--que lhe era muito grata, se não fôra elle e a D. Clementina, quem
sabe, talvez já não existisse.--
--e sabe noticias d'elle?--perguntou a D. Clementina.--
--mas seria melhor que não fallassem n'isso,--observava--fôra
viajar, segundo lhe tinham dito, creio que com uma mulher á tôa.--
O rosto d'Ermelinda rosou-se levemente; um rubor de ciume,--e os seus
olhos quasi supplicaram ao commendador que a poupasse áquellas
narrativas,--
--mas não fallemos n'isso, nem vale a pena,--obedeceu o brazileiro.--
Ia intrigado d'aquellas visitas, commovia-o o estado triste d'aquella
mulher; uma onda de commiseração, que não estava longe do amor,
principiava a enternecer-lhe fortemente a alma, com desejos impetuosos
d'uma tyrannia cruel. Rareava por isso as visitas.
--não queria que ella perdesse por sua causa, e depois, apesar de não
ter marido, tambem não podia casar com ella, uma estupidez da lei--
mas enviava á Rosina lindas _corbeilles_ de flôres, _bouquets_ de
violetas, umas prendasinhas graciosas, que pareciam levar intenções
significativas.--
--O commendador, realmente,--disia a D. Clementina--muito amigo é da tua
pequena; nunca lhe conheci este affecto pelas creanças.--
--é d'uma bondade grande, lá isso é, e delicado, tem uma alma generosa
debaixo d'aquella apparencia--disia Ermelinda--e ficava calada, um
pensamento volteando na sua imaginação ociosa, de romantismo
desilludido, pensando n'aquelle baile em que pela primeira vez tinha
conhecido os dous, o commendador baixo e desgracioso, como um tronco de
velha arvore, o Alberto elegante e esbelto como um jasmineiro
perfumado,--
--como as apparencias enganavam--suspirou.--
Mas a D. Clementina principiou a desconfiar d'aquelles elogios
apparentemente banaes; uma pontinha de ciume a mordicava, umas picadas
ao arrepio no seu sentimentalismo serodio, e tinha ás vezes respostas
enviesadas, um pouco acrimoniosas, de quem está na sua casa, fazendo um
favor e recebendo uma ingratidão em troca, isolando-se um pouco nos seus
aposentos, pretextando visitas para deixar Ermelinda sósinha, dando-lhe
a entender que lhe estava sendo pesada, picando-a no seu orgulho, como
entendia que ella a picava no seu amor.
Ermelinda tragava em silencio aquellas desconsiderações que a magoavam,
--sim, que havia ella de fazer n'uma casa sósinha com a filha?... e
depois as despezas! ali não pagava aluguer de casa, nem criada, isto já
não era pouco!--
Mas um dia a Joaquina veiu visital-a, encontrou-a a chorar, quiz saber o
motivo e ella então contou-lhe:
--as affrontas que soffria, um sorriso quando estava alguem, mas um mau
modo quando estavam as duas, tornara-se impertinente, tinha respostas
bruscas que offendiam, parecia que lhe comiam o pão tambem,
--pois é arranjar uma casinha, olhe, eu já agora não a deixarei; não me
dou muito bem com a Amelinha, ella não é má, mas aquillo é um
desgoverno, é uma casa de Orates, ninguem se entende ali, cada um
pucha para seu lado.--
Convencionaram por fim, em que seria a Joaquina que arranjasse a casa,
--uma casinha barata, retirada podendo ser; haviam de levar a vida, não
tivesse medo--confortava a boa da criada.--