O Jorge queixava-se, principiava a sentir um desequilibrio nas finanças da
casa; Ermelinda e Alberto tinham exigencias imprudentes.
--Um luxo por ahi além--dizia a Joaquina--nem que fossem uns
principes--e depois cá estão as costas largas! que poupe, que poupe;
d'aqui por diante nem carne se ha-de ver na panella, t'arrenego!--
Os noivos levavam uma vida ociosa, d'uma tranquilidade aerea. Ermelinda
queria vestidos caros, luxuosos,
--que podessem apparecer diante da baroneza de Lindoso, da mulher do
commendador Bernardo, das Castrinhos, das Cardosas, as suas novas amigas
do _hig-life_, com quem se encontrava no Palacio, no S. João.--
E eram despezas superfluas de trem, de presentes generosos, de noites
seguidas de theatro, de passeios, uma vertigem doce, um rodar
inexperiente no plano inclinado da economia.
O Alberto secundava-a; tinha da sua individualidade uma ideia balofa, um
desprezo das mediocridades, das coisas reles
--não podia realmente viver d'outra fórma, ali, onde todos o conheciam,
onde elle tratava por tu toda a rapaziada elegante! não se tinha casado
para ser um burguez amarrado á bisca sueca, ou ao loto com as senhoras
visinhas! não faltava mais nada que agora o casamento o viesse privar da
liberdade dos seus gozos.--
O Jorge começava a comprehender que fôra talvez um erro aquelle
casamento; de dia para dia Alberto revelava-se irascivel, grosseiro,
indelicado para com Ermelinda, quando lhe não satisfaziam exigencias de
dinheiro.