D. Clementina viu-a sahir com certa satisfação mal disfarçada.

--que não sabia para que ella fasia aquillo, mas emfim não a impedia,

estava mais á sua vontade; e se precisasse d'ella, bem sabia;--

--nunca esqueceria as finesas que lhe devia, tinha sido uma boa amiga,

mas não deveria abusar, não;--

--bem conhecia que lhe estava sendo um pouco pesada.--

--se eu fosse muito rica, menina--

--mas não se despedia dos seus favores, ia trabalhar, precisava de o

fazer, e a D. Clementina tinha relações, valer-lhe-ia de muito, uns

bordados, obras de cabello.--

--lá isso, podendo ella, estivesse descançada.--

Abraçaram-se, uns beijos lacrimosos,

--que se visitariam a miudo:--

Mas as visitas da D. Clementina rarearam; quando lhe perguntavam por

Ermelinda, disfarçava mal o seu ciume outomniço, uns desabafos contra a

ingratidão,--que a via agora poucas vezes--, realmente sahira-lhe uma

rôlha.--

E a filha do Jorge ia pouco a pouco cahindo no esquecimento; nem a

Mendes, nem a Bastinhos, nem as Gomes, nem as amigas do _hig-life_ a

procuravam já. Alguma que o fasia era por curiosidade, uma

vontadesinha de a humilhar, encommendando-lhe uns trabalhos futeis,--

--realmente era pouco decoroso conservar relações com uma senhora

n'aquelle estado; a sociedade não via bem essas relações, sempre era uma

mulher sem posição! E depois, o escandalo d'um divorcio!--

Retesavam-se n'uma honestidade pruriginosa, muito meticulosas na escolha

das pessoas amigas, um grande respeito pela moralidade da opinião,

--não dava honra em verdade conviver com uma mulher divorciada.--

Apagavam-lhe com desculpas banaes a aureola de martyr, que n'um momento

lhes dera o syncretismo do sentimento por ella e achavam que:

--deveria ter tido mais paciencia, não fôra tão mimalho, não se

apanhavam moscas com vinagre--

O commendador mesmo, obrigado a partir repentinamente para o Brazil a

fim de obviar a uma crise commercial, que o ameaçara, teve de cortar as

suas vizitas, em face d'esta força maior.

E era assim que Ermelinda se via gradualmente rechaçada das suas

relações, accommodando-se no seu isolamento humilhante, um desejo de ver

as outras cahir tambem, azedando-se n'uma fermentação acre de vinganças

miudinhas, uma aspiração malquerente para com a sociedade, que a

repellia injustamente, a energia quebrantada, amollecendo n'uma lassidão

vadia de temperamento, um grande desmazelo de si, a vida

figurando-se-lhe um fardo pesado, que tinha de arrastar no caminho

ingreme da fatalidade.--

A filha sómente lograva purificar um pouco aquella alma que se

corrompia; esquecia-se de si, como os pantanos se esquecem das suas

aguas perniciosas, para alimentar a flôr luminosa de mocidade e candura,

que se levantava como um lyrio, seivando-se no lodo d'um paul.

O trabalho rendia pouco, comia-se uma parte do pequeno capital, a

Joaquina mesmo adoecera com a fadiga, e isto sobrecarregara o estado

financeiro da casa; a miseria pairava, como um corvo, que se banqueteia

n'um cadaver e Ermelinda sahia raras vezes, receiosa de encontrar uma

antiga conhecida que lhe attentasse no vestido surrado, fóra da moda.

Emmagrecia, a sua formosura esvaecendo-se, como uma estrella que

descora, o tom quente das faces substituido por um macillento doentio,

de pobresa chlorotica de sangue, os bons alimentos que faltavam.

Perdia a energia para o trabalho e quedava-se ás vezes em longas

contemplações scismaticas, um confronto do seu presente com o seu

passado, a vida amargurada d'agora, com a vida facil e descuidosa

d'então, maldisendo o seu destino, sem resignações corajosas para

aquelle infortunio, que tinha de devorar ella só.

E apesar de que a imagem da filha vinha occupar, como um clarão amigo,

quasi todo aquelle negror da sua alma, sentia que lá ficava ainda uma

sombra, um vacuo que o amor de mãe não podia preencher, alguma cousa de

desconsolador, que deixava no seu coração um arrepio gelado, como a

corrente d'uma noute fria que penetra n'uma sala quente, atravez d'um

vidro partido. Uma aspiração se elevava d'uma precisão mal definida,

fluctuante e incorporea, como que devendo encher aquelle vasio--

--Lembrava-se de que talvez a miseria lhe custaria menos se tivesse um

companheiro que a comprehendesse e a alentasse, que tivesse para ella um

sorriso amigo e carinhoso, que lhe incutisse força n'aquelle peregrinar

atravez d'espinhos;--

--Via tantos pobres felizes!... justamente o seu bairro mostrava-lhe

frequentemente d'estes exemplos; morava em frente de si um operario

honesto, um ensamblador, que tinha pela mulher uma adoração fanatica;

havia dous filhos, uma santa paz, o trabalho alegre como uma benção, e

ás tardes, quando elle largava o serviço, via os dous no quintal, á

sombra fresca d'uma ramada, bebendo tranquillamente pela mesma caneca de

vinho, os pequenos a faserem _hortinhas_, uma bonhomia suave, que fasia

lembrar um quadro hollandez, e depois o operario estender-se

preguiçosamente sobre um banco de pinho, a cabeça no regaço da mulher,

que o catava muito de manso, baixando-se a espaços para o beijar

carinhosamente na testa.--

Não tirava os olhos d'elles e a agulha cahia-lhe da mão, a imaginação a

pintar-lhe um quadro identico, em que ella tambem se baixaria para

beijar a fronte pallida do seu marido, a Rosina traquinando com as

suas bonecas a um canto do jardim.

--Como fôra infeliz!... e era preciso tão pouco para se ter a

felicidade--suspirava.--

Quasi tinha inveja áquella mulher honrada e áquelle operario honesto;

affigurava-se-lhe uma injustiça aquelle contraste de paz em frente da

sua vida de amarguras, e ás vezes, ao vêr que os dous sahiam do quintal,

braços enlaçados, rindo muito, alegres do seu amor, uma bafagem quente

lhe subia no peito, um desejo incoherente de se sentir beijada nos

labios varonis, a reminiscencia avivando lembranças felizes d'outros

tempos, a energia do seu temperamento despertando indomita, n'um

esfusiar esteril e impotente.

Vinha-lhe porém adjunta a recordação do Alberto, e uma onda tumultuosa

de odios represados a dilatava toda.--

--Nunca mais, odiava-o de morte; um pulha, um miseravel, um indigno que

não quizera comprehendel-a, e que lhe tinha roubado para sempre a

felicidade!--

--quando se lembrava que a sua filha era filha d'elle, quasi a olhava

com desamor,!... mas não tinha culpa, a pobre creança.--

E ficava n'uma exaltação nervosa, um atropellamento de pensamentos

chocando-se violentamente, frenetica, incoherente, passarinhando muito

pela casa, respondendo asperamente á Joaquina, repellindo as meiguices

da pequena, arremeçando com aborrecimento a costura, tomando um livro

para logo o deixar, até que se ia quebrantando este nervosismo, a

excitação cahindo n'uma prostração apathica, que terminava sempre por um

largo choro copioso, muito mansa e abatida, deitada de bruços sobre o

leito, e fechada sósinha no seu quarto.

Foi n'uma occasião d'estas que o commendador, de volta do Rio de

Janeiro, a veiu encontrar--

--tinha-lhe custado saber onde moravam agora, ein, mas afinal se tinha

informado bem; e como iam, como iam, a Rosina estava uma senhora--

--coitada! tinha uma infancia bem desgraçada--

--n'aquellas idades o que se queria era brincar; mas ella, ella, que a

achava muito transformada, se estava doente?--perguntava carinhoso--

--doente, não, iria morrendo lentamente, o mundo já para ella não tinha

alegrias,--

--que deixasse lá, era nova! e depois a minina!--

Mas a Joaquina interveio.

--que não era verdade, não, que ella queria encobrir, que a D.

Ermelindinha andava muito doente, nem comia, era mesmo um passarinho de

magresa! e depois aquelle desgosto que a matava.--

--A gente se distrahe.--

--vão lá fallar-lhe nisso!...

--oh, Joaquina, cala-te por Deus,--

--eu cá não tenho papas na lingua; sabe Vossa senhoria, pois é como lhe

digo, não que eu tenho-lhe amisade, isso é que ella não póde negar; não

sou como essas visitas que _alvoraram_ todas, ninguem procura gente

pobre!... E vai-se vivendo, Deus sabe como!--

--Joaquina... então...

--deixe ella dizer, deixe ella dizer.--

--e digo, sim senhor; se Vossa senhoria cá tivesse estado, veria como as

cousas tem corrido!... Agora nem a D. Clementina por cá pisa, boa... tem

medo que lhe peçam alguma cousa; pois se Deus quizer, emquanto eu tiver

dous braços, não se ha-de occupar aquella _sastrona_!...

--Joaquina--interveiu n'um tom reprehensivo.

Mas o commendador pedia-lhe:

--que deixasse fallar, que deixasse fallar--a sua indole harmonisava-se

com aquelles desabafos expansivos da Joaquina,--queria as cousas assim,

não era homem do rodeios, pão pão, queijo queijo--e commovia-se d'uma

compassividade altruista por aquelle infortunio, em que as via,

--Mas estava elle agora alli, não havia de ser assim--protestava--

--a Joaquina tinha-se sacrificado muito por ella, a unica pessoa que a

não abandonara--dizia depois Ermelinda ao commendador.--

--boa criada, não as ha hoje assim! conserve-a, conserve-a sempre.

--sempre, só se ella quizesse deixal-a; era quasi sua mãe.--

O commendador resolveu desde logo modificar-lhe as condições do seu viver.

--mas que diria o mundo? não, não acceitava, em tudo se lançava veneno--

--mas não podia consentir, o seu amigo tinha-lhe recommendado a filha na

hora da morte, e depois, elle não tinha familia, dotaria a Rosina,

já ella não tinha de que ter escrupulos.--

E principiou a enviar copiosos presentes, mobilia e comestiveis, um

rodeio de confortos, sollicito em adivinhar-lhe os pensamentos, conta

aberta na modista, uma submissão de escravo em todas as suas acções,

alegrando-se de ver como Ermelinda se refasia, um pouco mais rosada já,

engordando até, a nutrição sadia agradecendo os bons alimentos

delicados, como a flor estiolada agradece o raio do sol que lhe faltava.

--E não tinha que agradecer-lhe, pelo contrario, elle é que se

considerava feliz em poder-lhe fazer algum bem; cumpria religiosamente

um dever, andava contente, não precisava de mais.--

Ermelinda porém enchia-se por elle d'uma suave gratidão; o sangue novo

que a revigorava, entumescia-a de incongruentes desejos; adivinhava a

alma do commendador e sentia-se feliz em ser assim amada, submissamente,

como uma rainha, com a adoração respeitosa e fervente d'um fanatico.

--Como teria sido feliz, se o houvera desposado--pensava--que desgraça a

sua, em ter conhecido o _outro_!--

--e elle afinal, a que podia aspirar coitado?!... que falsa posição a

sua--como se lhe affigurava uma indignidade revoltante aquelle _voto_

que a sociedade lhe houvera imposto com o processo de separação!--

--porque não havia ella de ser livre, poder amal-o, poder dedicar-lhe o

seu coração tão cheio de boa gratidão, principiar com elle uma vida

nova, toda cheia de paz e de carinho, formando uma familia honesta

e honrada!--

--que era ella afinal? nem solteira, nem casada, nem viuva! que lei

infame!... e não havia justiça na terra!--

Um circulo de ferro a envolvia de todos os lados, estreitando,

diminuindo de raio, esmagando-a dentro d'aquellas interrogativas sem

resposta.

E ao commendador, por seu lado, uma nostalgia da vida, tenue como um

nevoeiro, o ia invadindo;

--aquella mulher era o seu desejo, a sua felicidade, o seu bem! mas não

abusaria, seria uma infamia! e entretanto a lei quasi o incitava, em

face d'aquelle despotismo cruel, que tinha tyrannicamente roubado a

liberdade áquella mulher... e porquê, não lhe diriam?... porque ella se

tinha revoltado contra um bebado, um jogador, um patife que a

espancava,--era um absurdo, realmente.--

--e entretanto, conhecia-o, não bastavam á sua natureza forte, aquelles

idealismos cavalheirescos de Magriço, que o faziam sacrificar por ella;

um grande tedio o aborrecia, aquella pura devoção não satisfazia a

anciedade exigente do seu espirito.--

--E talvez que ella o não repudiasse, presentia-o, o seu olhar fazia-lhe

agora mais mal do que nunca, quando o surprehendia a pousar sobre si

n'uma quietação contemplativa e muda--

--era preciso affastar-se, vel-a menos vezes, fazer-lhe todo o bem

que pudesse, mas fugir, fugir a final de contas.--

Ermelinda vendo que o commendador distanceava as suas vizitas, sentia-se

intrigada, descontente de si, accusava-se de não ter sido mais

accessivel, o ar um pouco severo de quem obstinadamente se recusa.--

--E não, não era por isso--uma gratidão por elle a envolvia, como uma

nuvem de perfumes, e sentia-se bem, quando pensava que d'ella dependia a

sua felicidade.--

A sua saude revigorando-se, energias de temperamento se despertavam;

habitos adquiridos se reaccendiam em desejos brutaes, instigando a

carne, n'uma provocação petulante. E na incoherencia d'estas ideias, que

ainda não se vasavam n'uma fórma nitida, a imagem d'Alberto

extinguia-se, esvaecendo-se n'uma penumbra indistincta, sacrificando-se

á imagem do commendador, que se destacava luminosa, em toda a pujança

d'uma vehemencia indomita,--

E Ermelinda, costurando silenciosamente, o espirito a divagar em sonhos

incoerciveis, via no quintal visinho a mulher do ensamblador, debaixo da

ramada, a beijar carinhosamente o marido, e depois, quando vinham de

dentro, ella a cantar, como um passaro alegre, umas trovas cheias de

fogosa paixão peninsular, muito satisfeita de si, a voz crystalina

revoando, como um trinado sonoro, no azul d'aquelle ar, onde volitavam

as andorinhas que regressavam a saudar a primavera.

A Divorciada · 第 61 / 63 题