--que o não levassem, queria despedir-se d'elle, era a ultima vez que o
via--e arremessada pela impetuosidade da sua dôr, entrou na camara
ardente; os homens tiravam o chapéo que servira apenas ceremoniosamente
e ella pôde ver ainda o cadaver, na sua lividez _mate_, um fio vermelho
ao canto do labio, o nariz afilado.
--Meu pae--e cahiu n'um deliquio, as senhoras vieram, affastaram-a
presurosas, com um grande carinho affectado.--
A Joaquina veio tambem; quiz vel-o sahir, era a ultima vez...
--e desatou a chorar, n'um largo pranto carpido, a voz rouqueando-lhe em
gritos abafados, uma vontade de se atirar animalmente áquelle caixão,
cingir nos braços o cadaver que lhe fugia e aquecel-o com os beijos da
sua febre, reanimal-o para as efflorescencias da vida.
--Meu rico patrãosinho, ai, meu querido sr. Jorge, que nunca mais o
torno a ver,--tão meu amiguinho era!--
E na dilatação expansiva da sua dor, a pobre mulher recordava
inconveniente as scenas recolhidas do seu passado com elle, e a alma
quebrada n'uma saudade dolorosa:
--Nunca mais, nunca mais, tudo acabou ali.--
O Alberto percebeu a violencia d'esta saudade; as palavras da Joaquina
revelavam-lhe o que elle apenas desconfiara e com um cynismo revoltante:
--Vá lá para cima, Joaquina, era melhor que se lamentasse mais a sós;
não lhe faltará quem o substitua.--
E com um desprezo para aquelle morto que sahia e por aquella mulher que
ficava:--
--Que bonita sogra me não dava o sr. director!--realmente, oh moralidade
dos bons paes de familia!
Accendeu um charuto; foi recostar-se n'uma poltrona da sala de visitas,
onde alguns homens estavam para lhe fazer companhia.
Fóra ouvia-se o rodar abafado do carro funebre, e uma claridade
luminosa, proveniente das tochas dos que o acompanhavam, penetrou
atravez das janellas meio cerradas, derramando uns tons amarellados por
sobre a sala.
Sugeitos batiam na escada entregando cartões de visita e o Alberto, com
uma vaidade orgulhosa das suas relações, ia mostral-os a Ermelinda, um
pouco com o fim de humilhar de inveja as suas amigas.--
--Um bilhete da Viscondessa de Romualdo para ti, menina--
--E outro do conselheiro Silva Monteiro.--
Ermelinda recebia-os com ar contristado.
--Coitados, são verdadeiros amigos!--e atirava-os para cima da meza,
gloriosa dos brazões estampados, em que as amigas faziam uns minuciosos
reparos.
* * * * *
Foi-se pouco a pouco esvaecendo a nuvem sombria d'aquelle drama de
familia; os dias de nojo tinham passado e Alberto retomava as suas
occupações no Banco; mas percebia que um certo desdem dos directores o
envolvia, uma atmosphera de desconfiança, em que se não encontrava á sua
vontade.
--Pulhas--dizia do alto da sua prosapia de imbecil--acham o osso um
pouco roido! tenham paciencia... ainda tem muito que devorar!... mas não
hão-de ser os unicos, eu lhes protesto; não, que não faltava mais nada.
E meditava um lance de mestre, a riqueza fascinava-o, uma sêde de vida
ociosa e facil lhe acenava á imaginação ambiciosa.
--Agora de mais a mais estava livre do Jorge, livre d'uma vez para todo
o sempre, não teria quem o estorvasse na sua marcha, era senhor seu,
completamente seu, sem aquella peia que lhe vedava os passos.--
--Em casa mesmo tudo havia de correr d'outra maneira; até ali em
qualquer questãosinha a mulher tinha logo apoio no pae, e depois a
criada vinha tambem, uns grandes ares dominativos, d'uma
familiaridade, que se respeitava; mas a cousa ia mudar de figura... a
Joaquina ia pôl-a no andar da rua, o mais pequeno motivo, uma questão
qualquer... desejava uma creada _chic_...--
Ia a si destruindo tudo o que podesse lembrar-lhe o dominio imperativo
do Jorge; esta ideia desafogava-o, fazia-o dilatar d'uma grande
satisfação intima, e um dia, que uma indisposição o azedou com
Ermelinda, ao ver que a Joaquina vinha intervir, como de costume,
levando-lhe o conforto das consolações.
--Quem lhe deu a Você liberdade de se metter onde não é chamada?--
--Oh, senhor Alberto.
--Já lhe disse, não quero em minha casa quem mande mais do que eu e se
lhe não serve, procure, estou farto de a aturar.
--E eu ao senhor; é já, é fazer-me contas e a porta da rua é larga...