--fizera-se porca de mais a mais--e a creança andava mal limpa, a ama só
tratava de comer bem e de dormir, deixando-a n'uma immundicie
revoltante, os olhos remelados, o babeirito sujo.
--Era impossivel! não estava para se encommodar,--a mãe que olhasse por
ella, se quizesse--
E comia, n'um mutismo obstinado, uma ou outra palavra rapidamente
proferida, levantava-se ao _dessert_ sahia logo, ia tomar o seu café no
Suisso.--
--Vê, papai, é isto e eu que o ature! não... tambem já é de mais...
agora só lá para as duas da noite.
e vinha para o quarto lastimar-se, arremeçava-se sobre o leito, a cabeça
occulta no travesseiro, lagrimas a desfiarem n'uma torrente
impetuosa, levantando-se com os olhos injectados, muito abatida e
quebrada.
O Jorge, o cotovello sobre a meza, com um ar de compassividade, via-a
sahir abruptamente.
--Quem o havia de dizer, Joaquina.
--Eu sempre o prophetisei; aquella cara nunca me enganou; e sabe que
mais? o remedio é cada um para seu lado; olha agora o pandilha! a menina
assim cae ahi doente e depois o verás...
--Mas que vergonha, que vergonha!
Todas estas sensações desagradaveis se infiltravam no seu espirito,
desmoronando-lhe a firmeza e claridade, como as aguas salitrosas que
arruinam um bello edificio. Fallava pouco, um esquecimento de si mesmo
em meditações prolongadas, a fixação d'uma ideia a absorver-lhe toda a
actividade do pensamento. Os seus padecimentos aggravaram-se, tomava
muitos remedios depauperando-se com dietas obrigadas; apparecia um
achaque pelo mais ligeiro motivo, a cabeça que tinha dores nevralgicas,
o estomago que depunha os alimentos quando a Joaquina apresentava um
prato novo, o figado que se opilava á mais leve indisposição.
Andava hypocondriaco, tinha distracções imperdoaveis, os empregados do
banco chegavam a ter por elle um sorriso de commiseração, quando o viam
errar a mais simples conta de sommar.
O commendador chegou mesmo a provocal-o a uma confidencia,
--Anda tão abatido o amigo Jorge!
--Vai-se andando, vai-se andando.
--Trate de si, homem.
--Um pouco adoentado, realmente um pouco adoentado.
--Vão-se os anneis e fiquem os dedos, você me entende, hein... quem cá
ficar que se arranje...
No espirito do Jorge esta phrase cahiu como uma gotta de metal em fusão.
--Quem cá ficar... ah, sim, ficava ella, se elle lhe faltasse de um
momento para o outro... e sem amparo a pobre da rapariga, de mais a mais
com a pequerrucha... _n'elle_ nem queria pensar... estavam servidas as
pobresinhas... ainda se lhes podesse deixar muito... mas as cousas
estavam tão mal, os primeiros passos errados haviam sido como um
meandro, que o envolvera... agora sim, era ver se lhe podia salvar algum
bocadito... mas para isso só a _separação_ de pessoa e bens... uma
vergonha, Jesus, o que lhe estava reservado para o fim da vida.
Alheava-se n'estas considerações, um olhar espantado, d'uma
tranquilidade triste, quando via a Ermelinda curvando-se sobre o berço
da filha, fazendo umas festasinhas chilreadas á creança.
E a verdade é, que aquella familia se não desagregara talvez desde
muito, porque tinha em Jorge um laço de cohesão, uma como columna a
sustentar a estabilidade do edificio. Elle conheci-o; o Alberto
respeitava-o um pouco, o seu interesse egoista a isso o obrigava,
--Mas se eu falto, se eu falto, que ha de ser de tudo isto?--
Esta ideia atravessava-o com uma tenacidade impertinente de
verruma; impunha-se-lhe a todos os pensamentos, pesava sobre elle como
uma grande avalanche precipitando-se no declive d'uma serra.
Era necessario tomar uma resolução definitiva:--não, assim aquillo não
tinha geito.--
O Alberto não se emendava; sacudia com hypocrisia o jugo despotico da
casa, ia conquistando pouco a pouco a sua liberdade sacrificada. Uma
noute por outra não apparecia; e depois, quando no dia seguinte
Ermelinda, com uma ejaculação represada de bilis, abria o capitulo das
recriminações, elle ao sentir-se culpado, tomava uma attitude
acriminosa, abafava com a sua voz trovejante as queixas d'ella,
revestia-se d'uma pose sarcastica, a palavra secca de ironias,--se tinha
medo a menina havia de comprar um cãosinho.--
E não conseguiam reconciliar-se, obstinadamente mudos um para com o
outro, olhando-se odiosamente durante dous ou tres dias até que uma
futilidade qualquer os ia abonançando, supportando-se então, a paz calma
dos vulcões suspensos.--
Mas as hostilidades abriam-se por um motivo ligeiro; questinculas
pequenas surgiam, contradicções oppondo-se teimosas, mutuamente.
--É o cão e o gato--dizia a Joaquina ao vel-os de novo n'uma discussão
quasi sempre futil.--
Havia já despedido a ama. A creança principiava já a balbuciar as
primeiras palavras, as suas pernitas roliças tinham as hesitações dos
primeiros movimentos; o Jorge sentia dilatar-se d'um amor paternal
ao ver a pequerrucha trepando-lhe pelas pernas, n'uma tenacidade em
vencer aquellas columnas que se lhe afiguravam collossaes.
--Olha o diabrete, não chegas cá, ainda tens muito pão para comer.
A Rosina não desanimava porém, estendia o bracinho curto, queria
apanhar-lhe a Suissa que voejava por sobre o collarinho, balbuciando a
palavra--Avô,--chamando-o com imperio, querendo subjugal-o ao capricho
da sua pequenina vontade.
Entrava n'esse periodo gracil da infancia, em que os mais indifferentes
abrem um sorriso ás suas irriquietas travessuras, aos lampejos vibrantes
das suas phantasias de _baby_.
Ermelinda approximava-se d'ella mais; exhultava porque tivesse passado
esse longo estadio de trabalhos e canceiras obscuras, e habituava-se
agora a vel-a como um pequeno figurino trajando o costume da sua
phantasia, uma boneca que ella tinha de enfeitar pondo n'isso toda a sua
vaidade de mulher e de mãe. O Alberto mesmo demorava-se um pouco mais
depois do jantar, a carne feliz d'uma boa digestão, alegrando-se de
ouvir chilrear aquelle passarinho as notas phantasiosas d'umas mentiras
imaginaveis.
--Diabo da pequerrucha era mesmo um encanto--e como ella inventava umas
historias sem pés nem cabeça.--
A Rosina parecia pois pouco a pouco ir estabelecendo a harmonia entre os
dous; esqueciam-se de si, a attenção convergindo para a filha,
surprehendendo-se até de se verem agora tão amaveis, admirados de
que houvessem adormecido aquellas disputas incessantes que até ahi os
divorciavam em recriminações asperas e molestas.
Mas este periodo não se prolongou muito. O Alberto uma noite entrou
tarde; por acaso o Jorge tinha-se encontrado mal. Ermelinda estava ainda
a pé; e quando o viu chegar, uma esfusiada de ironias a atacou.
--Bonito, não tinha duvida! Tres horas da manhã!... em casa tudo tinha
andado em afflições, e o estroina lá por fóra... nas orgias... um bello
comportamento de homem casado... o pae doente, tão mal, sem haver quem
fosse chamar um medico... realmente...
Encolheu os hombros, friamente, resistindo na armadura d'uma
indifferença fingida áquelle assalto de palavras irritantes.
Mas ella continuou, um phrenesi insaciado:
--Isto só no inferno, só a minha paciencia! Mas é de mais, todas as
cousas teem um termo.--
--Pois é procural-o--respondeu bruscamente.
--Olé se hei-de, pois que pensava o meu menino!...--
E cantava ironicamente o diminutivo, o corpo saracoteando n'um movimento
de rotação, uma attitude de escarneo provocante.
O Alberto avançou para ella, apertou-lhe os pulsos violentamente, os
olhos injectados d'uma colera animal.
--Tu não penses que brincas comigo! e sacudiu-a fortemente, com uma
rudesa aspera.--
Ermelinda encarou n'elle com um olhar profundo de desprezo e de colera
por se sentir fraca; e depois o corpo enteiriçando-se, muito
pallida, a voz com um timbre imperativo:
--Deixe-me, senhor.--
O Alberto largou-a, sahiu do quarto impetuosamente, os seus passos
ouviam-se sonoramente no corredor emquanto ella atirando-se sobre o
pequeno leito de Rosalina.
--Oh, minha filha, como ambas fomos infelizes.--