XVI

Tinham passado mezes.

Uma lucta titanica, surdamente ferida, no mysterio concavo psychico das

almas de Ermelinda e do commendador. Uma attração incoercivel os

chamava, uma vontade de revolta contra o convencionalismo social, contra

aquella tyrannia da lei que os expulsava da felicidade, como o archanjo

expulsara do Eden, ferozmente, com uma brutalidade inquebrantavel, o

primeiro par humano.

Vinham-lhes desejos de peccar, de bater de face aquella prohibição

medonha, que os separava, de arrojar para longe o manto pudico d'uma

honestidade eterna, a que a lei os comdemnara fatalmente.

Ermelinda estava mais gorda, o sangue vivo das alimentações fortes, o

temperamento flammejante de exigencias, uma lassa morbidez quebrando-a

na incoherencia insaciada e vaga de desejos, que se formulavam em

pensamentos languidos.

Mudava muito de roupa, narcisando-se a miudo, horas esquecidas na sua

_chaise-longue_, o jornal do dia cahindo sobre o roupão claro, que a

desenhava toda nas suas formas appetitosas, o pésinho bamboleando no

sapato bronzeado, com as fitas enroscadas como uma cobra nas columnas

assetinadas da meia côr de cinza.

Percorria os olhos pelo jornal; gostava muito do folhetim e do

noticiario.

Um dia claro, de sol doirado, palpitava lá fóra, coando-se impertinente

atravez dos _stores_ de madeira; espreguiçou-se lentamente, bocejou, o

jornal cahiu no chão, deslisando suave. Fez um grande esforço para o

apanhar, o braço movendo-se lento, o corpo requebrado n'uma attitude

madorrenta; mas de repente empallideceu; atirou o periodico com arremeço--

--Que nojo!...--e poz-se em pé, passeando para o lado contrario, como

não querendo vel-o.--

Uma carruagem parou á porta.

--Quem seria?--e foi á janella muito curiosa, levantando um poucochinho

o _store_, o pescoço curvando-se para ver melhor.

--Ah, o commendador!... e então que estava só, tinha de ir abrir-lhe a

porta, a Joaquina fôra buscar a Rosina ao collegio... valesse-lhe Deus.--

A campainha vibrou; demorou-se um instantesinho em frente do espelho,

anediou o cabello.

--E nem tempo tinha do se vestir! Jesus! recebel-o-ia mesmo assim de

roupão, elle não era de cerimonia!--

E foi abrir a porta; o commendador entrou, trasia um bello ramo de

rosas, e um embrulhosinho,

--uma lembrança para a Rosina--

--tinha ido para o collegio estava só em casa, mas subisse, ella ficaria

contente ao vel-o, já não apparecia ha tanto tempo!...

As escadas terminavam; entravam no gabinete, ella tomava o ramo de

rosas, d'um perfume vivo, muito aromaticas, um avelludado formoso de

petalas sanguineas.

--Que lindas rosas! É muito galanteador, na verdade!...

--Oh, D. Ermelinda!...

--Aposto que as trouxe do Palacio.

--Justamente, tinha adivinhado!--e sentou-se, o corpo cahindo

pesadamente n'uma cadeira pequena, situada junto da meza de costura.

Ermelinda dispoz as rosas n'um vaso com agua; collocou-as ao centro,

--gostava muito de flores! ella!...--e então que era feito d'elle,

porque não apparecia,--disia n'um tom reprehensivo.--

Curvava-se para affagar as rosas, uma voluptuosidade em sorver aquelle

perfume intenso, o corpo desenhando-se na justesa clara do roupão.

O commendador estava embaraçado; não sabia que responder; desejava ter

n'aquelle momento a Rosina, que com as suas travessuras o tornasse menos

timido, dando-lhe um tom alegre de creança.

--Viu o jornal no chão, apanhou-o; mas Ermelinda fez-se corada, teve

mesmo um movimento brusco, disse-lhe zangada:

--Deixe o jornal; então não prefere conversar? se soubesse o que ahi

vem!...

--Aqui?

--Ahi, sim, veja,--e apontou uma local do noticiario, a mão nervosa

affagando as flores, emquanto o commendador lia baixo:

--CHRONICA POLICIAL--Foi encontrado em estado de embriaguez Alberto de

Sá, sendo conduzido para o Carmo, onde teve de passar a noute.--

--E então, que diz a isso?--perguntou com meiguice.--

--Coisas d'este mundo!... Uma desgraça!...

--Uma desgraça, sim, uma desgraça!--e principiou a choramingar.

--Então, vale a pena affligir; aguas passadas não moem moinho! o que lá

vai, lá vai!...

--Diz bem, porque é livre! commendador!... mas eu n'esta posição falsa e

condemnada.

--Livre, antes o não fôra!... Se soubesse o que me compunge o seu

estado, se estivesse na minha mão fazel-a feliz...

--Oh, obrigada, obrigada--e tomou-lhe a mão com eternecimento, um tremor

nervoso agitando-a, perdendo pouco a pouco a energia da vontade, um

entorpecimento lasso quebrantando-a.

--Como seriamos felizes--balbuciou o commendador--e vendo que Ermelinda

se calava, uma esfusiada de palavras lhe sahia dos labios, as imagens

colorindo-se n'um fogo calcinante de paixão, que se libertava, a

allucinação dos sentidos torturando-se no leito procusteano do prazer e

do soffrimento, a torrente espraiando-se n'um desafogo perdoado,

supplicas urgentes, que a commoviam, a imaginação atordoada diante da

formosura d'aquella mulher, que fôra o seu sonho, apertando-lhe as mãos,

beijando-as com soffreguidão estonteadora. Ermelinda levantou-se.

--Oh, não, não, é impossivel!

Uma risada christallina de creança explosiu á porta da rua. Era Rosina

que voltava do collegio.

--Está zangada commigo?--perguntou o commendador entre confuso e meigo.

Calou-se um pouco.

--Olhe, somos dous infelizes--disse apertando-lhe a mão,--que devo eu

agora á dignidade d'um ébrio, que a policia levanta por caridade?... Se

podessemos casar!...

--Mas é impossivel, bem vê, a lei tem d'estes absurdos, d'estas

tyrannias inqualificaveis. É uma fatalidade!

--Sim, é uma fatalidade--e pousando-lhe rapidamente um beijo na testa,

Ermelinda sahiu, deixando o commendador estonteado, um atordoamento que

deslumbra, a alma larga não cabendo na estreiteza da palavra, que se

paralysa.

* * * * *

Alberto e Annita tinham dissipado a mãos cheias o que lhe restara de

tempos de maior conforto; liquidado o dinheiro dos moveis de cada um

partiram para Hespanha e só quando a exhaurição da bolsa lhes annunciou

a hora ultima d'aquella folia, é que então se resolveram a regressar a

Portugal, delineando fortes planos de combate, resolvidos a luctar no

meio que os conhecia, muito corajosos de vontade artificiosa. Mas a

desillusão veiu depressa; os habitos da ociosidade haviam-lhe tirado a

energia do trabalho, e os dous, recriminando-se mutuamente a

causualidade do infortunio proprio, principiavam a aborrecer-se,

supportando-se uma intimidade que se enraisara no vicio do passado, mas

praticando cada um a sua independencia. Alberto passando a noute na

batota e nos cafés, Annita passarinhando pelas praças, e pelas

lojas, acenando com os restos da sua belleza physica áquelles que um dia

a tinham cubiçado.

A degradação veio pouco a pouco, uma decadencia embrutecedora, que

embaciava as ultimas vibrações da dignidade, as roupas encardidas, a

consciencia derreada, as nodoas das ultimas camadas alastrando-se por

sobre os restos d'aquella fina elegancia.

Alberto embriagava-se frequentemente; o alcool era o seu amigo, a sua

consolação, depois das noutes caliginosas do jogo, em que o azar o

perseguia, com uma tenacidade medonha.

Embrutecia-se horrivelmente, a policia tomara-o já como incorrigivel,

houvera mesmo umas pequenas historias pouco dignas, que o tinham

compromettido com o codigo penal.

Resolveu ir com a Annita para Lisboa.

--Outra cousa, a capital!... batotas a cada esquina, aquelles inglezes a

cahirem como patos...--

--E depois lá quasi não somos conhecidos--concordava a Annita--mas o

peior era o dinheiro...

--Com os diabos, a sorte nem sempre havia de falhar.--

Effectivamente uma bafagem de felicidade o favoreceu. Vestiram-se

melhor, partiram. Mas o dinheiro esgotou-se depressa; as desillusões

vieram, foram cahindo, dissolvendo-se no grande meio, incapazes para a

lucta, uma degradação rapida e miseravel.

O Alberto fes-se cocheiro.

--gostava d'aquillo!... guiaria os cavallos dos outros já que não podia

guiar os seus!...--

e quando as effervescencias do alcool lhe produziam visões

extravagantes, um sorriso se abria na sua imaginação, sonhando-se n'um

_tylbury_ elegante, uma formosa parelha d'egoas normandas, a pelle de

tigre cobrindo-lhe os joelhos, o pingalim traçando uma curva no ar

tremente das vibrações da carruagem.

--Eh, lá, eh, eh!--gritava no sonho, uma incitação animada,

parecendo-lhe ouvir um rodar vertiginoso de trem. Mas o entorpecimento

da embriaguez passava, os olhos abriam-se a custo, e atravez das

pupillas ainda esfumadas e baças do alcool, elle entrevia a enxerga do

catre policial, ou as taboas cobertas de palha da cavallariça, os

cavallos ruminando silenciosamente na manjadora.

--era bem estupido aquillo--disia levantando-se--e estava frio,

precisava um golo de _geribita_, um copinho que matasse o bicho, que

desse calor.--

De vez em quando uma recordação do doce conforto do passado, lhe

atravessava a memoria já muito gasta; mas não eram as imagens de

Ermelinda ou da filha, que elle entrevia; essas fluctuavam vagamente,

n'uma indecisão de contornos apagados.

--bem se importava!... o que elle desejava era a boa cama, a boa meza, a

_chelpa_ sempre ás ordens para gastar! e a ellas que as levasse o diabo.--

O alcool ia fazendo estragos, a memoria esquecida, a intelligencia

apagando-se nas rudezas bestialisadoras da sua nova vida, do contacto

dos vadios e das cavallariças; a Annita mesmo abandonava-o um pouco,

fizera-se corista d'um theatro barato, e por isso cuidava-o menos,

deixava-lhe encardir a roupa branca, aborrecia-se d'aquellas vaidades de

o trazer limpo.

--que se arranjasse, o theatro tomava-lhe o tempo... e depois um

brazileiro andava para cahir na rêde, quem sabe... talvez ainda podesse

casar... era agora a sua ideia, bastava já de privações, e depois com

elle nunca poderia fazel-o, era um homem casado... afinal.--

* * * * *

Uma commoção extraordinaria agitava os espiritos; alguma cousa de

gigante, como o despertar de um povo, fazia palpitar o coração da

patria; Portugal preparava-se para o tricentenario de Camões.

Chegara o mez de junho; os jornaes vinham cheios de noticias relativas á

commemoração do poeta. A companhia dos Caminhos de Ferro estabelecera

comboyos a preços reduzidos para Lisboa. Um formigueiro de povo

esfervilhava em Santa Apolonia; os trens de praça alinhavam-se,

convidando os viajantes. Illuminações no Tejo e no largo da Estação

davam á cidade o aspecto d'uma creação feerica.

--Como era lindo, como era lindo!--dizia uma mulher que sahia da Estação

pelo braço d'um sujeito baixo, todo envolvido no seu guarda-pó, um

bonnet de seda a descer sobre os aros d'ouro d'uns oculos escuros.

Chamaram um trem.

--Nos leva ao hotel Borges, ein, você sabe?--

Mas quando o cocheiro fechava a porta, um balão veneziano, ardendo,

projectou um raio de claridade sobre o seu rosto.

Ermelinda escondeu-se na almofada, soltando um pequeno grito; tinha

reconhecido o Alberto.--

--Boa gorgeta, ein,--dizia ainda o commendador com o corpo inclinado

para fóra da janella.--

A Divorciada · 第 62 / 63 题