Tinham passado mezes.
Uma lucta titanica, surdamente ferida, no mysterio concavo psychico das
almas de Ermelinda e do commendador. Uma attração incoercivel os
chamava, uma vontade de revolta contra o convencionalismo social, contra
aquella tyrannia da lei que os expulsava da felicidade, como o archanjo
expulsara do Eden, ferozmente, com uma brutalidade inquebrantavel, o
primeiro par humano.
Vinham-lhes desejos de peccar, de bater de face aquella prohibição
medonha, que os separava, de arrojar para longe o manto pudico d'uma
honestidade eterna, a que a lei os comdemnara fatalmente.
Ermelinda estava mais gorda, o sangue vivo das alimentações fortes, o
temperamento flammejante de exigencias, uma lassa morbidez quebrando-a
na incoherencia insaciada e vaga de desejos, que se formulavam em
pensamentos languidos.
Mudava muito de roupa, narcisando-se a miudo, horas esquecidas na sua
_chaise-longue_, o jornal do dia cahindo sobre o roupão claro, que a
desenhava toda nas suas formas appetitosas, o pésinho bamboleando no
sapato bronzeado, com as fitas enroscadas como uma cobra nas columnas
assetinadas da meia côr de cinza.
Percorria os olhos pelo jornal; gostava muito do folhetim e do
noticiario.
Um dia claro, de sol doirado, palpitava lá fóra, coando-se impertinente
atravez dos _stores_ de madeira; espreguiçou-se lentamente, bocejou, o
jornal cahiu no chão, deslisando suave. Fez um grande esforço para o
apanhar, o braço movendo-se lento, o corpo requebrado n'uma attitude
madorrenta; mas de repente empallideceu; atirou o periodico com arremeço--
--Que nojo!...--e poz-se em pé, passeando para o lado contrario, como
não querendo vel-o.--
Uma carruagem parou á porta.
--Quem seria?--e foi á janella muito curiosa, levantando um poucochinho
o _store_, o pescoço curvando-se para ver melhor.
--Ah, o commendador!... e então que estava só, tinha de ir abrir-lhe a
porta, a Joaquina fôra buscar a Rosina ao collegio... valesse-lhe Deus.--
A campainha vibrou; demorou-se um instantesinho em frente do espelho,
anediou o cabello.
--E nem tempo tinha do se vestir! Jesus! recebel-o-ia mesmo assim de
roupão, elle não era de cerimonia!--
E foi abrir a porta; o commendador entrou, trasia um bello ramo de
rosas, e um embrulhosinho,
--uma lembrança para a Rosina--
--tinha ido para o collegio estava só em casa, mas subisse, ella ficaria
contente ao vel-o, já não apparecia ha tanto tempo!...
As escadas terminavam; entravam no gabinete, ella tomava o ramo de
rosas, d'um perfume vivo, muito aromaticas, um avelludado formoso de
petalas sanguineas.
--Que lindas rosas! É muito galanteador, na verdade!...
--Oh, D. Ermelinda!...
--Aposto que as trouxe do Palacio.
--Justamente, tinha adivinhado!--e sentou-se, o corpo cahindo
pesadamente n'uma cadeira pequena, situada junto da meza de costura.
Ermelinda dispoz as rosas n'um vaso com agua; collocou-as ao centro,
--gostava muito de flores! ella!...--e então que era feito d'elle,
porque não apparecia,--disia n'um tom reprehensivo.--
Curvava-se para affagar as rosas, uma voluptuosidade em sorver aquelle
perfume intenso, o corpo desenhando-se na justesa clara do roupão.
O commendador estava embaraçado; não sabia que responder; desejava ter
n'aquelle momento a Rosina, que com as suas travessuras o tornasse menos
timido, dando-lhe um tom alegre de creança.
--Viu o jornal no chão, apanhou-o; mas Ermelinda fez-se corada, teve
mesmo um movimento brusco, disse-lhe zangada:
--Deixe o jornal; então não prefere conversar? se soubesse o que ahi
vem!...
--Aqui?
--Ahi, sim, veja,--e apontou uma local do noticiario, a mão nervosa
affagando as flores, emquanto o commendador lia baixo:
--CHRONICA POLICIAL--Foi encontrado em estado de embriaguez Alberto de
Sá, sendo conduzido para o Carmo, onde teve de passar a noute.--
--E então, que diz a isso?--perguntou com meiguice.--
--Coisas d'este mundo!... Uma desgraça!...
--Uma desgraça, sim, uma desgraça!--e principiou a choramingar.
--Então, vale a pena affligir; aguas passadas não moem moinho! o que lá
vai, lá vai!...
--Diz bem, porque é livre! commendador!... mas eu n'esta posição falsa e
condemnada.
--Livre, antes o não fôra!... Se soubesse o que me compunge o seu
estado, se estivesse na minha mão fazel-a feliz...
--Oh, obrigada, obrigada--e tomou-lhe a mão com eternecimento, um tremor
nervoso agitando-a, perdendo pouco a pouco a energia da vontade, um
entorpecimento lasso quebrantando-a.
--Como seriamos felizes--balbuciou o commendador--e vendo que Ermelinda
se calava, uma esfusiada de palavras lhe sahia dos labios, as imagens
colorindo-se n'um fogo calcinante de paixão, que se libertava, a
allucinação dos sentidos torturando-se no leito procusteano do prazer e
do soffrimento, a torrente espraiando-se n'um desafogo perdoado,
supplicas urgentes, que a commoviam, a imaginação atordoada diante da
formosura d'aquella mulher, que fôra o seu sonho, apertando-lhe as mãos,
beijando-as com soffreguidão estonteadora. Ermelinda levantou-se.
--Oh, não, não, é impossivel!
Uma risada christallina de creança explosiu á porta da rua. Era Rosina
que voltava do collegio.
--Está zangada commigo?--perguntou o commendador entre confuso e meigo.
Calou-se um pouco.
--Olhe, somos dous infelizes--disse apertando-lhe a mão,--que devo eu
agora á dignidade d'um ébrio, que a policia levanta por caridade?... Se
podessemos casar!...
--Mas é impossivel, bem vê, a lei tem d'estes absurdos, d'estas
tyrannias inqualificaveis. É uma fatalidade!
--Sim, é uma fatalidade--e pousando-lhe rapidamente um beijo na testa,
Ermelinda sahiu, deixando o commendador estonteado, um atordoamento que
deslumbra, a alma larga não cabendo na estreiteza da palavra, que se
paralysa.
* * * * *
Alberto e Annita tinham dissipado a mãos cheias o que lhe restara de
tempos de maior conforto; liquidado o dinheiro dos moveis de cada um
partiram para Hespanha e só quando a exhaurição da bolsa lhes annunciou
a hora ultima d'aquella folia, é que então se resolveram a regressar a
Portugal, delineando fortes planos de combate, resolvidos a luctar no
meio que os conhecia, muito corajosos de vontade artificiosa. Mas a
desillusão veiu depressa; os habitos da ociosidade haviam-lhe tirado a
energia do trabalho, e os dous, recriminando-se mutuamente a
causualidade do infortunio proprio, principiavam a aborrecer-se,
supportando-se uma intimidade que se enraisara no vicio do passado, mas
praticando cada um a sua independencia. Alberto passando a noute na
batota e nos cafés, Annita passarinhando pelas praças, e pelas
lojas, acenando com os restos da sua belleza physica áquelles que um dia
a tinham cubiçado.
A degradação veio pouco a pouco, uma decadencia embrutecedora, que
embaciava as ultimas vibrações da dignidade, as roupas encardidas, a
consciencia derreada, as nodoas das ultimas camadas alastrando-se por
sobre os restos d'aquella fina elegancia.
Alberto embriagava-se frequentemente; o alcool era o seu amigo, a sua
consolação, depois das noutes caliginosas do jogo, em que o azar o
perseguia, com uma tenacidade medonha.
Embrutecia-se horrivelmente, a policia tomara-o já como incorrigivel,
houvera mesmo umas pequenas historias pouco dignas, que o tinham
compromettido com o codigo penal.
Resolveu ir com a Annita para Lisboa.
--Outra cousa, a capital!... batotas a cada esquina, aquelles inglezes a
cahirem como patos...--
--E depois lá quasi não somos conhecidos--concordava a Annita--mas o
peior era o dinheiro...
--Com os diabos, a sorte nem sempre havia de falhar.--
Effectivamente uma bafagem de felicidade o favoreceu. Vestiram-se
melhor, partiram. Mas o dinheiro esgotou-se depressa; as desillusões
vieram, foram cahindo, dissolvendo-se no grande meio, incapazes para a
lucta, uma degradação rapida e miseravel.
O Alberto fes-se cocheiro.
--gostava d'aquillo!... guiaria os cavallos dos outros já que não podia
guiar os seus!...--
e quando as effervescencias do alcool lhe produziam visões
extravagantes, um sorriso se abria na sua imaginação, sonhando-se n'um
_tylbury_ elegante, uma formosa parelha d'egoas normandas, a pelle de
tigre cobrindo-lhe os joelhos, o pingalim traçando uma curva no ar
tremente das vibrações da carruagem.
--Eh, lá, eh, eh!--gritava no sonho, uma incitação animada,
parecendo-lhe ouvir um rodar vertiginoso de trem. Mas o entorpecimento
da embriaguez passava, os olhos abriam-se a custo, e atravez das
pupillas ainda esfumadas e baças do alcool, elle entrevia a enxerga do
catre policial, ou as taboas cobertas de palha da cavallariça, os
cavallos ruminando silenciosamente na manjadora.
--era bem estupido aquillo--disia levantando-se--e estava frio,
precisava um golo de _geribita_, um copinho que matasse o bicho, que
desse calor.--
De vez em quando uma recordação do doce conforto do passado, lhe
atravessava a memoria já muito gasta; mas não eram as imagens de
Ermelinda ou da filha, que elle entrevia; essas fluctuavam vagamente,
n'uma indecisão de contornos apagados.
--bem se importava!... o que elle desejava era a boa cama, a boa meza, a
_chelpa_ sempre ás ordens para gastar! e a ellas que as levasse o diabo.--
O alcool ia fazendo estragos, a memoria esquecida, a intelligencia
apagando-se nas rudezas bestialisadoras da sua nova vida, do contacto
dos vadios e das cavallariças; a Annita mesmo abandonava-o um pouco,
fizera-se corista d'um theatro barato, e por isso cuidava-o menos,
deixava-lhe encardir a roupa branca, aborrecia-se d'aquellas vaidades de
o trazer limpo.
--que se arranjasse, o theatro tomava-lhe o tempo... e depois um
brazileiro andava para cahir na rêde, quem sabe... talvez ainda podesse
casar... era agora a sua ideia, bastava já de privações, e depois com
elle nunca poderia fazel-o, era um homem casado... afinal.--
* * * * *
Uma commoção extraordinaria agitava os espiritos; alguma cousa de
gigante, como o despertar de um povo, fazia palpitar o coração da
patria; Portugal preparava-se para o tricentenario de Camões.
Chegara o mez de junho; os jornaes vinham cheios de noticias relativas á
commemoração do poeta. A companhia dos Caminhos de Ferro estabelecera
comboyos a preços reduzidos para Lisboa. Um formigueiro de povo
esfervilhava em Santa Apolonia; os trens de praça alinhavam-se,
convidando os viajantes. Illuminações no Tejo e no largo da Estação
davam á cidade o aspecto d'uma creação feerica.
--Como era lindo, como era lindo!--dizia uma mulher que sahia da Estação
pelo braço d'um sujeito baixo, todo envolvido no seu guarda-pó, um
bonnet de seda a descer sobre os aros d'ouro d'uns oculos escuros.
Chamaram um trem.
--Nos leva ao hotel Borges, ein, você sabe?--
Mas quando o cocheiro fechava a porta, um balão veneziano, ardendo,
projectou um raio de claridade sobre o seu rosto.
Ermelinda escondeu-se na almofada, soltando um pequeno grito; tinha
reconhecido o Alberto.--
--Boa gorgeta, ein,--dizia ainda o commendador com o corpo inclinado
para fóra da janella.--