--Ia fumar um pouco, vinha já, se ella queria tomar alguma cousa--
--não, não, pódes ir,--e vendo ainda aquella mulher no camarote fronteiro
--Então conheceste-a?
--Nada, não--e sahiu rapidamente, o espirito alvoroçado, intrigado por
colher informações exactas, que o illucidassem, muitos pormenores.
Fumava-se nos corredores, apertos de mão, criticas á empreza, á opera,
aos artistas.
--Uma pepineira--dizia o Luiz Serra no seu calão de botequim.--
--É para a frente, rapazes, pateada a valer, ha-de ficar a noite memoranda.
--Não vale tudo os quatro contos do subsidio.--
--E querem publico as senhoras emprezas, pois não! para apresentarem
esta chinfrinada.
O Alberto entrou no grupo.
--Então, rapazes!
--Homem, caes da lua...
--Mas já não é da lua de mel, que elle cae, aposto!
--Explica-te.
--Vejo a Annita n'um luxo asiatico, aquillo é teu, ein, Alberto?
--Não, jurava que não, e até gostava de saber quem era o _pato_.--
--Pois pensavamos que fosses tu.--
--Eu sim, descartei-me a tempo d'aquillo--respondeu com um certo desdem.
--Pois está magnifica e de mais a mais pouco accessivel.--
--Conta lá, menino!
--Um tigre, um monstro; passou outro dia no Suisso e voltou-nos as
costas como quem despreza os antigos conhecimentos.--
Grande risada.
--tinha graça, a final.--
A campainha tocava dentro; a orchestra principiava a desenrolar harmonias.
--Ao chinfrim, rapazes, ao chinfrim.--
Os espectadores entravam retardatariamente, n'uma linha obliqua,
caminhando de lado.
Os córos desafinavam o mais possivel, n'um compromisso funesto de
enterrar a partitura. Via-se o regente gesticular, n'uma agitação
febril, a batuta n'um voltear vertiginoso; um rumor surdo sahia das
torrinhas, prenuncios de tempestade na plateia.
--Vai ahi haver um chinfrim medonho--disse o Alberto no camarote.
--Se nós nos retirassemos!...
--Ora deixa-te de tolices, tinha graça perder o melhor do
espectaculo!--e voltou-lhe as costas, a vista medindo a força numerica
dos pateantes, e a sua força qualitativa.
Depois os olhos volviam-se-lhe obstinadamente para o camarote d'Annita;
tomava do binoculo observando-a ainda uma vez, approximando-a de si por
meio d'aquella illusão d'optica, o pensamento revolvendo-se no leito de
Procusta do seu passado.
--Só... mas hei-de sabel-o,--murmurava--o Juca sabe tudo, elle ha-de
saber isto; é impossivel que o não saiba.--
Annita tinha-o visto logo ao chegar; um escandecimento de sangue
subira-lhe nas faces, um desejo instinctivo de o descompor, de lhe
chamar pulha, ali, naquelle mundo que o conhecia, em frente d'aquella
mulher que era d'elle, um escandalo enorme, de que todo o Porto falasse.
--Mas não, estava vingada; dava-o ao desprezo--e amollecia as suas iras
na comparação do seu bem estar actual, a vida facil correndo como um rio
de leite, os seus caprichos satisfeitos, um luxo que nunca conhecera,
brilhantes, toilettes caras.
E olhava de soslaio a mulher de Alberto, n'uma analyse curiosa e miuda,
averiguando da riqueza do seu vestido, comparando, desdenhando da
sua inferioridade em joias.
--E o Alberto seria feliz?--interrogava-se, sentindo a piedade dos
afortunados, um ar compassivo para desditas phantasiadas.
--Sempre era o pae de sua filha!... felizmente que a pequenita tinha
morrido--e uma nuvem de tristeza poisava sobre a sua imaginação,
escurecendo-lhe a claridade, como um cirrhus a um raio de luar. A
recordação porém era fugitiva, cedia á efflorescencia de novos
pensamentos que a occupavam.
--Parece que se não dão lá muito bem--observava--quasi sempre de costas
para ella!...
E quando via o binoculo de Alberto assestado para o seu camarote.
--Pois não meu lindo amor, ha-de ganhar muito com isso--e voltava-se
mais, o rosto desviado para o palco, a attenção obrigada a prender-se na
scena que se estava representando, o tenor pedindo perdão, com as suas
notas desafinadas, á prima-dona que tinha offendido com as suas
infedelidades.
--Ora, tanto entendo eu d'aquillo como de lagar d'azeite--e meneou o
corpo n'um coquetismo estudado, um sorriso levemente franzido nos seus
labios vermelhos, fazendo-o voar imperceptivelmente, como uma fina
essencia, para a plateia, a encontrar o commendador, que lhe
correspondia n'uma irradiação d'olhar entre satisfeita e ciumenta.
A pateada rebentou furiosa, uma grande tempestade; cadeiras rangiam e
viam-se _dandys_ n'uma tarefa ingloria, tentando quebrar os bancos,
assobiando, gesticulando com vehemencia. Fallava-se alto, disputas,
questões com os visinhos, uma balburdia, panno descido.
A _claque_ aventurou algumas palmas, mas logo a pateada recomeçou e
gritos tumultuosos de
--Fóra, fóra--a policia interveio, desmaios nos camarotes, as familias
burguezas retiraram-se.
--Um grande horror áquelles malcreados, que não deixavam gosar,--apesar
de que era bem cabida uma manifestação de desagrado--nunca se vira no
Porto uma companhia tão réles.--
O Alberto tivera de ceder ás instancias de Ermelinda; sahira, ia para
casa contra vontade,
--uma imbecil aquella sua mulher--mas emfim era preciso contemporisar um
pouco! o pae parecia já não andar muito satisfeito!--
--Que miseria, com os diabos! Antes a Annita, mil vezes a Annita--
e affagava o desejo de a encontrar, volver com ella áquella vida
aventureira do passado, gosar, saciar-se brutalmente n'um desmando de
jejunalidade imposta e depennar, n'uma boa camaradagem, o _pato_ que
ella só depennava agora, despojando-o das suas pennas para se cobrir de
velludos e brilhantes.--