Abria-lhe um sorriso jovial, d'uma cordealidade doce, e

--offerecia-lhe a sua casa, viessem uma vez ou outra, nos dias santos,

quando a cidade os enfastiasse; seriam sempre bem vindos; o Roberto

lamentaria não lhes ter fallado.--

Ermelinda sentiu um calor mordente, quando Bertha lhe poz um beijo na

face, despedindo-se, e roçou ao de leve, muito ao de leve, os seus

labios no rosto branco da ingleza.

E já no carro, quando a Foz ia desapparecendo com o silencio das casas

inhabitadas e o sussurro eterno do seu mar,

--Estará ali a felicidade realmente?--perguntava-se, a imaginação

mergulhando como n'um crepusculo côr de rosa e ouro, e vendo-se querida

do eleito do seu coração, uma existencia suave e tranquilla, a claridade

intima no espirito, o sorriso bom nos labios, dous companheiros leaes

caminhando na montanha da vida, um ao lado do outro, elle protegendo-a

com a sua força, ella renovando-o com a sua graça, indifferentes para o

mundo, para esse mundo egoista, que os envenenava com as suas seducções

e os despresava com os seus escarneos.

Ia calada, a phantasia acariciada n'este bello sonho, os olhos

acompanhando vagamente a corrente esverdeada do Douro, que descia,

banhando as casarias brancas da Aforada, espelhando o cotovello saliente

da montanha, as fabricas do Andersen, a verdura matizada de Santo

Antonio de Val-Piedade, e depois toda Villa Nova cortando a luz com as

irregularidades dos seus edificios, a linha escura dos pinheiraes ao

longe, orlando o horisonte vasto.

O trem subia vagarosamente a _Restauração_; harmonias de banda

regimental cahiam lentamente, ondas apagadas d'uma sonoridade distante.

--Musica na Cordoaria! E se fossemos para lá um bocadito, Lili!--

--Como quizeres!

--São duas e meia; é cedo ainda para o jantar!...

--Vamos lá, sim, manda parar então.

Apeiaram-se; burguezes espanejavam ao sol a sua obesidade preguiçosa,

_dandys_ com camelias na botoeira, damas todas encolhidas no regalo

quente das suas pelles, _cocottes_ com vestidos mirabolantes, estudantes

de medicina pondo uma vaidade espectaculosa nas suas pastas amarellas,

de fitas vermelhas fluctuando, militares alisando as fardas com luvas de

camurça, todo um publico pacato, passeiando com um methodo ordeiro na

grande alea, acotovellando os _mirones_ que paravam em frente do coreto,

para não perderem o gesto largo da batuta do regente e as notas que se

rebolavam com uma liberdade mal educada por sobre os ramos esguios do

arvoredo, creanças saltando em redor do lago na admiração curiosa dos

habitos dos cysnes, brazileiros aposentados que occupavam

pachorrentamente as cadeiras do Asylo, um ou outro municipal em vadiagem

destacando-se com o colorido escarlate dos vivos da farda e das chapas

reluzentes do metal das agulhetas.

--Muita gente, hoje!

--Sim, muita gente.

Deram o braço, cadenceando o passo no rythmo da musica, cumprimentando

pessoas conhecidas, umas cortezias elegantes, de affectação estudada.

A orchestra batia valentemente a grande marcha da Aida; a voz perdia-se

na sonoridade dos instrumentos.

Caminhavam juntos, uma vaidade de se verem moços e admirados, Ermelinda

arrojando aos olhos das outras, que passeavam, a sua _toilette_

formosa, o seu chapeu _modelo_ de finissimas flores; e elle a luva

correctamente calçada, a guia do bigode n'uma curva de artista, atirando

ao publico com a formosura da sua Lili; toda elegante com o seu vestido

de _traine_ de velludo, invejada, seguida pelo olhar cubiçoso dos

_dandys_ que o cumprimentavam, dos estudantes que ao vel-a passar

prorompiam n'um cortejo de gulosas interjeições admiraveis.

Iam e vinham na grande alea povoada, encarando sempre em frente com a

massa granitica do hospital da Misericordia, d'uma architectura pesada e

d'um sumptuoso imponente, o trem esperando-os á porta do jardim.

--Estava já cansada--dizia--a bota do pé esquerdo apertava-a um pouco.--

O jardim despovoava-se; a musica cessara; tres horas nos Clerigos

lembrando as necessidades physiologicas do estomago.

Chegaram a casa moidos, um pouco fatigados. A toilette incommodava-os,

um desejo violento de se despirem, de se pôrem á larga.

E Ermelinda depoz o vestido sobre a cama, o chapeu n'uma cadeira,

despenteou-se, os cabellos cahindo n'um desleixo emmaranhado, o corpo

mettido n'um penteador um pouco surrado, os pés n'uns sapatinhos commodos.

--Estava á sua vontade, emfim--e subiu á sala de jantar, um grande

appetite, palradeira, comendo gulosamente azeitonas antes de principiar

o jantar.

O Jorge interveio:

--que lhe faziam mal, que era uma creancice.

--Antes isto do que o tal _lunch_ de Carreiros, ein, Alberto--gargalhou.

--Sim, antes isso--e comia devoradoramente, pouco expansivo, o pescoço

curvo sobre o prato de sopa, bebendo de espaço a espaço, o guardanapo

limpando os cantos da bocca.

--Então foram tambem a Carreiros?

--Fomos, podéra!

--E o Doutor, o sympathico Doutor?--interrogava.--

--Não estava lá!--

Ficou muda, um pensamento fugitivo, associando-se áquella adjectivação,

com que o pae mimoseava Roberto, a imaginação alvoroçada, uma comparação

desfavoravel para o seu marido, que agora sem os atavios da elegancia,

um casaco usado, com a gola voltada, encobrindo a auzencia dos

collarinhos,--muito comilão.--

--E se nós fossemos hoje ao S. João?--

--Vai a Lucia, creio eu.--

--Ai, a Lucia, quero ir então; e se houver enchente!... o melhor era o

papá ir já comprar o camarote...

--Pois sim, eu vou,--e saboreava de vagar a ultima sobremeza, muito

guloso, o créme esfiando-se pelos bordos da pequena colher.

--A Joaquina fez hoje isto bem--elogiou.

--O que succede raras vezes--acudiu o Alberto.

--Não, vamos lá, não estamos mal servidos.

--Réles, simplesmente; o _ram-ram_ sabido, nem um prato novo; não ha

como a cosinha franceza!

--Eu cá por mim detesto-a,--obtemperou o Jorge--uns nomes pomposos, uma

_homard à la russe_, uma _timbale d'ecrevisses_, um _foie aux

champignons_, etc., etc., tudo uns bonitinhos e a final a barriga vasia.--

Alberto encolheu os hombros, um ar de superioridade, achando pulha

aquella critica da cosinha franceza, feita pelo sogro.

Veio o café. Ermelinda bebia aos pequeninos sorvos, o corpo recostado na

cadeira, a manga do penteador descia mostrando uma redondeza pennugenta

de braço.

--Levantaram-se.

--Ia comprar o camarote; elle não voltaria, lá os esperava no átrio, ás

oito e meia, não fossem tarde.--

--Para o anno havemos de ter assignatura, sim, Alberto?

--Certamente; não se póde viver no _hig-life_ sem isso; é mesmo

indispensavel, chamar-nos-iam pelintras, uns sovinas.--

--Oh, havemos de ter, fica já combinado...

E passou-lhe o braço no hombro, amorosamente, um agradecimento áquella

acquiescencia de bom tom, esquecendo as desharmonias que se tinham

manifestado, os seus aborrecimentos, a comprehensão do ideal que o

separava d'elle.

Entraram no quarto, estendeu-se languidamente na poltrona, a circulação

quente do jantar, a imaginação antegosando o prazer da noite de theatro, as

plateias curiosas assestando os binoculos para os camarotes, os penteados,

as toilettes do _hig-life_ e tudo aquillo n'um ambiente callido, de luzes

scintillantes, a musica e o canto espreguiçando-se na atmosphera quente.

--Então, menina, não tratas de te pentear, vão sendo horas...

--Já!... ainda tão cedo!... estou com uma preguiça... Vou mandar chamar

a penteadeira.--Se eu soubesse, antes iamos ámanhã...

--Ora... que creancice...

Fazia esforços para se levantar, o corpo quebrado, n'uma mollesa

flacida, a nudez dos braços retesando-se sobre a cadeira.

--Só se tu me tirares d'aqui...--

Elle veio, tomou-a pelas mãos, fez um esforço, pôl-a rapidamente de pé;

o penteador desabotoou-se, deixando ver uma renda de camisa poisando

sobre o assetinado do seio,

--Oh, que desastrado!--sorriu-se--e se eu cahir outra vez!--E atirou-se

sobre a poltrona, o corpo n'uma curva provocante, contente da sua

semi-nudez.

* * * * *

Muita gente no theatro. A illuminação ainda a meio gaz, um poucochinho

cedo, mas logo os violinos principiaram em afinação, uns gemidos rapidos

esfiando-se delgadamente no ambito livre, e a luz scintillou, como um

leque aberto, avivando as cores mirabolantes dos vestidos, o polido dos

penteados, a seda lustrada dos chapeus altos. Senhoras entravam para os

camarotes, accomodando-se na frente, uma grande ostentação de _toilette_

para recompensar a incomprehensão da opera:

--Pouca gente conhecida;--e assestava o binoculo movendo-o em

differentes direcções, a manga do vestido descobrindo o canhão da luva

_gris-perle_ de sete botões.

--Ai o commendador, o padrinho!--

--Aonde?

--Ali, na superior, olha...

Lá estava realmente, recostado, uma grande abstracção do meio, a suissa

recortando a brancura do collarinho, os oculos d'ouro reflectindo

scintillações irisadas de luz.--

--Não entendia nada do lyrico, antes os cavallinhos, as operetas; mas

era moda; precisava a gente impor o seu bocado, chamar-lhe-iam urso.--

Ermelinda inclinava o corpo, uma agitação inquieta, um desejo de ser

notada, cumprimentada. O Carvalhinho ao vel-a fizera descrever ao seu

chapeu uma curva graciosa, muito reverenciadora; e logo o Luiz Serra e o

Juca Mendes, e os amigos do Alberto, os _dandys_ que estacionavam pela

superior.

O commendador voltara-se tambem por sua vez; um sorriso amavel,

luminosas facetações de brilhantes no peitilho da camisa.

Regosijava-se. O Alberto mesmo sentia-se jubiloso em reflectir sobre

ella as saudações dos seus conhecidos, dando-se um ar de importancia, de

popularidade, no seio do _hig-life_.

Um camarote abriu-se; uma mulher entrou, uma grande frescura de

mocidade, o assetinado do _poudre de riz_, amaciando a côr trigueira das

faces. Vinha só; um vestido elegante, de _faille preto_, guarnições de

setim, o decote aberto n'um impudor provocante, o cabello negro

frisado, uma risca rosada separando dous bandós reluzentes. Brilhantes

nas orelhas, irisando a luz, e um olhar quebrado, na doçura amortecida

d'uns cilios negros, tendo ás vezes umas ironias relampejantes, d'um

cynismo deshonesto.

Poisou o binoculo no rebordo do camarote, a luva branca de canhão

comprido, a enroscar-se n'uma pulseira d'ouro, o leque n'uma agitação

lenta.

--Quem é aquella, Alberto?

Olhou na direcção indicada; fez-se vermelho, um rubor de collegial

apanhado em flagrante, e para disfarçar:

--Não sei, não conheço! Ora deixa ver o binoculo.--

O pano subia, a attenção de Ermelinda desviou-se para a scena;

appareciam umas arvores seculares, o _baixo_ cantando uma canção

monotona, e logo depois o tenor, um typo gordo, umas notas desafinadas

que a plateia recebeu com murmurios de censura.

Mas elle, não desfitando o binoculo, o espirito preso a uma corrente de

ideias bem diversas d'aquelle meio, absorvendo aquella mulher atravez

das lentes, fazendo uma analyse demorada de todos os seus encantos e de

toda a sua toillette, um prazer voluptuoso em sentir-se attrahido:

--Mas é a Annita, não tem que ver!... que luxo!... onde iria ella

apanhar o _pato_! E mais bonita, sim, mais bonita! Até mais gorda; eu

bem o previa, que a gordura havia de a aformosear!--

E recordava as suas convivencias passadas, a atmosphera quente de

bordel onde a conhecera, a sua _inclinação_, aquellas ceias em que

bebiam _champagne_ e adormeciam ébrios nos braços um do outro, os

requintes de lubricidade, em que se juravam amor

--e a pequena, que faria ella da pequena?--

Esquecia-se de que tinha Ermelinda junto de si, a imaginação

engolphinhando-se nas anfractuosidades do seu passado, a scena ultima,

sobretudo--aquella scena que os tornara talvez irreconciliaveis para

sempre.--

--Mas o _pato_, o _pato_, quem seria!--havia de sabel-o e d'ahi quem

adivinhara, talvez que ella ainda lhe tivesse alguma dedicação.--

A Divorciada · 第 26 / 63 题