tormento, não _me_ perdoando elle; porque não occultei [3] as palavras do
Sancto.
11 Qual _é_ a minha força, para que eu espere? ou qual _é_ o meu fim,
para que prolongue a minha vida?
12 É _porventura_ a minha força a força de pedra? _Ou é_ de cobre a minha
carne?
13 Ou não _está_ em mim a minha ajuda? ou desamparou-me a verdadeira
sabedoria?
14 Ao [4] que está afflicto _devia_ o amigo _mostrar_ compaixão, ainda ao
que deixasse o temor do Todo-poderoso.
15 Meus irmãos [5] aleivosamente _me_ fallaram, como um ribeiro, como a
torrente dos ribeiros que passam.
16 Que estão encobertos com a geada, _e_ n’elles se esconde a neve.
17 No tempo em que se derretem com o calor se desfazem, _e_ em se
aquentando, desapparecem do seu logar.
18 Desviam-se as veredas dos seus caminhos: sobem ao vacuo, e perecem.
19 Os caminhantes de [6] Tema os vêem; os passageiros de Sheba olham para
elles.
20 Foram [7] envergonhados, por terem confiado e, chegando ali, se
confundem.
21 Agora [8] sois similhantes a elles: vistes o terror, e temestes.
22 Disse-_vos_ eu: Dae-me ou offerecei-me da vossa fazenda presentes?
23 Ou livrae-me das mãos do oppressor? ou redemi-me das mãos dos tyrannos?
24 Ensinae-me, e eu _me_ calarei: e dae-me a entender em que errei.
25 Oh! quão fortes são as palavras da boa razão! mas que é o que argue a
vossa arguição?
26 _Porventura_ buscareis palavras para me reprehenderdes, visto que as
razões do desesperado estão como vento?
27 Mas antes lançaes _sortes_ sobre o orphão; e cavaes _uma cova_ para o
vosso amigo.
28 Agora pois, se sois servidos, virae-vos para mim; e _vede_ se minto em
vossa presença.
29 Voltae pois, não haja iniquidade: tornae-vos, [9] digo, _que_ ainda a
minha justiça _apparecerá_ n’isso.
30 Ha _porventura_ iniquidade na minha lingua? _Ou_ não poderia o meu
paladar dar a entender as _minhas_ miserias?
[1] Pro. 27.3.
[2] I Reis 19.4.
[3] Act. 20.20. Lev. 19.2. Isa. 57.15. Ose. 11.9.
[4] Pro. 17.17.
[5] Jer. 15.18.
[6] Gen. 25.15. I Reis 10.1. Eze. 27.22, 23.
[7] Jer. 14.3.
[8] cap. 13.3.
[9] cap. 17.10.
7 Porventura [1] não _tem_ o homem guerra sobre a terra? _e não são_ os
seus dias como os dias do jornaleiro?
2 Como o cervo que suspira _pela_ sombra, e como o jornaleiro que espera
pela sua paga,
3 Assim me deram [2] por herança mezes de vaidade: e noites de trabalho
me prepararam.
4 Deitando-me a dormir, então digo, [3] Quando me levantarei? mas
comprida é a noite, e farto-me de me voltar _na cama_ até á alva.
5 A minha carne se tem vestido de bichos [4] e de torrões de pó: a minha
pelle está gretada, e se fez abominavel.
6 Os meus dias [5] são mais velozes do que a lançadeira do tecelão, e
pereceram sem esperança.
7 Lembra-te de que a minha vida _é_ como o vento; os meus olhos não
tornarão a ver o bem.
8 Os olhos dos que _agora_ me vêem não me verão [6] _mais_: os teus olhos
_estarão_ sobre mim, porém não serei _mais_.
9 _Assim como_ a nuvem se desfaz e passa, assim aquelle que desce á
sepultura [7] nunca tornará a subir.
10 Nunca mais tornará á sua casa, nem o seu logar [8] jámais o conhecerá.
11 Por isso não reprimirei a [9] minha bocca: fallarei na angustia do meu
espirito; queixar-me-hei na amargura da minha alma.
12 Sou eu _porventura_ o mar, ou a baleia, para que me ponhas uma guarda?
13 Dizendo eu: [10] Consolar-me-ha a minha cama: meu leito alliviará a
minha ancia;
14 Então me espantas com sonhos, e com visões me assombras:
15 Pelo que a minha alma escolheria _antes_ a estrangulação: _e_ antes a
morte do que [MW] a vida.
16 _A minha vida_ abomino, [11] pois não viveria para sempre: retira-te
de mim; pois vaidade _são_ os meus dias.
17 Que _é_ [12] o homem, para que tanto o estimes, e ponhas sobre elle o
teu coração,
18 E cada manhã o visites, e cada momento o proves?
19 Até quando me não deixarás, _nem_ me largarás, até que engula o meu
cuspo?
20 Se pequei, que te farei, [13] _ó_ Guarda dos homens? porque fizeste de
mim um alvo para ti por tropeço, para que a mim mesmo me seja pesado?
21 E porque _me_ não perdoas a minha transgressão, e não tiras a minha
iniquidade? porque agora me deitarei no pó, e de madrugada me buscarás, e
não estarei lá.
[1] cap. 14.5, 13, 14.
[2] cap. 29.2.
[3] Deu. 28.67. cap. 17.12.
[4] Isa. 14.11.
[5] cap. 9.25 e 16.22 e 17.11. Isa. 38.12. Thi. 4.14.
[6] cap. 20.9.
[7] II Sam. 12.23.
[8] cap. 8.18 e 20.9.
[9] I Sam. 1.10. cap. 10.1.
[10] cap. 9.27.
[11] cap. 10.20 e 14.6.
[12] Heb. 2.6.
[13] cap. 16.12. Lam. 3.12.
_Bildad combate as palavras de Job e justifica a Deus._
8 Então respondeu Bildad o suhita, e disse:
2 Até quando fallarás taes _coisas_, e as razões da tua bocca _serão
como_ um vento impetuoso?
3 _Porventura_ perverteria [1] Deus o direito? e perverteria o
Todo-poderoso a justiça?
4 Se teus filhos [2] peccaram contra elle, tambem elle os lançou na mão
da sua transgressão.
5 _Mas_, [3] se tu de madrugada buscares a Deus, e ao Todo-poderoso
pedires misericordia,
6 Se _fôres_ puro e recto, certamente logo despertará por ti, e
restaurará a morada da tua justiça.
7 O teu principio, na verdade, terá sido pequeno, porém o teu ultimo
_estado_ crescerá em extremo.
8 Porque, pergunta [4] agora ás gerações passadas: e prepara-te para a
inquirição de seus paes.
9 Porque [5] nós _somos_ de hontem, e nada sabemos; porquanto nossos dias
sobre a terra _são como_ a sombra.
10 _Porventura_ não te ensinarão elles, _e_ não te fallarão, e do seu
coração não tirarão razões?
11 _Porventura_ sobe o junco sem lodo? _ou_ cresce a espadana sem agua?
12 Estando [6] ainda na sua verdura, _ainda que_ a não cortem, todavia
antes de qualquer _outra_ herva se secca.
13 Assim _são_ as veredas de todos quantos se esquecem de Deus: e a
esperança do hypocrita [7] perecerá.
14 Cuja esperança fica frustrada: e a sua confiança _será como_ a teia
d’aranha.
15 Encostar-se-ha [8] á sua casa, mas não se terá firme: apegar-se-ha a
ella, mas não ficará em pé.
16 Está sumarento antes _que venha_ o sol, e os seus renovos saem sobre o
seu jardim;
17 As suas raizes se entrelaçam junto á fonte, para o pedregal attenta.
18 Absorvendo-o [9] elle do seu logar, negal-o-ha _este, dizendo_: Nunca
te vi?
19 Eis que este _é_ alegria do seu caminho, e outros brotarão do pó.
20 Eis que Deus não rejeitará ao recto; nem toma pela mão aos malfeitores:
21 Até que de riso te encha a bocca, e os teus labios de jubilação.
22 Teus aborrecedores se vestirão de confusão, e a tenda dos impios não
existirá mais.
[1] Gen. 18.25. Deu. 32.4. II Chr. 19.7. cap. 34.12, 17. Dan. 9.14. Rom.
3.5.
[2] cap. 1.5, 18.
[3] cap. 5.8 e 11.13 e 22.23, etc.
[4] Deu. 4.32 e 32.7. cap. 15.18.
[5] Gen. 47.9. I Chr. 29.15. cap. 7.6.
[6] Jer. 17.6.
[7] cap. 11.20 e 18.14 e 27.8. Pro. 10.28.
[8] cap. 27.18.
[9] cap. 7.10 e 20.9.
_Job confessa a justiça de Deus e pede allivio á sua miseria._
9 Então Job respondeu, e disse:
2 Na verdade sei que assim _é_; porque como se justificaria o [1] homem
para com Deus?
3 Se quizer contender com elle, nem a uma de mil _coisas_ lhe poderá
responder.
4 Elle _é_ sábio [2] de coração, e forte de forças: quem se endureceu
contra elle, e teve paz?
5 _Elle é_ o que transporta as montanhas, sem que o sintam, _e_ o que as
transtorna no seu furor.
6 O que remove [3] a terra do seu logar, e as suas columnas estremecem.
7 O que falla ao sol, e não sae, e sella as estrellas.
8 O que só estende [4] os céus, e anda sobre os altos do mar.
9 O que faz [5] a Ursa, o Orion, e o Setestrello, e as recamaras do sul.
10 O que [6] faz coisas grandes, que se não podem esquadrinhar: e
maravilhas _taes_ que se não podem contar.
11 Eis que passa [7] por diante de mim, e não _o_ vejo: e torna a passar
perante mim, e não o sinto.
12 Eis que [8] arrebata; quem lh’o fará restituir? quem lhe dirá: Que _é
o que_ fazes?
13 Deus não revogará a sua ira: [9] debaixo d’elle se encurvam os
auxiliadores soberbos.
14 Quanto menos lhe responderia eu! _ou_ escolheria diante d’elle as
minhas palavras!
15 A quem, [10] ainda que eu fosse justo, lhe não responderia: _antes_ ao
meu Juiz pediria misericordia.
16 Ainda que chamasse, e elle me respondesse, nem _por isso_ creria que
désse ouvidos á minha voz.
17 Porque me quebranta com uma tempestade, e multiplica as minhas chagas
[11] sem causa.
18 Nem me concede o respirar, antes me farta d’amarguras.
19 Quanto ás forças, eis que elle é o forte: e, quanto ao juizo, quem me
citará _com elle_?
20 Se eu me justificar, a minha bocca me condemnará: _se fôr_ recto,
então me declarará por perverso.
21 Se fôr recto, não estimo a minha alma: deprezo a minha vida.
22 A coisa _é_ esta; por isso eu digo que elle [12] consome ao recto e ao
impio.
23 Matando o açoite de repente, então se ri da prova dos innocentes.
24 A terra se entrega na mão do impio; elle cobre [13] o rosto dos
juizes: se não é elle, quem _é_ logo?
25 E os meus [14] dias são mais velozes do que um correio: fugiram, _e_
nunca viram o bem.
26 Passam como navios veleiros: como aguia [15] _que_ se lança á comida.
27 Se eu [16] disser: Me esquecerei da minha queixa, e mudarei o meu
rosto, e tomarei alento;
28 Receio todas as minhas dôres, _porque bem_ [17] sei que me não terás
por innocente.
29 _E_, sendo eu impio, por que trabalharei em vão?
30 Ainda que me lave [18] com agua de neve, e purifique as minhas mãos
com sabão,
31 Ainda me submergirás no fosso, e os meus proprios vestidos me
abominarão.
32 Porque elle não _é_ homem, como eu, a quem eu [19] responda, vindo
juntamente a juizo.
33 Não [20] ha entre nós arbitro que ponha a mão sobre nós ambos.
34 Tire [21] elle a sua vara de cima de mim, e não me amedronte o seu
terror.
35 _Então_ fallarei, e não o temerei; porque assim não estou comigo.
[1] Rom. 3.20.
[2] cap. 36.5.
[3] Ecc. 9.2, 3. Eze. 21.3.
[4] II Sam. 15.30 e 19.4. Jer. 14.4.
[5] cap. 7.6, 7.
[6] Hab. 1.8.
[7] Jer. 2.22.
[8] Exo. 20.7.
[9] Jer. 2.22.
[10] cap. 10.15.
[11] cap. 2.3 e 34.6.
[12] Isa. 2.19, 21. Heb. 12.26. cap. 26.11.
[13] Gen. 1.6.
[14] Gen. 1.16. cap. 38.31, etc. Amós 5.8.
[15] cap. 5.9.
[16] cap. 23.8, 9 e 35.14.
[17] Isa. 45.9. Rom. 9.20.
[18] cap. 26.12.
[19] Ecc. 6.10. Rom. 9.20.
[20] ver. 19. I Sam. 2.25.
[21] cap. 13.20, 21, 22 e 33.7.
10 A minha alma [1] tem tedio á minha vida: darei livre curso á minha
queixa, fallarei [2] na amargura da minha alma.
2 Direi a Deus: Não me condemnes: faze-me saber porque contendes comigo.
3 _Parece_-te bem que _me_ opprimas? que rejeites o trabalho das tuas
mãos? e resplandeças sobre o conselho dos impios?
4 Tens tu _porventura_ olhos de carne? vês [3] tu como vê o homem?
5 _São_ os teus dias como os dias do homem? Ou _são_ os teus annos como
os annos de um homem,
6 Para te informares da minha iniquidade, e averiguares o meu peccado?
7 Bem sabes tu que eu não sou impio: todavia ninguem _ha_ que _me_ livre
da tua mão.
8 As tuas mãos me fizeram e me formaram todo em roda; comtudo me consomes.
9 Peço-te que te lembres de que como barro me formaste [4] e me farás
tornar em pó.
10 _Porventura_ não me vasaste como leite, e como queijo me não coalhaste?
11 De pelle e carne me vestiste, e com ossos e nervos me ligaste.
12 Vida e beneficencia me fizeste: e o teu cuidado guardou o meu espirito.
13 Porém estas coisas as occultaste no teu coração: bem sei eu que isto
esteve comtigo.
14 Se eu peccar, tu me observas; e da minha iniquidade não me escusarás.
15 Se fôr impio, ai [5] de mim! e se fôr justo, não levantarei a minha
cabeça: farto _estou_ de affronta; e olho para a minha miseria.
16 Porque se vae crescendo; tu me caças [6] como a _um_ leão feroz:
tornaste, e fazes maravilhas contra mim.
17 Tu renovas contra mim as tuas testemunhas, e multiplicas contra mim a
tua ira; revezes e combate estão comigo.
18 Por [7] que pois me tiraste da madre? Ah se _então_ dera o espirito, e
olhos nenhuns me vissem!
19 _Que_ tivera sido como se nunca fôra: _e_ desde o ventre fôra levado á
sepultura!
20 _Porventura_ não _são_ poucos os meus dias? [8] cessa _pois_, e
deixa-me, para que por um pouco eu tome alento;
21 Antes que vá e d’onde nunca torne, á terra da escuridão e da sombra da
morte;
22 Terra escurissima, como a mesma escuridão, terra da sombra, da morte e
sem ordem alguma e onde a luz é como a escuridão.
[1] I Reis 19.4. cap. 7.16. Jon. 4.3, 8.
[2] cap. 7.11.
[3] I Sam. 16.7.
[4] Gen. 2.7 e 3.19. Isa. 64.8.
[5] Isa. 3.11. cap. 9.12, 15, 20, 21.
[6] Isa. 38.13. Lam. 3.10.
[7] cap. 3.11.
[8] cap. 7.16, 19.
_Sofar reprehende Job, mostra a sabedoria de Deus e exhorta ao
arrependimento._
11 Então respondeu Sofar, o naamathita, e disse:
2 _Porventura_ não se dará resposta á multidão de palavras? E o homen
fallador será justificado?
3 Ás tuas mentiras se hão de calar os homens? E zombarás tu sem que
ninguem te envergonhe?
4 Pois [1] tu disseste: A minha doutrina é pura, e limpo sou aos teus
olhos.
5 Mas, na verdade, oxalá que Deus fallasse e abrisse os seus labios
contra ti!
6 E te fizesse saber os segredos da sabedoria, que ella é multiplice em
efficacia; pelo que sabe que Deus exige de ti menos [2] do que _merece_ a
tua iniquidade.
7 _Porventura_ [3] alcançarás os caminhos de Deus? _ou_ chegarás á
perfeição do Todo-poderoso?
8 _Como_ as alturas dos céus _é_ a _sua sabedoria_; que poderás tu fazer?
mais profunda do que [MX] o inferno, que poderás tu saber?
9 Mais comprida _é_ a sua medida do que a terra: e mais larga do que o
mar.
10 Se [4] elle destruir, e encerrar, ou _se_ recolher, quem o fará tornar
para traz?
11 Porque elle conhece aos homens vãos, e vê o vicio; e não _o_ terá em
consideração?
12 Mas o homem vão é [5] falto de entendimento; sim, o homem nasce _como_
a cria do jumento montez.
13 Se tu preparaste [6] o teu coração, e estendeste as tuas mãos para
elle!
14 Se _ha_ iniquidade na tua mão, lança-a para longe _de ti_ e não deixes
habitar a injustiça nas tuas tendas.
15 Porque então [7] o teu rosto levantarás sem macula: e estarás firme, e
não temerás.
16 Porque te esquecerás dos [8] trabalhos, _e_ te lembrarás _d’elles_
como das aguas que já passaram.
17 E a tua vida mais clara se levantará do que o meio dia; ainda que seja
trevas, será como a manhã.
18 E terás confiança; porque haverá esperança; e buscarás _e_ repousarás
seguro.
19 E deitar-te-has, e ninguem te espantará; muitos supplicarão o teu
rosto.
20 Porém os olhos [9] dos impios desfallecerão, e perecerá o seu refugio:
e a sua esperança _será_ o expirar da alma.
[1] cap. 6.10 e 10.7.
[2] Esd. 9.13.
[3] Ecc. 3.1, 1. Rom. 11.33.
[4] cap. 9.12 e 12.14. Apo. 3.7.
[5] Ecc. 3.18. Rom. 1.22.
[6] cap. 5.8 e 22.21. I Sam. 7.3.
[7] Gen. 4.5, 6. cap. 22.26. I João 3.21.
[8] Isa. 65.16.
[9] Lev. 26.16. Deu. 28.65. cap. 8.14 e 18.14. Pro. 11.7.
_Job defende-se contra as accusaçoes de seus amigos._
12 Então Job respondeu, e disse:
2 Na verdade, que só vós _sois_ o povo, _e_ comvosco morrerá a sabedoria.
3 Tambem eu tenho [1] um coração como vós, _e_ não vos sou inferior: e
quem não sabe taes coisas como estas?
4 Eu sou irrisão aos [2] meus amigos; eu, que invoco a Deus, e elle me
responde; o justo e o recto servem de irrisão.
5 Tocha desprezivel _é_ [3] na opinião do _que está_ descançado, aquelle
que _está_ prompto a tropeçar com os pés.
6 As tendas [4] dos assoladores teem descanço, e os que provocam a Deus
estão seguros; nas suas mãos Deus lhes põe _tudo_.
7 Mas, pergunta agora ás bestas, e cada uma d’ellas t’o ensinará: e ás
aves dos céus, e ellas t’o farão saber;
8 Ou falla com a terra, e ella t’o ensinará: até os peixes do mar t’o
contarão.
9 Quem não entende por todas estas coisas que a mão do Senhor faz isto?
10 Em cuja mão _está_ [5] a alma de tudo quanto vive, e o espirito de
toda a carne humana.
11 _Porventura_ o [6] ouvido não provará as palavras, como o paladar
gosta as comidas?
12 Com os edosos _está_ a [7] sabedoria, e na longura de dias o
entendimento.
13 Com elle _está_ a sabedoria [8] e a força: conselho e entendimento tem.
14 Eis que elle derriba, e não se reedificará: encerra o homem, e não se
_lhe_ abrirá.
15 Eis que elle retem [9] as aguas, e se seccam; e as larga, e
transtornam a terra.
16 Com elle _está_ a força e a sabedoria: seu _é_ o errante e o que _o_
faz errar.
17 Aos conselheiros leva despojados, e aos juizes faz [10] desvairar.
18 Solta a atadura dos reis, e ata o cinto aos seus lombos.
19 Aos principes leva despojados, aos poderosos transtorna.
20 Aos acreditados tira a [11] falla, e toma o entendimento aos velhos.
21 Derrama desprezo sobre os principes, e affrouxa o cinto dos violentos.
22 As profundezas das [12] trevas manifesta, e a sombra da morte traz á
luz.
23 Multiplica [13] as gentes e as faz perecer; espalha as gentes, e as
guia.
24 Tira o coração aos chefes das gentes da terra, e os faz vaguear pelos
desertos, sem caminho.
25 Nas trevas andam ás apalpadelas, [14] sem terem luz, e os faz
desatinar como ebrios.
[1] cap. 13.2.
[2] cap. 16.10 e 21.3 e 30.1.
[3] Pro. 14.2.
[4] cap. 21.7. Jer. 12.1. Mal. 3.15.
[5] Num. 16.22. Dan. 5.23. Act. 17.29.
[6] cap. 34.3 e 6.30.
[7] cap. 32.7.
[8] cap. 9.4 e 36.5. cap. 11.10. Isa. 22.22. Apo. 3.7.
[9] I Reis 8.35 e 17.1.
[10] II Reis 15.31. Isa. 19.12 e 29.14. I Cor. 1.19.
[11] cap. 32.9. Isa. 3.1, 2, 3. Dan. 2.21.
[12] Dan. 2.22. Mat. 10.26. I Cor. 4.5.
[13] Isa. 9.3 e 26.15.
[14] Deu. 28.29. cap. 5.14.
13 Eis que tudo _isto_ viram os meus olhos, _e_ os meus ouvidos _o_
ouviram e entenderam.
2 Como [1] vós _o_ sabeis, o sei eu tambem; não vos sou inferior.
3 _Mas_ [2] eu fallarei ao Todo-poderoso, e quero defender-me para com
Deus.
4 Vós porém _sois_ [3] inventores de mentiras, _e_ vós todos medicos que
não valem nada.
5 Oxalá vos calasseis de todo! que _isso_ seria [4] a vossa sabedoria.
6 Ouvi agora a minha defeza, e escutae os argumentos dos meus labios.
7 _Porventura_ [5] por Deus fallareis perversidade? e por elle fallareis
engano?
8 _Ou_ fareis acceitação da sua pessoa? _ou_ contendereis por Deus?
9 Ser-_vos_-hia bom, se elle vos esquadrinhasse? _ou_ zombareis d’elle,
como se zomba d’algum homem?
10 Certamente vos reprehenderá, se em occulto fizerdes acceitação de
pessoas.
11 _Porventura_ não vos espantará a sua alteza? e não cairá sobre vós o
seu temor?
12 As vossas memorias _são_ como a cinza: as vossas alturas como alturas
de lodo.
13 Calae-vos perante mim, e fallarei eu, e que fique alliviado algum
tanto.
_Job confia em Deus e deseja conhecei os seus peccados._
14 Por que _razão_ tomo [6] eu a minha carne com os meus dentes, e ponho
a minha [MY] vida na minha mão?
15 [7] _Ainda que_ me matasse, n’elle esperarei; comtudo os meus caminhos
defenderei diante d’elle.
16 Tambem elle _será_ a salvação minha: porém o hypocrita não virá
perante o seu rosto.
17 Ouvi com attenção as minhas razões, e com os vossos ouvidos a minha
declaração.
18 Eis que já tenho ordenado a minha causa, _e_ sei que serei achado
justo.
19 Quem [8] _é_ o que contenderá comigo? se eu agora me calasse, daria o
espirito.
20 Duas _coisas_ sómente [9] não faças para comigo; então me não
esconderei do teu rosto:
21 Desvia a tua mão para longe, de sobre mim, e não me espante o teu
terror.
22 Chama, pois, e eu responderei; ou eu fallarei, e tu responde-me.
23 Quantas culpas e peccados tenho eu? notifica-me a minha transgressão e
o meu peccado.
24 Porque escondes [10] o teu rosto, e me [11] tens por teu inimigo?
25 _Porventura_ quebrantarás a [12] folha arrebatada _do vento_? e
perseguirás o restolho secco?
26 Porque escreves contra mim amarguras [13] e me fazes herdar as culpas
da minha mocidade?
27 Tambem pões [14] no tronco os meus pés, e observas todos os meus
caminhos, _e_ marcas as solas dos meus pés.
28 Envelhecendo-se entretanto elle com a podridão, _e_ como o vestido, ao
qual roe a traça.
[1] cap. 12.3.
[2] cap. 23.3 e 31.35.
[3] cap. 6.21 e 16.2.
[4] Pro. 17.28.
[5] Deu. 28.29. cap. 5.14.
[6] cap. 18.4. I Sam. 28.21.
[7] Pro. 14.32. cap. 27.5.
[8] Isa. 50.8.
[9] cap. 9.34.
[10] Deu. 32.20. Isa. 8.17.
[11] Deu. 32.42. Lam. 2.5.
[12] Isa. 42.3.
[13] cap. 20.11.
[14] cap. 33.11.
_Job roga o favor de Deus por causa da brevidade e miseria da vida
humana._
14 O homem nascido da mulher _é_ curto de dias e farto [1] de inquietação.
2 Sae como [2] a flôr, e se corta; foge tambem como a sombra, e não
permanece.
3 E sobre este tal abres os teus olhos, e a mim me fazes entrar no juizo
comtigo.
4 Quem do immundo tirará [3] o puro? Ninguem.
5 Visto que os seus dias _estão_ [4] determinados, comtigo _está_ o
numero dos seus dias; _e_ tu lhe pozeste limites, e não passará além
_d’elles_.
6 Desvia-te [5] d’elle, para que tenha repouso, até que, como o
jornaleiro, tenha contentamento no seu dia.
7 Porque ha esperança para a arvore que, se fôr cortada, ainda se
renovará, [6] e não cessarão os seus renovos
8 Se se envelhecer na terra a sua raiz, e morrer o seu tronco no pó,
9 Ao cheiro das aguas brotará, e dará ramos para a planta.
10 Porém, morrendo o homem, está abatido: e dando o homem o espirito,
então onde está?
11 Como as aguas se retiram do mar, e o rio se esgota, e fica secco,
12 Assim o homem se deita, e não se levanta: até [7] que não haja mais
céus não acordarão nem se erguerão de seu somno.
13 Oxalá me escondesses [MZ] na sepultura, _e_ me occultasses até que a
tua ira se desviasse: _e_ me pozesses um limite, e te lembrasses de mim!
14 Morrendo o homem, _porventura tornará a_ viver? todos os dias de meu
combate esperaria, [8] até que viesse a minha mudança?
15 Chama-_me_, [9] e eu te responderei, _e_ affeiçoa-te á obra de tuas
mãos.
16 Pois agora [10] contas os meus passos: _porventura_ não vigias sobre o
meu peccado?
17 A minha transgressão _está_ sellada [11] n’um sacco, e amontoas as
minhas iniquidades.
18 E, na verdade, caindo a montanha, desfaz-se: e a rocha se remove do
seu logar.
19 As aguas gastam as pedras, as cheias afogam o pó da terra: e tu fazes
perecer a esperança do homem.
20 Tu para sempre prevaleces contra elle, e elle passa; tu, mudando o seu
rosto, o despedes.
21 Os seus filhos estão em honra, sem que elle o saiba: ou ficam
minguados [12] sem que elle o perceba:
22 Mas a sua carne n’elle tem dôres: e a sua alma n’elle lamenta.
[1] cap. 5.7. Ecc. 2.22.
[2] cap. 8.9. Isa. 40.6. Thi. 1.10, 11 e 4.14. I Ped. 1.24.
[3] Gen. 5.3. João 3.6. Rom. 5.12. Eph. 2.3.
[4] cap. 7.1.
[5] cap. 7.16, 19 e 10.20. cap. 7.1.
[6] ver. 14.
[7] Isa. 51.6 e 65.17 e 66.22. Act. 3.21. Rom. 8.20. II Ped. 3.7, 10, 11.
Apo. 20.11 e 21.1.
[8] cap. 13.15. ver. 7.
[9] cap. 13.22.
[10] cap. 10.6, 14 e 13.27 e 31.4 e 34.21. Pro. 5.21. Jer. 32.19.
[11] Deu. 32.34. Ose. 13.12.
[12] Ecc. 9.5. Isa. 63.16.
_Eliphaz accusa Job de impiedade._
15 Então respondeu Eliphaz o themanita, e disse:
2 _Porventura_ dará o sabio por resposta sciencia de vento? e encherá o
seu ventre de vento oriental?
3 Arguindo com palavras que de nada servem e com razões, com que nada
aproveita?
4 E tu tens feito vão o temor, e diminues os rogos diante de Deus.
5 Porque a tua bocca declara a tua iniquidade; e tu escolheste a lingua
dos astutos.
6 A tua bocca [1] te condemna, e não eu, e os teus labios testificam
contra ti.
7 _És_ tu _porventura_ o primeiro homem que foi nascido? [2] ou foste
gerado antes dos outeiros?
8 _Ou_ ouviste [3] o secreto conselho de Deus? e a ti _só_ limitaste a
sabedoria?
9 Que sabes [4] tu, que nós não sabemos? _e que_ entendes, que não _haja_
em nós?
10 Tambem [5] _ha_ entre nós encanecidos e edosos, muito mais edosos do
que teu pae.
11 _Porventura_ as consolações de Deus te _são_ pequenas? ou alguma coisa
se occulta em ti?
12 Porque te arrebata o teu coração? e porque acenam os teus olhos?
13 Para virares contra Deus o teu espirito, e deixares sair _taes_
palavras da tua bocca?
14 Que [6] _é_ o homem, para que seja puro? e _o que_ nasce da mulher,
para que fique justo?
15 Eis que nos [7] seus sanctos não confiaria, e nem os céus são puros
aos seus olhos.
16 Quanto mais [8] abominavel e fedorento _é_ o homem que bebe a [9]
iniquidade como a agua?
_Eliphaz mostra que o impio é atormentado n’esta vida._
17 Escuta-me, mostrar-t’_o_-hei: e o que vi _te_ contarei
18 (O que os sabios annunciaram, _ouvindo-o_ de seus paes, e _o_ não [10]
occultaram.
19 Aos quaes sómente se déra a terra, e nenhum estranho passou [11] por
meis d’elles):
20 Todos os dias o impio se dá pena _a si_ mesmo, e se reservam para o
tyranno um certo numero d’annos.
21 O sonido dos horrores _está_ nos seus [12] ouvidos: até na paz lhe
sobrevem o assolador.
22 Não crê que tornará das trevas, e que está esperado da espada.
23 Anda vagueando por pão, dizendo: Onde está? _Bem_ sabe que _já_ o dia
[13] das trevas lhe está preparado á mão.
24 Assombram-n’o a angustia e a tribulação; prevalecem contra elle, como
o rei preparado para a peleja.
25 Porque estende a sua mão contra Deus, e contra o Todo-poderoso se
embravece.
26 Arremette contra elle com a dura cerviz, _e_ contra os pontos grossos
dos seus escudos.
27 Porquanto cobriu o seu rosto com a sua gordura, e criou enxundia nas
ilhargas.
28 E habitou em cidades assoladas, em casas em que ninguem morava, que
estavam a ponto de fazer-se montões _de ruinas_.
29 Não se enriquecerá, nem subsistirá a sua fazenda, nem se estenderão
pela terra as suas possessões.
30 Não escapará das trevas; a chamma _do fogo_ seccará os seus renovos,
_e_ ao assopro da sua bocca [14] desapparecerá.
31 Não confie _pois_ na [15] vaidade enganando-se a si mesmo, porque a
vaidade será a sua recompensa.
32 Antes [16] do seu dia ella se _lhe_ cumprirá; e o seu ramo não
reverdecerá.
33 Sacudirá as suas uvas verdes, como _as_ da vide, e deixará cair a sua
flor como _a_ da oliveira.
34 Porque o ajuntamento dos hypocritas _se fará_ esteril, e o fogo
consumirá as tendas do soborno.
35 Concebem [17] o trabalho, e parem a iniquidade, e o seu ventre prepara
enganos.
[1] Luc. 19.22.
[2] Pro. 8.25.
[3] Rom. 11.25, 34. I Cor. 2.11.
[4] cap. 13.2.
[5] cap. 32.6, 7.
[6] I Sam. 8.46. II Chr. 6.36. cap. 14.4. Pro. 20.9. Ecc. 7.20. I João
18.10.
[7] cap. 4.18 e 25.5.
[8] cap. 4.19.
[9] cap. 34.7. Pro. 19.28.
[10] cap. 8.8.
[11] Joel 3.17.
[12] I The. 5.3.
[13] cap. 18.12.
[14] cap. 4.9.
[15] Isa. 59.4.
[16] cap. 22.16.
[17] Isa. 59.4. Ose. 10.13.
_Job accusa a seus amigos de falta de compaixão e misericordia._
16 Então respondeu Job, e disse:
2 Tenho ouvido muitas coisas como estas: todos vós _sois_ consoladores
[1] molestos.
3 _Porventura_ não terão fim estas palavras de vento? ou _que_ te irrita,
para _assim_ responderes?
4 Fallaria eu tambem como vós _fallaes_, se a vossa alma estivesse em
logar da minha alma? _ou_ amontoaria palavras contra vós, e menearia
contra vós a minha cabeça?
5 Antes vos fortaleceria com a minha bocca, e a consolação dos meus
labios abrandaria a dôr.
6 Se eu fallar, a minha dôr não cessa, e, calando-_me eu_, que _mal_ me
deixa?
7 Na verdade, agora me molestou: tu assolaste toda a minha companhia.
8 Testemunha _d’isto é_ que já me fizeste enrugado, e a minha magreza
_já_ se levanta contra mim, _e_ no meu rosto testifica _contra mim_.
9 Na sua ira _me_ [2] despedaçou, e elle me perseguiu; rangeu os seus
dentes contra mim: aguça o meu adversario os seus olhos [3] contra mim.
10 Bocejam [4] com a sua bocca contra mim; com desprezo me feriram nos
queixos, _e_ contra mim se ajuntam todos.
11 Entrega-me [5] Deus ao perverso, e nas mãos dos impios me faz cair.
12 Descançado estava eu, porém elle me quebrantou; e pegou-me pela
cerviz, e me despedaçou; tambem me poz por seu alvo.
13 Cercam-me os seus frecheiros; atravessa-me os rins, e não _me_ poupa,
_e_ o meu fel derrama em terra.
14 Quebranta-me com quebranto sobre quebranto: arremette contra mim como
um valente.
15 Cosi sobre a minha [6] pelle o sacco, _e_ revolvi a minha cabeça no pó.
16 O meu rosto _todo_ está descorado de chorar, e sobre as minhas
palpebras _está_ a sombra da morte:
17 Não havendo porém violencia nas minhas mãos, e _sendo_ pura a minha
oração.
18 Ah! terra, não cubras o meu sangue; e não [7] haja logar para o meu
clamor!
19 Eis que tambem agora _está_ a minha [8] testemunha no céu, e a minha
testemunha nas alturas.
20 Os meus amigos _são_ os que zombam de mim; os meus olhos se desfazem
_em lagrimas_ diante de Deus.
21 Ah! [9] se se podesse contender com Deus pelo homem, como o filho do
homem pelo seu amigo!
22 Porque se passarão _poucos_ annos; e eu seguirei o caminho _por onde_
não tornarei.
[1] cap. 13.4.
[2] cap. 10.16, 17.
[3] cap. 13.24.
[4] Lam. 3.30. Miq. 5.1.
[5] cap. 1.15, 17.
[6] cap. 30.19.
[7] cap. 27.9.
[8] Rom. 1.9.
[9] cap. 31.25. Ecc. 6.10. Isa. 45.9. Rom. 9.20.
17 O meu espirito se vae corrompendo, os meus dias se vão apagando, _e
tenho_ perante mim as [1] sepulturas.
2 _Porventura_ não _estão_ zombadores comigo? e os meus olhos não passam
a noite _chorando_ pelas suas amarguras?
3 Promette agora, _e_ dá-me _um_ fiador para comtigo: [2] quem ha _que_
me dê a mão?
4 Porque aos seus corações encobriste o entendimento, pelo que não _os_
exaltarás.
5 _O_ que lisongeando falla aos amigos tambem os olhos de seus filhos
desfallecerão.
6 Porém a mim me [3] poz por _um_ proverbio dos povos, de modo que _já_
sou uma abominação perante o rosto _de cada um_.
7 Pelo que _já_ se escureceram de magoa os meus olhos, e _já_ todos os
meus membros _são_ como a sombra:
8 Os rectos pasmarão d’isto, e o innocente se levantará contra o
hypocrita.
9 E o justo seguirá o seu caminho firmemente, e o puro de mãos irá
crescendo em força.
10 Mas, na verdade, tornae [4] todos vós, e vinde cá; porque sabio nenhum
acho entre vós.
11 Os meus dias [5] passam, os meus propositos se quebraram, [NA] os
pensamentos do meu coração.
12 Trocaram o dia em noite; a luz _está_ perto _do fim_, por causa das
trevas.
13 Se eu esperar, a sepultura _será_ a minha casa; nas trevas estenderei
a minha cama.
14 Á corrupção clamo: Tu _és_ meu pae; _e_ aos bichos: Vós _sois_ minha
mãe e minha irmã.
15 Onde pois _estaria_ agora a minha esperança? emquanto á minha
esperança, quem a poderá ver?
16 As barras da [6] sepultura descerão quando juntamente no pó haverá
descanço.
[1] I Sam. 1.6, 7.
[2] Pro. 6.1 e 17.18 e 22.26.
[3] cap. 30.9.
[4] cap. 6.29.
[5] cap. 7.6 e 9.25.
[6] cap. 18.13. cap. 3.17.
_Bildad accusa Job de presumpção e impaciencia._
18 Então respondeu Bildad, o suhita, e disse:
2 Até quando _não_ fareis fim de palavras? considerae _bem_, e então
fallaremos.
3 Porque somos estimados como bestas, _e_ immundos aos vossos olhos?
4 Oh tu, que despedaças [1] a tua alma na tua ira, será a terra deixada
por tua causa? e remover-se-hão as rochas do seu logar?
5 Na verdade, [2] a luz dos impios se apagará, e a faisca do seu fogo não
resplandecerá.
6 A luz se escurecerá nas suas tendas, e a sua lampada [3] sobre elle se
apagará.
7 Os passos do seu poder se estreitarão, e o seu conselho o derribará.
8 Porque [4] por seus proprios pés é lançado na rede, e andará nos fios
enredados.
9 O laço o apanhará pelo calcanhar, _e_ prevalecerá [5] contra elle o
salteador.
10 Está escondida debaixo da terra uma corda, e uma armadilha na vereda.
11 Os assombros o espantarão em redor, e o farão correr d’uma parte para
a outra, por onde quer que [6] apresse os passos.
12 Será faminto o seu rigor, [7] e a destruição _está_ prompta ao seu
lado.
13 O primogenito da morte consumirá _as_ costellas da sua pelle:
consumirá, _digo_, os seus membros.
14 A sua confiança [8] será arrancada da sua tenda, e _isto_ o fará
caminhar para o rei dos assombros.
15 Morará na sua _mesma_ tenda, não lhe ficando nada: espalhar-se-ha
enxofre sobre a sua habitação.
16 Por debaixo se seccarão as suas raizes, [9] e por de cima serão
cortados os seus ramos.
17 A sua memoria [10] perecerá da terra, e pelas praças não terá nome.
18 Da luz o lançarão nas trevas, e afugental-o-hão do mundo.
19 Não terá filho [11] nem neto entre o seu povo, e resto nenhum _d’elle_
ficará nas suas moradas.
20 Do seu dia se espantarão os vindouros, e os antigos serão
sobresaltados de horror.
21 Taes _são_, na verdade, as moradas do perverso, e este _é_ o logar _do
que_ não [12] conhece a Deus.
[1] cap. 13.14.
[2] Pro. 13.9 e 20.20 e 24.20.
[3] cap. 21.17.
[4] cap. 32.10.
[5] cap. 5.5.
[6] cap. 15.21 e 20.25. Jer. 6.25 e 20.3 e 46.5 e 49.29.
[7] cap. 15.23.
[8] cap. 8.14 e 11.20. Pro. 10.28.
[9] cap. 29.19. Isa. 5.24. Amós 2.9. Mal. 4.1.
[10] Pro. 2.22 e 10.7.
[11] Isa. 14.22. Jer. 22.30.
[12] Jer. 9.3 e 19.25. I The. 4.5. II The. 1.8. Tito 1.16.
_Job queixa-se da obstinação e dureza dos seus amigos._
19 Respondeu porém Job, e disse:
2 Até quando entristecereis a minha alma, e me quebrantareis com palavras?
3 Já dez vezes [1] me envergonhastes; vergonha não tendes: contra mim vos
endureceis.
4 Embora haja eu, na verdade, errado, comigo ficará o meu erro.
5 Se devéras vos levantaes contra mim, e me arguis com o meu opprobrio,
6 Sabei agora que Deus _é o que_ me transtornou, e _com_ a sua rede me
cercou.
7 Eis que clamo: Violencia; porém não sou ouvido; grito: Soccorro; porém
não _ha_ justiça.
8 O meu [2] caminho entrincheirou, e _já_ não posso passar, e nas minhas
veredas poz trevas.
9 Da minha honra me despojou; e tirou-me a corôa da minha cabeça.
10 Derribou-me elle em roda, e eu me vou, e arrancou a minha esperança,
como a uma arvore.
11 E fez inflammar contrar mim a sua ira, [3] e me reputou para comsigo,
como a seus inimigos.
12 Juntas vieram as suas tropas, [4] e prepararam contra mim o seu
caminho, e se acamparam ao redor da minha tenda.
13 Poz longe de mim a meus irmãos, e os que me conhecem devéras me
estranharam.
14 Os meus parentes _me_ deixaram, e os meus conhecidos se esqueceram de
mim.
15 Os meus domesticos e as minhas servas me reputaram como um estranho,
_e_ vim a ser um estrangeiro aos seus olhos.
16 Chamei a meu creado, e elle _me_ não respondeu, supplicando-lhe eu por
minha _propria_ bocca.
17 O meu bafo se fez estranho a minha mulher, e eu _a_ supplico pelos
filhos do meu corpo.
18 Até os rapazes [5] me desprezam, _e_, levantando-me eu, fallam contra
mim.
19 Todos os homens do meu secreto conselho me abominam, e _até_ os que eu
amava se tornaram contra mim.
20 Os meus ossos se [6] apegaram á minha pelle e á minha carne, _e_
escapei _só_ com a pelle dos meus dentes.
21 Compadecei-vos de mim, amigos meus, compadecei-vos de mim, [7] porque
a mão de Deus me tocou.
22 Porque me perseguis _assim_ como Deus, e da minha carne vos não
fartaes?
23 Quem _me_ déra agora, que as minhas palavras se escrevessem! quem _me_
dera, que se gravassem n’_um_ livro!
24 E que, com penna de ferro, e _com_ chumbo, para sempre fossem
esculpidas na rocha!
25 Porque eu sei _que_ o meu Redemptor vive, e _que_ estará em pé no
derradeiro _dia_ sobre o pó.
26 E depois de _roida_ a minha pelle, comtudo desde a minha carne [8]
verei a Deus,
27 A quem eu verei por mim mesmo, e os meus olhos o verão, e não outro:
_e por isso_ os meus rins se consomem no meu seio.
28 Na verdade, que devieis dizer: [9] Porque o perseguimos? Pois a raiz
da [NB] accusação se acha em mim.
29 Temei vós mesmos a espada; porque o furor traz os castigos da espada,
para saberdes que _haverá_ um juizo.
[1] Gen. 31.7. Lev. 26.26.
[2] cap. 3.23.
[3] cap. 13.24. Lam. 2.5.
[4] cap. 30.12.
[5] II Reis 2.23.
[6] cap. 30.30. Lam. 4.8.
[7] cap. 1.11.
[8] I Cor. 13.12. I João 3.2.
[9] ver. 22.
_Sofar descreve as calamidades que os impios soffrem._
20 Então respondeu Sofar, o naamathita, e disse:
2 Por isso _é que os_ meus pensamentos me fazem responder, e portanto me
apresso.
3 Eu ouvi a reprehensão, que me envergonha, mas o espirito do meu
entendimento responderá por mim.
4 _Porventura não_ sabes isto, _que foi_ desde todo o tempo, desde que o
homem foi posto sobre a terra?
5 _A saber_: que o jubilo dos impios é breve, e a alegria dos hypocritas
como d’um momento?
6 Ainda que a sua altura [1] subisse até ao céu, e a sua cabeça chegasse
até ás nuvens,
7 _Comtudo_ como o seu _proprio_ esterco perecerá para sempre: _e_ os que
o viam dirão: Onde está?
8 Como um sonho vôa, e não será achado, e será afugentado como uma visão
da noite.
9 O olho [2] que _já_ o viu jamais o verá, nem olhará mais para elle o
seu logar.
10 Os seus filhos procurarão agradar aos pobres, e as suas mãos
restaurarão [3] a sua fazenda.
11 Os seus ossos [4] se encherão dos seus _peccados_ occultos, e
_juntamente_ se deitarão com elle no pó.
12 Ainda que o mal lhe seja doce na bocca, _e_ elle o esconda debaixo da
sua lingua,
13 E o guarde, e o não deixe, antes o retenha no seu paladar,
14 Comtudo a sua comida se mudará nas suas entranhas; fel d’aspides
_será_ interiormente.
15 Enguliu fazendas, porém vomitalas-ha; do seu ventre Deus as lançará.
16 Veneno d’aspides sorverá; lingua de vibora o matará.
17 Não verá as correntes, [5] os rios _e_ os ribeiros de mel e manteiga.
18 Restituirá do seu trabalho, [6] e não _o_ engulirá: conforme ao poder
de sua mudança, _e_ não saltará de gozo.
19 Porquanto opprimiu, desamparou os pobres, e roubou a casa que não
edificou.
20 Porquanto não sentiu socego [7] no seu ventre; da sua tão desejada
fazenda coisa nenhuma reterá.
21 Nada _lhe_ sobejará do que coma; pelo que a sua fazenda não será
duravel.
22 Estando _já_ cheia a sua abastança, estará angustiado: toda a mão dos
miseraveis virá sobre elle.
23 Haja _porém ainda_ de que possa encher o seu ventre; _comtudo Deus_
mandará sobre elle o ardor da sua ira, e a fará chover [8] sobre elle
quando elle fôr a comer.
24 Ainda que fuja [9] das armas de ferro, o arco d’aço o atravessará.
25 Desembainhada _a espada_, sairá do _seu_ corpo, e resplandecendo [10]
virá do seu fel: _e haverá_ sobre elle assombros.
26 Toda a escuridão se occultará nos seus esconderijos: um fogo não
assoprado o consumirá: _e_ com o que ficar na sua tenda irá mal.
27 Os céus manifestarão a sua iniquidade: e a terra se levantará contra
elle.
28 As rendas de sua casa serão transportadas: no dia da sua ira todas se
derramarão.
29 Esta, [11] da parte de Deus, _é_ a porção do homem impio: e, da parte
de Deus, a herança dos seus ditos.
[1] Isa. 14.13, 14. Abd. 3, 4.
[2] cap. 7.8, 10 e 8.18.
[3] ver. 18. cap. 13.26.
[4] cap. 21.26.
[5] Jer. 17.6.
[6] ver. 10, 15.
[7] Ecc. 5.13, 14.
[8] Num. 11.33.
[9] Isa. 24.18. Jer. 48.43. Amós 5.19.
[10] cap. 16.13 e 18.11.
[11] cap. 17.13 e 31.2, 3.
_Job mostra que os impios muitas vezes gozam prosperidade n’esta vida._
21 Respondeu porém Job, e disse:
2 Ouvi attentamente as minhas razões; e isto vos sirva de consolações.
3 Soffrei-me, e eu fallarei: e, havendo eu fallado, [1] zombae.
4 _Porventura_ eu me queixo a _algum_ homem? porém, ainda _que assim
fosse_, porque se não angustiaria o meu espirito?
5 Olhae para mim, e pasmae: e ponde a mão [2] sobre a bocca.
6 Porque, quando me lembro _d’isto_, me perturbo, e a minha carne é
sobresaltada d’horror.
7 Por que razão [3] vivem os impios? envelhecem, e ainda se esforçam em
poder?
8 A sua semente se estabelece com elles perante a sua face; e os seus
renovos perante os seus olhos.
9 As suas casas teem paz, sem temor; e a vara de Deus não _está_ sobre
elles.
10 O seu touro gera, e não falha: pare a sua vacca, [4] e não aborta.
11 Mandam fóra as suas creanças, como _a_ um rebanho, e seus filhos andam
saltando.
12 Levantam _a voz, ao som_ do tamboril e da harpa, e alegram-se ao som
dos orgãos.
13 Na prosperidade gastam [5] os seus dias, e n’um momento descem á
sepultura.
14 E, _todavia_, [6] dizem a Deus: Retira-te de nós; porque não desejamos
ter conhecimento dos teus caminhos.
15 Quem [7] _é_ o Todo-poderoso, para que nós o sirvamos? e que nos
aproveitará que lhe façamos orações?
16 Vêde _porém_ que o seu bem não _está_ na mão d’elles: [8] esteja longe
de mim o conselho dos impios!
17 Quantas [9] vezes succede que se apaga a candeia dos impios, e lhes
sobrevem a sua destruição? [10] _e Deus_ na sua ira _lhes_ reparte dôres!
18 _Porque_ [11] são como a palha diante do vento, e como a pragana, que
arrebata o redemoinho.
19 Deus guarda [12] a sua violencia para seus filhos, _e_ lhe dá o pago,
que o sente.
20 Seus olhos vêem a sua ruina, [13] e elle bebe do furor do
Todo-poderoso.
21 Porque, que prazer teria na sua casa, depois de si, cortando-se-_lhe_
o numero dos seus mezes?
22 Porventura [14] a Deus se ensinaria sciencia, a elle que julga os
excelsos?
23 Este morre na força da sua plenitude, estando todo quieto e socegado.
24 Os seus baldes estão cheios de leite, e os seus ossos estão regados de
tutanos.
25 E outro morre, ao contrario, na amargura do seu coração, não havendo
comido do bem.
26 Juntamente [15] jazem no pó, e os bichos os cobrem.
27 Eis que conheço bem os vossos pensamentos: e os maus intentos _com
que_ injustamente me fazeis violencia.
28 Porque direis: [16] Onde _está_ a casa do principe? e onde a tenda das
moradas dos impios?
29 _Porventura_ o não perguntastes aos que passam pelo caminho? e não
conheceis os seus signaes?
30 Que [17] o mau é preservado para o dia da destruição; e são levados no
dia do furor.
31 Quem accusará diante d’elle [18] o seu caminho? e quem lhe dará o pago
do que faz?
32 Finalmente é levado ás sepulturas, e vigia no montão.
33 Os torrões do valle lhe são doces, e attrahe a si a todo o homem; e
diante de si _ha_ innumeraveis.
34 Como pois me consolaes com vaidade? pois nas vossas respostas ainda
resta a transgressão.
[1] cap. 16.10 e 17.2.
[2] Jui. 18.19. cap. 29.9 e 40.4.
[3] cap. 12.6. Jer. 12.1. Hab. 1.16.
[4] Exo. 23.26.
[5] cap. 36.11.
[6] cap. 22.17.
[7] Exo. 5.2. cap. 34.9. cap. 35.3. Mal. 3.14.
[8] cap. 22.18. Pro. 1.10.
[9] cap. 18.6.
[10] cap. 20.28, 29.
[11] Isa. 17.13 e 29.5. Ose. 13.3.
[12] Exo. 20.5.
[13] Isa. 51.17. Jer. 25.15. Apo. 14.10 e 19.15.
[14] Isa. 40.13 e 45.9. Rom. 11.34. I Cor. 2.16.
[15] cap. 20.11. Ecc. 9.2.
[16] cap. 20.7.
[17] Pro. 16.4. II Ped. 2.9.
[18] Gal. 2.11.
_Eliphaz accusa Job de diversos peccados e o exhorta ao arrependimento._
22 Então respondeu Eliphaz o temanita, e disse:
2 _Porventura_ [1] o homem será d’_algum_ proveito a Deus? antes a si
mesmo o prudente será proveitoso.
3 _Ou_ tem o Todo-poderoso prazer em que tu sejas justo? ou lucro _algum_
que tu faças perfeitos os teus caminhos?
4 _Ou_ te reprehende, pelo temor _que tem_ de ti? ou entra comtigo em
juizo?
5 _Porventura_ não _é_ grande a tua malicia? e sem termo as tuas
iniquidades?
6 Porque penhoraste a teus irmãos sem causa [2] _alguma_, e aos nus
despiste os vestidos.
7 Não déste de beber agua ao cançado, [3] e ao faminto retiveste o pão.
8 Mas para o violento era a terra, e o homem tido em respeito habitava
n’ella.
9 As viuvas despediste vazias, e os braços dos orphãos foram [4]
quebrantados.
10 Por isso é que estás cercado de laços, [5] e te perturbou _um_ pavor
repentino,
11 Ou as trevas que não vês, e a abundancia [6] d’agua que te cobre.
12 _Porventura_ Deus não _está_ na altura dos céus? olha pois para o cume
das estrellas, quão levantadas estão.
13 E dizes que sabe Deus _d’isto_? _porventura_ julgará por entre a
escuridão?
14 As nuvens _são_ escondedura para elle, para que não veja: e passeia
pelo circuito dos céus.
15 _Porventura_ consideraste a vereda do seculo _passado_, que pisaram os
homens iniquos?
16 Os quaes foram arrebatados [7] antes do _seu_ tempo: _sobre_ cujo
fundamento um diluvio se derramou.
17 Diziam [8] a Deus: Retira-te de nós. E que _é o que_ o Todo-poderoso
lhes fez?
18 Sendo elle o que enchera de bens as suas casas: mas o [9] conselho dos
impios esteja longe de mim.
19 Os justos _o_ viram, e se alegraram, e o innocente escarneceu d’elles.
20 Porquanto o nosso estado não foi destruido, mas o fogo consumiu o
resto d’elles.
21 Acostuma-te pois a elle, e [10] tem paz, e assim te sobrevirá o bem.
22 Acceita, peço-te, a lei da sua bocca, e põe as suas palavras no teu
coração.
23 Se te converteres [11] ao Todo-poderoso, serás edificado: affasta a
iniquidade da tua tenda.
24 Então amontoarás [12] oiro como pó, e o _oiro_ d’Ophir como pedras dos
ribeiros.
25 E até o Todo-poderoso te será _por_ oiro, e a tua prata amontoada.
26 Porque então te deleitarás [13] no Todo-poderoso, [14] e levantarás o
teu rosto para Deus.
27 _Devéras_ orarás, a elle, e elle te ouvirá, e pagarás os teus votos.
28 Determinando tu algum negocio, ser-te-ha firme, e a luz brilhará em
teus caminhos.
29 Quando abaterem, então tu dirás: Haja exaltação: e _Deus_ salvará [15]
ao humilde.
30 _E_ livrará _até ao_ que não é innocente; porque fica livre pela
pureza de tuas mãos.
[1] cap. 35.7. Luc. 17.10.
[2] Exo. 22.26, 27. Deu. 24.10, etc. cap. 24.3, 9. Eze. 18.12.
[3] cap. 31.17. Deu. 15.7, etc. Isa. 58.7. Eze. 18.7, 16. Mat. 25.42.
[4] cap. 31.21. Isa. 10.2. Eze. 22.7.
[5] cap. 18.8, 9, 10 e 19.6.
[6] Lam. 3.54.
[7] cap. 15.32.
[8] cap. 21.14. Psa. 4.6.
[9] cap. 21.16.
[10] Isa. 27.5.
[11] cap. 8.5, 6 e 11.13, 14.
[12] II Chr. 1.15.
[13] cap. 27.10. Isa. 58.14.
[14] cap. 11.15. Isa. 58.9.
[15] Pro. 29.23. Thi. 4.6. I Ped. 5.5.
_Job deseja apresentar-se perante Deus e confia na sua misericordia._
23 Respondeu porém Job, e disse:
2 Ainda hoje a minha queixa está em amargura: a violencia da minha praga
mais se aggrava do que o meu gemido.
3 Ah se _eu_ [1] soubesse que o poderia achar! _então me_ chegaria ao seu
tribunal.
4 Com boa ordem exporia ante elle a minha causa, e a minha bocca encheria
d’argumentos.
5 Saberia as palavras com _que elle_ me responderia, e entenderia o que
me dissesse.
6 _Porventura_ segundo a grandeza de _seu_ poder contenderia [2] comigo?
não; elle só _o_ põe em mim.
7 Ali o recto pleitearia com elle, e eu me livraria para sempre do meu
Juiz.
8 Eis que se me [3] adianto, _ali_ não está: se _torno_ para traz, não o
percebo.
9 Se obra a mão esquerda, não o vejo: _se_ se encobre á mão direita, não
_o_ diviso.
10 Porém elle sabe o meu caminho: prove-me, [4] _e_ sairei como o oiro.
11 Nas suas pizadas os meus pés se affirmaram: guardei o seu caminho, e
não me desviei _d’elle_.
12 Do preceito de seus labios nunca me apartei, _e_ as palavras da sua
bocca guardei mais do que a minha porção.
13 Mas, _se_ elle _está_ contra alguem, quem então [5] o desviará? o que
a sua alma quizer isso fará.
14 Porque cumprirá o que está ordenado a meu respeito, e muitas coisas
como estas _ainda_ tem [6] comsigo.
15 Por isso me perturbo perante elle, considero, e temo-me d’elle.
16 Porque Deus macerou o meu coração, e o Todo-poderoso me perturbou.
17 Porquanto não fui desarreigado antes das trevas, e nem encobriu com a
escuridão o meu rosto.
[1] cap. 13.3 e 16.21.
[2] Isa. 57.16.
[3] cap. 9.11.
[4] Thi. 1.12.
[5] cap. 12.14. Rom. 9.19.
[6] I The. 3.3.
_Job contesta que os impios, muitas vezes, ficam sem castigo n’esta vida._
24 Visto que do Todo-poderoso se não encobriram os tempos [1] porque, os
que o conhecem, não vêem os seus dias?
2 Até os limites removem: [2] roubam os rebanhos, e _os_ apascentam.
3 Levam [3] o jumento do orphão: tomam em penhor o boi da viuva.
4 Desviam do caminho aos necessitados; _e_ os miseraveis da terra juntos
se escondem [4] _d’elles_.
5 Eis que, _como_ jumentos montezes no deserto, saem á sua obra,
madrugando para a preza: o campo raso _dá_ mantimento a elles e aos
_seus_ filhos.
6 No campo segam o seu pasto, e vindimam a vinha do impio.
7 Ao nu [5] fazem passar a noite sem roupa, não tendo elle coberta contra
o frio.
8 Das correntes das montanhas são molhados, e, não tendo refugio,
abraçam-se [6] com as rochas.
9 Ao orphãosinho arrancam dos peitos, e penhoram _o que ha_ sobre o pobre.
10 Fazem com que os nus vão sem vestido e famintos _aos que_ carregam com
as espigas.
11 Entre as suas paredes espremem o azeite: pisam os lagares, e _ainda_
teem sêde.
12 Desde as cidades gemem os homens, e a alma dos feridos exclama, e
comtudo Deus _lh’o_ não imputa _como_ loucura.
13 Elles estão entre os que se oppõem á luz: não conhecem os seus
caminhos _d’ella_, e não permanecem nas suas veredas.
14 De madrugada se levanta o homicida, mata o pobre e necessitado, e de
noite é como o ladrão.
15 Assim como o [7] olho do adultero aguarda o crepusculo, dizendo: Não
me verá olho nenhum: e occulta o rosto,
16 Nas trevas minam as casas _que_ de dia se assignalaram: não [8]
conhecem a luz.
17 Porque a manhã para _todos_ elles _é_ como a sombra de morte;
_porque_, sendo conhecidos, sentem os pavores da sombra da morte.
18 É ligeiro sobre a face das aguas; maldita _é_ a sua parte sobre a
terra: não se vira pelo caminho das vinhas.
19 A seccura e o calor desfazem as aguas da neve; _assim desfará_ a
sepultura _aos que_ peccaram.
20 A madre se esquecerá d’elle, os bichos o comerão gostosamente; nunca
mais haverá lembrança [9] _d’elle_: e a iniquidade se quebrará como
arvore.
21 Afflige á esteril _que_ não pare, e á viuva não faz bem:
22 Até aos poderosos arrasta com a sua força: _se_ se levanta, não ha
vida segura.
23 Se _Deus_ lhes dá descanço, estribam-se n’isso: seus [10] olhos porém
_estão_ nos caminhos d’elles.
24 Por um pouco se alçam, e logo desapparecem: são abatidos, encerrados
como todos, e cortados como as cabeças das espigas.
25 Se agora não _é assim_, quem me desmentirá e desfará as minhas razões?
[1] Act. 1.7.
[2] Deu. 19.14 e 27.17. Pro. 22.28 e 23.10. Ose. 5.10.
[3] Deu. 24.6, 10, 12, 17. cap. 22.6.
[4] Pro. 28.28.
[5] Exo. 22.26, 27. Deu. 24.12, 13. cap. 22.6.
[6] Lam. 4.5.
[7] Pro. 7.9.
[8] João 3.20.
[9] Pro. 10.7.
[10] Pro. 15.3.
_Bildad sustenta que o homem não pode, sem presumção, justificar-se
diante de Deus._
25 Então respondeu Bildad o suhita, e disse:
2 Com elle _estão_ dominio e temor; elle faz paz nas suas alturas.
3 _Porventura_ teem numero as suas tropas? e sobre quem não surge a sua
[1] luz?
4 Como pois seria justo [2] o homem para com Deus? e como seria puro
aquelle que nasce da mulher?
5 Olha, até a lua não resplandece, e as estrellas não são puras aos seus
olhos.
6 E quanto menos o homem, _que é_ um verme, e o filho do homem, _que é_
um bicho.
[1] Thi. 1.17.
[2] cap. 4.17, etc. e 15.14, etc.
_Job reprehende Bildad e exalta o poder de Deus._
26 Porém Job respondeu e disse:
2 Como ajudaste aquelle que não tinha força? _e_ sustentaste o braço que
não tinha vigor?
3 Como aconselhaste aquelle que não tinha sabedoria, e plenamente _lhe_
fizeste saber a causa, assim como era?
4 A quem proferiste palavras? e cujo é o espirito que saiu de ti?
5 Os mortos tremem debaixo das aguas, com os seus moradores d’ellas.
6 O inferno _está_ nú [1] perante elle, e não ha coberta para a perdição.
7 O norte estende [2] sobre o vazio: a terra pendura sobre o nada.
8 Prende as [3] aguas nas suas nuvens, todavia a nuvem não se rasga
debaixo d’ellas.
9 Encobre a face do _seu_ throno, e sobre ella estende a sua nuvem.
10 Assignalou limite [4] sobre a superficie das aguas ao redor _d’ellas_,
até que se acabem a luz e as trevas.
11 As columnas do céu tremem, e se espantam da sua ameaça.
12 Com a sua força [5] fende o mar, e com o seu entendimento abate a sua
soberba.
13 Pelo seu Espirito ornou os céus: a sua mão formou a serpente [6]
enroscadiça.
14 Eis que isto _são só_ as bordas dos seus caminhos; e quão pouco é o
que temos ouvido d’elle! Quem pois entenderia o trovão do seu poder?
[1] Pro. 15.11. Heb. 4.13.
[2] cap. 9.8.
[3] Pro. 30.4.
[4] cap. 38.8. Pro. 8.29. Jer. 5.22.
[5] Isa. 51.15. Jer. 31.35.
[6] Isa. 27.1.
_Job sustenta sua integridade e sinceridade._
27 E proseguiu Job em proferir o seu dito, e disse:
2 Vive Deus, [1] que desviou a minha causa, e o Todo-poderoso, que
amargurou a minha alma.
3 Que, emquanto em mim _houver_ alento, e o sopro de Deus nos meus
narizes,
4 Não fallarão os meus labios iniquidade, nem a minha lingua pronunciará
engano.
5 Longe de mim que eu vos justifique: até que [2] eu expire, nunca
apartarei de mim a minha sinceridade.
6 A minha justiça me apegarei [3] e não a largarei: não me remorderá o
meu coração em toda a minha vida.
7 Seja como o impio o meu inimigo, e o que se levantar contra mim como o
perverso.
8 Porque [4] qual _será_ a esperança do hypocrita, havendo sido avaro,
quando Deus _lhe_ arrancar a sua alma?
9 _Porventura_ [5] Deus ouvirá o seu clamor, sobrevindo-lhe a tribulação?
10 _Ou_ deleitar-se-ha no Todo-poderoso? _ou_ invocará a Deus em todo o
tempo?
11 Ensinar-vos-hei [6] ácerca da mão de Deus, _e_ não vos encobrirei o
que _está_ com o Todo-poderoso.
12 Eis que todos vós _já o_ vistes: porque pois vos desvaneceis na
_vossa_ vaidade?
13 Esta _pois é_ a [7] porção do homem impio para com Deus, e a herança,
_que_ os tyrannos receberão do Todo-poderoso.
14 Se [8] os seus filhos se multiplicarem, _será_ para a espada, e os
seus renovos se não fartarão de pão.
15 Os que ficarem d’elle na morte serão enterrados, e as suas viuvas não
chorarão.
16 Se amontoar prata como pó, e apparelhar vestidos como lodo;
17 Elle os apparelhará, porém [9] o justo os vestirá, e o innocente
repartirá a prata.
18 E edificará a sua casa como a traça, e como o guarda _que_ faz a [10]
cabana.
19 Rico se deita, e não será recolhido: seus olhos abre, e elle não será.
20 Pavores se [11] apoderam d’elle como aguas: de noite o arrebatará a
tempestade.
21 O vento oriental o levará, e ir-se-ha, e o tempestuoso o arrebatará do
seu logar.
22 E _Deus_ lançará _isto_ sobre elle, e não _lhe_ poupará; irá fugindo
da sua mão.
23 _Cada um_ baterá contra elle as palmas das mãos, e do seu logar o
assobiará.
[1] cap. 34.5.
[2] cap. 2.9 e 13.15.
[3] Act. 24.16.
[4] Mat. 16.26. Luc. 12.20.
[5] cap. 35.12. Pro. 1.28 e 28.9. Eze. 8.18. Miq. 3.4. João 9.31. Thi.
4.3.
[6] cap. 22.26, 27.
[7] cap. 20.29.
[8] Deu. 28.41. Ose. 9.13.
[9] Pro. 28.8. Ecc. 2.26.
[10] Isa. 1.8. Lam. 2.6.
[11] cap. 18.11.
_O homem tem sciencia das coisas da terra, mas a sabedoria é dom de Deus._
28 Na verdade, ha _veia_ d’onde se tira a prata, e para o oiro logar _em
que_ o derretem.
2 O ferro se toma do pó, e _da_ pedra se funde o metal.
3 Elle poz fim ás trevas, e toda a extremidade elle esquadrinha, a pedra
da escuridão e da sombra da morte.
4 Trasborda o ribeiro junto ao que habita _ali_, de maneira que se não
possa passar a pé: _então_ se esgota do homem, _e as aguas_ se vão.
5 Da terra procede o pão, e debaixo d’ella se converte como _em_ fogo.
6 As suas pedras são o logar da saphira, e tem pósinhos d’oiro.
7 Vereda que ignora a ave de rapina, e que não viu os olhos da gralha.
8 Nunca a pisaram filhos d’animaes altivos, nem o feroz leão passou por
ella.
9 Estendeu a sua mão contra o rochedo, _e_ transtorna os montes desd’as
suas raizes.
10 Dos rochedos faz sair rios, e o seu olho viu tudo o _que ha_ precioso.
11 Os rios tapa, e nem uma gotta sae d’elles, e tira á luz o _que estava_
escondido.
12 Porém d’onde se achará [1] a sabedoria? e onde está o logar da
intelligencia?
13 O homem não sabe [2] a sua valia, e não se acha na terra dos viventes.
14 O abysmo diz: [3] Não está em mim: e o mar diz: _Ella_ não _está_
comigo.
15 Não se [4] dará por ella oiro _fino_, nem se pesará prata em cambio
d’ella.
16 Nem se pode comprar por oiro _fino_ d’Ophir, _nem_ pelo precioso onyx,
nem pela saphira.
17 Com ella se não póde comparar o oiro nem o crystal; nem se dá em troca
d’ella joia d’oiro fino.
18 Não se fará menção de coral nem de perolas; porque o desejo da
sabedoria _é_ melhor que _o dos_ rubins.
19 Não se lhe igualará o topazio de Cus, nem se póde comprar por oiro
puro.
20 D’onde pois [5] vem a sabedoria? e onde _está_ o logar da
intelligencia?
21 Porque está encoberta aos olhos de todo o vivente, e occulta ás aves
do céu.
22 A perdição [6] e a morte dizem: Ouvimos com os nossos ouvidos a sua
fama.
23 Deus entende o seu caminho, e elle sabe o seu logar.
24 Porque elle vê as extremidades da terra; _e_ vê tudo [7] _o que ha_
debaixo dos céus:
25 Dando peso ao vento, e tomando a medida das aguas.
26 Prescrevendo [8] lei para a chuva e caminho para o relampago dos
trovões.
27 Então a viu e relatou, a preparou, e tambem a esquadrinhou.
28 Porém disse ao homem: Eis que o temor [9] do Senhor é a sabedoria, e
apartar-se do mal, a intelligencia.
[1] ver. 20. Ecc. 7.24.
[2] Pro. 3.35.
[3] ver. 22. Rom. 11.32, 34.
[4] Pro. 3.13, 14, 15 e 8.10, 11, 19 e 16.16.
[5] ver. 12.
[6] ver. 14.
[7] Pro. 15.3.
[8] cap. 38.25.
[9] Deu. 4.6. Pro. 1.7 e 9.10. Ecc. 12.13.
_Lamentação de Job lembrando-se do seu primeiro estado._
29 E proseguiu Job em proferir o seu dito, e disse:
2 Ah! quem me dera ser como eu fui nos mezes [1] passados! como nos dias
_em que_ Deus me guardava!
3 Quando [2] fazia resplandecer a sua candeia sobre a minha cabeça _e
quando_ eu pela sua luz caminhava _pelas_ trevas:
4 Como era nos dias da minha mocidade, quando [NC] o segredo de Deus
estava sobre a minha tenda:
5 Quando o Todo-poderoso ainda _estava_ comigo, _e_ os meus meninos em
redor de mim.
6 Quando [3] lavava os meus passos na manteiga, e da rocha me corriam
ribeiros de azeite:
7 Quando sahia a porta pela cidade, _e_ na praça fazia preparar a minha
cadeira:
8 Os moços me viam, e se escondiam, e _até_ os edosos se levantavam _e_
se punham em pé:
9 Os principes continham as _suas_ palavras, e punham a [4] mão sobre a
sua bocca:
10 A voz dos chefes se escondia: e a sua lingua se pegava ao seu paladar:
11 Ouvindo-_me_ algum ouvido, me tinha por bemaventurado: vendo-_me_
algum olho, dava testemunho de mim;
12 Porque eu [5] livrava o miseravel, que clamava: como tambem o orfão
que não tinha quem o soccoresse.
13 A benção do que ia perecendo vinha sobre mim, e eu fazia que jubilasse
o coração da viuva.
14 Vestia-me da [6] justiça: e ella me servia de vestido: como manto e
diadema _era_ o meu juizo.
15 Eu fui o olho do cego, como tambem os pés do coxo:
16 Aos necessitados era pae, e as causas [7] de que eu não tinha
conhecimento inquiria com diligencia;
17 E quebrava os queixaes do perverso, e dos seus dentes tirava a preza.
18 E dizia: No meu ninho expirarei, e multiplicarei os meus dias como a
areia.
19 A minha [8] raiz se estendia junto ás aguas, e o orvalho fazia assento
sobre os meus ramos;
20 A minha honra se renovava em mim, [9] e o meu arco se reforçava na
minha mão.
21 Ouvindo-me esperavam, e em silencio attendiam ao meu conselho.
22 Acabada a minha palavra, não replicavam, e minhas razões distillavam
sobre elles;
23 Porque me esperavam, como a chuva; e abriam a sua bocca, como a chuva
[10] tardia.
24 _Se_ me ria para elles, não o criam, e não faziam abater a luz do meu
rosto;
25 Eu escolhia o seu caminho, assentava-me como chefe, e habitava como
rei entre as tropas: como aquelle que consola os que pranteiam.
[1] cap. 7.3.
[2] cap. 18.6.
[3] Gen. 49.11. Deu. 32.13 e 33.24. cap. 20.17.
[4] cap. 21.5.
[5] Pro. 21.13 e 34.11.
[6] Isa. 59.17 e 61.10. Eph. 6.14, etc. Num. 10.31.
[7] Pro. 29.7.
[8] cap. 18.16. Jer. 17.8.
[9] Gen. 49.24.
[10] Zac. 10.1.
_Job descreve o estado miseravel em que caiu._
30 Porém agora se riem de mim os de menos edade do que eu, cujos paes eu
teria desdenhado de pôr com os cães do meu rebanho.
2 De que tambem me serviria a força das suas mãos? já _de_ velhice se
tinham esgotado n’elles.
3 De mingua e fome _andavam_ sós, _e_ recolhiam-se para os logares
seccos, tenebrosos, assolados e desertos.
4 Apanhavam malvas junto aos arbustos, e o seu mantimento _eram_ as
raizes dos zimbros.
5 Do meio _dos homens_ foram expulsos, _e_ gritavam contra elles, como
_contra_ o ladrão:
6 Para habitarem nos barrancos dos valles, _e_ nas cavernas da terra e
das rochas.
7 Bramavam entre os arbustos, _e_ ajuntavam-se debaixo das ortigas.
8 _Eram_ filhos de doidos, e filhos de gente sem nome, e da terra foram
expulsos.
9 Porém [1] agora sou a sua canção, e lhes sirvo de rifão.
10 Abominam-me, _e_ fogem para longe de mim, [2] e do meu rosto não
reteem o seu escarro.
11 Porque _Deus_ [3] desatou o meu cordão, e me opprimiu, pelo que
sacudiram _de si_ o freio perante o meu rosto.
12 Á direita se levantam os moços; empurram os meus pés, e preparam
contra [4] mim os seus caminhos de destruição.
13 Desbarataram-me o meu caminho: promovem a minha miseria: não _teem_
ajudador.
14 Veem _contra mim_ como por uma grande brecha, _e_ revolvem-se entre a
assolação.
15 Sobrevieram-me pavores; como vento perseguem a minha [ND] honra, e
como nuvem passou a minha felicidade.
16 E agora derrama-se em mim a minha alma: os dias da afflicção se
apoderaram de mim.
17 De noite se me traspassam os meus ossos, e os pulsos das minhas veias
não descançam.
18 Pela grandeza da força _das dôres_ se demudou o meu vestido, _e_ elle
como o cabeção da minha tunica me cinge.
19 Lançou-me na lama, e fiquei similhante ao pó e á cinza.
20 Clamo a ti, porém tu não me respondes: estou em pé, porém para mim
_não_ attentas.
21 Tornaste-te a ser cruel contra mim: com a força da tua mão resistes
violentamente.
22 Levantas-me sobre o vento, fazes-me cavalgar _sobre elle_, e
derretes-me o ser.
23 Porque eu sei _que_ me levarás á morte e á casa do ajuntamento
determinado [5] a todos os viventes.
24 Porém não estenderá a mão para o montão de terra, se houve clamor
n’elles _contra mim_ na sua desventura.
25 _Porventura_, não chorei sobre aquelle que estava afflicto? _ou_ não
se angustiou a minha alma pelo necessitado?
26 _Todavia_ aguardando [6] eu o bem, então _me_ veiu o mal, _e_
esperando eu a luz, veiu a escuridão.
27 As minhas entranhas ferveram e não estão quietas: os dias da afflicção
me surprehenderam.
28 Denegrido ando, porém não do sol, _e_, levantando-me na congregação,
clamo por soccorro.
29 Irmão [7] me fiz dos [NE] dragões, e companheiro dos abestruzes.
30 Ennegreceu-se a minha pelle [8] sobre mim, e os meus ossos estão
queimados do calor.
31 Pelo que se trocou a minha harmonia em lamentação, e o meu orgão em
voz dos que choram.
[1] cap. 17.6. Lam. 3.14, 63.
[2] Pro. 3.15.
[3] ver. 22. Rom. 11.33, 34.
[4] Pro. 3.13, 14, 15 e 8.10, 11, 19 e 16.1.
[5] Heb. 9.27.
[6] Jer. 8.15.
[7] Miq. 1.8.
[8] Lam. 4.8 e 5.10.
_Job declara sua integridade nos seus deveres._
31 Fiz concerto com os meus olhos: [1] como pois attentaria n’uma virgem?
2 Porque qual _seria_ a parte [2] de Deus de cima? ou a herança do
Todo-poderoso _para mim_ desde as alturas?
3 _Porventura_ não é a perdição para o perverso, o desastre para os que
obram iniquidade?
4 Ou não vê [3] elle os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?
5 Se andei com vaidade, e _se_ o meu pé se apressou para o engano
6 (Pese-me em balanças fieis, e saberá Deus a minha sinceridade),
7 Se os meus passos se desviavam do caminho, e se o meu coração [4] segue
os meus olhos, e se ás minhas mãos se apegou coisa alguma,
8 Então semeie eu [5] e outro coma, e seja a minha descendencia arrancada
até á raiz.
9 Se o meu coração se deixou seduzir por uma mulher, ou se eu armei
traições á porta do meu proximo,
10 Então môa minha mulher para [6] outro, e outros se encurvem sobre
ella.
11 Porque é uma infamia, [7] e _é_ delicto _pertencente_ aos juizes.
12 Porque fogo é que consomem até á perdição, e desarreigaria toda a
minha renda.
13 Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando elles
contendiam comigo,
14 Então que faria eu quando Deus se levantasse? e, inquirindo _a causa_,
que lhe responderia?
15 Aquelle [8] que me fez no ventre não o fez _tambem_ a elle? ou não nos
formou do mesmo _modo_ na madre?
16 Se retive o que os pobres desejavam, ou fiz desfallecer os olhos da
viuva,
17 Ou só comi o meu bocado, e o orphão não comeu d’elle.
18 (Porque desde a minha mocidade cresceu comigo como _com seu_ pae, e o
guiei desde o ventre de minha mãe),
19 Se a alguem vi perecer por falta de vestido, e ao necessitado por não
ter coberta,
20 Se os seus lombos me não [9] abençoaram, se elle não se aquentava com
as pelles dos meus cordeiros,
21 Se eu levantei a minha mão contra [10] o orphão, porquanto na porta
via a minha ajuda,
22 Então caia do hombro a minha espadoa, e quebre-se o meu braço do osso.
23 Porque o castigo de Deus _era_ para mim um [11] assombro, e eu não
podia supportar a sua alteza.
24 Se [12] no oiro puz a minha esperança, ou disse ao oiro fino: _Tu és_
a minha confiança;
25 Se [13] me alegrei de que era muita a minha fazenda, e de que a minha
mão tinha alcançado muito;
26 Se olhei [14] para o sol, quando resplandecia, ou para a lua,
caminhando gloriosa,
27 E o meu coração se deixou enganar em occulto, e a minha bocca beijou a
minha mão,
28 Tambem isto _seria_ [15] delicto _pertencente_ ao juiz: pois _assim_
negaria a Deus _que está_ em cima.
29 Se me alegrei [16] da desgraça do que me tem odio, e se eu exultei
quando mal o achou.
30 (Tambem não deixei [17] peccar o meu paladar, desejando a sua morte
com maldição),
31 Se a gente da minha tenda não disse: Ah, quem nos désse da sua carne!
nunca nos fartariamos _d’ella_:
32 O estrangeiro [18] não passava a noite na rua; as minhas portas abria
ao viandante.
33 Se, como Adão, encobri as minhas [19] transgressões, occultando o meu
delicto no meu seio;
34 Porque eu temia [20] a grande multidão, e o desprezo das familias me
apavoraria, e eu me calaria, e não sairia da porta.
35 Ah quem me dera um que me ouvisse! eis que o meu intento _é que_ o
Todo-poderoso [21] me responda, e que o meu adversario escreva um livro.
36 Por certo que o levaria sobre o meu hombro, sobre mim o ataria _por_
corôa.
37 O numero dos meus passos lhe mostraria: como [22] principe me chegaria
a elle.
38 Se a minha terra clamar contra mim, e se os seus regos juntamente
chorarem,
39 Se comi a sua novidade sem dinheiro, e suffoquei a alma dos seus donos,
40 Por trigo _me_ produza cardos, [23] e por cevada joio. Acabaram-se as
palavras de Job.
[1] Mat. 5.28.
[2] cap. 20.29 e 27.13.
[3] II Chr. 16.9. cap. 34.21. Pro. 5.21 e 15.3. Jer. 32.19.
[4] Num. 15.39. Ecc. 11.9. Eze. 6.9. Mat. 5.29.
[5] Lev. 26.16. Deu. 28.30, 38, etc.
[6] II Sam. 12.11. Jer. 8.10.
[7] Gen. 38.24. Lev. 20.10. Deu. 22.22. ver. 28.
[8] cap. 34.19. Pro. 14.31 e 22.2. Mal. 3.10.
[9] Deu. 24.13.
[10] cap. 22.9.
[11] Isa. 13.7. Joel 1.15.
[12] Mar. 10.24. I Tim. 6.17.
[13] Pro. 11.28.
[14] Deu. 4.19 e 11.16 e 17.3. Eze. 8.16.
[15] ver. 11.
[16] Pro. 17.5.
[17] Mat. 5.44. Rom. 12.14.
[18] Gen. 19.2, 3.
[19] Gen. 3.8, 12. Pro. 28.13.
[20] Exo. 23.2.
[21] cap. 13.22.
[22] Thi. 5.4. I Reis 21.19.
[23] Gen. 3.18.
_Elihu reprehende Job e os seus tres amigos._
32 Então aquelles tres homens cessaram de responder a Job; porque era [1]
justo aos seus _proprios_ olhos.
2 E accendeu-se a ira d’Elihu, filho de Baracheel [2] o buzita, da
familia de Ram: contra Job se accendeu a sua ira, porque se justificava a
si mesmo, mais do que a Deus.
3 Tambem a sua ira se accendeu contra os seus tres amigos: porque, não
achando que responder, todavia condemnavam a Job.
4 Elihu porém esperou que Job fallasse; porquanto tinham mais edade do
que elle.
5 Vendo pois Elihu que _já_ não havia resposta na bocca d’aquelles tres
homens, a sua ira se accendeu.
6 E respondeu Elihu, filho de Baracheel o buzita, e disse: Eu _sou_ de
menos [3] edade, e vós _sois_ edosos; receei-me e temi de vos declarar a
minha opinião.
7 Dizia eu: Fallem os dias, e a multidão doa annos ensine a sabedoria.
8 Na verdade, ha um espirito no homem, [4] e a inspiração do
Todo-poderoso os faz entendidos.
9 Os grandes não são [5] os sabios, nem os velhos entendem juizo.
10 Pelo que digo: Dae-me ouvidos, e tambem eu declararei a minha opinião.
11 Eis que aguardei as vossas palavras, _e_ dei ouvidos ás vossas
considerações, até que buscasseis razões.
12 Attentando pois para vós, eis que nenhum de vós ha que possa convencer
a Job, _nem_ que responda ás suas razões:
13 Para que não digaes: [6] Achamos a sabedoria; Deus o derribou, _e_ não
homem algum.
14 Ora elle não dirigiu contra mim palavra alguma, nem lhe responderei
com as vossas palavras.
15 Estão pasmados, não respondem mais, faltam-lhes as palavras.
16 Esperei pois, porém não fallam: porque já pararam, _e_ não respondem
mais.
17 Tambem eu responderei pela minha parte: tambem eu declararei a minha
opinião.
18 Porque estou cheio de palavras, _e_ aperta-me o espirito do meu ventre.
19 Eis que o meu ventre _é_ como o mosto, sem respiradouro, _e_ virá a
arrebentar, como odres novos.
20 Fallarei, e respirarei: abrirei os meus labios, e responderei.
21 Oxalá eu não faça accepção [7] de pessoas, nem use de sobrenomes com o
homem!
22 Porque não sei usar de sobrenomes: em breve me levaria o meu Creador.
[1] cap. 33.9.
[2] Gen. 22.21.
[3] II Chr. 16.9. cap. 34.21. Pro. 5.21 e 15.3. Jer. 32.19.
[4] Mat. 11.25. Thi. 1.5.
[5] I Cor. 1.26.
[6] Jer. 9.23. I Cor. 1.29.
[7] Lev. 19.15. Deu. 1.17 e 16.19. Pro. 24.23. Mat. 22.16.
_Elihu accusa Job de se oppôra Deus e de entender mal os seus caminhos._
33 Assim, na verdade, ó Job, ouve as minhas razões, e dá ouvidos a todas
as minhas palavras.
2 Eis que já abri a minha bocca: _já_ fallou a minha lingua debaixo do
meu paladar.
3 As minhas razões _sairão_ da sinceridade do meu coração, e a pura
sciencia dos meus labios.
4 O Espirito [1] de Deus me fez: e a inspiração do Todo-poderoso me deu
vida.
5 Se podes responde-me, põe por ordem diante de mim _a tua causa_, e
levanta-te.
6 Eis que _sou_ de Deus, como tu: do lodo tambem eu fui cortado.
7 Eis que não te perturbará o meu terror, nem será pesada sobre ti a
minha mão.
8 Na verdade que disseste aos meus ouvidos; e eu ouvi a voz das palavras,
_dizendo_:
9 Limpo [2] estou, sem transgressão: puro _sou_; e não tenho culpa.
10 Eis que acha contra mim achaques, e me considerou [3] como seu inimigo.
11 Põe [4] no tronco os meus pés, _e_ observa todas as minhas veredas.
12 Eis que n’isto te respondo: Não foste justo; porque maior é Deus do
que o homem.
13 Por que razão [5] contendeste com elle? porque não responde ácerca de
todos os seus feitos.
14 Antes Deus [6] falla uma e duas vezes; porém ninguem attenta para isso.
15 Em sonho [7] _ou em_ visão de noite, quando cae somno profundo sobre
os homens, _e_ adormecem na cama,
16 Então o revela ao ouvido dos homens, e lhes sella a sua instrucção.
17 Para apartar o homem d’aquillo que faz, e esconder do homem a soberba.
18 Para desviar a sua alma da cova, e a sua vida de passar pela espada.
19 Tambem na sua cama é com dôres castigado; como tambem a multidão de
seus ossos com fortes _dôres_.
20 De modo que a sua vida abomina _até_ o pão, e a sua alma a comida
appetecivel.
21 Desapparece a sua carne á vista _d’olhos_, e os seus ossos, _que_ se
não viam, _agora_ apparecem:
22 E a sua alma se vae chegando á cova, e a sua vida ao que traz morte.
23 Se com elle pois houver um [NF] mensageiro, um interprete, um entre
milhares, para declarar ao homem a sua rectidão,
24 Então terá misericordia d’elle, e _lhe_ dirá: Livra-o, que não desça á
cova; _já_ achei resgate.
25 Sua carne se reverdecerá mais do que _era_ na mocidade, _e_ tornará
aos dias da sua juventude.
26 Devéras orará a Deus, o qual se agradará d’elle, e verá a sua face com
jubilo, e restituirá ao homem a sua justiça.
27 Olhará para os homens, e dirá: Pequei, [8] e perverti o direito, o que
de nada me aproveitou.
28 _Porém Deus_ livrou [9] a minha alma de que não passasse a cova; assim
que a minha vida vê a luz.
29 Eis que tudo isto obra Deus, duas _e_ tres vezes para com o homem;
30 Para desviar [10] a sua alma da perdição, e o alumiar com a luz dos
viventes.
31 Escuta _pois_, ó Job, ouve-me: cala-te, e eu fallarei.
32 Se tens alguma coisa que dizer, responde-me: falla, porque desejo
justificar-te.
33 Se não, escuta-me tu: cala-te, e ensinar-te-hei a sabedoria.
[1] Gen. 2.7.
[2] cap. 9.17.
[3] cap. 13.24 e 16.9 e 19.11.
[4] cap. 13.27 e 14.16 e 31.4.
[5] Isa. 45.9.
[6] cap. 38.35.
[7] Num. 12.6. cap. 4.13.
[8] II Sam. 12.13. Pro. 28.13. Luc. 15.21. I João 1.9.
[9] Isa. 38.17.
[10] ver. 28. Psa. 56.13.
_Elihu accusa Job de fallar injustamente de Deus._
34 Respondeu mais Elihu, e disse:
2 Ouvi, vós, sabios, as minhas razões: e vós, entendidos, inclinae, os
ouvidos para mim.
3 Porque [1] o ouvido prova as palavras, como o paladar gosta a comida.
4 O que é direito escolhamos para nós: _e_ conheçamos entre nós o que _é_
bom.
5 Porque Job disse: [2] Sou justo; e Deus [3] tirou o meu direito.
6 No meu direito me é forçoso mentir: [4] dolorosa _é_ a minha frecháda
sem transgressão.
7 Que homem _ha_ como Job, que bebe a zombaria como agua?
8 E caminha em companhia com os que obram a iniquidade, e anda com homens
impios?
9 Porque disse: [5] De nada aproveita ao homem o comprazer-se em Deus.
10 Pelo que vós, homens d’entendimento, escutae-me: Deus esteja [6] longe
da impiedade, e o Todo-poderoso da perversidade!
11 Porque, _segundo_ [7] a obra do homem, elle lh’o paga; e segundo o
caminho de cada um lh’o faz achar.
12 Tambem, na verdade, Deus não obra impiamente; nem o Todo-poderoso
perverte o juizo.
13 Quem lhe pedia conta _do governo_ da terra? e quem dispoz a todo o
mundo?
14 Se pozesse o seu coração contra elle, recolheria para si o seu
espirito e o seu folego.
15 Toda [8] a carne juntamente expiraria, e o homem se voltaria para o pó.
16 Se pois _ha em ti_ entendimento, ouve isto; inclina os ouvidos á voz
do meu discurso.
17 _Porventura_ o que aborrece o direito ataria _as feridas_? [9] e tu
condemnarias aquelle que é justo?
18 Ou dir-se-ha a um rei, [10] Oh! Belial? aos principes, Oh! impios?
19 _Quanto menos áquelle_, que não faz accepção das pessoas de [11]
principes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque [12] todos são
obras de suas mãos.
20 Elles n’um momento morrem; e _até_ á meia [13] noite os povos são
perturbados, e passam, e o poderoso será tomado sem mão.
21 Porque [14] os seus olhos _estão_ sobre os caminhos de cada um, e elle
vê todos os seus passos.
22 Não _ha_ trevas [15] nem sombra de morte, onde se escondam os que
obram a iniquidade.
23 Porque não se faz tanto caso do homem que contra Deus possa entrar em
juizo.
24 Quebranta [16] aos fortes, sem que se possa inquirir, e põe outros em
seu logar.
25 Elle conhece pois as suas obras, de noite os transtorna, e ficam
moidos.
26 Elle os bate como impios _que_ são, no logar dos expectadores:
27 Porquanto se [17] desviaram d’atraz d’elle, e não comprehenderam
nenhum de seus caminhos.
28 Para fazer que o clamor do pobre subisse até elle, e que ouvisse o
clamor dos afflictos.
29 Se elle aquietar, quem então inquietará? se encobrir o rosto, quem
então o poderá contemplar, seja para com um povo, seja para com um homem
_só_?
30 Para que o homem hypocrita nunca _mais_ reine, e não haja laços [18]
do povo.
31 Na verdade, quem a Deus disse: [19] Supportei _castigo_, não
perecerei.
32 O que não vejo, ensina-m’o tu: se fiz _alguma_ maldade, nunca mais _a_
hei de fazer.
33 _Virá_ de ti como o recompensará, pois tu o desprezas? farias tu pois,
e não eu, a escolha: que é logo o que sabes? falla.
34 Os homens de entendimento dirão comigo, e o varão sabio me ouvirá.
35 Job [20] fallou sem sciencia; e ás suas palavras falta prudencia.
36 Pae meu! provado seja Job até ao fim, para as suas respostas entre os
homens malignos.
37 Porque ao seu peccado accrescenta a transgressão; entre nós bateria as
palmas _das mãos_, e multiplicaria contra Deus as suas razões.
[1] cap. 6.30 e 12.11.
[2] cap. 33.9.
[3] cap. 27.2.
[4] cap. 9.17.
[5] cap. 9.23 e 23.30 e 35.3. Mal. 3.14.
[6] Gen. 18.25. Deu. 32.4. Rom. 9.14.
[7] Pro. 24.12. Jer. 32.19. Eze. 33.20. Mat. 16.27. Rom. 2.6. II Cor.
5.10. I Ped. 1.17. Apo. 22.12.
[8] Gen. 3.19. Ecc. 12.7.
[9] Gen. 18.25.
[10] Exo. 22.28.
[11] Deu. 10.17. II Chr. 19.7. Act. 10.34. Rom. 2.11. Col. 3.25. I Ped.
1.17.
[12] cap. 31.15.
[13] Exo. 12.29, 30.
[14] II Chr. 16.9. cap. 31.4. Jer. 16.17 e 32.19.
[15] Psa. 140.12. Amós 9.2, 3. Heb. 4.18.
[16] Dan. 2.21.
[17] I Sam. 15.11. Isa. 5.12.
[18] I Reis 12.28, 30. II Reis 21.9.
[19] Dan. 9.7, 14.
[20] cap. 35.16.
_O bem e o mal não podem affectar a Deus, mas algumas vezes, por falta de
fé dos afflictos não os ouve._
35 Respondeu mais Elihu e disse:
2 Tens por direito dizeres: Maior _é_ a minha justiça do que _a_ de Deus?
3 Porque disseste: [1] De que te serviria _elle_? _ou_ de que mais me
aproveitarei do que do meu peccado?
4 Eu te farei resposta, a ti e aos teus amigos comtigo.
5 Attenta [2] para os céus, e vê; e contempla as mais altas nuvens, _que
são_ mais altas do que tu.
6 Se peccares, que effectuarás [3] contra elle? _se_ as tuas
transgressões se multiplicarem, que lhe farás.
7 Se fôres justo, que lhe darás? [4] ou que receberá da tua mão?
8 A tua impiedade _damnaria_ outro tal como tu; e a tua justiça
_aproveitaria_ ao filho do homem.
9 Por causa da grandeza _da oppressão_ fazem clamar [5] aos opprimidos:
exclamam por causa do braço dos grandes.
10 Porém ninguem diz: [6] Onde _está_ Deus que me fez, que dá psalmos na
noite.
11 Que nos faz mais doutos do que os animaes da terra, e nos faz mais
sabios do que as aves dos céus.
12 Ali clamam, [7] porém elle não responde, por causa da arrogancia dos
maus.
13 Certo é que Deus não ouvirá a vaidade, nem attentará para ella o
Todo-poderoso.
14 E [8] quanto ao que disseste, _que_ o não verás: juizo _ha_ perante
elle; por isso espera n’elle.
15 Mas agora, ainda que a ninguem a sua ira visitasse, nem advertisse
muito na multidão _dos peccadores_:
16 Logo Job em vão abriu a sua bocca, e sem sciencia multiplicou palavras.
[1] cap. 34.9.
[2] cap. 22.12.
[3] Pro. 8.36. Jer. 7.19.
[4] cap. 22.2, 3. Pro. 9.12. Rom. 11.35.
[5] Exo. 2.23. cap. 34.28.
[6] Isa. 51.13.
[7] Pro. 1.28. Jer. 11.11.
[8] cap. 9.11.
_Elihu justifica a Deus e diz a Job que o seu peccado estorva a benção
d’Aquelle._
36 Proseguiu ainda Elihu, e disse:
2 Espera-me um pouco, e mostrar-te-hei que ainda _ha_ razões a favor de
Deus.
3 Desde longe repetirei a minha opinião; e ao meu Creador attribuirei a
justiça.
4 Porque na verdade, as minhas palavras não _serão_ falsas: comtigo está
um que é sincero na _sua_ opinião.
5 Eis que Deus _é mui_ grande, comtudo [1] a ninguem despreza: grande _é_
em força de coração.
6 Não deixa viver ao impio, e faz justiça aos afflictos.
7 Do justo não tira os seus olhos; antes _estão_ com os reis no throno;
ali os assenta para sempre, e _assim_ são exaltados.
8 E, se _estando_ presos em grilhões, _os detem_ amarrados com cordas de
afflicção,
9 Então lhes faz saber a obra d’elles, e as suas transgressões; porquanto
prevaleceram _n’ellas_.
10 E revela-lh’o aos [2] seus ouvidos, para _seu_ ensino; e diz-_lhes_
que se convertam da maldade.
11 Se o ouvirem, e o servirem, acabarão seus dias [3] em bem, e os seus
annos em delicias.
12 Porém se o não ouvirem, á espada os passarão, e expirarão sem
conhecimento.
13 E os hypocritas de coração amontoam _para_ [4] _si_ a ira; e
amarrando-os elle, não clamam por soccorro.
14 A sua alma morre [5] na mocidade, e a sua vida entre os sodomitas.
15 Ao afflicto livra, da sua afflicção, e na oppressão o revelará aos
seus ouvidos.
16 Assim tambem te desviará da bocca da angustia _para_ um logar
espaçoso, em que não haja aperto, e as iguarias da tua mesa _serão_
cheias de gordura.
17 E estarás satisfeito com o juizo do impio: o juizo e a justiça _te_
sustentarão.
18 Porquanto ha furor, _guarda-te_ de que _porventura_ te não tire de
pancada, pois por grande preço te não poderiam retirar _d’ali_.
19 Estimaria [6] elle _tanto_ tuas riquezas, ou alguns esforços da força,
_que por isso_ não estivesses em aperto?
20 Não suspires pela noite, _em_ que os povos sejam tomados do seu logar.
21 Guarda-te, e não declines para a iniquidade: [7] porquanto n’isto a
escolheste, por causa da tua miseria.
22 Eis que Deus exalta com a sua força; [8] quem ensina como elle?
23 Quem [9] lhe pedirá conta do seu caminho? ou, quem _lhe_ disse: Tu
commetteste maldade?
24 Lembra-te de que engrandeças a sua obra [10] que os homens contemplam.
25 Todos os homens a veem, e o homem _a_ enxerga de longe.
26 Eis que [11] Deus é grande, e nós o não comprehendemos, e o numero dos
seus annos se não pode esquadrinhar.
27 Porque faz miudas as gottas das aguas que derramam a chuva do seu
vapor.
28 A qual as nuvens distillam [12] e gotejam sobre o homem abundantemente.
29 _Porventura_ tambem se poderão entender as extensões das nuvens, e os
estalos [13] da sua tenda?
30 Eis que estende sobre ellas a sua luz, e encobre os altos do mar.
31 Porque por [14] estas _coisas_ julga os povos _e lhes_ dá mantimento
em abundancia.
32 Com as mãos encobre a luz, e faz-lhe prohibição pela que passa por
entre ellas.
33 O que dá a entender o seu pensamento, como tambem aos gados, [15]
ácerca do _temporal_ que sobe.
[1] cap. 9.4 e 12.13, 16 e 37.23.
[2] cap. 33.16, 23.
[3] cap. 21.13.
[4] Rom. 2.5.
[5] cap. 15.33 e 22.16.
[6] Pro. 11.4.
[7] Heb. 11.25.
[8] Isa. 40.13, 14. Rom. 11.34.
[9] cap. 34.10.
[10] Apo. 15.3.
[11] I Cor. 13.12. Heb. 1.12.
[12] Pro. 3.20.
[13] cap. 37.3.
[14] cap. 27.13. Act. 14.17.
[15] I Reis 18.45.
_O homem, por conhecer as obras de Deus e a sua sabedoria, deve temel-o._
37 Sobre isto tambem treme o meu coração, e salta do seu logar.
2 Attentamente ouvi o movimento da sua voz, e o sonido _que_ sae da sua
bocca.
3 Elle o envia por debaixo de todos os céus, e a sua luz até aos confins
da terra.
4 Depois d’isto brama com _grande_ voz, troveja com a sua alta voz; e,
ouvida a sua voz, não tarda com estas coisas.
5 Com a sua voz troveja Deus maravilhosamente: faz grandes [1] coisas, e
nós as não comprehendemos.
6 Porque á neve diz: Está sobre a terra: como tambem ao aguaceiro e á sua
forte chuva.
7 _Elle_ sella as mãos de todo o homem, para que conheça todos os homens
de sua obra.
8 E as bestas entram nos seus esconderijos e ficam nas suas cavernas.
9 Da recamara sae o pé de vento, e dos _ventos_ dispersivos o frio.
10 Pelo [2] assopro de Deus se dá a geada, e as largas aguas se endurecem.
11 Tambem _com_ a humidade carrega as grossas nuvens, _e_ esparge a nuvem
[NG] da sua luz.
12 Então ellas, segundo o seu prudente conselho, se tornam pelas
espheras, para que façam tudo quanto lhes ordena sobre a superficie do
mundo habitavel,
13 Seja que por vara, ou para a sua terra, [3] ou por beneficencia [4] as
faça vir.
14 A isto, ó Job, inclina os teus ouvidos: põe-te em pé, e considera as
maravilhas de Deus.
15 _Porventura_ sabes tu quando Deus considera n’ellas, e faz
resplandecer a lua da sua nuvem?
16 Tens [5] tu noticia do equilibrio das grossas nuvens e das maravilhas
de aquelle que é perfeito nos conhecimentos,
17 _Ou_ de como os teus vestidos aquecem, quando do sul ha calma sobre a
terra?
18 _Ou_ estendeste com [6] elle os céus, que _estão_ firmes como espelho
fundido?
19 Ensina-nos o que lhe diremos; _porque_ nós nada poderemos pôr em boa
ordem, por causa das trevas.
20 Ou ser-lhe-hia contado, quando _eu assim_ fallasse? dir-lhe-ha alguem
_isso_? pois será devorado.
21 E agora _se_ não _pode_ olhar para o sol, quando resplandece nos céus;
passando e purificando-os o vento.
22 O esplendor de oiro vem do norte: _pois_ em Deus _ha uma_ tremenda
magestade.
23 Ao Todo-poderoso não [7] podemos alcançar; grande _é_ em potencia;
porém a ninguem opprime em juizo e grandeza de justiça.
24 Por isso o temem os [8] homens: elle não respeita aos sabios de
coração.
[1] cap. 5.9 e 9.10 e 36.26. Apo. 15.3.
[2] cap. 38.29, 30.
[3] Exo. 9.18, 23. I Sam. 12.18, 19. Esd. 10.9. cap. 36.31.
[4] cap. 38.26, 27. II Sam. 21.10. I Reis 18.45.
[5] cap. 36.4, 29.
[6] Gen. 1.6. Isa. 44.24.
[7] Thi. 5.10. cap. 34.5.
[8] Mat. 10.28 e 11.25. I Cor. 1.26.
_Deus responde a Job e mostra-lhe sua grandeza e sabedoria._
38 Depois d’isto o Senhor respondeu a Job [1] d’um redemoinho, e disse:
2 Quem _é_ este [2] que escurece o conselho com palavras sem conhecimento?
3 Agora cinge [3] os teus lombos, como homem; e perguntar-te-hei, e tu me
ensina.
4 Onde [4] estavas _tu_, quando eu fundava a terra? faze-_m’o_ saber, se
tens intelligencia.
5 Quem lhe poz as medidas? se tu o sabes; ou quem estendeu sobre ella o
cordel?
6 Sobre que estão fundadas as suas bases? ou quem assentou a sua pedra da
esquina,
7 Quando as estrellas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os
filhos [5] de Deus jubilavam?
8 Ou _quem_ [6] encerrou o mar com portas, quando trasbordou _e_ saiu da
madre;
9 Quando eu puz as nuvens por sua vestidura, e a escuridão por
envolvedouro?
10 Quando passei [7] sobre elle o meu decreto, e _lhe_ puz portas e
ferrolhos;
11 E disse: Até aqui virás, e não mais adiante, e aqui se quebrarão as
tuas ondas empolladas?
12 _Ou_ desde os teus dias déste ordem á madrugada? _ou_ mostraste á alva
o seu logar;
13 Para que pegasse dos fins da terra, [8] e os impios fossem sacudidos
d’ella;
14 _E_ se transformasse como o barro, sob o sello, e se pozessem como
vestidos;
15 E dos impios se desvie a sua luz, e [9] o braço altivo se quebrante;
16 _Ou_ entraste tu até ás origens do mar? ou passeaste no mais profundo
do abysmo?
17 _Ou_ descobriram-se-te as portas da morte? ou viste as portas da
sombra da morte?
18 _Ou_ com o teu entendimento chegaste ás larguras da terra? faze-_m’o_
saber, se sabes tudo isto.
19 Onde está o caminho _para onde_ mora a luz? e, quanto ás trevas, onde
está o seu logar;
20 Para que as tragas aos seus limites, e para que saibas as veredas da
sua casa?
21 _Acaso_ tu o sabes, porque já então eras nascido, e por ser grande _o_
numero dos teus dias?
22 Ou entraste tu até aos thesouros da neve? e viste os thesouros da
saraiva,
23 Que eu retenho [10] até do tempo da angustia, até ao dia da peleja e
da guerra?
24 Onde está o caminho _em que_ se reparte a luz, _e_ se espalha o vento
oriental sobre a terra?
25 Quem [11] abriu para a inundação um leito, e um caminho para os
relampagos dos trovões;
26 Para chover sobre a terra, _onde_ não ha ninguem, e _no_ deserto, em
que não _ha_ gente;
27 Para fartar a _terra_ deserta e assolada, e para fazer crescer os
renovos da herva?
28 A chuva [12] _porventura_ tem pae? ou quem géra as gottas do orvalho,
29 De cujo ventre procede o gelo? e quem gera a geada do céu?
30 Como _debaixo de_ pedra as aguas se escondem: e a superficie do abysmo
se coalha.
31 Ou poderás tu ajuntar as delicias das sete [13] estrellas, ou soltar
os atilhos do Orion?
32 Ou produzir as constellações a seu tempo? e guiar a Ursa com seus
filhos?
33 Sabes tu [14] as ordenanças dos céus? ou podes dispor do dominio
d’elles sobre a terra?
34 Ou podes levantar a tua voz até ás nuvens, para que a abundancia das
aguas te cubra?
35 Ou enviarás aos raios para que saiam, e te digam: Eis-nos aqui?
36 Quem [15] poz a sabedoria nas entranhas? ou quem deu ao sentido o
entendimento?
37 Quem numerará as nuvens pela sabedoria? ou os odres dos céus, quem os
abaixará,
38 Quando se funde o pó n’uma massa, e se apegam os torrões uns aos
outros?
39 Porventura caçarás tu preza para a leôa? ou fartaras a fome dos filhos
dos leões,
40 Quando se agacham nos covis, _e_ estão á espreita nas covas?
41 Quem [16] prepara aos corvos o seu alimento, quando os seus
pintainhos gritam a Deus e andam vagueando, por não terem de comer?
[1] Exo. 19.16, 18. I Reis 19.11. Eze. 1.4. Nah. 1.3.
[2] cap. 34.35 e 42.3. I Tim. 1.7.
[3] cap. 40.7.
[4] Pro. 8.29 e 30.4.
[5] cap. 1.6.
[6] Gen. 1.9. Pro. 8.29. Jer. 5.22.
[7] cap. 26.10.
[8] Psa. 104.35.
[9] cap. 18.5.
[10] Exo. 9.18. Jos. 10.11. Isa. 30.30. Eze. 13.11, 13. Apo. 16.21.
[11] cap. 28.26.
[12] Jer. 14.22.
[13] cap. 9.9. Amós 5.8.
[14] Jer. 31.35.
[15] cap. 32.8. Ecc. 2.26.
[16] Mat. 6.26.
39 Sabes tu o tempo em que as cabras montezes parem? _ou_ consideraste as
dôres das cervas?
2 Contarás os mezes _que_ cumprem? ou sabes o tempo do seu parto?
3 Quando se encurvam, produzem seus filhos, _e_ lançam de si as suas
dôres.
4 Seus filhos enrijam, crescem [NH] com o trigo: saem, e nunca mais
tornam a ellas.
5 Quem despediu livre o jumento montez? e quem soltou as prisões ao
jumento bravo?
6 Ao qual dei [1] o ermo por casa, e a terra salgada por suas moradas.
7 Ri-se do arroido da cidade: não ouve os muitos gritos do [NI] exactor.
8 O que descobre nos montes _é_ o seu pasto, e anda buscando tudo que
está verde.
9 Ou, querer-te-ha [2] servir o unicornio? ou ficará na tua cavallariça?
10 Ou amarrarás o unicornio com a sua corda no rego? ou estorroará apoz
ti os valles?
11 Ou confiarás n’elle, por ser grande a sua força? ou deixarás a seu
cargo o teu trabalho?
12 Ou fiarás d’elle que te torne o que semeaste e _o_ recolherá _na_ tua
eira?
13 _Vem de ti_ as alegres azas dos [NJ] pavões, que teem pennas de
cegonha e d’aguia?
14 A qual deixa os seus ovos na terra, e os aquenta no pó.
15 E se esquece de que _algum_ pé os pise, ou os animaes do campo os
calquem.
16 Endurece-se para [3] com seus filhos, como se não _fossem_ seus:
debalde é seu trabalho, porquanto está sem temor.
17 Porque Deus a privou de sabedoria, [4] e não lhe repartiu entendimento.
18 A seu tempo se levanta ao alto: ri-se do cavallo, e do que vae montado
n’elle.
19 Ou darás tu força ao cavallo? ou vestirás o seu pescoço com trovão?
20 Ou espantal-o-has, como ao gafanhoto? terrivel _é_ o fogoso respirar
das suas ventas.
21 Escarva a terra, e folga na _sua_ força, _e_ [5] sae ao encontro dos
armados.
22 Ri-se do temor, e não se espanta, e não torna atraz por causa da
espada.
23 Contra elle rangem a aljava, o ferro flammante da lança e do dardo.
24 Sacudindo-se, e removendo-se, escarva a terra, e não faz caso do som
da buzina.
25 Na furia _do som_ das buzinas diz: Eia! e de longe cheira a guerra,
_e_ o trovão dos principes, e o alarido.
26 Ou vôa o gavião pela tua intelligencia, _e_ estende as suas azas para
o sul?
27 Ou se remonta a aguia ao teu mandado, e põe [6] no alto o seu ninho?
28 Nas penhas mora e habita: no cume das penhas, e nos logares seguros.
29 Desde ali descobre a preza: seus olhos a avistam desde longe.
30 E seus filhos chupam o sangue, e onde ha mortos [7] ahi está.
[1] cap. 24.5. Jer. 2.24. Ose. 8.9.
[2] Num. 23.22. Deu. 33.17.
[3] Lam. 4.3.
[4] cap. 35.11.
[5] Jer. 8.6.
[6] Jer. 49.16. Abd. 5.
[7] Mat. 24.28. Luc. 17.37.
40 Respondeu mais [1] o Senhor a Job e disse:
2 _Porventura_ o contender contra o Todo-poderoso é ensinar? quem _quer_
reprehender a Deus, responda a estas coisas.
3 Então Job respondeu ao Senhor, e disse:
4 Eis que sou vil; que te responderia eu? a minha mão ponho na minha
bocca.
5 _Já_ uma vez tenho fallado, porém _mais_ não responderei: ou _ainda_
duas vezes, porém não proseguirei.
6 Então o Senhor respondeu a Job desde a tempestade, e disse:
7 Ora, _pois_, cinge [2] os teus lombos como varão; _eu_ te perguntarei a
ti, e tu ensina-me.
8 _Porventura_ [3] tambem farás tu vão o meu juizo? ou tu me condemnarás,
para te justificares?
9 Ou tens braço como Deus? ou podes trovejar com voz [4] como a sua?
10 Orna-te pois com excellencia e alteza; e veste-te de magestade e de
gloria.
11 Derrama os furores [5] da tua ira, e attenta para todo o soberbo, e
abate-o.
12 Olha para todo o soberbo, _e_ humilha-o, e atropella os impios no seu
logar.
13 Esconde-os juntamente no pó: ata-_lhes_ os rostos em occulto.
14 Então tambem eu a ti confessarei que a tua mão direita te haverá
livrado.
15 Vês aqui a Behemoth, que eu fiz comtigo, _que_ come a herva como o boi.
16 Eis que a sua força _está_ nos seus lombos, e o seu poder [NK] no
umbigo do seu ventre.
17 _Quando_ quer, move a sua cauda como cedro: os nervos das suas coxas
estão entretecidos.
18 Os seus ossos _são como_ coxas de bronze: a sua ossada _é_ como barras
de ferro.
19 Elle _é_ obra prima dos caminhos de Deus: o que o fez _lhe_ apegou a
sua espada.
20 Em verdade os montes lhe produzem pasto, onde todos os animaes do
campo folgam.
21 Deita-se debaixo das arvores sombrias, no esconderijo das canas e da
lama.
22 As arvores sombrias o cobrem, com sua sombra: os salgueiros do ribeiro
o cercam.
23 Eis que um rio trasborda, e elle não se apressa, confiando que o
Jordão possa entrar na sua bocca.
24 Podel-o-hiam _porventura_ caçar á vista de seus olhos? _ou_ com laços
_lhe_ furar os narizes?
[1] cap. 38.1.
[2] cap. 38.3 e 42.4.
[3] Rom. 3.4.
[4] cap. 37.4.
[5] Isa. 2.12. Dan. 4.37.
41 Poderás tirar com anzol [1] o leviathan? ou ligarás a sua lingua com a
corda?
2 Podes pôr um junco [2] no seu nariz? ou com um espinho furarás a sua
queixada?
3 _Porventura_ multiplicará muitas supplicações para comtigo? _ou_
brandamente fallará?
4 Fará elle concertos comtigo? _ou_ o tomarás tu por escravo para sempre?
5 Brincarás com elle, como _com_ um passarinho? ou o atarás para tuas
meninas?
6 Os _teus_ companheiros farão d’elle um banquete? _ou_ o repartirão
entre os negociantes?
7 Encherás a sua pelle de ganchos? ou a sua cabeça com arpéos de
pescadores?
8 Põe a tua mão sobre elle, lembra-te da peleja, _e_ nunca mais _tal_
intentarás.
9 Eis que a sua esperança falhará: _porventura_ tambem á sua vista será
derribado?
10 Ninguem _ha tão_ atrevido, que a despertal-o _se atreva_: quem pois é
aquelle que _ousa_ pôr-se _em pé_ diante de mim?
11 Quem [3] me preveniu, para que eu haja de retribuir-_lhe_? _pois_ o
que _está_ debaixo de todos os céus é meu.
12 Não calarei os meus membros, nem a relação das _suas_ forças, nem a
graça da sua formação.
13 Quem descobriria a superficie do seu vestido? quem entrará entre as
suas queixadas dobradas?
14 Quem abriria as portas do seu rosto? _pois_ em roda dos seus dentes
_está_ o terror.
15 As _suas_ fortes escamas _são_ excellentissimas, cada uma fechada
_como_ com sello apertado.
16 Uma á outra se chega _tão_ perto, que nem um assopro passa por entre
ellas.
17 Umas ás outras se apegam: _tanto_ se travam entre si, que não se podem
separar.
18 Cada um dos seus espirros faz resplandecer a luz, e os seus olhos
_são_ como as pestanas da alva.
19 Da sua bocca saem tochas: faiscas de fogo arrebentam d’ella.
20 Dos seus narizes procede fumo, como d’_uma_ panella fervente, ou
d’_uma_ grande caldeira.
21 O seu halito faria incender os carvões: e da sua bocca sae chamma.
22 No seu pescoço pousa a força: perante elle _até_ a tristeza salta de
prazer.
23 Os musculos da sua carne estão pegados _entre si_: cada um está firme
n’elle, e nenhum se move.
24 O seu coração é firme como uma pedra e firme como parte da _mó_ de
baixo.
25 Levantando-se elle, tremem os valentes: em razão dos _seus_ abalos se
purificam.
26 Se alguem lhe tocar com a espada, _essa_ não poderá penetrar, nem
lança, dardo ou couraça.
27 Elle reputa o ferro por palha, e o cobre por pau podre.
28 A setta o não fará fugir: as pedras das fundas se lhe tornam em
rastolho.
29 As pedras atiradas estima como arestas, e ri-se do brandir da lança.
30 Debaixo de si _tem_ conchas ponteagudas: estende-se _sobre_ coisas
ponteagudas _como_ na lama.
31 As profundezas faz ferver, como uma panella: torna o mar como quando
os unguentos fervem.
32 Apoz elle allumia o caminho: parece o abysmo tornado em brancura de
cãs.
33 Na terra não ha coisa que se lhe possa comparar, _pois_ foi feito para
estar sem pavor.
34 Todo o alto vê: _é_ rei sobre todos os filhos d’_animaes_ altivos.
[1] Isa. 27.1.
[2] Isa. 37.29.
[3] Rom. 11.35. Exo. 19.5. Deu. 10.14. I Cor. 10.26, 28.
_Job humilha-se perante Deus e dá-lhe gloria._
42 Então respondeu Job ao Senhor, e disse:
2 Bem sei eu que tudo podes, [1] e nenhum dos teus pensamentos pode ser
impedido.
3 Quem [2] _é_ aquelle, _dizes tu_, que sem conhecimento encobre o
conselho? por isso relatei o que não entendia; coisas que para mim eram
maravilhosissimas, e eu as não entendia.
4 Escuta-me pois, e eu [3] fallarei: eu te perguntarei, e tu me ensinas.
5 Com o ouvido das orelhas te ouvi, mas agora te vê o meu olho.
6 Por isso _me_ abomino [4] e me arrependo no pó e na cinza.
_Deus manda os amigos de Job ir ter com elle e offerecer sacrificios._
7 Succedeu pois que, acabando o Senhor de fallar a Job aquellas palavras,
o Senhor disse a Eliphaz, o temanita: A minha ira se accendeu contra ti,
e contra os teus dois amigos; porque não fallaste de mim _o que era_
recto, como o meu servo Job.
8 Tomae pois sete [5] bezerros e sete carneiros, e ide ao meu servo Job,
e offerecei holocaustos por vós, e o meu servo Job orará [6] por vós:
porque devéras a elle acceitarei, para que vos não trate _conforme a
vossa_ loucura; porque vós não fallastes de mim _o que era_ recto como o
meu servo Job.
9 Então foram Eliphaz, o temanita, e Bildad, o suhita, e Sofar, o
naamathita, e fizeram como o Senhor lhes dissera: e o Senhor acceitou a
face de Job.
_Deus confere a Job o dobro da prosperidade que antes tinha._
10 E o Senhor virou o captiveiro de Job, quando orava pelos seus amigos:
e o Senhor accrescentou a Job outro tanto em [7] dobro, a tudo quanto
_d’antes_ possuia.
11 Então vieram [8] a elle todos os seus irmãos, e todas as suas irmãs, e
todos quantos d’antes o conheceram, e comeram com elle pão em sua casa, e
se condoeram d’elle, e o consolaram ácerca de todo o mal que o Senhor lhe
havia enviado: e cada _um_ d’elles lhe deu _uma_ peça de dinheiro, e cada
_um_ um pendente de oiro.
12 E _assim_ abençoou [9] o Senhor ao ultimo estado de Job, mais do que
o primeiro: porque teve quatorze [10] mil ovelhas, e seis mil camelos, e
mil juntas de bois, e mil jumentas.
13 Tambem teve [11] sete filhos e tres filhas.
14 E chamou o nome da primeira Jemima, e o nome da outra Cassia, e o nome
da terceira Keren-happuch.
15 E em toda a terra não se acharam mulheres tão formosas como as filhas
de Job; e seu pae lhes deu herança entre seus irmãos.
16 E depois d’isto viveu [12] Job cento e quarenta annos: e viu a seus
filhos, e aos filhos de seus filhos, até á quarta geração.
17 Então morreu Job, velho e farto de [13] dias.
[1] Gen. 18.14. Mat. 19.26. Mar. 17.20 e 14.37. Luc. 18.27.
[2] cap. 38.2.
[3] cap. 38.3.
[4] Esd. 9.6.
[5] Num. 23.1. Mat. 5.24.
[6] Gen. 20.17. Thi. 5.15, 16. I João 5.16.
[7] Isa. 40.2.
[8] cap. 19.13.
[9] cap. 8.7. Thi. 5.11.
[10] cap. 1.3.
[11] cap. 1.2.
[12] cap. 5.26.
[13] Gen. 25.8.
O LIVRO DOS PSALMOS.
_A felicidade dos justos e o castigo dos impios._
[Antes de Christo]
1 Bemaventurado o [1] varão que não anda no conselho dos impios, nem
está no caminho dos peccadores, nem se assenta [2] no assento dos
escarnecedores.
2 Antes _tem_ o seu prazer na lei do Senhor, e na sua [3] lei medita de
dia e de noite.
3 Pois será como a arvore plantada junto [4] a ribeiros de aguas, que dá
o seu fructo no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto [5]
fizer prosperará.
4 Não _são_ assim os impios: mas _são_ como a [6] moinha que o vento
espalha.
5 Pelo que os impios não subsistirão no juizo, nem os peccadores na
congregação dos justos.
6 Porque o Senhor [7] conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos
impios perecerá.
[1] Pro. 4.14, 15.
[2] Jer. 15.17.
[3] Jos. 1.8.
[4] Jer. 17.8. Eze. 47.12.
[5] Gen. 39.3, 23. Isa. 3.10.
[6] Job 21.18. Isa. 17.13 e 29.5. Ose. 13.3.
[7] Neh. 1.7. João 10.14. II Tim. 2.19.
_A rebellião das gentes e a victoria do Messias._
2 Porque [1] se amotinam as gentes, e os povos imaginam a vaidade?
2 Os reis da terra se levantam, e os principes consultam juntamente
contra o Senhor [2] e contra o seu ungido, _dizendo_:
3 Rompamos [3] as suas ataduras, e sacudamos de nós as suas cordas.
4 Aquelle que habita nos céus se rirá: o Senhor zombará [4] d’elles.
5 Então lhes fallará na sua ira, e no seu furor os turbará.
6 Eu porém ungi o meu Rei sobre o meu sancto [5] monte de Sião.
7 Recitarei o decreto: o Senhor me disse: Tu _és_ meu Filho, [6] eu hoje
te gerei.
8 Pede-me, [7] e eu _te_ darei as nações _por_ herança, e os fins da
terra _por_ tua possessão.
9 Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; [8] tu os despedaçarás como
_a_ um vaso de oleiro.
10 Agora pois, ó reis, sêde prudentes; deixae-vos instruir, juizes da
terra.
11 Servi [9] ao Senhor com temor, e alegrae-vos com tremor.
12 Beijae ao Filho, para que [10] se não ire, [11] e pereçaes no caminho,
quando em breve se accender a sua ira: bemaventurados todos aquelles que
n’elle confiam.
[1] Act. 4.25, 26.
[2] João 1.41.
[3] Jer. 5.5. Luc. 19.14.
[4] Pro. 1.26.
[5] II Sam. 5.7.
[6] Act. 13.33. Heb. 1.5 e 5.5.
[7] Psa. 22.28.
[8] Apo. 2.27 e 12.5 e 19.15.
[9] Heb. 12.28. Phi. 2.12.
[10] Gen. 41.40. I Sam. 10.1. João 5.23.
[11] Apo. 6.16, 17. Pro. 16.20. Isa. 30.18. Jer. 17.7. I Ped. 2.6.
_David confia em Deus na sua adversidade._
Psalmo de David, quando fugiu de diante da face de Absalão seu filho.
3 Senhor, como se teem [1] multiplicado os meus adversarios! _são_ muitos
os que se levantam contra mim.
2 Muitos dizem da minha alma: Não _ha_ salvação [2] para elle em Deus
(Selah).
3 Porém tu, Senhor, _és_ um escudo [3] para mim, a minha gloria, e o que
exalta a minha cabeça.
4 Com a minha voz clamei ao Senhor, e ouviu-me desde o seu sancto monte
(Selah).
5 Eu me deitei e dormi: [4] acordei; porque o Senhor me sustentou.
6 Não temerei os milhares de povo que _se_ pozeram contra mim e me cercam.
7 Levanta-te, Senhor; salva-me, Deus meu; pois [5] feriste a todos os
meus inimigos nos queixos; quebraste os dentes aos impios.
8 A salvação _vem_ [6] do Senhor; sobre o teu povo _seja_ a tua benção.
(Selah).
[1] II Sam. 15.12 e 16.15.
[2] II Sam. 16.8.
[3] Gen. 15.1.
[4] Lev. 26.6. Pro. 3.24.
[5] Job 16.10 e 29.17. Lam. 3.30.
[6] Pro. 21.31. Isa. 43.11. Jer. 3.23. Ose. 13.4. Apo. 7.10 e 19.1.
_David ora a Deus na sua angustia._
Psalmo de David para o cantor-mór, sobre Neginoth.
4 Ouve-me; quando eu clamo, ó Deus da minha justiça, na angustia me déste
largueza; tem misericordia de mim e ouve a minha oração.
2 Filhos dos homens, até quando _convertereis_ a minha gloria em infamia?
_até quando_ amareis a vaidade _e_ buscareis a mentira? (Selah).
3 Sabei [1] pois que o Senhor separou para si aquelle que lhe é querido;
o Senhor ouvirá quando eu clamar a elle.
4 Perturbae-vos [2] e não pequeis: fallae com o vosso coração sobre a
vossa cama, e calae-vos. (Selah).
5 Offerecei sacrificios [3] de justiça, e confiae no Senhor.
6 Muitos dizem: Quem nos mostrará o bem? Senhor, [4] exalta sobre nós a
luz do teu rosto.