[Anno Domini 35]
9 E Saulo, [1] respirando ainda ameaças e mortes contra os discipulos do
Senhor, dirigiu-se ao summo sacerdote,
2 E pediu-lhe cartas para Damasco, para as synagogas, para que, se
encontrasse alguns d’aquella seita, quer homens quer mulheres, _os_
conduzisse presos a Jerusalem.
3 E, indo [2] _já_ no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco,
subitamente o cercou um resplendor de luz do céu.
4 E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, [3] Saulo,
porque me persegues?
5 E elle disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: [4] Eu sou Jesus, a
quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões.
6 E elle, tremendo e attonito, disse: [5] Senhor, que queres que faça? E
_disse_-lhe o Senhor: Levanta-te, e entra na cidade, e _ali_ te será dito
o que te convem fazer.
7 E [6] os varões, que iam com elle, pararam attonitos, ouvindo a voz,
mas não vendo ninguem.
8 E Saulo levantou-se da terra, e, abrindo os olhos, não via a ninguem.
E, guiando-o pela mão, o conduziram a Damasco.
9 E esteve tres dias sem vêr, e não comeu nem bebeu.
10 E havia em Damasco um certo discipulo [7] chamado Ananias; e disse-lhe
o Senhor em visão: Ananias! E elle respondeu: Eis-me aqui, Senhor.
11 E _disse_-lhe o Senhor: Levanta-te, e vae á rua chamada Direita, e
pergunta em casa de Judas por [8] um chamado Saulo, de Tarso; pois eis
que elle ora;
12 E tem visto em visão que entrava um homem chamado Ananias, e punha
sobre elle a mão, para que tornasse a vêr.
13 E respondeu Ananias: Senhor, a muitos ouvi ácerca d’este varão,
quantos [9] males tem feito aos teus sanctos em Jerusalem;
14 E aqui tem poder dos principaes dos sacerdotes para prender a todos os
que [10] invocam o teu nome.
15 Disse-lhe, porém, o Senhor: Vae, porque [11] este é para mim vaso
escolhido, para levar o meu nome diante [12] dos gentios, [13] e dos reis
e dos filhos d’Israel.
16 Porque [14] eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome.
17 E Ananias [15] foi, e entrou na casa, e, impondo-lhe [16] as mãos,
disse: Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que te appareceu no caminho por onde
vinhas, me enviou, para que tornes a [17] vêr e sejas cheio do Espirito
Sancto.
18 E logo lhe cairam dos olhos como que umas escamas, e recebeu logo a
vista; e, levantando-se, foi baptizado.
_O perseguidor é perseguido._
[Anno Domini 37]
19 E, tendo comido, ficou confortado. E esteve Saulo [18] alguns dias com
os discipulos que estavam em Damasco.
20 E logo nas synagogas prégava a Jesus, [19] que este era o Filho de
Deus.
21 E todos os que o ouviam estavam attonitos, e diziam: [20] Não é este
aquelle que em Jerusalem assolava aos que invocavam esse nome, e para
isso veiu aqui, para os levar presos aos principaes dos sacerdotes?
22 Porém Saulo [21] se esforçava muito mais, e confundia os judeos que
habitavam em Damasco, provando que aquelle era o Christo.
23 E, tendo passado muitos dias, [22] os judeos tomaram conselho entre si
para o matar.
24 Mas as suas ciladas vieram ao conhecimento de Saulo: e [23] elles
guardavam as portas, tanto de dia como de noite, para poderem matal-o.
25 Porém, tomando-o de [24] noite os discipulos, o arriaram, dentro d’um
cesto, pelo muro.
26 E, [25] quando Saulo chegou a Jerusalem, procurava ajuntar-se aos
discipulos, porém todos se temiam d’elle, não crendo que fosse discipulo.
27 Mas [26] Barnabé, tomando-o comsigo, _o_ trouxe aos apostolos, e lhes
contou como no caminho elle vira ao Senhor e lhe fallara, [27] e como em
Damasco fallara ousadamente no nome de Jesus.
28 E [28] andava com elles em Jerusalem, entrando e saindo.
29 E fallou ousadamente no nome de Jesus. Fallava e disputava tambem
contra os [29] gregos, [30] mas elles procuravam matal-o.
30 Sabendo-_o_, porém, os irmãos, o acompanharam até Cesarea, e o
enviaram a Tarso.
31 Assim [31] pois, as egrejas em toda a Judea, e Galilea e Samaria
tinham paz, e eram edificadas; e se multiplicavam, andando no temor do
Senhor e consolação do Espirito Sancto.
_Cura de Eneas; resurreição de Tabitha._
[Anno Domini 38]
32 E aconteceu [32] que, passando Pedro por todas as partes, veiu tambem
aos sanctos que habitavam em Lydda.
33 E achou ali _um_ certo homem, chamado Eneas, jazendo n’uma cama havia
oito annos, o qual era paralytico.
34 E disse-lhe Pedro: [33] Eneas, Jesus Christo te dá saude; levanta-te e
faze a tua cama. E logo se levantou.
35 E viram-n’o todos os que habitavam em Lydda e [34] Sarona, os [35]
quaes se converteram ao Senhor.
36 E havia em Joppe _uma_ certa discipula chamada Tabitha, que traduzido
se diz [AIC] Dorcas. Esta estava cheia [36] de boas obras e esmolas que
fazia.
37 E aconteceu n’aquelles dias, que, enfermando ella, morreu; e, tendo-a
lavado, _a_ [37] depositaram n’um quarto alto.
38 E, como Lydda era perto de Joppe, ouvindo os discipulos que Pedro
estava ali, lhe mandaram dois varões, rogando-lhe que não se demorasse em
vir ter com elles.
39 E, levantando-se Pedro, foi com elles; e quando chegou o levaram
ao quarto alto, e todas as viuvas o rodearam, chorando e mostrando as
tunicas e vestidos que Dorcas fizera quando estava com ellas.
40 Porém Pedro, [38] fazendo-_as_ sair [39] a todas, poz-se de joelhos
e orou: e, voltando-se para o corpo, [40] disse: Tabitha, levanta-te. E
ella abriu os olhos, e, vendo a Pedro, assentou-se,
41 E elle dando-lhe a mão a levantou, e, chamando os sanctos e as viuvas,
apresentou-_lh’a_ viva.
42 E foi _isto_ notorio por toda a Joppe, [41] e muitos crêram no Senhor.
43 E aconteceu que ficou muitos dias em Joppe, com um [42] _certo_ Simão
curtidor.
[1] cap. 8.3. Gal. 1.13. I Tim. 1.13.
[2] cap. 22.6 e 26.12. I Cor. 15.8.
[3] Mat. 25.40, etc.
[4] cap. 5.39.
[5] Luc. 3.10. cap. 2.37 e 16.36.
[6] Dan. 10.7. cap. 22.9 e 26.13.
[7] cap. 22.12.
[8] cap. 21.39 e 22.3.
[9] ver. 1.
[10] ver. 21. cap. 7.59. I Cor. 1.2. II Tim. 2.22.
[11] cap. 13.2 e 22.21. Rom. 1.1. I Tim. 2.7. II Tim. 1.11.
[12] Rom. 1.5. Gal. 2.7, 8.
[13] cap. 25.22, 23.
[14] cap. 20.23 e 21.11. II Cor. 11.23.
[15] cap. 22.12, 13.
[16] cap. 8.17.
[17] cap. 2.4 e 4.31.
[18] cap. 26.20.
[19] cap. 8.37.
[20] cap. 8.3. ver. 1. Gal. 1.13, 23.
[21] cap. 18.28.
[22] cap. 23.12 e 25.3. II Cor. 11.26.
[23] II Cor. 11.32.
[24] Jos. 2.15. I Sam. 19.12.
[25] cap. 22.17. Gal. 1.17, 18.
[26] cap. 4.36 e 13.2.
[27] ver. 20, 22.
[28] Gal. 1.18.
[29] cap. 6.1 e 11.20.
[30] ver. 23. II Cor. 11.26.
[31] cap. 8.1.
[32] cap. 8.14.
[33] cap. 3.3, 16 e 4.10.
[34] I Chr. 5.16.
[35] cap. 11.21.
[36] I Tim. 2.10. Tito 3.8.
[37] cap. 1.13.
[38] Mat. 9.25.
[39] cap. 7.60.
[40] Mar. 5.41, 42. João 11.43.
[41] João 11.45 e 12.11.
[42] cap. 10.6.
_O centurião Cornelio._
[Anno Domini 41]
10 E havia em Cesarea um _certo_ varão por nome Cornelio, centurião da
cohorte chamada italiana,
2 [1] Piedoso e [2] temente a Deus, com toda a sua casa, o qual fazia
muitas esmolas ao povo, e de continuo orava a Deus.
3 _Este_, [3] quasi á hora nona do dia, viu claramente em visão um anjo
de Deus, que se dirigia para elle e dizia: Cornelio.
4 E este, fixando os olhos n’elle, e muito atemorisado, disse: Que é,
Senhor? E disse-lhe: As tuas orações e as tuas esmolas teem subido para
memoria diante de Deus;
5 Agora, pois, envia varões a Joppe, e manda chamar a Simão, que tem por
sobrenome Pedro.
6 Este pousa em casa de um [4] _certo_ Simão curtidor, que tem a sua casa
junto do mar. [5] Elle te dirá o que deves fazer.
7 E, ido o anjo que lhe fallava, chamou dois dos seus creados, e a um
piedoso soldado dos que estavam ao seu serviço.
8 E, havendo-lhes contado tudo, os enviou a Joppe.
9 E no dia seguinte, indo elles seu caminho, e chegando perto da cidade,
subiu [6] Pedro ao terraço para orar, quasi á hora sexta.
10 E, tendo fome, quiz comer; e, emquanto lh’o preparavam, sobreveiu-lhe
um arrebatamento de sentidos:
11 E viu [7] o céu aberto, e que para elle descia um _certo_ vaso, como
um grande lençol atado pelas quatro pontas, e abaixando-se para a terra.
12 No qual havia de todos os animaes da terra quadrupedes, féras e
reptis, e aves do céu.
13 E foi-lhe dirigida uma voz: Levanta-te, Pedro, mata e come.
14 Porém Pedro disse: De modo nenhum, Senhor, [8] porque nunca comi coisa
alguma commum nem immunda.
15 E segunda vez lhe _disse_ a voz: [9] Não faças tu commum ao que Deus
purificou.
16 E aconteceu isto por tres vezes; e o vaso tornou a recolher-se para o
céu.
17 E, estando Pedro duvidando entre si que seria aquella visão que tinha
visto, eis que os varões que foram enviados por Cornelio, pararam á
porta, perguntando pela casa de Simão.
18 E, chamando, perguntaram se Simão, que tinha por sobrenome Pedro,
pousava ali.
19 E, pensando Pedro n’aquella visão, [10] disse-lhe o Espirito: Eis que
tres varões te buscam:
20 Levanta-te [11] pois, e desce, e vae com elles, não duvidando; porque
eu os enviei.
21 E Pedro, descendo para junto dos varões que lhe foram enviados por
Cornelio, disse: Eis que sou eu a quem procuraes; qual é a causa porque
estaes aqui?
22 E elles disseram: [12] Cornelio, o centurião, varão justo e temente
a Deus, [13] e que tem bom testemunho de toda a nação dos judeos, foi
avisado por um sancto anjo para que mandasse chamar-te a sua casa, e
ouvisse de ti palavras.
23 Então, chamando-os para dentro, os recebeu em casa. Porém no dia
seguinte foi Pedro com elles, [14] e foram com elle alguns irmãos de
Joppe.
24 E no dia immediato chegaram a Cesarea. E Cornelio os estava
esperando, tendo _já_ convidado a seus parentes e amigos mais intimos.
25 E aconteceu que, entrando Pedro, saiu Cornelio a recebel-o, e,
prostrando-se a _seus_ pés, o adorou.
26 Porém Pedro o levantou, dizendo: Levanta-te, eu [15] mesmo tambem sou
homem.
27 E, fallando com elle, entrou, e achou muitos que _ali_ se haviam
ajuntado.
28 E disse-lhes: Vós bem sabeis como não é [16] licito a um varão judeo
ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros; mas [17] Deus mostrou-me que a
nenhum homem chame commum ou immundo:
29 Pelo que, sendo chamado, vim sem contradizer. Pergunto pois; por que
razão mandastes chamar-me?
30 E disse Cornelio: Ha quatro dias estava eu em jejum até esta hora, e
orava em minha casa á hora [18] nona.
31 E eis que diante de mim se apresentou um varão [19] com _um_ vestido
resplandecente, e disse: [20] Cornelio, a tua oração é ouvida, e as tuas
[21] esmolas estão em memoria diante de Deus:
32 Envia pois a Joppe, e manda chamar Simão, o que tem por sobrenome
Pedro; este pousa em casa de Simão o curtidor, junto do mar, e elle,
vindo, te fallará.
33 Assim que logo mandei a ti; e bem fizeste em vir. Agora pois estamos
todos presentes diante de Deus, para ouvir tudo quanto por Deus te é
mandado.
34 E Pedro, abrindo a bocca, disse: [22] Reconheço por verdade que Deus
não faz accepção de pessoas;
35 Mas [23] que lhe é agradavel aquelle que, em qualquer nação, o teme e
obra a justiça.
36 A palavra que elle enviou aos filhos d’Israel, [24] annunciando a paz
por Jesus Christo (este [25] é o Senhor de todos),
37 Esta palavra, vós bem sabeis, veiu por toda a Judea, [26] começando
desde a Galilea, depois do baptismo que João prégou;
38 _Emquanto_ a Jesus de Nazareth, como [27] Deus o ungiu com o Espirito
Sancto e com virtude; o qual andou fazendo bem, e curando a todos os
opprimidos do diabo, [28] porque Deus era com elle.
39 E [29] nós somos testemunhas de todas as _coisas_ que fez, tanto na
terra da Judea como em Jerusalem: [30] ao qual mataram, pendurando-o n’um
madeiro.
40 A [31] este resuscitou Deus ao terceiro dia, e fez que fosse manifesto,
41 Não a todo o povo, [32] mas ás testemunhas que Deus antes ordenára;
a nós, [33] que comemos e bebemos juntamente com elle, depois que
resuscitou dos mortos.
42 E [34] mandou-nos prégar ao povo, e testificar que elle [35] é aquelle
que por Deus [36] foi constituido juiz dos vivos e dos mortos.
43 A [37] este dão testemunho todos os prophetas, de que [38] todos os
que n’elle crêrem receberão o perdão dos peccados pelo seu nome.
44 E, dizendo Pedro ainda estas palavras, [39] caiu o Espirito Sancto
sobre todos os que ouviam a palavra.
45 E [40] os fieis que eram da circumcisão, todos quantos tinham vindo
com Pedro, [41] maravilharam-se de que o dom do Espirito Sancto se
derramasse tambem sobre os gentios.
46 Porque os ouviam fallar linguas, e magnificar a Deus.
47 Respondeu então Pedro: Pode alguem porventura impedir a agua, para que
não sejam baptizados estes, que tambem receberam como nós [42] o Espirito
Sancto?
48 [43] E mandou que fossem baptizados em [44] nome do Senhor. Então
rogaram-lhe que ficasse com elles por alguns dias.
[1] ver. 22. cap. 8.2 e 22.12.
[2] ver. 35.
[3] ver. 30. cap. 11.13.
[4] cap. 9.43.
[5] cap. 11.14.
[6] cap. 11.5, etc.
[7] cap. 7.56. Apo. 19.11.
[8] Lev. 11.4 e 20.25. Deu. 14.3, 7. Eze. 4.14.
[9] Mat. 15.11. ver. 28. Rom. 14.14, 17, 20. I Cor. 10.25. I Tim. 4.4.
Tito 1.15.
[10] cap. 11.12.
[11] cap. 15.7.
[12] ver. 1, 2, etc.
[13] cap. 22.12.
[14] ver. 45. cap. 11.12.
[15] cap. 14.14, 15. Apo. 19.10 e 22.9.
[16] João 4.9 e 18.28. cap. 11.3. Gal. 2.12, 14.
[17] cap. 15.8, 9. Eph. 3.6.
[18] cap. 1.10.
[19] Mat. 28.3. Mar. 16.5. Luc. 24.4.
[20] Dan. 10.12.
[21] Heb. 6.10.
[22] Deu. 10.17. II Chr. 19.7. Rom. 2.11. Eph. 6.9. I Ped. 1.17.
[23] cap. 15.9. Rom. 2.13, 27. I Cor. 12.13. Gal. 3.28. Eph. 2.13, 18.
[24] Isa. 57.19. Eph. 2.14, 16, 17. Col. 1.20.
[25] Mat. 28.18. Rom. 10.12. Eph. 1.20, 22. I Ped. 3.22. Apo. 17.14.
[26] Luc. 4.14.
[27] Luc. 4.18. cap. 2.22 e 4.27. Heb. 1.9.
[28] João 3.2.
[29] cap. 2.32.
[30] cap. 5.30.
[31] cap. 2.24.
[32] João 14.17, 22. cap. 13.31.
[33] Luc. 24.30, 43. João 21.13.
[34] Mat. 28.19, 20. cap. 1.8.
[35] João 5.22, 27.
[36] Rom. 14.9, 10. II Cor. 5.10.
[37] Isa. 53.11. Jer. 31.34. Dan. 9.24. Miq. 7.18. Mal. 4.2.
[38] cap. 15.9. Rom. 10.11. Gal. 3.22.
[39] cap. 4.31.
[40] ver. 23.
[41] cap. 11.18. Gal. 3.14.
[42] cap. 11.17. Rom. 10.12.
[43] I Cor. 1.17.
[44] cap. 2.38.
_Pedro justifica-se perante a egreja de haver baptizado Cornelio._
11 E ouviram os apostolos, e os irmãos que estavam na Judea, que tambem
os gentios receberam a palavra de Deus.
2 E, subindo Pedro a Jerusalem, disputavam [1] com elle os que eram da
circumcisão,
3 Dizendo: [2] Entraste em _casa de_ varões incircumcisos, [3] e comeste
com elles.
4 Mas Pedro começou a contar-lhes _tudo_ [4] por ordem, dizendo:
5 Estando [5] eu orando na cidade de Joppe, vi, arrebatado dos sentidos,
uma visão, um _certo_ vaso, como um grande lençol que descia do céu e,
baixado, vinha até junto de mim.
6 No qual, pondo eu os olhos, considerei, e vi animaes da terra,
quadrupedes, e féras, e reptis, e aves do céu.
7 E ouvi uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro; mata e come.
8 Porém eu disse: De maneira nenhuma, Senhor; pois nunca em minha bocca
entrou coisa alguma commum ou immunda.
9 Mas a voz respondeu-me do céu segunda vez: Não chames tu commum ao que
Deus purificou.
10 E succedeu isto por tres vezes; e tudo tornou a recolher-se no céu.
11 E eis que, na mesma _hora_, pararam junto da casa em que eu estava
tres varões que me foram enviados de Cesarea.
12 E [6] disse-me o Espirito que fosse com elles, não duvidando; e tambem
estes [7] seis irmãos foram comigo, e entrámos em casa d’aquelle varão;
13 E [8] contou-nos como vira estar um anjo em sua casa, e lhe dissera:
Envia varões a Joppe, e manda chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro,
14 O qual te dirá palavras com que te salves, tu e toda a tua casa.
15 E, quando comecei a fallar, caiu sobre elles o Espirito Sancto [9]
como tambem sobre nós ao principio.
16 E lembrei-me do dito do Senhor, quando disse: João [10] certamente
baptizou com agua: [11] mas vós sereis baptizados com o Espirito Sancto.
17 Portanto, [12] se Deus lhes deu o mesmo dom que a nós, que tambem _já_
havemos crido no Senhor Jesus Christo, quem [13] era então eu, para que
podesse estorvar a Deus?
18 E, ouvindo estas coisas, apaziguaram-se, e glorificaram a Deus,
dizendo: [14] De maneira que até aos gentios deu Deus o arrependimento
para a vida.
_O evangelho é prégado aos gentios em Antiochia._
19 E [15] os que foram dispersos pela perseguição que succedeu por causa
d’Estevão caminharam até á Phenicia, Chypre e Antiochia, não annunciando
a ninguem a palavra, senão só aos judeos.
20 E havia entre elles alguns varões chyprios e cyrenenses, os quaes,
entrando em Antiochia, fallaram [16] aos gregos, annunciando o Senhor
Jesus.
21 E a mão [17] do Senhor era com elles; [18] e grande numero creu e se
converteu ao Senhor.
22 E chegou a fama d’isto aos ouvidos da egreja que estava em Jerusalem;
e enviaram [19] Barnabé á Antiochia.
23 O qual, quando chegou, e viu a graça de Deus, se alegrou, [20] e
exhortou a todos a que permanecessem no Senhor com proposito do coração.
24 Porque era homem de bem, [21] e cheio do Espirito Sancto e de fé. E
muita gente se [22] uniu ao Senhor.
25 E partiu Barnabé para [23] Tarso, a buscar Saulo; e, achando-o, o
conduziu para Antiochia.
26 E succedeu que todo um anno se congregaram n’aquella egreja, e
ensinaram muita gente; e em Antiochia foram os discipulos, pela primeira
vez, chamados christãos.
27 E n’aquelles dias [24] desceram prophetas de Jerusalem para Antiochia.
28 E, levantando-se um d’elles, por nome [25] Agabo, dava a entender,
pelo Espirito, que haveria uma grande fome em todo o mundo, a qual
aconteceu no tempo de Claudio Cesar.
29 E os discipulos determinaram mandar, cada um conforme o que podesse,
[26] soccorro para serviço dos irmãos que habitavam na Judea,
30 O [27] que elles com effeito fizeram, enviando-o aos anciãos por mão
de Barnabé e de Saulo.
[1] cap. 10.45. Gal. 2.12.
[2] cap. 10.28.
[3] Gal. 2.12.
[4] Luc. 1.3.
[5] cap. 10.9, etc.
[6] João 16.13. cap. 10.19 e 15.7.
[7] cap. 10.23.
[8] cap. 10.30.
[9] cap. 2.4.
[10] Mat. 3.11. João 1.26, 33. cap. 1.5 e 19.4.
[11] Isa. 44.3. Joel 2.28 e 3.18.
[12] cap. 15.8, 9.
[13] cap. 10.47.
[14] Rom. 10.12, 13 e 15.9, 16.
[15] cap. 8.1.
[16] cap. 6.1 e 9.29.
[17] Luc. 1.66. cap. 2.47.
[18] cap. 9.35.
[19] cap. 9.27.
[20] cap. 13.43 e 14.22.
[21] cap. 6.5.
[22] ver. 21. cap. 5.14.
[23] cap. 9.30.
[24] cap. 2.17 e 13.1 e 15.32 e 21.9. I Cor. 12.28. Eph. 4.11.
[25] cap. 21.10.
[26] Rom. 15.26. I Cor. 16.1. II Cor. 9.1.
[27] cap. 12.25.
_Herodes manda matar Thiago—Pedro é livre da prisão—A morte de Herodes._
[Anno Domini 44]
12 E por aquelle mesmo tempo o rei Herodes estendeu as mãos sobre alguns
da egreja, para os maltratar;
2 E matou á espada Thiago, [1] irmão de João.
3 E, vendo que isso agradára aos judeos, continuou, mandando prender
tambem a Pedro. E [2] eram os dias dos asmos.
4 E, [3] havendo-o prendido, o encerrou na prisão, entregando-_o_
a quatro quaternos de soldados, para que o guardassem, querendo
apresental-o ao povo depois da paschoa.
5 Pedro, pois, era guardado na prisão; porém a egreja fazia continua
oração por elle a Deus.
6 E quando Herodes o havia de tirar, n’aquella mesma noite, estava Pedro
dormindo entre dois soldados, ligado com duas cadeias, e os guardas
diante da porta guardavam a prisão.
7 E eis que [4] sobreveiu o anjo do Senhor, e resplandeceu uma luz na
prisão; e, tocando a Pedro na ilharga, o despertou, dizendo: Levanta-te
depressa. E cairam-lhe das mãos as cadeias.
8 E disse-lhe o anjo: Cinge-te, e ata as tuas alparcas. E elle o fez
assim. Disse-lhe mais: Lança ás costas a tua capa, e segue-me.
9 E, saindo, o seguia. [5] E não sabia que fosse verdade o que era feito
pelo anjo, mas cuidava [6] que via alguma visão.
10 E, quando passaram a primeira e segunda guarda, chegaram á porta de
ferro, que dá para a cidade, [7] a qual se lhes abriu por si mesma; e,
tendo saido, andaram uma rua, e logo o anjo se apartou d’elle.
11 E Pedro, tornando a si, disse: [8] Agora sei verdadeiramente que o
Senhor enviou o seu anjo, [9] e me livrou da mão de Herodes, e _de_ tudo
o que o povo dos judeos esperava.
12 E, considerando elle _n’isto_, [10] foi a casa de Maria, mãe de [11]
João, que tinha por sobrenome Marcos, onde muitos estavam juntos e [12]
orando.
13 E, batendo Pedro á porta do pateo, uma menina chamada Rhode saiu a
escutar;
14 E, conhecendo a voz de Pedro, de gozo não abriu a porta do pateo, mas,
correndo para dentro, annunciou que Pedro estava fóra á porta do pateo.
15 E disseram-lhe: Estás fóra de ti. Mas ella affirmava que assim era. E
diziam: [13] É o seu anjo.
16 Porém Pedro perseverava em bater, e, quando abriram, viram-n’o, e se
espantaram.
17 E, acenando-lhes [14] elle com a mão para que se calassem, contou-lhes
como o Senhor o tirára da prisão, e disse: Annunciae isto a Thiago e aos
irmãos. E, saindo, partiu para outro logar.
18 E, sendo já dia, houve não pouco alvoroço entre os soldados sobre o
que seria feito de Pedro.
19 E, quando Herodes o buscou e o não achou, feita inquirição aos
guardas, mandou-os justiçar. E, partindo da Judea para Cesarea, ficou
_ali_.
20 E Herodes estava irritado com os de Tyro e de Sidon; porém elles,
vindo de commum accordo ter com elle, e persuadindo Blasto, que era o
camarista do rei, pediam paz: porquanto [15] o seu paiz sustentava-se do
_paiz_ do rei.
21 E n’um dia designado, vestindo Herodes as vestes reaes, e assentado no
tribunal, lhes fez uma pratica.
22 E o povo exclamava: Voz de Deus, e não de homem.
23 E no mesmo instante [16] feriu-o o anjo do Senhor, [17] porquanto não
deu gloria a Deus, e, comido de bichos, expirou.
24 [18] E a palavra de Deus crescia e se multiplicava.
25 E Barnabé e Saulo, havendo cumprido aquelle serviço, voltaram de
Jerusalem, [19] levando tambem [20] comsigo a João, que tinha por
sobrenome Marcos.
[1] Mat. 4.21 e 20.23.
[2] Exo. 13.14, 15 e 23.15.
[3] João 21.18.
[4] cap. 5.19.
[5] Psa. 126.1.
[6] cap. 10.3, 17 e 11.5.
[7] cap. 16.26.
[8] Psa. 34.7. Dan. 3.28 e 6.22. Heb. 1.14.
[9] Job 5.19. Psa. 38.18, 19 e 34.22 e 41.2 e 97.10. II Cor. 1.10. II
Ped. 2.9.
[10] cap. 4.23.
[11] cap. 15.37.
[12] ver. 5.
[13] Gen. 48.16. Mat. 18.10.
[14] cap. 13.16 e 19.33 e 21.40.
[15] I Reis 5.9, 11. Eze. 27.17.
[16] I Sam. 25.38. II Sam. 24.17.
[17] Psa. 115.1.
[18] Isa. 55.11. cap. 6.7 e 19.20.
[19] cap. 13.5, 13 e 15.37.
[20] ver. 12.
_Barnabé e Saulo são enviados pela egreja de Antiochia, e pregam em
Chypre: Elymas o encantador._
[Anno Domini 45]
13 E na [1] egreja que estava em Antiochia havia alguns prophetas e
doutores, _a saber_: [2] Barnabé e Simeão, chamado Niger, e [3] Lucio
cyreneo, e Manahen, que fôra criado com Herodes o tetrarcha, e Saulo.
2 E, servindo elles ao Senhor, e jejuando, disse o Espirito [4] Sancto:
Apartae-me a Barnabé e a Saulo para a obra para [5] que os tenho chamado.
3 Então, [6] jejuando e orando, e pondo sobre elles as mãos, _os_
despediram.
4 Estes então, enviados pelo Espirito Sancto, desceram a Seleucia e d’ali
navegaram para [7] Chypre.
5 E, chegados a Salamina, [8] annunciavam a palavra de Deus nas synagogas
dos judeos; e tinham tambem a João [9] por ministro.
6 E, havendo atravessado a ilha até Paphos, acharam [10] _um_ certo judeo
magico, falso propheta, chamado Bar-jesus,
7 O qual estava com o proconsul Sergio Paulo, varão prudente. Este,
chamando a si Barnabé e Saulo, procurava muito ouvir a palavra de Deus.
8 Mas [11] resistia-lhes Elymas, o encantador (que assim se interpreta o
seu nome), procurando apartar da fé o proconsul.
9 Porém Saulo, que tambem _se chama_ Paulo, [12] cheio do Espirito
Sancto, e fixando os olhos n’elle, disse:
10 Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malicia, [13]
inimigo de toda a justiça, não cessarás de perturbar os rectos caminhos
do Senhor?
11 Eis-ahi, pois, [14] agora contra ti a mão do Senhor, e ficarás cego,
sem vêr o sol por algum tempo. E no mesmo instante a escuridão e as
trevas cairam sobre elle, e, andando em redor, buscava a quem o guiasse
pela mão.
12 Então o proconsul, vendo o que havia acontecido, creu, maravilhado da
doutrina do Senhor.
_O discurso de Paulo na synagoga de Antiochia da Pisidia: a opposição dos
judeos._
13 E, partindo de Paphos, Paulo e os que estavam com elle chegaram a
Perge, _cidade_ da Pamphylia. [15] Porém João, apartando-se d’elles,
voltou para Jerusalem.
14 E elles, saindo de Perge, chegaram a Antiochia, [16] da Pisidia, e,
entrando na synagoga, n’um dia de sabbado, assentaram-se;
15 E, depois [17] da lição da lei e dos prophetas, lhes mandaram dizer os
principaes da synagoga: Varões irmãos, [18] se vós tendes alguma palavra
de consolação para o povo, fallae.
16 E, levantando-se Paulo, [19] e pedindo silencio com a mão, disse:
Varões israelitas, e os [20] que temeis a Deus, ouvi:
17 O Deus d’este povo d’Israel escolheu a [21] nossos paes, e exaltou o
[22] povo, sendo elles estrangeiros na terra do Egypto; e [23] com braço
levantado os tirou d’ella;
18 E [24] supportou os seus costumes no deserto por espaço de quasi
quarenta annos.
19 E, [25] destruindo a sete nações na terra de Canaan, [26] lhes
repartiu por sorte a terra d’elles.
20 E, depois d’isto, [27] por quasi quatrocentos e cincoenta annos,
_lhes_ deu juizes, [28] até ao propheta Samuel.
21 E [29] depois pediram _um_ rei, e Deus lhes deu por quarenta annos, a
Saul filho de Kis, varão da tribu de Benjamin.
22 [30] E, tirado este, [31] lhes levantou como rei a David, ao qual
tambem deu testemunho, e disse: [32] Achei a David, _filho_ de Jessé,
[33] varão conforme o meu coração, que executará toda a minha vontade.
23 Da [34] descendencia d’este, conforme [35] a promessa, levantou Deus a
Jesus [36] para Salvador d’Israel;
24 Tendo primeiramente [37] João, antes da vinda d’elle, prégado a todo o
povo d’Israel o baptismo do arrependimento.
25 Mas, como João cumprisse a _sua_ carreira, disse: [38] Quem pensaes
vós que eu sou? Eu não sou _o Christo_; mas eis que após mim vem aquelle
a quem não sou digno de desatar as alparcas dos pés.
26 Varões irmãos, filhos da geração d’Abrahão, e os que d’entre vós temem
a Deus, [39] a vós vos é enviada a palavra d’esta salvação.
27 Porque, [40] não conhecendo a este os que habitavam em Jerusalem, nem
os seus principes, condemnando-_o_, cumpriram assim as vozes dos [41]
prophetas que se lêem todos [42] os sabbados.
28 E, [43] não achando nenhuma causa de morte, [44] pediram a Pilatos que
fosse morto.
29 E, [45] havendo elles cumprido todas _as coisas_ que d’elle estavam
escriptas, tirando-_o_ [46] do madeiro, _o_ pozeram na sepultura;
30 Porém [47] Deus o resuscitou dos [48] mortos.
31 E elle por muitos dias foi visto pelos que subiram com elle [49] da
Galilea a Jerusalem, [50] e são suas testemunhas para com o povo.
32 E nós vos annunciamos [51] a promessa que foi feita aos paes, a qual
_já_ Deus nos cumpriu, a nós, seus filhos, resuscitando a Jesus:
33 Como tambem está escripto no psalmo segundo: Meu filho és [52] tu,
hoje te gerei.
34 E que o resuscitaria dos mortos, para nunca mais tornar á corrupção,
disse-_o_ assim: [53] [AID] As sanctas e fieis bençãos de David vos darei.
35 Pelo que tambem em outro _psalmo_ diz: [54] Não permittirás que o teu
sancto veja corrupção.
36 Porque, na verdade, tendo David no seu tempo servido conforme a
vontade de Deus, [55] dormiu, e foi posto junto de seus paes e viu a
corrupção,
37 Mas aquelle a quem Deus resuscitou nenhuma corrupção viu.
38 Seja-vos pois notorio, varões irmãos, [56] que por este se vos
annuncia a remissão dos peccados.
39 E de tudo o que, pela lei de Moysés não podestes ser justificados
n’este é [57] justificado todo aquelle que crê.
40 Vêde pois que não venha sobre vós o que está dito nos [58] prophetas:
41 Vêde, ó desprezadores, e espantae vos e desapparecei; porque opéro
_uma_ obra em vossos dias, obra que não crereis, se alguem vol-a contar.
42 E, saidos os judeos da synagoga, os gentios rogaram que no sabbado
seguinte se lhes fallassem as mesmas coisas.
43 E, despedida a synagoga, muitos dos judeos e dos proselytos religiosos
seguiram Paulo e Barnabé; os quaes, fallando-lhes, [59] os exhortavam a
que permanecessem [60] na graça de Deus.
44 E no sabbado seguinte ajuntou-se quasi toda a cidade a ouvir a palavra
de Deus.
45 Porém os judeos, vendo a multidão, encheram-se de inveja: e,
blasphemando, [61] contradiziam o que Paulo dizia.
46 Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, disseram: [62] Era mister que
a vós se vos fallasse primeiro a palavra de Deus; [63] mas, visto que
a rejeitaes, e vos não julgaes dignos da vida eterna, eis que [64] nós
voltamos para os gentios;
47 Porque o Senhor assim nol-o mandou, _dizendo_: [65] Eu te puz para luz
dos gentios, para que sejas para salvação até aos confins da terra.
48 E os gentios, ouvindo _isto_, alegraram-se, e glorificavam a palavra
do Senhor; [66] e creram todos quantos estavam ordenados para a vida
eterna.
49 E a palavra do Senhor se divulgava por toda aquella provincia.
50 Mas os judeos incitaram [67] a algumas mulheres religiosas e honestas,
e aos principaes da cidade, e levantaram perseguição contra Paulo e
Barnabé, e os lançaram fóra dos seus termos.
51 Sacudindo, [68] porém, contra elles o pó dos seus pés, partiram para
Iconio.
52 E os discipulos estavam [69] cheios d’alegria e do Espirito Sancto.
[1] cap. 11.27 e 14.20 e 15.35.
[2] cap. 11.22, 26.
[3] Rom. 16.21.
[4] Num. 8.14. cap. 9.15 e 22.21. Rom. 1.1. Gal. 1.15 e 2.9.
[5] Mat. 9.38. cap. 14.26. Rom. 10.15. Eph. 3.7, 8. I Tim. 2.7. II Tim.
1.11. Heb. 5.4.
[6] cap. 6.6.
[7] cap. 4.36.
[8] ver. 46.
[9] cap. 12.25 e 15.37.
[10] cap. 8.9.
[11] Exo. 7.11. II Tim. 3.8.
[12] cap. 4.8.
[13] Mat. 13.38. João 8.44. I João 3.8.
[14] Exo. 9.3. I Sam. 5.6.
[15] cap. 15.38.
[16] cap. 16.13 e 17.2 e 18.4.
[17] Luc. 4.16. ver. 27.
[18] Heb. 13.22.
[19] cap. 12.17.
[20] ver. 26, 42, 43. cap. 10.35.
[21] Deu. 7.6, 7.
[22] Exo. 1.1. Psa. 105.23, 24. cap. 7.17.
[23] Exo. 6.6 e 13.14, 16.
[24] Exo. 16.35. Num. 14.33, 34. cap. 7.36.
[25] Deu. 7.1.
[26] Jos. 14.1, 2. Psa. 78.55.
[27] Jui. 2.16.
[28] I Sam. 3.20.
[29] I Sam. 8.5 e 10.1.
[30] I Sam. 15.23, 26, 28 e 16.1. Ose. 13.11.
[31] I Sam. 16.13. II Sam. 2.4 e 5.3.
[32] Psa. 89.20.
[33] I Sam. 13.14. cap. 7.46.
[34] Isa. 11.1. Luc. 1.32, 69. cap. 2.30. Rom. 1.3.
[35] II Sam. 7.12. Psa. 132.11.
[36] Mat. 1.21. Rom. 11.26.
[37] Mat. 3.1. Luc. 3.3.
[38] Mat. 3.11. Mar. 1.7. Luc. 3.16. João 1.20, 27.
[39] Mat. 10.6. Luc. 24.47. cap. 3.26.
[40] Luc. 23.34. I Cor. 2.8.
[41] ver. 14, 15. cap. 15.11.
[42] Luc. 24.20, 44. cap. 26.22. Mat. 27.22.
[43] Mar. 15.13, 14. João 19.6, 15.
[44] cap. 3.13, 14.
[45] Luc. 18.31.
[46] Mat. 27.59. Mar. 15.46. João 19.38.
[47] Mat. 28.6. cap. 2.24.
[48] Mat. 28.16. cap. 1.3. I Cor. 15.5, 6, 7.
[49] cap. 1.11.
[50] cap. 1.8 e 2.32.
[51] Gen. 3.15 e 12.3 e 22.18. Rom. 4.13. Gal. 3.16.
[52] Psa. 2.7. Heb. 1.5 e 5.5.
[53] Isa. 55.3.
[54] Psa. 16.10. cap. 2.31.
[55] I Reis 2.10. cap. 2.29.
[56] Jer. 31.34. I João 2.12.
[57] Isa. 53.11. Rom. 3.28. Heb. 7.19.
[58] Isa. 29.14. Hab. 1.5.
[59] cap. 11.23 e 14.22.
[60] Tito 2.11. Heb. 12.15. I Ped. 5.12.
[61] cap. 18.6. I Ped. 4.4. Jud. 10.
[62] Mat. 10.6. cap. 3.26. ver. 26. Rom. 1.16.
[63] Exo. 32.10. Deu. 32.21. Isa. 55.5. Mat. 21.43. Rom. 10.19.
[64] cap. 18.6 e 28.28.
[65] Isa. 42.6 e 49.6.
[66] cap. 2.47.
[67] II Tim. 3.11.
[68] Mat. 10.14. Mar. 6.11. Luc. 9.5. cap. 18.6.
[69] Mat. 5.12. João 16.22. cap. 2.46.
_O evangelho é prégado em Iconio, Lystra, e Derbe; successo e
perseguição; a volta a Antiochia._
[Anno Domini 46]
14 E aconteceu que em Iconio entraram juntos na synagoga dos judeos, e
fallaram de tal modo, que creu uma grande multidão, não só de judeos mas
de gregos.
2 Porém os judeos incredulos incitaram e irritaram, contra os irmãos, os
animos dos gentios.
3 Detiveram-se pois muito tempo, fallando ousadamente no Senhor, [1] o
qual dava testemunho á palavra da sua graça, permittindo que por suas
mãos se fizessem signaes e prodigios.
4 E dividiu-se a multidão da cidade; e [2] uns eram pelos judeos, e
outros pelos apostolos.
5 E, havendo um motim, tanto dos judeos como dos gentios, com os seus
principaes, [3] para os insultarem e apedrejarem,
6 Entendendo-o elles, [4] acolheram-se a Lystra e Derbe, cidades de
Lycaonia, e á provincia circumvisinha;
7 E ali prégavam o Evangelho.
8 E estava assentado em [5] Lystra um _certo_ varão leso dos pés, côxo
desde o ventre de sua mãe, o qual nunca tinha andado.
9 Este ouviu fallar Paulo, que, fixando n’elle os olhos, [6] e vendo que
tinha fé para ser curado,
10 Disse em voz [7] alta: Levanta-te direito sobre teus pés. E elle
saltou e andou.
11 E as multidões, vendo o que Paulo fizera, levantaram a sua voz,
dizendo em lingua lycaonica: [8] Fizeram-se os deuses similhantes aos
homens, e desceram até nós.
12 E chamavam Jupiter a Barnabé, e Mercurio a Paulo; porque este era o
que fallava.
13 E o sacerdote de Jupiter, que estava em frente da cidade, trazendo
para a entrada da porta toiros e grinaldas, [9] queria com a multidão
sacrificar-_lhes_.
14 Ouvindo, porém, _isto_ os apostolos Barnabé e Paulo, [10] rasgaram os
seus vestidos, e saltaram entre a multidão, clamando,
15 E dizendo: Varões, [11] porque fazeis essas _coisas_? [12] Nós tambem
somos homens como vós, sujeitos ás mesmas paixões, [13] e vos annunciamos
que vos convertaes d’essas vaidades ao [14] Deus vivo, [15] que fez o
céu, e a terra, e o mar, e tudo quanto ha n’elles;
16 O qual nos [16] tempos passados deixou andar todas as gentes em seus
caminhos.
17 Ainda [17] que, apezar d’isso, nunca se deixou a si mesmo sem
testemunho, beneficiando lá do céu, [18] dando-nos chuvas e tempos
fructiferos, enchendo de mantimento e de alegria os nossos corações.
18 E, dizendo [19] isto, com difficuldade impediram que as multidões [20]
lhes sacrificassem.
19 Sobrevieram, porém, _alguns_ judeos de Antiochia e de Iconio, e,
persuadindo a multidão, apedrejaram a Paulo, e o arrastaram para fóra da
cidade, cuidando que estava morto.
20 Mas, rodeando-o os discipulos, levantou-se, [21] e entrou na cidade, e
no dia seguinte saiu com Barnabé para Derbe.
21 E, tendo annunciado o evangelho áquella cidade, e feito muitos
discipulos, voltaram para Lystra, e Iconio, e Antiochia,
22 Confirmando os animos dos discipulos, [22] exhortando-os a permanecer
na fé, e [23] _dizendo_ que por muitas tribulações nos importa entrar no
reino de Deus.
23 E, havendo-lhes, [24] por commum consentimento, eleito anciãos em cada
egreja, orando com jejuns, os encommendaram ao Senhor em quem haviam
crido.
24 Passando depois por Pisidia, dirigiram-se a Pamphylia.
25 E, tendo annunciado a palavra em Perge, desceram a Attalia.
26 E d’ali navegaram para Antiochia, [25] d’onde tinham sido [26]
encommendados á graça de Deus para a obra que já haviam cumprido.
27 E, quando chegaram e reuniram a egreja, [27] relataram quão grandes
coisas Deus fizera por elles, e [28] como abrira aos gentios a porta da
fé.
28 E ficaram ali não pouco tempo com os discipulos.
[1] Mar. 16.20. Heb. 2.4.
[2] cap. 13.3.
[3] II Tim. 3.11.
[4] Mat. 10.23.
[5] cap. 3.2.
[6] Mat. 8.10 e 9.28, 29.
[7] Isa. 35.6.
[8] cap. 8.10 e 28.6.
[9] Dan. 2.46.
[10] Mat. 26.65.
[11] cap. 10.26.
[12] Thi. 5.17.
[13] I Sam. 12.21. I Cor. 8.4.
[14] Jos. 3.10.
[15] Gen. 1.1. Apo. 14.7.
[16] Psa. 81.13. I Ped. 4.3.
[17] cap. 17.27. Rom. 1.20.
[18] Lev. 26.4. Deu. 11.14 e 28.12. Job 5.12. Psa. 65.10 e 68.9, 10 e
147.8. Jer. 14.22. Mat. 5.45.
[19] cap. 13.45.
[20] II Cor. 11.25. II Tim. 3.11.
[21] Mat. 28.19.
[22] cap. 11.23 e 13.43.
[23] Mat. 10.38 e 16.24. Luc. 22.28, 29. Rom. 8.17. II Tim. 2.11, 12 e
3.12.
[24] Tito 1.5.
[25] cap. 13.1, 3.
[26] cap. 15.40.
[27] cap. 15.4, 12 e 21.19.
[28] I Cor. 16.9. II Cor. 2.12. Col. 4.3. Apo. 3.8.
_A questão ácerca do rito mosaico; a assembléa de Jerusalem, e sua
decisão._
[Anno Domini 52]
15 Então [1] alguns que tinham descido da Judea ensinavam os irmãos,
_dizendo_: Se vos [2] não circumcidardes, conforme o uso de Moysés, não
podeis salvar-vos.
2 Feita pois por Paulo e Barnabé não pequena dissensão e contenda contra
elles, resolveu-se que Paulo [3] e Barnabé, e alguns d’entre elles,
subissem a Jerusalem, aos apostolos e aos anciãos, sobre aquella questão.
3 De sorte [4] que elles, acompanhados pela egreja, passavam pela
Phenicia e por Samaria, [5] contando a conversão dos gentios; e davam
grande alegria a todos os irmãos.
4 E, vindos a Jerusalem, foram recebidos pela egreja e pelos apostolos e
anciãos, [6] e lhes annunciavam quão grandes coisas Deus tinha feito com
elles.
5 Porém alguns da seita dos phariseos, que tinham crido, se levantaram,
dizendo [7] que era mister circumcidal-os e mandar-_lhes_ que guardassem
a lei de Moysés.
6 Congregaram-se pois os apostolos e os anciãos para examinar este
negocio.
7 E, havendo grande contenda, levantou-se Pedro e disse-lhes: [8] Varões
irmãos, bem sabeis que já ha muito tempo Deus _me_ elegeu d’entre nós,
para que os gentios ouvissem da minha bocca a palavra do evangelho, e
cressem.
8 E Deus, [9] que conhece os corações, deu testemunho d’elles, [10]
dando-lhes o Espirito Sancto, assim como tambem a nós;
9 E [11] não fez differença alguma entre elles e nós, [12] purificando os
seus corações pela fé.
10 Agora, pois, porque tentaes a Deus, pondo sobre a cerviz dos
discipulos um [13] jugo que nem nossos paes nem nós podémos supportar?
11 Antes [14] crêmos que seremos salvos pela graça do Senhor Jesus
Christo, como elles tambem.
12 Então toda a multidão se calou, e escutava a Barnabé e a Paulo, [15]
que contavam quão grandes signaes e prodigios Deus havia [16] feito por
meio d’elles entre os gentios.
13 E, havendo-se elles calado, [17] tomou Thiago a palavra, dizendo:
Varões irmãos, ouvi-me:
14 Simão [18] relatou como Deus primeiramente visitou os gentios, para
tomar _d’elles_ um povo para o seu nome.
15 E com isto concordam as palavras dos prophetas; como está escripto:
16 Depois [19] d’isto voltarei, e reedificarei o tabernaculo de David,
que está caido, e reedificarei as suas ruinas, e tornarei a levantal-o.
17 Para que o resto dos homens busque ao Senhor, e todos os gentios,
sobre os quaes o meu nome é invocado, diz o Senhor, que faz todas estas
_coisas_.
18 São notorias a Deus desde toda a eternidade as suas obras.
19 Pelo que [20] julgo que não se deve perturbar aquelles, d’entre os
gentios, que se [21] convertem a Deus,
20 Mas escrever-lhes que se abstenham [22] das contaminações dos idolos,
e _da_ fornicação, [23] e das _carnes_ suffocadas e [24] _do_ sangue.
21 Porque Moysés, desde os tempos antigos, tem em cada cidade quem [25] o
prégue, e cada sabbado é lido nas synagogas.
22 Então pareceu bem aos apostolos e aos anciãos, com toda a egreja,
eleger d’elles _alguns_ varões, e envial-os com Paulo e Barnabé a
Antiochia, _a saber_: Judas, chamado Barsabbás, e [26] Silas, varões
distinctos entre os irmãos.
23 E por elles escreveram o seguinte: Os apostolos, e os anciãos e os
irmãos, aos irmãos d’entre os gentios que estão em Antiochia, e Syria e
Cilicia, saude.
24 Porquanto ouvimos que [27] alguns que sairam d’entre nós vos
perturbaram com palavras, e transtornaram as vossas almas, dizendo que
_devieis_ circumcidar-vos e guardar a lei, aos quaes nada mandámos:
25 Pareceu-nos bem, reunidos concordemente, eleger _alguns_ varões, e
envial-os com os nossos amados Barnabé e Paulo,
26 Homens [28] que _já_ expozeram as suas vidas pelo nome de nosso Senhor
Jesus Christo.
27 Enviamos pois Judas e Silas, os quaes de bocca vos annunciarão tambem
o mesmo.
28 Porque pareceu bem ao Espirito Sancto, e a nós, não vos impôr mais
encargo algum, senão estas _coisas_ necessarias:
29 Que [29] vos abstenhaes das coisas sacrificadas aos idolos, [30] e do
sangue, e da _carne_ suffocada, e da fornicação: das quaes coisas fazeis
bem se vos guardardes. Bem vos vá.
30 Tendo-se elles pois despedido, partiram para Antiochia, e, ajuntando a
multidão, entregaram a carta.
31 E, lendo-_a_, alegraram-se, pela consolação a _que lhes causava_.
32 Depois Judas e Silas, que tambem eram [31] prophetas, exhortaram e
confirmaram os irmãos com muitas palavras.
33 E, detendo-se ali algum tempo, os [32] irmãos os deixaram voltar em
paz para os apostolos;
34 Mas pareceu bem a Silas ficar ali.
_Separação entre Paulo e Barnabé._
35 E Paulo [33] e Barnabé ficaram em Antiochia, ensinando e prégando, com
muitos outros, a palavra do Senhor.
36 E alguns dias depois disse Paulo a Barnabé: Tornemos a visitar nossos
irmãos [34] por cada cidade em que já annunciámos a palavra do Senhor, _a
vêr_ como estão.
37 E Barnabé aconselhava que tomassem comsigo a João, chamado Marcos.
38 Mas a Paulo parecia razoavel que não tomassem comsigo [35] aquelle que
desde Pamphylia [36] se tinha apartado d’elles, e não tinha ido com elles
áquella obra.
39 E tal contenda houve entre elles, que se apartaram um do outro.
Barnabé, levando comsigo a Marcos, navegou para Chypre.
_Paulo emprehende uma segunda viagem missionaria na companhia de Silas e
Timotheo._
40 E Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu, [37] encommendado pelos
irmãos á graça de Deus.
41 E foi passando por Syria e Cilicia, confirmando [38] as egrejas.
[1] Gal. 2.12.
[2] João 7.32. ver. 5. Gal. 5.2. Phi. 3.2. Col. 2.11. Lev. 12.3.
[3] Gal. 2.1.
[4] Rom. 15.24. I Cor. 16.6, 11.
[5] cap. 14.27.
[6] ver. 12. cap. 14.27 e 21.19.
[7] ver. 1.
[8] cap. 10.20 e 11.12.
[9] I Chr. 28.9. cap. 1.24.
[10] cap. 10.44.
[11] Rom. 10.11.
[12] cap. 10.15, 28, 43. I Cor. 1.2. I Ped. 1.22.
[13] Mat. 23.4. Gal. 5.1.
[14] Rom. 3.24. Eph. 2.8. Tito 2.11 e 3.4, 5.
[15] cap. 21.19.
[16] cap. 14.27.
[17] cap. 12.17.
[18] ver. 7.
[19] Amós 9.11, 12.
[20] ver. 28.
[21] I The. 1.9.
[22] Gen. 35.2. Exo. 20.3, 23.
[23] I Cor. 6.9, 18. Gal. 5.19. Eph. 5.3. Col. 3.5. I Ped. 4.3.
[24] Gen. 9.4. Lev. 3.17.
[25] cap. 13.15, 27.
[26] cap. 1.23.
[27] ver. 1. Gal. 2.4 e 5.12. Tito 1.10, 11.
[28] cap. 13.50 e 14.19. I Cor. 15.30. II Cor. 11.23, 26.
[29] ver. 20. cap. 21.25. Apo. 2.14, 20.
[30] Lev. 17.14.
[31] cap. 14.22 e 18.23.
[32] I Cor. 16.11. Heb. 11.31.
[33] cap. 13.1.
[34] cap. 13.4, 13, 14, 51 e 14.1, 6, 24, 25.
[35] cap. 12.12, 25 e 13.5. Col. 4.10. II Tim. 4.11. Phi. 24.
[36] cap. 13.13.
[37] cap. 14.26.
[38] cap. 16.5.
16 E chegou a [1] Derbe e Lystra. E eis que estava ali _um_ certo
discipulo por nome [2] Timotheo, [3] filho de uma mulher judia fiel, mas
de pae grego:
[Anno Domini 53]
2 Do qual [4] davam _bom_ testemunho os irmãos que estavam em Lystra e em
Iconio.
3 Paulo quiz que este fosse com elle: e [5] tomando-o, o circumcidou, por
causa dos judeos que estavam n’aquelles logares; porque todos sabiam que
seu pae era grego.
4 E, quando iam passando pelas cidades, lhes entregavam, para serem
observados, os decretos [6] que haviam sido estabelecidos pelos apostolos
e anciãos em Jerusalem.
5 De sorte [7] que as egrejas eram confirmadas na fé, e cada dia se
augmentavam em numero.
6 E, passando pela Phrygia e pela provincia da Galacia, foram impedidos
pelo Espirito Sancto de annunciar a palavra na Asia.
7 E, quando chegaram a Mysia, intentavam ir para Bithynia, porém o
Espirito não lh’o permittiu.
8 E, passando por Mysia, [8] desceram a Troas.
_A visão em Troas. Paulo passa á Macedonia e préga em Philippos. Lydia, a
pythonissa. O carcereiro de Philippos._
9 E Paulo viu de noite uma visão, em que se apresentou [9] um varão da
Macedonia, e lhe rogou, dizendo: Passa á Macedonia, e ajuda-nos.
10 E, logo que viu a visão, procurámos partir [10] para a Macedonia,
concluindo que o Senhor nos chamava para lhes annunciarmos o evangelho.
11 E, navegando de Troas, fomos correndo caminho direito para
Samothracia, e no _dia_ seguinte para Napoles;
12 E d’ali para [11] Philippos, que é a primeira cidade d’esta parte da
Macedonia, e _é_ uma colonia; e estivemos alguns dias n’aquella cidade.
13 E no dia de sabbado saimos fóra da cidade para o rio, onde se
costumava fazer oração; e, assentando-nos, fallámos ás mulheres que _ali_
se ajuntaram.
14 E uma certa mulher, chamada Lydia, vendedora de purpura, da cidade de
Thyatira, e que servia a Deus, _nos_ ouvia, [12] e o Senhor lhe abriu o
coração para que estivesse attenta ao que Paulo dizia.
15 E, depois que foi baptizada, _ella_ e a sua casa, _nos_ rogou,
dizendo: Se haveis julgado que eu seja fiel ao Senhor, entrae em minha
casa, e ficae [13] _ali_. E nos constrangeu a isso.
16 E aconteceu que, indo nós á oração, nos saiu ao encontro uma moça [14]
que tinha espirito de adivinhação, [15] a qual, adivinhando, dava grande
lucro aos seus senhores.
17 Esta, seguindo a Paulo e a nós, clamava, dizendo: Estes homens, que
nos annunciam o caminho da salvação, são servos do Deus Altissimo.
18 E ella fazia isto por muitos dias. Porém, [16] descontentando isto a
Paulo, voltou-se, e disse ao espirito: Em nome de Jesus Christo, te mando
que saias d’ella. [17] E na mesma hora saiu.
19 E, [18] vendo seus senhores que a esperança do seu lucro estava
perdida, pegaram [19] de Paulo e Silas, e _os_ levaram á praça, á
presença dos magistrados.
20 E, apresentando-os aos magistrados, disseram: Estes homens, [20] sendo
judeos, perturbaram a nossa cidade,
21 E prégam ritos que nos não é licito receber nem praticar, visto que
somos romanos.
22 E a multidão se levantou juntamente contra elles, [21] e os
magistrados, rasgando-lhes os vestidos, mandaram açoital-_os_ com varas,
23 E, havendo-lhes dado muitos açoites, _os_ lançaram na prisão, mandando
ao carcereiro que os guardasse com segurança.
24 O qual, tendo recebido tal ordem, os lançou no carcere mais interior,
e lhes segurou os pés no tronco.
25 E, perto da meia noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hymnos a Deus,
e os _outros_ presos os escutavam.
26 E [22] de repente sobreveiu um tão grande terremoto, que os alicerces
do carcere se moveram, e logo [23] se abriram todas as portas e se
soltaram as prisões de todos.
27 E, acordando o carcereiro, e vendo abertas as portas da prisão,
tirando da espada, quiz matar-se, cuidando que os presos _já_ tinham
fugido.
28 Porém Paulo clamou com grande voz, dizendo: Não te faças nenhum mal,
que todos aqui estamos.
29 E, pedindo luz, saltou dentro, e, todo tremendo, se prostrou _aos pés_
de Paulo e Silas.
30 E, tirando-os para fóra, disse: Senhores, [24] que me é necessario
fazer para me salvar?
31 E elles disseram: [25] Crê no Senhor Jesus Christo, e serás salvo, tu
e a tua casa.
32 E lhe fallavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua
casa.
33 E, tomando-os elle comsigo n’aquella mesma hora da noite, lavou-lhes
os açoites; e logo foi baptizado, elle e todos os seus.
34 E, levando-os a sua casa, [26] _lhes_ poz a mesa; e, crendo em Deus,
alegrou-se com toda a sua casa.
35 E, sendo já dia, os magistrados mandaram quadrilheiros, dizendo:
Soltae aquelles homens.
36 E o carcereiro annunciou a Paulo estas palavras, dizendo: Os
magistrados mandaram que vos soltasse; agora pois sahi, e ide em paz.
37 Porém Paulo disse-lhes: Açoitaram-nos publicamente e, sem ser
sentenciados, [27] sendo homens romanos, nos lançaram na prisão, e agora
encobertamente nos lançam fóra? Não _será_ assim; mas venham elles mesmos
e tirem-nos para fóra.
38 E os quadrilheiros foram dizer aos magistrados estas palavras; e
_elles_ temeram, ouvindo que eram romanos.
39 E, vindo, [28] lhes rogaram; e, tirando-os para fóra, lhes pediram que
saissem da cidade.
40 E, saindo da prisão, [29] entraram em _casa_ de Lydia, e, vendo os
irmãos, os confortaram, e _depois_ partiram.
[1] cap. 14.6.
[2] cap. 19.22. Rom. 16.21. I Cor. 4.17. Phi. 2.19. I The. 3.2. I Tim.
1.2. II Tim. 1.2.
[3] II Tim. 1.5.
[4] cap. 6.3.
[5] I Cor. 9.20. Gal. 2.3 e 5.2.
[6] cap. 15.28, 29.
[7] cap. 15.41.
[8] II Cor. 2.12. II Tim. 4.13.
[9] cap. 10.30.
[10] II Cor. 2.13.
[11] Phi. 1.1.
[12] Luc. 24.45.
[13] Gen. 19.3 e 33.11. Jui. 19.21. Luc. 24.29. Heb. 13.2.
[14] I Sam. 28.7.
[15] cap. 19.24.
[16] Mar. 1.25, 34.
[17] Mar. 16.17.
[18] cap. 19.25, 26.
[19] II Cor. 6.5. Mat. 10.18.
[20] I Reis 18.17. cap. 17.6.
[21] II Cor. 6.5 e 11.23, 25. I The. 2.2.
[22] cap. 4.31.
[23] cap. 5.19 e 12.7, 10.
[24] Luc. 3.10. cap. 2.37 e 9.6.
[25] João 3.16, 36 e 6.47. I João 5.10.
[26] Luc. 5.29 e 19.6.
[27] cap. 22.25.
[28] Mat. 8.34.
[29] ver. 14.
_Paulo em Thessalonica e em Berea._
[Anno Domini 54]
17 E, passando por Amphipolis e Apollonia, chegaram a Thessalonica, onde
havia uma synagoga de judeos.
2 E Paulo, [1] como tinha por costume, foi ter com elles; e por tres
sabbados disputou com elles sobre as Escripturas,
3 Declarando-_as_, [2] e demonstrando que convinha que o Christo
padecesse e resuscitasse dos mortos. E este Jesus, que vos annuncio,
_dizia elle_, é o Christo.
4 E [3] alguns d’elles crêram, e ajuntaram-se com Paulo e [4] Silas uma
grande multidão de gregos religiosos, e não poucas mulheres principaes.
5 Porém os judeos desobedientes, movidos d’inveja, tomaram comsigo alguns
homens malignos, d’entre os vadios, e, ajuntando o povo, alvoroçaram a
cidade, e, accommettendo a casa de Jason, [5] procuravam tiral-os para
junto do povo.
6 E, não os achando, trouxeram _com violencia_ a Jason, e alguns irmãos,
aos magistrados da cidade, [6] clamando: Estes que teem alvoroçado o
mundo, chegaram tambem aqui;
7 Os quaes Jason tem recolhido; e todos estes obram contra os mandados de
Cesar, [7] dizendo que ha outro rei, _a saber_, Jesus.
8 E alvoroçaram a multidão e os principaes da cidade, que ouviram estas
_coisas_.
9 Tendo, porém, recebido satisfação de Jason, e dos demais, os soltaram.
10 E logo [8] os irmãos enviaram de noite Paulo e Silas a Berea: os
quaes, chegando _lá_, foram á synagoga dos judeos.
11 E estes foram mais nobres do que os que estavam em Thessalonica,
porque de bom grado receberam a palavra, [9] examinando cada dia nas
Escripturas se estas _coisas_ eram assim.
12 De sorte que crêram muitos d’elles, e mulheres gregas honestas, e não
poucos varões.
13 Mas, logo que os judeos de Thessalonica souberam que a palavra de Deus
tambem era annunciada por Paulo em Berea, foram tambem lá, e commoveram
as multidões.
14 Porém [10] no mesmo instante os irmãos mandaram a Paulo que fosse como
para o mar, mas Silas e Timotheo ficaram ali.
_Paulo em Athenas; o seu discurso no Areopago._
15 E os que acompanhavam Paulo o levaram até Athenas, [11] e, recebendo
ordem para que Silas e Timotheo fossem ter com elle o mais depressa
possivel, partiram.
16 E, emquanto Paulo os esperava em Athenas, [12] o seu espirito se
commovia em si mesmo, vendo a cidade tão dada á idolatria.
17 De sorte que disputava na synagoga com os judeos e religiosos, e todos
os dias na praça com os que se apresentavam.
18 E alguns dos philosophos epicureos e estoicos contendiam com elle;
e uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece que
é prégador de deuses estranhos. Porque lhes annunciava a Jesus e a
resurreição.
19 E, tomando-o, o levaram ao Areopago, dizendo: Poderemos nós saber que
nova doutrina é essa de que fallas?
20 Pois _coisas_ estranhas nos trazes aos ouvidos: queremos pois saber o
que vem a ser isto.
21 (Pois todos os athenienses e hospedes estrangeiros de nenhuma outra
coisa se occupavam, senão de dizer e ouvir alguma _coisa_ nova).
22 E, estando Paulo no meio do Areopago, disse: Varões athenienses, em
tudo vos vejo um tanto supersticiosos:
23 Porque, passando eu e vendo os vossos sanctuarios, achei tambem um
altar em que estava escripto: AO DEUS DESCONHECIDO. Aquelle pois que vós
honraes, não o conhecendo, vos annuncio.
24 O Deus [13] que fez o mundo e todas as _coisas_ que n’elle ha: este,
sendo Senhor [14] do céu e da terra, [15] não habita em templos feitos
por mãos _de homens_;
25 Nem tão pouco é servido por mãos de homens, [16] _como_ que
necessitando de alguma coisa; pois _é_ [17] elle só quem dá a todos a
vida, e a respiração, e todas as coisas;
26 E de um sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda
a face da terra, determinando os tempos [18] _já_ d’antes ordenados, e os
limites da sua habitação;
27 Para [19] que buscassem ao Senhor, se porventura o podessem apalpar e
achar; ainda [20] que não está longe de cada um de nós;
28 Porque [21] n’elle vivemos, e nos movemos, e existimos; [22] como
tambem alguns dos vossos poetas disseram: Porque somos tambem sua geração.
29 Sendo pois geração de Deus, [23] não havemos de cuidar que a divindade
seja similhante ao oiro, ou á prata, ou á pedra esculpida por artificio e
imaginação dos homens.
30 De sorte que Deus, [24] [AIE] dissimulando os tempos da ignorancia,
[25] annuncia agora a todos os homens, e em todo o logar, que se
arrependam;
31 Porquanto tem determinado um dia [26] em que com justiça ha-de julgar
o mundo com justiça por _aquelle_ varão que destinou; dando certeza a
todos, [27] resuscitando-o dos mortos.
32 E, como ouviram da resurreição dos mortos, uns escarneciam, e outros
diziam: Ácerca d’isso te ouviremos outra vez.
33 E assim Paulo saiu do meio d’elles.
34 Porém, chegando alguns varões a elle, creram: entre os quaes _foram_
Dionysio, areopagita, e uma mulher por nome Damaris, e com elles outros.
[1] Luc. 4.16. cap. 9.20 e 13.5, 14 e 14.1 e 16.13 e 19.8.
[2] Luc. 24.26, 46. cap. 18.28. Gal. 3.1.
[3] cap. 28.24.
[4] cap. 15.22, 27, 32, 40.
[5] Rom. 16.21.
[6] cap. 16.20.
[7] Luc. 23.2. João 19.12. I Ped. 2.13.
[8] cap. 9.25. ver. 14.
[9] Isa. 34.16. Luc. 16.29. João 5.39.
[10] Mat. 10.26.
[11] cap. 18.5.
[12] I Ped. 2.8.
[13] cap. 14.15.
[14] Mat. 11.25.
[15] cap. 7.48.
[16] Psa. 50.8.
[17] Gen. 2.7. Num. 16.22. Job 12.10 e 27.3 e 33.4. Isa. 42.5 e 57.16.
Zac. 12.1.
[18] Deu. 32.8.
[19] Rom. 1.20.
[20] cap. 14.17.
[21] Col. 1.17. Heb. 1.3.
[22] Tito 1.12.
[23] Isa. 40.18.
[24] cap. 14.16. Rom. 3.25.
[25] Luc. 24.47. Tito 2.11, 12. I Ped. 1.14 e 4.3.
[26] cap. 10.42. Rom. 2.16 e 14.10.
[27] cap. 2.24.
_Paulo em Corintho; em Epheso; volta para Jerusalem._
[Anno Domini 55]
18 E depois d’isto partiu Paulo de Athenas, e chegou a Corintho.
2 E, achando um _certo_ judeo por nome [1] Aquila, natural do Ponto, que
havia pouco que tinha vindo da Italia, e Priscilla, sua mulher (porquanto
Claudio tinha mandado que todos os judeos saissem de Roma), se ajuntou
com elles,
3 E, porque era do mesmo officio, ficou com elles, [2] e trabalhava; pois
tinham por officio fazer tendas.
4 E cada sabbado [3] disputava na synagoga, e persuadia a judeos e gregos.
5 E, [4] quando Silas e Timotheo desceram da Macedonia, foi [5] Paulo
constrangido pelo Espirito, testificando aos judeos _que_ Jesus _era_ o
Christo.
6 Porém, [6] resistindo e [7] blasphemando elles, sacudiu os vestidos,
e disse-lhes: O [8] vosso sangue _seja_ sobre a vossa cabeça; [9] eu
_estou_ limpo, e desde agora parto para os gentios.
7 E, partindo d’ali, entrou em casa de um, por nome Justo, que servia a
Deus, cuja casa estava junto da synagoga.
8 E [10] Crispo, principal da synagoga, creu no Senhor com toda a sua
casa; e muitos dos corinthios, ouvindo-_o_, crêram e foram baptizados.
9 E disse [11] o Senhor em visão a Paulo: Não temas, mas falla, e não te
cales;
10 Porque [12] eu estou comtigo, e ninguem lançará mão de ti para te
fazer mal, porque tenho muito povo n’esta cidade.
11 E ficou _ali_ um anno e seis mezes, ensinando entre elles a palavra de
Deus.
12 Porém, sendo Gallio proconsul da Achaia, levantaram-se os judeos
concordemente contra Paulo, e o levaram ao tribunal,
13 Dizendo: Este persuade os homens a servir a Deus contra a lei.
14 E, querendo Paulo abrir a bocca, disse Gallio aos judeos: [13]
Se houvesse, ó judeos, algum aggravo ou crime enorme, com razão vos
soffreria,
15 Mas, se a questão é de palavras, e de nomes, e da lei que entre vós
ha, vêde-o vós mesmos: porque eu não quero ser juiz d’essas _coisas_.
16 E lançou-os do tribunal.
17 Porém, tomando todos os gregos a [14] Sosthenes, principal da
synagoga, o feriram diante do tribunal; e a Gallio nada d’estas coisas se
lhe davam.
18 E Paulo, ficando ainda _ali_ muitos dias, despediu-se dos irmãos e
d’ali navegou para a Syria, e com elle Priscilla e Aquila, tendo [15]
tosquiado a cabeça em Cenchrea, [16] porque tinha voto.
19 E chegou a Epheso, e deixou-os ali; porém elle, entrando na synagoga,
disputava com os judeos.
20 E, rogando-_lhe_ elles que ficasse com elles por mais algum tempo, não
conveiu n’isso.
21 Antes se despediu d’elles, dizendo: É-me necessario em todo o caso
guardar em Jerusalem a festa que se approxima; [17] mas, querendo Deus,
outra vez voltarei para vós. E partiu de Epheso.
22 E, chegando a Cesarea, subiu _a Jerusalem_, e, saudando a egreja,
desceu a Antiochia.
23 E, estando _ali_ algum tempo, partiu, passando successivamente
pela provincia da [18] Galacia e Phrygia, confirmando [19] a todos os
discipulos.
_Apollo em Epheso e em Corintho._
24 E chegou [20] a Epheso _um_ certo judeo chamado Apollo, natural
d’Alexandria, varão eloquente e poderoso nas Escripturas.
25 Este era instruido no caminho do Senhor, [21] e, fervoroso de
espirito, fallava e ensinava diligentemente as _coisas_ do Senhor, [22]
conhecendo sómente o baptismo de João.
26 E este começou a fallar ousadamente na synagoga; e, ouvindo-o
Priscilla e Aquila, o levaram comsigo, e lhe declararam mais pontualmente
o caminho de Deus.
27 E, querendo elle passar á Achaia, exhortando-_o_ os irmãos, escreveram
aos discipulos que o recebessem; o qual, tendo chegado, [23] aproveitou
muito aos que pela graça criam.
28 Porque com grande vehemencia convencia publicamente os judeos,
mostrando pelas Escripturas [24] que Jesus era o Christo.
[1] Rom. 16.3. I Cor. 16.19. II Tim. 4.19.
[2] cap. 20.34. I Cor. 4.12. I The. 2.9. II The. 3.8.
[3] cap. 17.2.
[4] cap. 17.14, 15.
[5] Job 32.18. cap. 17.3. ver. 28.
[6] cap. 13.45. I Ped. 4.4.
[7] Neh. 5.13. Mat. 10.14. cap. 13.51.
[8] Lev. 20.9, 11, 12. II Sam. 1.16. Eze. 18.13 e 33.4.
[9] Eze. 3.18, 19 e 33.9. cap. 20.26 e 13.46 e 28.28.
[10] I Cor. 1.14.
[11] cap. 23.11.
[12] Jer. 1.18, 19. Mat. 28.20.
[13] cap. 23.29 e 25.11, 19.
[14] I Cor. 1.1.
[15] Num. 6.18. cap. 21.24.
[16] Rom. 16.1.
[17] I Cor. 4.19. Heb. 6.3. Thi. 4.15.
[18] Gal. 1.2 e 4.14.
[19] cap. 14.22 e 15.32, 41.
[20] I Cor. 1.12 e 3.5, 6 e 4.6. Tito 3.13.
[21] Rom. 12.11.
[22] cap. 19.3.
[23] I Cor. 3.6.
[24] cap. 9.22 e 17.3. ver. 5.
_Terceira viagem missionaria de Paulo. Prega o evangelho em Epheso.
Tumulto excitado por Demetrio._
[Anno Domini 56]
19 E succedeu que, emquanto Apollo estava [1] em Corintho, Paulo, tendo
passado por todas as _regiões_ superiores, chegou a Epheso; e, achando
ali alguns discipulos,
2 Disse-lhes: Recebestes vós _já_ o Espirito Sancto quando crêstes? E
elles disseram-lhe: [2] Antes nem ainda ouvimos que haja Espirito Sancto.
3 Disse-lhes então: Em que sois baptizados então? E elles disseram: [3]
No baptismo de João.
4 Porém Paulo disse: [4] Certamente João baptizou com o baptismo do
arrependimento, dizendo ao povo que crêsse no que após elle havia de vir,
isto é, em Jesus Christo.
5 E os que ouviram foram baptizados [5] em nome do Senhor Jesus.
6 E, impondo-lhes Paulo [6] as mãos, veiu sobre elles o Espirito Sancto;
[7] e fallavam _diversas_ linguas, e prophetizavam.
7 E estes eram, ao todo, quasi doze varões.
8 E, [8] entrando na synagoga, fallou ousadamente por espaço de tres
mezes, disputando e persuadindo [9] ácerca do reino de Deus.
9 Mas, endurecendo-se [10] alguns, e não obedecendo, [11] e fallando mal
do caminho _do Senhor_ perante a multidão, retirou-se d’elles, e separou
os discipulos, disputando todos os dias na escola de um _certo_ Tyranno.
10 E durou [12] isto por espaço de dois annos; de tal maneira que todos
os que habitavam na Asia, ouviram a palavra do Senhor Jesus, assim judeos
como gregos.
11 E Deus [13] pelas mãos de Paulo fazia maravilhas extraordinarias.
12 De tal [14] maneira que até os lenços e aventaes do seu corpo se
levavam aos enfermos, e as enfermidades fugiam d’elles, e os espiritos
malignos sahiam.
13 E [15] alguns dos exorcistas [16] judeos vagabundos tentavam invocar
o nome do Senhor Jesus sobre os que tinham espiritos malignos, dizendo:
Esconjuramos-vos por Jesus a quem Paulo préga.
14 E os que faziam isto eram sete filhos de Sceva, judeo, principal dos
sacerdotes.
15 Respondendo, porém, o espirito maligno, disse: Conheço a Jesus, e bem
sei _quem é_ Paulo; porém vós quem sois?
16 E, saltando n’elles o homem em que estava o espirito maligno, e
assenhoreando-se d’elles, poude mais do que elles; de tal maneira que,
nús e feridos, fugiram d’aquella casa.
17 E foi isto notorio a todos os que habitavam em Epheso, [17] tanto
judeos como gregos; e caiu temor sobre todos elles, e o nome do Senhor
Jesus era engrandecido.
18 E muitos dos que criam vinham, confessando [18] e publicando os seus
feitos.
19 Tambem muitos dos que seguiam _artes_ curiosas trouxeram os seus
livros, e os queimaram na presença de todos, e, feita a conta do seu
preço, acharam que _montava_ a cincoenta mil _peças_ de prata.
[Anno Domini 59]
20 Assim [19] a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia.
21 E, [20] cumpridas estas _coisas_, Paulo [21] propoz-se, em espirito,
ir a Jerusalem, passando pela Macedonia e pela Achaia, dizendo: Depois
que houver estado ali, [22] importa-me vêr tambem Roma.
22 E, enviando á Macedonia dois d’aquelles que o [23] serviam, Timotheo
[24] e Erasto, ficou elle por algum tempo na Asia.
23 Porém, [25] n’aquelle mesmo tempo, houve um não pequeno alvoroço
ácerca do caminho _do Senhor_.
24 Porque um certo ourives da prata, por nome Demetrio, que fazia de
prata nichos de Diana, [26] dava não pouco lucro aos artifices,
25 Aos quaes, havendo-os ajuntado com os officiaes de obras similhantes,
disse: Varões, vós bem sabeis que d’este officio temos a nossa
prosperidade:
26 E bem vêdes e ouvis que não só em Epheso, mas até quasi em toda a
Asia, este Paulo tem persuadido e afastado uma grande multidão, [27]
dizendo que não são deuses os que se fazem com as mãos.
27 E não sómente ha o perigo de que isto venha a servir-nos de desprezo,
mas tambem de que o proprio templo da grande deusa Diana seja estimado em
nada, e de que a sua magestade, a qual toda a Asia e o mundo _inteiro_
veneram, venha a ser destruida.
28 E, ouvindo-o, encheram-se de ira, e clamaram, dizendo: Grande _é_ a
Diana dos ephesios.
29 E encheu-se de confusão toda a cidade; e unanimes arremetteram ao
theatro, arrebatando comsigo [28] a Gaio e [29] a Aristarcho, macedonios,
companheiros de Paulo na viagem.
30 E, querendo Paulo apresentar-se ao povo, não lh’o permittiram os
discipulos.
31 E tambem alguns dos principaes da Asia, que eram seus amigos, lhe
enviaram, rogando que não se apresentasse no theatro.
32 _Uns_ pois clamavam de uma maneira, outros d’outra, porque o
ajuntamento era confuso; e os mais d’elles não sabiam por que causa se
tinham ajuntado.
[Anno Domini 60]
33 Então tiraram Alexandre d’entre a multidão, impellindo-o os judeos
para diante; e Alexandre, [30] acenando com a mão, queria dar razão
d’isto ao povo.
34 Porém, conhecendo que era judeo, todos unanimemente levantaram a voz,
clamando por espaço de quasi duas horas: Grande _é_ a Diana dos ephesios.
35 Então o escrivão _da cidade_, tendo apaziguado a multidão, disse:
Varões ephesios, qual é o homem que não sabe que a cidade dos ephesios é
a guardadora do templo da grande deusa Diana, e da _imagem_ que desceu de
Jupiter?
36 De sorte que, não podendo isto ser contradito, convém que vos
applaqueis, e nada façaes temerariamente;
37 Porque estes homens que _aqui_ trouxestes nem são sacrilegos nem
blasphemam da vossa deusa:
38 Porém, se Demetrio e os artifices que estão com elle teem alguma coisa
contra alguem, dão-se audiencias e ha proconsules: que se accusem uns aos
outros;
39 E, se alguma outra coisa demandaes, averiguar-se-ha em legitimo
ajuntamento.
40 Porque corremos perigo de que, por hoje, sejamos accusados de sedição,
não havendo causa alguma com que possamos justificar este concurso.
41 E, tendo dito isto, despediu o ajuntamento.
[1] I Cor. 1.12 e 3.5, 6.
[2] cap. 8.16. I Sam. 3.7.
[3] cap. 18.25.
[4] Mat. 3.11. João 1.15, 27, 30. cap. 1.5 e 11.16 e 13.24, 25.
[5] cap. 8.16.
[6] cap. 6.6 e 8.17.
[7] cap. 2.4 e 10.46.
[8] cap. 17.2 e 18.4.
[9] cap. 1.3 e 28.23.
[10] II Tim. 1.15. II Ped. 2.2. Jud. 10.
[11] cap. 9.2 e 22.4 e 24.14. ver. 23.
[12] cap. 20.31.
[13] Mar. 16.20. cap. 14.3.
[14] cap. 5.15. II Reis 4.29.
[15] Mat. 12.27.
[16] Mar. 9.38. Luc. 9.49.
[17] Luc. 1.65 e 7.16. cap. 2.43 e 5.5, 11.
[18] Mat. 3.6.
[19] cap. 6.7 e 12.24.
[20] Rom. 15.25. Gal. 2.1.
[21] cap. 20.22.
[22] cap. 18.21 e 23.11. Rom. 15.24, 28.
[23] cap. 13.5.
[24] Rom. 16.23. II Tim. 4.20.
[25] II Cor. 1.8. cap. 9.2.
[26] cap. 16.16, 19.
[27] Psa. 115.4. Isa. 44.10-20. Jer. 10.3.
[28] Rom. 16.23. I Cor. 1.14.
[29] cap. 20.4 e 27.2. Col. 4.10. Phi. 24.
[30] I Tim. 1.20. II Tim. 4.14. cap. 12.17.
_Paulo visita outra vez a Macedonia e a Grecia, e depois volta para a
Asia._
20 E, depois que cessou o alvoroço, Paulo chamou para si os discipulos,
e, abraçando-os, [1] saiu para a Macedonia.
2 E, havendo andado por aquellas partes, e exhortando-os com muitas
palavras, veiu á Grecia.
3 E, passando _ali_ tres mezes, e sendo-lhe pelos judeos postas ciladas,
havendo [2] de navegar para a Syria, determinou voltar pela Macedonia.
4 E acompanhou-o, até á Asia, Sopater, de Berea, e, dos de Thessalonica,
Aristarcho, [3] e Segundo, e Gaio de Derbe, e Timotheo, e, dos da Asia,
Tychico e Trophimo.
5 Estes, indo adiante, nos esperaram em Troas.
6 E, depois dos dias dos _pães_ [4] asmos, navegámos de Philippos, e em
cinco dias fomos ter com elles a Troas, onde estivemos sete dias.
7 E no primeiro _dia_ [5] da semana, ajuntando-se os discipulos para
partir o pão, Paulo, que havia de partir no dia seguinte, discursava com
elles; e alargou a pratica até á meia noite.
8 E havia muitas luzes no [6] cenaculo onde estavam juntos.
9 E, estando _um_ certo mancebo, por nome Eutycho, assentado n’uma
janella, caiu, tomado de um somno profundo que lhe sobreveiu durante o
extenso discurso de Paulo, desde o terceiro andar; e foi levantado morto.
10 Paulo, porém, descendo, inclinou-se sobre elle, [7] e, abraçando-o,
disse: Não vos perturbeis, que a sua alma n’elle está.
11 E subindo, e partindo o pão, e comendo, e fallando-lhes largamente até
á alvorada, assim partiu.
12 E levaram vivo o mancebo, e ficaram não pouco consolados.
13 Nós, porém, subindo ao navio, navegámos até Asson, onde deviamos
receber a Paulo, porque assim o ordenara, indo elle por terra.
14 E, logo que se ajuntou comnosco em Asson, tomámol-o, e fomos a
Mitylene:
15 E, navegando d’ali, chegámos no _dia_ seguinte defronte de Chio, e
no outro aportámos a Samos, e, ficando em Trogyllio, chegámos no _dia_
seguinte a Mileto.
16 Porque _já_ Paulo tinha determinado passar adiante de Epheso, para não
gastar tempo na Asia. [8] Apressava-se pois para, se lhe fosse possivel,
estar em Jerusalem no dia de pentecostes.
_Discurso de Paulo aos anciãos da egreja de Epheso._
17 E de Mileto mandou a Epheso, a chamar os anciãos da egreja.
18 E, logo que chegaram junto d’elle, disse-lhes: Vós bem sabeis, desde o
primeiro dia em que entrei na Asia, [9] o modo como em todo esse tempo me
portei no meio de vós,
19 Servindo ao Senhor com toda a humildade, e com muitas lagrimas e
tentações, [10] que pelas ciladas dos judeos me teem sobrevindo.
20 Como nada, [11] que util _vos_ fosse, deixei de vos annunciar, e
ensinar publicamente e pelas casas:
21 Testificando, [12] tanto aos judeos como aos gregos, a conversão a
Deus, e a fé em nosso Senhor Jesus Christo.
22 E agora, eis que, ligado eu pelo espirito, [13] vou para Jerusalem,
não sabendo o que lá me ha de acontecer.
23 Senão que o Espirito Sancto de cidade em cidade [14] _me_ testifica,
dizendo que me esperam prisões e tribulações.
24 Mas de nenhuma _coisa_ faço caso, e [15] nem a minha vida tenho
por preciosa, comtanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o
ministerio que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho
da graça de Deus.
25 E agora, eis-que [16] bem sei que todos vós, por quem passei prégando
o reino de Deus, não vereis mais o meu rosto.
26 Portanto, no dia de hoje, vos protesto que _estou_ limpo [17] do
sangue de todos.
27 Porque [18] nunca deixei de annunciar-vos todo o conselho de Deus.
28 Olhae pois por vós, [19] e por todo o rebanho sobre que o Espirito
Sancto vos constituiu bispos, para apascentardes a egreja de Deus, a qual
alcançou com seu proprio sangue.
29 Porque eu sei isto: que, depois _da_ minha partida, entrarão entre vós
lobos [20] crueis, que não perdoarão ao rebanho.
30 E que d’entre vós mesmos se levantarão homens [21] que fallarão
_coisas_ perversas, para attrahirem os discipulos após si.
31 Portanto, vigiae, lembrando-vos de [22] que, durante tres annos, não
cessei, de noite e de dia, de admoestar com lagrimas a cada um de vós.
32 Agora pois, irmãos, encommendo-vos a Deus [23] e á palavra da sua
graça; o qual é poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os
sanctificados.
33 De ninguem cubicei [24] a prata, nem o oiro, nem o vestido.
34 Vós mesmos sabeis que para o que me era necessario a mim, e aos que
estão comigo, [25] estas mãos me serviram.
35 Tenho-vos mostrado em [26] tudo que, trabalhando assim, é necessario
supportar os enfermos, e lembrar as palavras do Senhor Jesus, que disse:
Mais bemaventurada coisa é dar do que receber.
36 E, havendo dito isto, pondo-se de joelhos, [27] orou com todos elles.
37 E levantou-se um grande pranto entre todos, [28] e, lançando-se ao
pescoço de Paulo, o beijavam,
38 Entristecendo-se muito, principalmente pela palavra que dissera, que
não veriam mais o seu rosto. [29] E acompanharam-n’o até ao navio.
[1] I Cor. 16.5. I Tim. 1.3.
[2] cap. 9.23 e 23.12 e 25.3. II Cor. 11.26.
[3] cap. 19.29 e 27.2 e 16.1 e 21.29. Col. 4.10. Eph. 6.21. Col. 4.7. II
Tim. 4.12, 20. Tito 3.12.
[4] Exo. 12.14, 15. II Cor. 2.12. II Tim. 4.13.
[5] I Cor. 16.2 e 10.16 e 11.20, etc. Apo. 1.10. cap. 2.42, 46.
[6] cap. 1.13.
[7] I Reis 17.21. II Reis 4.34. Mat. 9.24.
[8] cap. 18.21 e 19.21 e 21.4, 12 e 24.17 e 2.1. I Cor. 16.8.
[9] cap. 18.19 e 19.1, 10.
[10] ver. 3.
[11] ver. 27.
[12] cap. 18.5 e 2.38. Mar. 1.15. Luc. 24.47.
[13] cap. 19.21.
[14] cap. 21.4, 11. I The. 3.3.
[15] cap. 21.13. Rom. 8.35. II Cor. 4.16. II Tim. 4.7. Gal. 1.1. Tito 1.3.
[16] ver. 38. Rom. 15.23. I Sam. 12.3.
[17] cap. 18.6. II Cor. 7.2.
[18] ver. 20. Luc. 7.30. João 15.15.
[19] I Tim. 4.16. I Ped. 5.2 e 1.19. I Cor. 12.28. Eph. 1.7, 14. Heb.
9.12. Apo. 5.9.
[20] Mat. 7.15. II Ped. 2.1.
[21] I Tim. 1.20. I João 2.19.
[22] cap. 19.10. Heb. 13.9.
[23] Eph. 1.18. Col. 1.12. Heb. 9.15. I Ped. 1.4.
[24] I Sam. 12.3. I Cor. 9.12. II Cor. 7.2.
[25] cap. 18.3. I Cor. 4.12. I The. 2.9.
[26] Rom. 15.1. I Cor. 9.12. II Cor. 11.9, 12. I The. 4.9, 11, 12. I The.
4.11. II The. 3.8.
[27] cap. 7.59 e 21.5.
[28] Gen. 45.14 e 46.29.
[29] ver. 25.
_Paulo chega a Jerusalem, e é preso no templo._
21 E aconteceu que, separando-nos d’elles, navegámos e fomos correndo
caminho direito, e chegámos a Coos, e no dia seguinte a Rhodes, de onde
passámos a Patara.
2 E, achando um navio, que passava á Phenicia, embarcámos n’elle, e
partimos.
3 E, indo _já_ á vista de Chypre, deixando-a á esquerda, navegámos para a
Syria, e chegámos a Tyro; porque o navio havia de ser descarregado ali.
4 E, achando discipulos, ficámos nós ali sete dias: os quaes pelo
Espirito diziam a [1] Paulo que não subisse a Jerusalem.
5 E, havendo passado _ali_ aquelles dias, saimos, e seguimos nosso
caminho, acompanhando-nos todos, com _suas_ mulheres e filhos, até fóra
da cidade; e, postos de joelhos [2] na praia, orámos.
6 E, saudando-nos uns aos outros, subimos ao navio; [3] e elles voltaram
para suas casas.
7 E nós, concluida a navegação de Tyro, viemos a Ptolemaida; e, havendo
saudado os irmãos, ficámos com elles um dia.
8 E no _dia_ seguinte, partindo d’ali Paulo, e nós que com elle
estavamos, chegámos a Cesarea: e, entrando em casa de Philippe, [4] o
evangelista, que era um dos sete, ficámos com elle.
9 E tinha este quatro filhas donzellas, [5] que prophetizavam.
10 E, demorando-nos _ali_ por muitos dias, desceu da Judea um propheta,
por nome [6] Agabo;
11 E, vindo elle a nós, e tomando a cinta de Paulo, e ligando-se os pés e
mãos, disse: Isto diz o Espirito Sancto: Assim ligarão os [7] judeos em
Jerusalem o varão cuja é esta cinta, e o entregarão nas mãos dos gentios.
12 E, ouvindo nós isto, rogámos-_lhe_, tanto nós como os que eram
d’aquelle logar, que não subisse a Jerusalem.
13 Porém Paulo respondeu: [8] Que fazeis vós, chorando e magoando-me o
coração? porque eu estou prompto, não só a ser ligado, mas ainda a morrer
em Jerusalem pelo nome do Senhor Jesus.
14 E, como não podiamos persuadil-o, nos aquietámos, dizendo: [9] Faça-se
a vontade do Senhor.
15 E depois d’aquelles dias, havendo feito os nossos preparativos,
subimos a Jerusalem.
16 E foram tambem comnosco _alguns_ discipulos de Cesarea, levando
comsigo um _certo_ Mnason, chyprio, discipulo antigo, com o qual haviamos
de pousar.
17 E, logo que chegámos [10] a Jerusalem, os irmãos nos receberam de
muito boa vontade.
18 E no _dia_ seguinte, Paulo entrou comnosco _em casa_ de Thiago, [11] e
todos os anciãos vieram ali.
19 E, havendo-os saudado, [12] contou-_lhes_ por miudo o que por seu
ministerio Deus fizera entre os gentios.
20 E, ouvindo-_o_ elles, glorificaram ao Senhor, e disseram-lhe: Bem
vês, irmão, quantos milhares de judeos ha que crêem, [13] e todos são
zeladores da lei.
21 E _já_ ácerca de ti foram informados que ensinas todos os judeos que
estão entre os gentios a apartarem-se de Moysés, dizendo que não devem
circumcidar a _seus_ filhos, nem andar segundo o costume _da lei_.
22 Que faremos pois? em todo o caso é necessario que a multidão se
ajunte; porque ouvirão que _já_ és vindo.
23 Faze pois isto que te dizemos: Temos quatro varões que fizeram voto.
24 Toma comtigo a estes, e sanctifica-te com elles, e faze por elles os
gastos para que rapem a cabeça, [14] e todos saibam que nada ha d’aquillo
de que foram informados ácerca de ti, mas _que_ tambem tu mesmo andas
guardando a lei.
25 Porém, quanto aos que crêem dos gentios, _já_ nós havemos [15]
escripto, e achado por bem, que nada d’isto observem; mas que só se
guardem do que se sacrifica aos idolos, e do sangue, e do suffocado e da
fornicação.
26 Então Paulo, tomando comsigo aquelles varões, sanctificado com elles,
entrou no dia seguinte [16] no templo, annunciando serem _já_ cumpridos
os dias da sanctificação, _ficando ali_ até se offerecer por cada um
d’elles a offerta.
27 E, indo-se _já_ acabando os sete dias, os judeos [17] da Asia, vendo-o
no templo, alvoroçaram todo o povo e lançaram mão d’elle,
28 Clamando: Varões israelitas, acudi: este é o homem [18] que por todas
as partes ensina a todos, contra o povo e _contra_ a lei, e _contra_
este logar; e, demais d’isto, introduziu tambem no templo os gregos, e
profanou este sancto logar.
29 Porque d’antes tinham visto com elle na cidade a [19] Trophimo
d’Epheso, ao qual pensavam que Paulo introduzira no templo.
30 E alvoroçou-se toda a cidade, [20] e fez-se um concurso de povo; e,
pegando de Paulo, o arrastaram para fóra do templo, e logo as portas se
fecharam.
31 E, procurando elles matal-o, chegou ao tribuno da cohorte a nova de
que Jerusalem estava toda em confusão.
32 O qual, tomando logo comsigo soldados [21] e centuriões, correu para
elles. E, vendo elles o tribuno e os soldados, cessaram de ferir a Paulo.
33 Então, chegando o tribuno, o prendeu e o mandou atar com duas cadeias.
[22] e lhe perguntou quem era e o que tinha feito.
34 E na multidão uns clamavam d’uma maneira outros d’outra; porém, como
nada podia saber ao certo, por causa do alvoroço, mandou conduzil-o para
a fortaleza.
35 E succedeu que, chegando ás escadas, os soldados tiveram de lhe pegar
por causa da violencia da multidão.
36 Porque a multidão do povo o seguia, clamando: [23] Mata-o.
37 E, quando iam a introduzir Paulo na fortaleza, disse Paulo ao tribuno:
É-me permittido dizer-te alguma coisa? E elle disse: Sabes o grego?
38 Não és tu porventura aquelle egypcio [24] que antes d’estes dias
levantou uma sedição e levou ao deserto quatro mil salteadores?
39 Porém Paulo lhe disse: Na verdade que sou um homem judeo, [25] cidadão
de Tarso, cidade não pouco celebre na Cilicia: rogo-te, porém, que me
permittas fallar ao povo.
40 E, havendo-lh’o permittido, Paulo, pondo-se em pé nas escadas, fez
signal com a mão [26] ao povo; e, feito grande silencio, fallou-lhes em
lingua hebraica, dizendo:
[1] ver. 12. cap. 20.23.
[2] cap. 20.36.
[3] João 1.11.
[4] Eph. 4.11. II Tim. 4.5. cap. 6.5 e 8.26, 40.
[5] Joel 2.28. cap. 2.17.
[6] cap. 11.28.
[7] ver. 33. cap. 20.23.
[8] cap. 20.24.
[9] Mat. 6.10 e 26.42. Luc. 11.2 e 22.42.
[10] cap. 15.4.
[11] cap. 15.13. Gal. 1.19 e 2.9.
[12] cap. 15.4, 12 e 1.17 e 20.24. Rom. 15.18, 19.
[13] cap. 22.3. Rom. 10.2. Gal. 1.14.
[14] Num. 6.2, 13, 18. cap. 18.18.
[15] cap. 15.20, 29.
[16] cap. 24.18. Num. 6.13.
[17] cap. 24.18 e 26.21.
[18] cap. 24.5, 6.
[19] cap. 20.4.
[20] cap. 26.21.
[21] cap. 23.27 e 24.7.
[22] ver. 11. cap. 20.23.
[23] Luc. 23.18. João 19.15. cap. 22.22.
[24] cap. 5.36.
[25] cap. 9.11 e 22.3.
[26] cap. 12.17.
_Discurso de Paulo em sua defeza._
22 Varões irmãos e paes, [1] ouvi agora a minha defeza perante vós.
2 (E, quando ouviram fallar-lhes em lingua hebraica, maior silencio
guardaram.) E disse:
3 Quanto a mim, sou varão [2] judeo, nascido em Tarso de Cilicia, e
n’esta cidade criado aos pés de Gamaliel, instruido conforme a verdade da
lei de nossos paes, zelador de Deus, como todos vós hoje sois.
4 Que tenho perseguido este caminho até á morte, [3] prendendo, e
mettendo em prisões, assim varões como mulheres.
5 Como tambem o summo sacerdote me é testemunha, e todo o conselho
dos [4] anciãos: dos quaes ainda, levando cartas para os irmãos, fui
a Damasco, para trazer manietados para Jerusalem aquelles que ali
estivessem, para que fossem castigados.
6 Porém aconteceu [5] que, indo eu _já_ de caminho, e chegando perto de
Damasco, quasi ao meio dia, de repente me rodeou _uma_ grande luz do céu.
7 E cahi por terra, e ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, porque me
persegues?
8 E eu respondi: Quem és, Senhor? E disse-me: Eu sou Jesus nazareno, a
quem tu persegues.
9 E os que estavam [6] comigo viram em verdade a luz, e se atemorisaram
muito; mas não ouviram a voz d’aquelle que fallava comigo.
10 Então disse eu: Senhor, que farei? E o Senhor disse-me: Levanta-te, e
vae a Damasco, e ali se te dirá tudo o que te é ordenado fazer.
11 E, como eu não via, por causa do esplendor d’aquella luz, fui levado
pela mão dos que estavam comigo, e cheguei a Damasco.
12 E um _certo_ Ananias, [7] varão pio conforme a lei, que tinha bom
testemunho de todos os judeos que _ali_ moravam,
13 Vindo ter comigo, e apresentando-se, disse-me: Saulo, irmão, recobra a
vista. E n’aquella mesma hora o vi.
14 E _elle_ disse: [8] O Deus de nossos paes d’antemão te ordenou para
que conheças a sua vontade, e vejas aquelle Justo, e ouças a voz da sua
bocca.
15 Porque lhe has de ser [9] testemunha para com todos os homens do que
tens visto e ouvido.
16 E agora [10] porque te detens? Levanta-te, e baptiza-te, e lava os
teus peccados, invocando o nome do Senhor.
17 E aconteceu-me, [11] tornando eu para Jerusalem, que, orando eu no
templo, fui arrebatado para fóra de mim.
18 E vi o que me dizia: [12] Dá-te pressa, e sae apressadamente de
Jerusalem; porque não receberão o teu testemunho ácerca de mim.
19 E eu disse: [13] Senhor, elles bem sabem que eu lançava na prisão e
açoitava nas synagogas os que criam em ti.
20 E quando [14] o sangue de Estevão, tua testemunha, se derramava,
tambem eu estava presente, e consentia na sua morte, e guardava os
vestidos dos que o matavam.
21 E disse-me: [15] Vae, porque hei-de enviar-te aos gentios de longe.
22 E ouviram-n’o até esta palavra, e [16] levantaram a voz, dizendo: Tira
da terra um tal _homem_, porque não convem que viva.
23 E, clamando elles, e lançando de si os vestidos, e deitando pó para o
ar,
24 O tribuno mandou que o levassem para a fortaleza, dizendo que o
examinassem com açoites, para saber por que causa assim clamavam contra
elle.
25 E, quando o estavam atando com correias, disse Paulo ao centurião que
ali estava: [17] É-vos licito açoitar um homem romano, sem ser condemnado?
26 E, ouvindo _isto_, o centurião foi, e annunciou ao tribuno, dizendo:
Olha o que vaes fazer, porque este homem é romano.
27 E, vindo o tribuno, disse-lhe: Dize-me, és tu romano? E elle disse:
Sim.
28 E respondeu o tribuno: Eu com grande somma _de dinheiro_ alcancei este
direito de cidadão. Paulo disse: Mas eu sou-o de nascimento.
29 De sorte que logo d’elle se apartaram os que o haviam de examinar; e
até o tribuno teve temor, quando soube que era romano, porque o tinha
ligado.
_Paulo perante o synhedrio._
30 E no dia seguinte, querendo saber ao certo a causa por que era
accusado pelos judeos, soltou-o das prisões, e mandou vir os principaes
dos sacerdotes, e todo o seu conselho; e, trazendo Paulo, _o_ apresentou
diante d’elles.
[1] cap. 7.2.
[2] cap. 21.39. Phi. 3.5. Deu. 33.3. II Reis 4.38. Gal. 1.14. Rom. 10.2.
[3] cap. 8.3 e 26.9, 10, 11. Phi. 3.6. I Tim. 1.13.
[4] Luc. 22.66. cap. 4.5 e 9.2.
[5] cap. 9.3 e 26.12, 13.
[6] Dan. 10.7. cap. 9.7.
[7] cap. 9.17 e 10.22. I Tim. 3.7.
[8] cap. 3.13 e 5.30 e 9.15 e 26.16 e 3.14 e 7.52. I Cor. 9.1 e 15.8 e
11.23. Gal. 1.12.
[9] cap. 23.11 e 4.20 e 26.16.
[10] cap. 2.38 e 9.14. Heb. 10.22. Rom. 10.13.
[11] cap. 9.26. II Cor. 12.2.
[12] ver. 14. Mat. 10.14.
[13] ver. 4. cap. 8.3. Mat. 10.17.
[14] cap. 7.58 e 8.1. Luc. 11.48. Rom. 1.32.
[15] cap. 9.15 e 13.2, 46, 47 e 18.6 e 26.17. Rom. 1.5 e 11.13 e 15.16.
Gal. 1.15, 16 e 2.7, 8. Eph. 3.7, 8. I Tim. 2.7. II Tim. 1.11.
[16] cap. 21.36 e 25.24.
[17] cap. 16.37.
23 E, pondo Paulo os olhos no conselho, disse: [1] Varões irmãos, até ao
dia de hoje tenho andado diante de Deus com toda a boa consciencia.
2 Porém o summo sacerdote, Ananias, mandou então aos que estavam junto
[2] d’elle que o ferissem na bocca.
3 Então Paulo lhe disse: [3] Deus te ferirá, parede branqueada: tu estás
_aqui_ assentado para julgar-me conforme a lei, e contra a lei me mandas
ferir?
4 E os que ali estavam disseram: Injurias o summo sacerdote de Deus?
5 E Paulo disse: [4] Não sabia, irmãos, que era o summo sacerdote; porque
está escripto: Não dirás mal do principe do teu povo.
6 E Paulo, sabendo que uma parte era de sadduceos e outra de phariseos,
clamou no conselho: [5] Varões irmãos, eu sou phariseo, filho de
phariseo, no tocante á esperança e resurreição dos mortos sou julgado.
7 E, havendo dito isto, houve dissensão entre os phariseos e sadduceos; e
a multidão se dividiu.
8 [6] Porque os sadduceos dizem que não ha resurreição, nem anjo, nem
espirito; mas os phariseos confessam ambas as coisas.
9 E originou-se _um_ grande clamor; e, levantando-se os escribas da parte
dos phariseos, contendiam, [7] dizendo: Nenhum mal achamos n’este homem,
e, se algum espirito ou [8] anjo lhe fallou, não resistamos a Deus.
10 E, havendo grande dissensão, o tribuno, temendo que Paulo fosse
despedaçado por elles, mandou descer a soldadesca, e arrebatal-o do meio
d’elles, e leval-o para a fortaleza.
11 E na noite [9] seguinte, apresentando-se-lhe o Senhor, disse: Paulo,
tem animo: porque, como de mim testificaste em Jerusalem, assim te
importa testificar tambem em Roma.
_Conspiração dos judeos contra Paulo; este é mandado para Cesarea._
12 E, vindo o dia, [10] alguns dos judeos fizeram uma conspiração, e se
conjuraram, dizendo que não comeriam nem beberiam, emquanto não matassem
a Paulo.
13 E eram mais de quarenta os que fizeram esta conjuração.
14 Os quaes foram aos principaes dos sacerdotes e aos anciãos, e
disseram: [AIF] Conjurámo-nos, sob pena de maldição, que nada provaremos,
até que matemos a Paulo.
15 Agora, pois, vós, com o conselho, fazei saber ao tribuno que vol-o
traga ámanhã, como que querendo saber mais alguma coisa de seus negocios,
e, antes que chegue, estaremos promptos para o matar.
16 E o filho da irmã de Paulo, ouvindo estas ciladas, foi, e entrou na
fortaleza, e o annunciou a Paulo.
17 E Paulo, chamando a si um dos centuriões, disse: Leva este mancebo ao
tribuno, porque tem alguma coisa que lhe communicar.
18 Tomando-o elle, pois, _o_ levou ao tribuno, e disse: O preso Paulo,
chamando-me a si, _me_ rogou que te trouxesse este mancebo, que tem
alguma coisa que dizer-te.
19 E o tribuno, tomando-_o_ pela mão, e pondo-se á parte perguntou-lhe em
particular: Que tens que me denunciar?
20 E disse elle: [11] Os judeos se concertaram rogar-te que ámanhã leves
Paulo ao conselho, como que tendo a inquirir d’elle mais alguma coisa ao
certo:
21 Porém tu não os creias; porque mais de quarenta homens d’entre elles
lhe andam armando ciladas: os quaes se obrigaram, sob pena de maldição, a
não comerem nem beberem, até que o tenham morto: e já estão apercebidos,
esperando a tua promessa.
22 Então o tribuno despediu o mancebo, mandando-lhe que a ninguem
dissesse que lhe havia manifestado aquillo.
23 E, chamando a si dois centuriões, lhes disse: Apromptae para as tres
horas da noite duzentos soldados, e setenta de cavallo, e duzentos
archeiros para irem até Cesarea;
24 E apparelhae cavalgaduras, para que, pondo n’ellas a Paulo, o levem a
salvo ao presidente Felix.
25 Escreveu uma carta, que continha isto:
26 Claudio Lysias, a Felix, potentissimo [AIG] presidente, saude.
27 Esse homem [12] foi preso pelos judeos; e, estando _já_ a ponto de ser
morto por elles, sobrevim eu com a soldadesca, e _lh’o_ tomei, informado
de que era romano.
28 E, querendo saber [13] a causa por que o accusavam, o levei ao seu
conselho.
29 E achei que o accusavam de _algumas_ questões [14] da sua lei: mas que
nenhum crime havia n’elle digno de morte ou de prisão.
30 E, sendo-me [15] notificado que os judeos haviam _de armar_ ciladas a
esse homem, logo t’o enviei, mandando tambem aos accusadores que perante
ti digam o que tiverem contra elle. Passa bem.
31 Tomando pois os soldados a Paulo, como lhe fôra mandado, _o_ trouxeram
de noite a Antipatris.
32 E no dia seguinte, deixando aos de cavallo irem com elle, tornaram á
fortaleza.
33 Os quaes, logo que chegaram a Cesarea, e entregaram a carta ao
presidente, lhe apresentaram Paulo.
34 E o presidente, lida _a carta_, perguntou de que provincia era; e,
entendendo [16] que da Cilicia,
35 Ouvir-te-hei, disse, [17] quando tambem aqui vierem os teus
accusadores. E mandou que o guardassem [18] no pretorio de Herodes.
[1] cap. 24.16. I Cor. 4.4. II Cor. 1.12 e 4.2. II Tim. 1.3. Heb. 13.18.
[2] I Reis 22.24. Jer. 20.2. João 18.22.
[3] Lev. 19.35. Deu. 25.1, 2. João 7.51.
[4] cap. 24.17. Exo. 22.28. Ecc. 10.20. II Ped. 2.10. Jud. 8.
[5] cap. 26.5 e 24.15, 21 e 26.6 e 28.20. Phi. 3.5.
[6] Mat. 22.23. Mar. 12.18. Luc. 20.27.
[7] cap. 25.25 e 26.31 e 22.7, 17, 18.
[8] cap. 5.39.
[9] cap. 18.9 e 27.23, 24.
[10] ver. 21, 30. cap. 25.3.
[11] ver. 12.
[12] cap. 21.33 e 24.7.
[13] cap. 22.30.
[14] cap. 18.15 e 25.19 e 26.31.
[15] ver. 20. cap. 24.8 e 25.6.
[16] cap. 21.39.
[17] cap. 24.1, 10 e 25.16.
[18] Mat. 27.27.
_Paulo perante o tribunal do governador Felix._
24 E cinco dias depois o summo sacerdote [1] Ananias desceu com os
anciãos, e um certo Tertullo, orador, os quaes compareceram perante o
presidente contra Paulo.
2 E, sendo citado, Tertullo começou a accusal-_o_, dizendo:
3 Que por ti tenhamos tanta paz e que, por tua prudencia, a este povo
se façam muitos e louvaveis serviços, sempre e em todo o logar, ó
potentissimo Felix, com todo o agradecimento o reconhecemos.
4 Porém, para que te não detenha muito, rogo-te que brevemente, conforme
a tua equidade, nos ouças:
5 Porque temos [2] achado que este homem é uma peste, e levantador de
sedições entre todos os judeos, por todo o mundo; e o principal defensor
da seita dos nazarenos;
6 O qual [3] intentou tambem profanar o templo: ao qual tambem prendemos,
e conforme a nossa lei o [4] quizemos julgar.
7 Porém, sobrevindo [5] o tribuno Lysias, nol-o tirou d’entre as mãos com
grande violencia:
8 Mandando aos seus [6] accusadores que viessem a ti: do qual tu mesmo,
examinando-o, poderás entender tudo o de que o accusamos.
9 E tambem os judeos consentiram, dizendo serem estas coisas assim.
10 Porém Paulo, fazendo-lhe o presidente signal que fallasse, respondeu:
Porque sei que já vae para muitos annos que d’esta nação és juiz, com
tanto melhor animo respondo por mim.
11 Pois bem podes entender que não ha mais de doze dias que subi [7] a
Jerusalem a adorar;
12 E não me acharam no templo fallando com alguem, [8] nem amotinando o
povo nas synagogas, nem na cidade.
13 Nem tão pouco podem provar as _coisas_ de que agora me accusam.
14 Porém confesso-te isto: que, conforme aquelle caminho que chamam
seita, [9] assim sirvo ao Deus de nossos paes, [10] crendo tudo quanto
está escripto na lei e nos prophetas.
15 Tendo esperança em Deus, como estes mesmos tambem, esperam, de que ha
de haver resurreição de mortos, assim dos justos como dos injustos.
16 E por isso procuro sempre ter uma [11] consciencia sem offensa, tanto
para com Deus como _para com_ os homens.
17 Porém, muitos annos depois, vim trazer á minha nação esmolas [12] e
offertas.
18 N’isto me [13] acharam _já_ sanctificado no templo, não com gente, nem
com alvoroços, [14] uns certos judeos da Asia,
19 Os quaes convinha que estivessem presentes perante ti, e _me_
accusassem, se alguma coisa contra mim tivessem.
20 Ou digam estes mesmos, se acharam em mim alguma iniquidade, quando
compareci perante o conselho.
21 Senão só estas palavras, que estando entre elles, clamei: [15] Hoje
sou julgado por vós ácerca da resurreição dos mortos.
22 Então Felix, havendo ouvido estas _coisas_, lhes poz dilação, dizendo:
Havendo-me informado melhor d’este caminho, quando o tribuno [16] Lysias
tiver descido, _então_ tomarei inteiro conhecimento dos vossos negocios.
23 E mandou ao centurião que guardassem a Paulo, e estivesse com _alguma_
liberdade, [17] e que a ninguem dos seus prohibisse servil-o ou vir ter
com elle.
24 E alguns dias depois, vindo Felix com sua mulher Drusilla, que era
judia, mandou chamar a Paulo, e ouviu-o ácerca da fé em Christo.
25 E, tratando elle da justiça, e da temperança, e do juizo vindouro,
Felix, espavorido, respondeu: Por agora vae-te, e em tendo opportunidade
te chamarei.
26 Esperando tambem juntamente que Paulo lhe désse [18] dinheiro, para
que o soltasse; pelo que tambem muitas vezes o mandava chamar, e fallava
com elle.
27 Porém, cumpridos dois annos, Felix teve por successor a Porcio Festo;
e, querendo Felix comprazer [19] aos judeos, deixou a Paulo preso.
[1] cap. 21.27 e 23.2, 30, 35 e 25.2.
[2] Luc. 23.2. cap. 6.13 e 16.20 e 17.6 e 21.28. I Ped. 2.12, 15.
[3] cap. 21.28.
[4] João 18.31.
[5] cap. 21.33.
[6] cap. 23.30.
[7] ver. 17. cap. 21.26.
[8] cap. 25.8 e 28.17.
[9] Amós 8.14. cap. 9.2 e 26.22 e 28.23. II Tim. 1.3.
[10] cap. 23.6 e 26.6, 7 e 28.20. Dan. 12.2. João 5.28, 29.
[11] cap. 23.1.
[12] cap. 11.29, 30 e 20.16. Rom. 15.25. II Cor. 8.4. Gal. 2.10.
[13] cap. 21.26, 27 e 26.21.
[14] cap. 23.30 e 25.16.
[15] cap. 23.6 e 28.20.
[16] ver. 7.
[17] cap. 27.3 e 28.16.
[18] Exo. 23.8.
[19] Exo. 23.2. cap. 12.3 e 25.9, 4.
_Paulo comparece perante Festo e appella para Cesar._
[Anno Domini 62]
25 Entrando pois Festo na provincia, subiu d’ali a tres dias de Cesarea a
Jerusalem.
2 E o summo sacerdote e [1] os principaes dos judeos compareceram perante
elle contra Paulo, e lhe rogaram,
3 Pedindo favor contra elle, para que o fizesse vir a Jerusalem, [2]
armando-_lhe_ ciladas para o matarem no caminho.
4 Porém Festo respondeu que Paulo estava guardado em Cesarea, e que elle
brevemente partiria _para lá_.
5 Os que pois, disse, d’entre vós podem, desçam juntamente [3] _comigo_,
e, se n’este varão houver algum crime, accusem-n’o.
6 E, não se havendo entre elles detido mais de dez dias, desceu a
Cesarea; e no dia seguinte, assentando-se no tribunal, mandou que
trouxessem Paulo.
7 E, chegando elle, o rodeiaram os judeos que haviam descido de
Jerusalem, [4] trazendo contra Paulo muitas e graves accusações, que não
podiam provar.
8 Pelo que, em _sua_ defeza, disse: Eu não pequei em coisa alguma [5]
contra a lei dos judeos, nem contra o templo, nem contra Cesar.
9 Porém Festo, [6] querendo comprazer com os judeos, respondendo a Paulo,
disse: Queres tu subir a Jerusalem, e ser lá perante mim julgado ácerca
d’estas _coisas_?
10 E Paulo disse: Estou perante o tribunal de Cesar, onde convem que seja
julgado; não fiz aggravo algum aos judeos, como tu muito bem sabes;
11 Porque, se fiz [7] algum aggravo, ou commetti alguma _coisa_ digna de
morte, não recuso morrer; porém, se nada ha das _coisas_ de que estes me
accusam, ninguem me pode entregar a elles; [8] appello para Cesar.
12 Então Festo, tendo fallado com o conselho, respondeu: Appellaste para
Cesar? para Cesar irás.
13 E, passados alguns dias, o rei Agrippa e Berenice vieram a Cesarea, a
saudar Festo.
14 E, como ali se detiveram muitos dias, Festo contou ao rei os negocios
de Paulo, [9] dizendo: Um _certo_ varão foi deixado por Felix _aqui_
preso,
15 Por cujo [10] respeito os principaes dos sacerdotes e os anciãos dos
judeos, estando eu em Jerusalem, compareceram _perante mim_, pedindo
sentença contra elle.
16 Aos quaes respondi [11] não ser costume dos romanos entregar algum
homem á morte, sem que o accusado tenha presentes os seus accusadores, e
tenha logar de defender-se da accusação.
17 De sorte que, chegando elles aqui juntos, no dia seguinte, sem fazer
dilação [12] alguma, assentado no tribunal, mandei trazer o homem.
_Paulo perante o rei Agrippa._
18 Ácerca do qual, estando presentes os accusadores, nenhuma _coisa_
apontaram d’aquellas que eu suspeitava.
19 Tinham, porém, contra elle algumas questões [13] ácerca da sua
superstição, e de um _certo_ Jesus, defunto, que Paulo affirmava viver.
20 E, estando eu perplexo ácerca da inquirição d’esta causa, disse se
queria ir a Jerusalem, e lá ser julgado ácerca d’estas _coisas_.
21 E, appellando Paulo para ser reservado ao conhecimento de Augusto,
mandei que o guardassem até que o enviasse a Cesar.
22 Então [14] Agrippa disse a Festo: Bem quizera eu tambem ouvir esse
homem. E elle disse: Ámanhã o ouvirás.
23 De sorte que, no dia seguinte, vindo Agrippa e Berenice, com muito
apparato, e entrando no auditorio com os tribunos e varões principaes da
cidade, trouxeram a Paulo por mandado de Festo.
24 E Festo disse: Rei Agrippa, e todos os varões que estaes presentes
comnosco: aqui vêdes aquelle de quem toda [15] a multidão dos judeos me
tem fallado, tanto em Jerusalem como aqui, clamando que não convém que
viva mais.
25 Porém, achando eu que nenhuma _coisa_ [16] digna de morte fizera, e
appellando elle mesmo tambem para Augusto, tenho determinado enviar-lh’o.
26 Do qual não tenho _coisa_ alguma certa que escreva ao meu senhor, pelo
que perante vós o trouxe, e mórmente perante ti, ó rei Agrippa, para que,
feita informação, tenha alguma coisa que escrever.
27 Porque me parece contra a razão enviar um preso, e não notificar
contra elle as accusações.
[1] cap. 24.1. ver. 15.
[2] cap. 23.12, 15.
[3] cap. 18.14. ver. 18.
[4] Mar. 15.3. Luc. 23.2, 10. cap. 24.5, 13.
[5] cap. 6.13 e 24.12 e 28.17.
[6] cap. 24.27. ver. 20.
[7] ver. 25. cap. 18.14 e 23.29 e 26.31.
[8] cap. 26.32 e 28.19.
[9] cap. 24.27.
[10] ver. 2, 3.
[11] ver. 4, 5.
[12] ver. 6.
[13] cap. 18.15 e 23.29.
[14] cap. 9.15.
[15] ver. 2, 3, 7. cap. 22.22.
[16] cap. 23.9, 29 e 26.31. ver. 11, 12.
26 Depois Agrippa disse a Paulo: Permitte-se-te fallar por ti mesmo.
Então Paulo, estendendo a mão em sua defeza, respondeu:
2 Tenho-me por venturoso, ó rei Agrippa, de que perante ti me haja hoje
de defender de todas as _coisas_ de que sou accusado pelos judeos;
3 Mórmente _sabendo eu_ que tens noticia de todos os costumes e questões
que ha entre os judeos; pelo que te rogo que me ouças com paciencia.
4 A minha vida, pois, desde a mocidade, qual haja sido, desde o
principio, em Jerusalem, entre os da minha nação, todos os judeos sabem:
5 Tendo conhecimento de mim desde o principio (se o quizerem testificar),
como, conforme a mais [1] severa seita da nossa religião, vivi phariseo.
6 E agora pela esperança [2] da promessa que por Deus foi feita a nossos
paes estou _aqui_ e sou julgado.
7 Á qual as nossas doze tribus esperam [3] chegar, servindo _a Deus_
continuamente, noite e dia. Por esta esperança, ó rei Agrippa, eu sou
accusado pelos judeos.
8 _Pois_ que? julga-se _coisa_ incrivel entre vós que Deus resuscite os
mortos?
9 Bem [4] tinha eu imaginado que contra o nome de Jesus nazareno devia eu
praticar muitos actos:
10 O que tambem fiz em Jerusalem. [5] E, havendo recebido poder dos
principaes dos sacerdotes, encerrei muitos dos sanctos nas prisões; e
quando os matavam eu dava o meu voto.
11 E, castigando-os muitas vezes por todas as synagogas, [6] os forcei a
blasphemar. E, enfurecido demasiadamente contra elles, até nas cidades
estranhas os persegui.
12 Ao que indo então a Damasco, [7] com poder e commissão dos principaes
dos sacerdotes,
13 Ao meio dia, ó rei, vi no caminho uma luz do céu, que excedia o
esplendor do sol, a qual me rodeiou a mim e aos que iam comigo, com sua
claridade.
14 E, caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me fallava, e em
lingua hebraica dizia: Saulo, Saulo, porque me persegues? Dura _coisa_ te
_é_ recalcitrar contra os aguilhões.
15 E disse eu: Quem és, Senhor? E elle respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu
persegues;
16 Mas levanta-te e põe-te sobre teus pés, porque te appareci para isto;
para te pôr por ministro [8] e testemunha tanto das _coisas_ que tens
visto como d’aquellas pelas quaes te apparecerei:
17 Livrando-te d’este povo, [9] e _dos_ gentios, a quem agora te envio,
18 Para lhes abrires os olhos, e das trevas _os_ converteres á luz, [10]
e _do_ poder de Satanaz a Deus; para que recebam a remissão dos peccados,
e sorte entre os sanctificados pela fé em mim.
19 Pelo que, ó rei Agrippa, não fui desobediente á visão celestial.
20 Antes annunciei [11] primeiramente aos que estão em Damasco e em
Jerusalem, e por toda a terra da Judea, e aos gentios, que se emendassem
e se convertessem a Deus, fazendo obras [12] dignas de arrependimento.
21 Por causa d’isto os judeos lançaram [13] mão de mim no templo, e
procuraram matar-_me_.
22 Porém, alcançando [14] soccorro de Deus, ainda até ao dia de hoje
permaneço, testificando tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada
mais do que o que os prophetas e Moysés disseram que devia acontecer,
23 _Isto é_, que o Christo [15] devia padecer, e, sendo o primeiro da
resurreição dos mortos, devia annunciar a luz a este povo e aos gentios.
24 E, dizendo elle isto em _sua_ defeza, disse Festo em alta voz: [16]
Deliras, Paulo: as muitas lettras te fazem delirar.
25 Porém elle disse: Não deliro ó potentissimo Festo; antes fallo
palavras de verdade e de um são juizo.
26 Porque o rei, diante de quem fallo com ousadia, sabe estas _coisas_,
pois não creio que nada d’isto se lhe occulte; porque isto não se fez em
qualquer canto.
27 Crês tu nos prophetas, ó rei Agrippa? Bem sei que crês.
28 E disse Agrippa a Paulo: Por pouco não me persuades a que me faça
christão.
29 E disse Paulo: [17] Prouvera a Deus que, ou por pouco ou por muito,
não sómente tu, mas tambem todos quantos hoje me estão ouvindo, se
tornassem taes qual eu sou, excepto estas cadeias.
30 E, dizendo elle isto, se levantou o rei, e o presidente, e Berenice, e
os que com elles estavam assentados.
31 E, apartando-se a uma banda, fallavam uns com os outros, dizendo: Este
homem nada fez digno [18] de morte ou de prisões.
32 E Agrippa disse a Festo: Bem podia soltar-se [19] este homem, se não
houvera appellado para Cesar.
[1] cap. 22.3 e 23.6 e 24.15, 21. Phi. 3.5.
[2] cap. 23.6. Gen. 3.15 e 49.10. Deu. 18.15. Isa. 4.2 e 7.14 e 40.10.
Eze. 34.23. Dan. 9.24. Tito 2.13.
[3] Thi. 1.1. Luc. 2.37. I Tim. 5.5. Phi. 3.11.
[4] João 16.2. I Tim. 1.13.
[5] cap. 8.3. Gal. 1.13.
[6] cap. 22.19.
[7] cap. 9.3 e 22.6.
[8] cap. 22.15.
[9] cap. 22.21.
[10] Isa. 35.5 e 42.7. Eph. 1.18. Luc. 1.79. II Cor. 6.14. I The. 5.5. I
Ped. 2.9, 25. Col. 1.12.
[11] cap. 9.20, 22, 29 e 11.26.
[12] Mat. 3.8.
[13] cap. 21.30, 31.
[14] Luc. 24.27, 44. cap. 24.14 e 28.23. Rom. 3.21. João 5.46.
[15] Luc. 24.26, 46. I Cor. 15.20. Col. 1.18. Apo. 1.5. Luc. 2.32.
[16] II Reis 9.11. João 10.20. I Cor. 1.23 e 2.13, 14 e 4.10.
[17] I Cor. 7.7.
[18] cap. 23.9, 29 e 25.25.
[19] cap. 25.11.
_Paulo é mandado para Italia; o naufragio do navio._
27 E, como se determinou [1] que haviamos de navegar para a Italia,
entregaram Paulo, e alguns outros presos, a um centurião por nome Julio,
da cohorte augusta.
2 E, embarcando nós em um navio adramytino, partimos navegando pelos
logares da Asia, estando comnosco [2] Aristarcho, macedonio, de
Thessalonica.
3 E chegámos no _dia_ seguinte a Sidon, e Julio, tratando [3] Paulo
humanamente, _lhe_ permittiu ir ver os amigos, para que cuidassem d’elle.
4 E, partindo d’ali, fomos navegando abaixo de Chypre, porquanto os
ventos eram contrarios.
5 E, tendo atravessado o mar, ao longo da Cilicia e Pamphylia, chegámos a
Myrra, na Lycia.
6 E, achando ali o centurião um navio de Alexandria, que navegava para a
Italia, nos fez embarcar n’elle.
7 E, indo _já_ por muitos dias navegando vagarosamente, e havendo chegado
apenas defronte de Cnido, não nos permittindo o vento ir mais adiante,
navegámos abaixo de Creta, junto de Salmone.
8 E, costeando-a difficilmente, chegámos a um _certo_ logar chamado Bons
Portos, perto do qual estava a cidade de Lasca.
9 E, passado muito tempo, e sendo já perigosa a navegação, porquanto já
tambem o jejum tinha passado, [4] Paulo _os_ admoestava,
10 Dizendo-lhes: Varões, vejo que a navegação ha de ser incommoda, e com
muito damno, não só para o navio e carga, mas tambem para as nossas vidas.
11 Porém o centurião cria mais no piloto e no mestre, do que no que dizia
Paulo.
12 E, não sendo aquelle porto commodo para invernar, os mais d’elles
foram de parecer que se partisse d’ali para ver se podiam chegar a
Phenix, _que é_ um ponto de Creta que olha para a banda do vento [AIH] da
Africa e do Coro, e invernar ali.
13 E, soprando o sul brandamente, lhes pareceu terem já o que desejavam,
e, fazendo-se de vela, foram de muito perto costeando Creta.
14 Porém não muito depois deu n’ella um pé de vento, chamado euro-aquilão.
15 E, sendo o navio arrebatado por elle, e não podendo navegar contra o
vento, dando de mão a tudo, nos deixámos ir á tôa.
16 E, correndo abaixo de uma pequena ilha chamada Clauda, apenas podémos
ganhar o batel,
17 Levado para cima o qual, usaram de _todos_ os remedios, cingindo o
navio; e, temendo darem á costa na Syrte, amainadas as vélas, assim foram
á tôa.
18 E, andando nós agitados por uma vehemente tempestade, no _dia_
seguinte alliviaram _o navio_.
19 E ao terceiro _dia_ nós mesmos, com as nossas proprias mãos, [5]
lançámos _ao mar_ a armação do navio.
20 E, não apparecendo, havia _já_ muitos dias, nem sol nem estrellas, e
opprimindo-nos uma não pequena tempestade, fugiu-nos toda a esperança de
nos salvarmos.
21 E, havendo já muito que se não comia, então Paulo, pondo-se em pé no
meio d’elles, disse: Fôra na verdade razoavel, ó varões, ter-me ouvido
a mim e não partir de Creta, e evitar _assim_ este incommodo e esta
perdição.
22 Porém agora vos admoesto a que tenhaes bom animo, porque não se
perderá a vida _de nenhum_ de vós, mas sómente o navio.
23 Porque esta mesma noite o anjo de Deus, [6] de quem eu sou, e a quem
sirvo, esteve comigo,
24 Dizendo: Paulo, não temas: importa que sejas apresentado a Cesar, e
eis que Deus te deu todos quantos navegam comtigo.
25 Portanto, ó varões, tende bom animo; [7] porque creio em Deus, que ha
de acontecer assim como a mim me foi dito.
26 Porém é necessario [8] irmos dar n’uma ilha.
27 E, quando chegou a decima quarta noite, sendo impellidos de uma
e outra banda no _mar_ Adriatico, lá pela meia noite suspeitaram os
marinheiros de que estavam proximos d’alguma terra.
28 E, lançando o prumo, acharam vinte braças; e, passando um pouco mais
adiante, tornando a lançar o prumo, acharam quinze braças.
29 E, temendo ir dar em alguns rochedos, lançaram da pôpa quatro ancoras,
desejando que viesse o dia.
30 Procurando, porém, os marinheiros fugir do navio, e deitando o batel
ao mar, como que querendo lançar as ancoras pela prôa,
31 Disse Paulo ao centurião _e_ aos soldados: Se estes não ficarem no
navio, não podereis salvar-vos.
32 Então os soldados cortaram os cabos do batel, e o deixaram cair.
33 E entretanto que o dia vinha, Paulo exhortava a todos a que comessem
alguma coisa, dizendo: É _já_ hoje o decimo quarto dia que esperaes, e
permaneceis sem comer, não havendo provado nada.
34 Portanto, exhorto-vos a que comaes alguma coisa, pois importa para a
vossa saude; [9] porque nem um cabello da cabeça de qualquer de vós cairá.
35 E, havendo dito isto, tomando o pão, deu graças [10] a Deus na
presença de todos; e, partindo-_o_, começou a comer.
36 E, tendo já todos bom animo, pozeram-se tambem a comer.
37 E eramos por todos no navio duzentas [11] e setenta e seis almas.
38 E, refeitos _já_ da comida, alliviaram o navio, lançando o trigo ao
mar.
39 E, sendo já dia, não conheceram a terra; porém enxergaram uma enseada
que tinha praia, e consultaram-se sobre se deveriam encalhar n’ella o
navio.
40 E, levantando as ancoras, deixaram-n’o ir ao mar, largando tambem as
amarras do leme; e, alçando a véla maior ao vento, dirigiram-se para a
praia.
41 Dando, porém, em logar de dois mares, encalharam ali o navio; [12] e,
fixa a prôa, ficou immovel, porém a pôpa abria-se com a força das ondas.
42 Então o conselho dos soldados foi que matassem os presos para que
nenhum fugisse, escapando a nado.
43 Porém o centurião, querendo salvar a Paulo, lhes estorvou este
intento; e mandou que os que podessem nadar se lançassem primeiro _ao
mar_, e se salvassem em terra;
44 E os demais, uns em taboas e outros em coisas do navio. E assim
aconteceu [13] que todos se salvaram em terra.
[1] cap. 25.12.
[2] cap. 19.29.
[3] cap. 24.23 e 28.16.
[4] Lev. 23.27, 29.
[5] Jon. 1.5.
[6] cap. 23.11. Dan. 6.16. Rom. 1.9. II Tim. 1.3.
[7] Luc. 1.45. Rom. 4.20, 21. II Tim. 1.12.
[8] cap. 28.1.
[9] I Reis 1.52. Mat. 10.30. Luc. 12.7 e 21.18.
[10] I Sam. 9.13. Mat. 15.36. Mar. 8.6. João 6.11. I Tim. 4.3, 4.
[11] cap. 2.41 e 7.14. Rom. 13.1. I Ped. 3.20.
[12] II Cor. 11.25.
[13] ver. 22.
_Paulo em Melita._
[Anno Domini 63]
28 E, havendo escapado, então souberam que a ilha se chamava Melita.
2 E os [1] barbaros usaram comnosco de não pouca humanidade; porque,
accendendo um grande fogo, nos recolheram a todos por causa da chuva que
sobrevinha, e por causa do frio.
3 E, havendo Paulo ajuntado _uma_ quantidade de vides, e pondo-as no
fogo, uma vibora, fugindo do calor, lhe accommetteu a mão.
4 E os barbaros, vendo-lhe a bicha pendurada na mão, diziam uns aos
outros: Certamente este homem é homicida, a quem, escapando do mar, a
Justiça não deixa viver.
5 Porém, sacudindo elle a bicha no fogo, não padeceu [2] nenhum mal.
6 E elles esperavam que viesse a inchar ou a cair morto de repente;
porém, tendo esperado _já_ muito, e vendo que nenhum incommodo lhe
sobrevinha, [3] mudando _de parecer_, diziam que era um deus.
7 E ali, proximo d’aquelle mesmo logar, havia umas herdades que
pertenciam ao principal da ilha, por nome Publio, o qual nos recebeu e
hospedou benignamente por tres dias.
8 E aconteceu que o pae de Publio estava de cama enfermo de febres e
dysenteria, ao qual Paulo [4] foi _ver_, e, havendo orado, poz as mãos
sobre elle, e o curou.
9 Feito pois isto, vieram tambem ter com elle os demais que na ilha
tinham enfermidades, e sararam.
10 Os quaes nos honraram tambem com [5] muitas honras: e, havendo de
navegar, _nos_ proveram das coisas necessarias.
_Paulo chega a Roma e fica prisioneiro em sua propria casa durante dois
annos._
11 E tres mezes depois partimos n’um navio de Alexandria que invernára na
ilha, o qual tinha por insignia [AII] Castor e Pollux.
12 E, chegando a Syracusa, ficámos _ali_ tres dias.
13 D’onde, indo costeando, viemos a Rhegio; e um dia depois, soprando um
vento do sul, chegámos no segundo dia a Puteolos.
14 Onde, achando _alguns_ irmãos, nos rogaram que por sete dias
ficassemos com elles; e assim fomos a Roma.
15 E de lá, ouvindo os irmãos novas de nós, nos sairam ao encontro á
praça d’Appio e ás tres Vendas, e Paulo, vendo-os, deu graças a Deus, e
tomou animo.
16 E, logo que chegámos a Roma, o centurião entregou os presos ao general
dos exercitos; porém [6] a Paulo se lhe permittiu morar sobre si á parte,
com o soldado que o guardava.
17 E aconteceu que, tres dias depois, Paulo convocou os que eram
principaes dos judeos, e, juntos elles, lhes disse: Varões [7] irmãos,
não havendo eu feito nada contra o povo, ou contra os ritos paternos, vim
_todavia_ preso desde Jerusalem, entregue nas mãos dos romanos;
18 Os quaes, havendo-me examinado, [8] queriam soltar-_me_, por não haver
em mim crime algum de morte.
19 Porém, oppondo-se os judeos, foi-me forçoso [9] appellar para Cesar,
não tendo, comtudo, de que accusar a minha nação.
20 Assim que por esta causa vos chamei, para _vos_ ver e fallar; [10]
porque pela esperança d’Israel estou com esta cadeia.
21 Porém elles lhe disseram: Nós não recebemos ácerca de ti cartas
_algumas_ da Judea, nem, vindo aqui algum dos irmãos, _nos_ annunciou ou
fallou de ti mal algum.
22 Porém bem quizeramos ouvir de ti o que sentes; porque, quanto a esta
seita, [11] notorio nos é que em toda a parte se falla contra ella.
23 E, havendo-lhe elles assignalado um dia, muitos foram ter com elle
á pousada, aos quaes declarava [12] e testificava o reino de Deus, e
procurava persuadil-os á fé de Jesus, tanto pela lei de Moysés como
_pelos_ prophetas, desde pela manhã até á tarde.
24 E alguns criam [13] no que se dizia; porém outros não criam.
25 E, como ficaram entre si discordes, se despediram, dizendo Paulo esta
palavra: Bem fallou o Espirito Sancto a nossos paes pelo propheta Isaias,
26 Dizendo: Vae a este povo, e dize: [14] De ouvido ouvireis, e de
maneira nenhuma entendereis; e, vendo, vereis, e de maneira nenhuma
percebereis.
27 Porque o coração d’este povo está endurecido, e com os ouvidos ouviram
pesadamente, e fecharam os olhos, para que nunca com os olhos vejam, nem
com os ouvidos ouçam, nem do coração entendam, e se convertam e eu os
cure.
28 Seja-vos pois notorio que esta salvação de Deus é enviada aos gentios,
e [15] elles a ouvirão.
29 E, havendo elle dito isto, partiram os judeos, tendo entre si grande
contenda.
30 E Paulo ficou dois annos inteiros na sua propria habitação que
alugára, e recebia todos quantos vinham vêl-o;
31 Prégando o reino de Deus, [16] e ensinando com toda a ousadia as
_coisas_ pertencentes ao Senhor Jesus Christo, sem impedimento algum.
[1] cap. 27.26. Rom. 1.14. I Cor. 14.11. Col. 3.11.
[2] Mar. 16.18. Luc. 10.19.
[3] cap. 14.11.
[4] Thi. 5.14, 15. Mar. 16.18. Luc. 4.40. cap. 19.11, 12.
[5] Mat. 15.6. I Tim. 5.17.
[6] cap. 24.25 e 27.3.
[7] cap. 24.12, 13 e 25.8 e 21.33.
[8] cap. 22.24 e 24.10 e 25.8 e 26.31.
[9] cap. 25.11.
[10] cap. 26.6, 7 e 26.29. Eph. 3.1 e 4.1 e 6.20.
[11] Luc. 2.34. cap. 24.5, 14. I Ped. 2.12 e 4.14.
[12] Luc. 24.27. cap. 17.3 e 19.8 e 26.6, 22.
[13] cap. 14.4 e 17.4 e 19.9.
[14] Isa. 6.9. Jer. 5.21. Mat. 13.14, 15. Mar. 4.12. Luc. 8.10. João
12.40. Rom. 11.8.
[15] Mat. 21.41, 43. cap. 13.46, 47 e 18.6 e 22.21 e 26.17, 18. Rom.
11.11.
[16] cap. 4.31. Eph. 6.19.
EPISTOLA DE S. PAULO AOS ROMANOS.
_Prefacio e saudação._
[Anno Domini 60]
1 Paulo, servo de Jesus Christo, [1] chamado _para_ apostolo, separado
para o evangelho [2] de Deus,
2 Que antes havia promettido pelos seus prophetas nas sanctas escripturas,
3 Ácerca de seu Filho, [3] que foi gerado da descendencia de David
segundo a carne,
4 Declarado Filho de Deus em poder, segundo [4] o Espirito de
sanctificação, pela resurreição dos mortos, Jesus Christo Nosso Senhor,
5 Pelo qual recebemos a graça _e_ o apostolado, para a [5] obediencia da
fé entre todas as gentes pelo seu nome,
6 Entre os quaes sois tambem vós, _os_ chamados de Jesus Christo.
7 A todos os que estaes em Roma, amados de Deus, [6] chamados sanctos:
Graça e paz de Deus nosso pae, e do Senhor Jesus Christo.
_A fé dos romanos; Paulo anhela vel-os._
8 Primeiramente dou graças ao meu Deus [7] por Jesus Christo, ácerca de
vós todos, porque em todo o mundo é annunciada a vossa fé.
9 Porque Deus, a quem sirvo em meu espirito [8] no evangelho de seu
Filho, me é testemunha de como incessantemente faço menção de vós,
10 [9] Rogando sempre em minhas orações que n’algum tempo, pela vontade
de Deus, se me offereça boa occasião de ir ter comvosco.
11 Porque desejo ver-vos, [10] para vos communicar algum dom espiritual,
afim de que sejaes confortadgos;
12 Isto _é_: para que juntamente comvosco eu seja consolado pela [11] fé
mutua, assim vossa como minha.
13 Porém, irmãos, não quero que ignoreis que muitas [12] vezes propuz ir
ter comvosco (mas até agora tenho sido impedido) para tambem ter entre
vós algum fructo, como tambem entre os demais gentios.
14 Eu sou devedor, [13] tanto a gregos como a barbaros, tanto a sabios
como a ignorantes.
15 Assim que, quanto a mim, estou prompto para tambem vos annunciar o
evangelho, a vós que estaes em Roma.
_A justiça pela fé; o assumpto da epistola._
16 Porque não me envergonho do evangelho de Christo, [14] pois é o poder
de Deus para salvação a todo aquelle que crê; primeiro ao judeo, _e_
tambem ao grego.
17 Porque n’elle se descobre a justiça de Deus de fé em fé, [15] como
está escripto: Mas o justo viverá da fé.
_A idolatria e depravação dos gentios._
18 Porque do céu se manifesta [16] a ira de Deus sobre toda a impiedade e
injustiça dos homens, que deteem a verdade em injustiça.
19 Porquanto o que de Deus se pode conhecer [17] n’elles está manifesto;
porque Deus lh’o manifestou.
20 Porque as suas coisas invisiveis, desde a creação do mundo, tanto o
seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem
pelas coisas que estão creadas, [18] para que fiquem inexcusaveis;
21 Porquanto, tendo conhecido a Deus, não _o_ glorificaram como Deus, nem
_lhe_ deram graças, [19] antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu
coração insensato se obscureceu.
22 Dizendo-se [20] sabios, tornaram-se loucos.
23 E mudaram a gloria do Deus incorruptivel em [21] similhança de imagem
de homem corruptivel, e de aves, e de quadrupedes, e de reptis.
24 Pelo que tambem [22] Deus os entregou ás concupiscencias de seus
corações, á immundicia, para deshonrarem seus corpos entre si:
25 Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, [23] e honraram e serviram
mais a creatura do que o Creador, que _é_ bemdito eternamente. Amen.
26 Pelo que Deus os abandonou [24] ás paixões infames. Porque até as suas
mulheres mudaram o uso natural, no contrario á natureza.
27 E, similhantemente, tambem os varões, deixando o uso natural da
mulher, se inflammaram em sua sensualidade uns para com os outros, varão
com varão, commettendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que
convinha ao seu erro.
28 E, como elles se não importaram de reconhecer a Deus, assim Deus os
entregou a um sentimento perverso, [25] para fazerem coisas que não
conveem;
29 Estando cheios de toda a iniquidade, fornicação, malicia, avareza,
maldade; cheios de inveja, homicidio, contenda, engano, malignidade;
30 Murmuradores, detractores, aborrecedores de Deus, injuriadores,
soberbos, presumpçosos, inventores de males, desobedientes aos pães e ás
mães;
31 Nescios, infieis nos contractos, sem affeição natural,
irreconciliaveis, sem misericordia;
32 Os quaes, [26] conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte
os que praticam taes coisas), não sómente as fazem, mas tambem consentem
aos que as fazem.
[1] Act. 22.21 e 9.15. I Cor. 1.1. Gal. 1.1 e 1.15. I Tim. 1.11.
[2] Act. 26.6. Tito 1.2. cap. 3.21. Gal. 3.8.
[3] Mat. 1.6, 16. Luc. 1.32. Act. 2.30.
[4] Act. 13.33. Heb. 9.14.
[5] cap. 12.3 e 15.15. I Cor. 15.10. Gal. 1.15. Eph. 3.8. Act. 6.7.
[6] cap. 9.24. I Cor. 1.2 e 1.3. I The. 4.7. Gal. 1.3.
[7] I Cor. 1.4. Phi. 1.3. Col. 1.3, 4. I The. 1.2. Phi. 4.
[8] cap. 9.1. II Cor. 1.23. Phi. 1.8. I The. 2.5. Act. 27.23. II Tim.
1.3. João 4.23, 24. Phi. 3.3.
[9] cap. 15.23, 32. I The. 3.10. Thi. 4.15.
[10] cap. 15.29.
[11] Tito 1.4. II Ped. 1.1.
[12] cap. 15.23. Act. 16.7. I The. 2.18. Phi. 4.17.
[13] I Cor. 9.16.
[14] Psa. 40.9, 10. Mar. 8.38. II Tim. 1.8. I Cor. 1.18. Luc. 2.30. Act.
3.26.
[15] cap. 3.21. Hab. 2.4. João 3.36. Gal. 3.11. Heb. 10.38.
[16] Act. 17.30. Eph. 5.6. Col. 3.6.
[17] Act. 14.17. João 1.9.
[18] Psa. 19.1, etc. Act. 14.17 e 17.27.
[19] II Reis 17.15. Jer. 2.5. Eph. 4.17, 18.
[20] Jer. 10.14.
[21] Deu. 4.16, etc. Psa. 106.20. Isa. 40.18, 25. Jer. 2.11. Eze. 8.10.