No quarto de Jorge a luz mortiça d'uma lampada derramava uns tons
lividos em todos os objectos. A roupa da cama, um pouco em desalinho,
enroscava-se em volta do corpo do doente, cuja cabeça esbatida n'uma côr
macillenta, revellava soffrimentos graves, irremediaveis, o corpo
levantando-se nas almofadas, arquejando em movimentos rapidos, d'uma
dyspnea violenta. O braço descarnado, com a brancura da camisola a
envolvel-o, procurava a pequena escarradeira de porcellana que Ermelinda
lhe apresentava com um carinho muito affectuoso.
O commendador, sentado n'uma cadeira aos pés do leito, tinha uma
attitude gravemente composta, d'uma embecilidade passiva em face d'um
mal, que não podia remediar.
Pronunciava palavras de conforto, de espaço a espaço, uma grande
oppressão d'aquelle meio taciturno, com volatilisações acres de mostarda
e um cheiro de doença, que provinha da renovação incompleta do ar.
A Joaquina entrava de quando em quando, com uma taça de caldo na mão, os
olhos avermelhando-se na fricção de lagrimas absorvidas na ponta do
avental, e sempre esquecendo um objecto necessario, a colhér para
remecher o caldo, o guardanapo para limpar os labios, o copo d'agua que
se lhe havia pedido, uma perturbação de sentidos que a alienava,
fazendo-a entregar disparatadamente um objecto em logar d'outro.
Pedia a Deus:
--que lhe valesse--e sahia a cochichar umas resas, seduzindo a divindade
e a patrocinação dos bem-aventurados com a promessa d'umas velas de
cera, d'umas missas pedidas, d'umas voltas de joelhos em que flagellasse
a propria carne em de redor da capella do santo invocado...
O Dr. Roberto dissera confidencialmente ao Alberto:
--que não havia esperança, e depois, aquelle espirito estava n'um
abatimento grave, algum desgosto profundo o havia prostrado.--
Estas palavras queimavam-lhe a alma; tinha vontade de entrar no quarto
do sogro, pedir-lhe perdão, prometter que d'ali para o futuro seria
sempre o leal amigo d'Ermelinda, que podia morrer descansado e confiando
n'elle.
Mas o Jorge entrava sempre n'um paroxismo violento, quando a sua figura
assomava á porta do quarto, rosnava umas palavras entrecortadas, que mal
se entendiam e depois pedia a neta,
--que lhe trouxessem a Rosina, porque não estava ali á beira do avô.--
Abraçava a pequena, beijando-a com soffreguidão, os olhos
avivando-se d'um brilho excitado,--