma
alcova, onde Julio e sua mãe, por tanto tempo agonisaram.
No cemiterio mexia-se uma porção de terra, afim de occultar aos olhos do
mundo o desditoso cadaver d'aquella santa e virtuosa velha.
Julio nem sequer achára uma mortalha, para envolver o corpo de sua mãe.