--mas era um escandalo, uma vergonha, fosse vendo se o levava por bons
modos.--
Ermelinda tentou reconciliar-se; chegou mesmo a dar-se uns ares de
martyr resignada, mas o Alberto
--achava estupido que lhe distribuissem o papel de tyranno de
comedia--tinha phrases irritantes, d'uma grosseria mal educada, que a
pungiam na sua delicadeza.--
Concordavam apenas n'uma tregua de harmonia, quando tinham de sahir
juntos, alguma visita, um ou outro passeio, qualquer pequena _soirée_
familiar... Ahi mesmo porém Ermelinda lacrimava-se com as suas intimas,
aconselhava as solteiras a que não cazassem,--havia muitos espinhos que
só a experiencia revelava.
E deposta a mascara com que se tinham afivellado para apparecer ao
publico, a tregua rompia-se, um motivo futil os irritava, cada um
querendo a superioridade da sua opinião, distanciando-se n'uma separação
odiosa, enojados de se verem, de terem de se corresponder a cada momento.
Ermelinda principiou assim a ter uma aversão da toilette, do aceio;
deixava-se ficar todo o dia com o penteador encardido da gordura dos
cabellos, um desleixo de si, uma preguiça sentimental occupada em se
lastimar.
--Não que valia a pena, realmente, estar a enfeitar-se para o senhor seu
marido! nunca ella o tivera conhecido--
--e tambem era só para lhe _fazer a raiva_; só porque elle gostava
de luxo, é que ella se não vestiria.--
O Alberto ás vezes sentia ainda desejos de reconciliação; a natureza
impulsionava-o, uns fermentos da paixão, que o tinha attrahido para a
formosura de Ermelinda, levedavam no seu coração d'homem, tornando-o
bom, momentaneamente acaroavel. Vinha de fóra com tenções conciliativas,
--dar-lhe-ia um beijo, recordaria com ella as venturas formosas do
passado--combinaria planos sobre o futuro da pequena--
mas via-a desleixada, ainda com a roupa da manhã, bocejando de tédio,
desabafando n'um mau humor de contrariada com a sua presença.