O commendador recommendava-lhe prudencia--

--que aquelles abalos lhe faziam até mal--e pedia a Ermelinda, que

retirasse a creança, que era necessario presença d'espirito.

--e não chorasse, havia sempre esperança, emquanto havia vida.--

Ermelinda agradecia no seu intimo aquellas consolações, onde a sua fina

perspicacia de mulher percebia um tremulo de amor e sinceridade!--Oh,

quanto não seria mais feliz em ter desposado aquelle homem, que agora a

ampararia, que a respeitaria sempre como um escravo, que teria por ella

todas as attenções delicadas d'uma alma leal;--mas era irremediavel,

estava unida ao outro!...

--_Ao outro_, que differença no confronto!... Sempre fôra bem creança em

se apaixonar pelo que suppunha ser o romance da vida!... Oh, como estava

arrependida.--

Vinham-lhe estas considerações, velando á cabeceira do leito, emquanto o

Jorge, n'uma intermittencia calma, entregue a uma somnolencia de

prostração, dormitava brandamente, o vigor alquebrando-se n'aquella

madornice comatosa, como um fio de azeite que se escoa lentamente por um

orificio aberto no fundo d'um vaso, e o Commendador e o Alberto,

conversando baixo com o doutor, na saleta proxima, rumorejavam agouros

funerarios.

O doente teve um momento de allivio; a respiração tornou-se-lhe calma, o

rosto socegado deixou de se contorcer em contrações paroxisticas, a

palavra, posto que branda, sahia com uma fluencia doce.

--Melhorzinho, ein--disse o commendador consolando-o.--

--Melhor, realmente! Isto ha-de ir indo, ha-de ir indo.--

--Coragem é o que se quer.--

O Jorge permaneceu calado; um pensamento agitava-lhe a imaginação.

--Se não fossem ellas, commendador!--bem me importava a mim a morte.

--Deixe essas ideias, ouviu, isso lhe prejudica.--

--Não posso, quer que lhe diga, não posso, levo-as aqui atravessadas--e

apontava para a garganta, como se um obstaculo invencivel estivera lá

collocado.--

--Mas então... se por fatalidade isso acontecesse, o que está muito

longe de ser, ellas ficavam amparadas, ein!... quantas desejariam ficar

assim.--

O Jorge quedou silencioso; dentro do seu espirito uma onda de verdade se

agitava; mas o seu egoismo, a confissão do seu infortunio, um quebranto

de cobardia sopesavam-o com toda a força. Depois, abruptamente, como

quem atira de si um fardo pesado:

--Oiça, commendador; eu sei que é meu amigo; Ermelinda é infeliz,

ella... coitada, digna de tão boa sorte... e depois sabe... o banco...

ai, não posso, não posso... e uma dor sobre o coração fel-o contorcer

n'uma agonia violenta, a falta de ar reapparecia, a respiração

agitava-se frequente.--

O commendador amparou-o, tinha palavras de consolação, d'uma sinceridade

leal, n'aquelle momento em que presentia que um moribundo se debatia nos

seus braços.

--Eu velarei por ellas, descance, não tenho familia, serão a minha,

amigo Jorge, vamos... coragem, isso passa...--

Mas o doente abria desmedidamente a bocca n'uma ancia de ar, os olhos

voltavam-se nas orbitas, no estrabismo da agonia, um apagar da

scintillação da vida, as mãos avincando-se como que procurando alguem.

O commendador chamou para fóra.

Veio o Alberto, a Ermelinda, a Joaquina. O Jorge exhalava o ultimo suspiro.

--Meu pae, meu paesinho, olhe sou eu, é a sua filha, tem ali a sua

netinha...

O Alberto teve uma phrase sonora.

--Já te não ouve, Ermelinda.--

Um deliquio sobreveio, o rosto impallideceu rapidamente, e cahiu nos

braços do commendador, que a amparou n'uma grande atrapalhação

carinhosa, o espirito desejoso de prestar todas as consolações de

affecto áquella mulher, que pela primeira vez sustentava nos seus

braços, na mais critica das occasiões, quando o corpo do pae ainda

quente lhe parecia lembrar na baça fixidez do seu olhar cadaverico, que

velasse por ella, por aquella desgraçada...

Encheu-se de gente a casa; veio a D. Gabriella, a D. Clementina, a

familia do Mendes, a Amelinha Bastos; todas porfiavam em prestar os

seus serviços, installando-se provisoriamente, rodeando Ermelinda de

consolações banaes, e murmurando entre si, calculando o estado de

fortuna em que tinha ficado, commentando a morte do Jorge, muitos

incidentes miudamente accumulados--

--que ainda ha pouco tempo andava tão bom.--

--um homem que parecia que vendia saude--dizia a apaixonada D.

Gabriella--ai, se me lembro d'uma cousa assim.--

A D. Carola Mendes insinuava:

--que talvez algum desgosto,... os negocios iam tão maus; ella d'alguma

cousa sabia, o seu marido dissera-l'ho confidencialmente.--

--pois desgosto houve e grande--confirmava a D. Gabriella--mas quanto a

isso, D. Carola, talvez não, aqui era sempre do bom e do melhor...--

--Onde se tira e se não põe, minha cára amiga...

A D. Clementina aventurou outra hypothese:

--Não ia por alli o gato ás filhozes, a cousa era outra...--

Mas a D. Carola não se dava por vencida.

--Pois se o Mendes m'o disse, menina.--

--deixasse lá fallar os homens, elles ás vezes não eram dos primeiros

que sabiam as cousas; que tambem--accrescentava--não dizia que não

houvesse certos embaraços pecuniarios, porque luxo, louvado Deus, era o

que se via, um desaforo...--

--Lá isso era verdade.--

--Mas aqui para nós a Ermelinda deu-me outro dia certas queixas; creio

que o Jorge não vivia muito bem com o genro...--

--Isso até o mais cego o percebia--

--Vejam lá os _passetes_ que elle fez; aquillo era tudo impostura, mas

olhe lá agora, lagrimas, viste-as, nem eu!...--

Seguiu-se por unanimidade esta ultima hypothese,

--que o Jorge morrera d'um grande desgosto motivado n'uma forte questão

com o Alberto, que os dois se não podiam ver, que isso estava provado á

evidencia--

--quem devia saber pormenores havia de ser o commendador--lembrou a D.

Gabriella.--

--sim, o commendador, esse devia saber--concordou a D. Clementina

affogueando-se d'um carminado serodio.--

--mas aquillo era caixa fechada, não se descosia com facilidade.--

--a questão era de saber tirar os nabos do pucaro sem a gente se

escaldar.--

--e realmente o commendador tinha o feitio d'um pucaro; havia de

chamar-se d'ora em deante o commendador _Pucaro_.--

Uma risadinha abafada acolheu o dito; a D. Clementina riu forçadamente

para fazer côro, mas lá no seu intimo mordia com ferocidade o _espirito_

d'aquellas pedantes,

--umas tolas, capazes de festejar o _pucaro_... se elle lhes acenasse

com a sua riqueza.--

Dentro, na saleta armada em camara ardente, o cadaver estendia-se na sua

immobilidade, o rosto lividamente esbatido na reflexão dos lumes de

cera, de casaca preta, o chapeu alto sobre o ventre, o braço esquerdo

rigidamente estendido ao longo do corpo. Um criado do armador espevitava

as velas, com uma grande indifferença de _habitué_, fumando o mais

voluptuosamente que podia o seu cigarro, em companhia do Christo, que o

contemplava da sua cruz branca de marfim.

Um carro funebre parou á porta, um ruido surdo, de molas pesadas e

lentas; e logo os mercenarios subiram, um tropel tumultuoso, phrases

grosseiras em dialecto gallego.

A Divorciada · 第 49 / 63 题