IX

Em casa o Jorge principiava a sentir a nostalgia do isolamento;

encerrava-se no seu gabinete e procurava interessar-se no trabalho, que

trazia entre mãos, o relatorio do Banco; mas a penna suspendia-se sobre a

brancura do papel, morosa, sem poder fixar uma ideia clara; e para encobrir

essa carencia de actividade demorava-se pacientemente, minuciosamente, nas

perfeições caligraphicas d'uma palavra qualquer como que receiando achar o

vacuo para além do ultimo traço.

E descontente de si atirava com a penna para o lado, levantava-se,

punha-se a passeiar, accumulando factos, reminiscencias, que podessem

dar-lhe em resultado uma associação d'ideias precisas, methodicamente

definidas; mas apesar de tudo o trabalho não progredia, o papel lá

estava branco, com as suas linhas azues parallelamente dispostas, como o

zig-zag d'uma estrada que era preciso caminhar.

--Não estava com disposição--concluia e arrumava tudo na sua pasta

envernizada, com um grande vagar minucioso, entretendo-se, matando o

tempo, que a elle o matava com o seu aborrecimento feroz.

A Joaquina vinha chamal-o para tomar o chá.

Sentava-se, lançava o liquido fervente sobre a sua fina chavena de

porcellana; mas tinha abstracções, deixava-a transbordar, enchendo o

pires. A Joaquina do lado, a mão apoiada sobre as costas da cadeira,

avisava-o, com certa familiaridade de criada antiga:

--Que está fazendo, Sr. Jorge!... Ou elle credo! nem que ella fosse para

o fim do mundo!... Olhe que a estas horas lembram-se lá bem de si...

--Dizes bem, dizes bem, Joaquina--e esquecia-se de deitar o assucar

--está azedo, o chá...

--Podera não, se o senhor o não adoçou!... ora, ora até dá vontade de rir.

--Joaquina, então.

--Isto foi graça, o senhor desculpe;--e impertigando-se toda na sua

seriedade--não que elle uma cousa assim...--

O Jorge comia pouco, um biscoito apenas; o appetite faltava, o seu bello

appetite burguez, tão sadio e tão prompto.

--Não, assim até é desnecessario fazer comida--ponderava a Joaquina,--ao

jantar fica tudo, ao chá é isto que se vê.

--Não tenho vontade, mulher...

--Vontade? faz-se!... o senhor não está doente, Deus louvado...--

--Então que queres?

--Quero que coma, boa pergunta!...

E a Joaquina retirava o serviço da meza, curvando-se, arredondando os

seus largos quadris, e deixando ver a brancura da meia, que se descobria

atraz, n'uma provocação macia.

Abriram-se um pouco mais em intimidades, unindo-se no seu isolamento; o

Jorge confiava-lhe pequenos planos e ella approvava ou reprovava com uma

capacidade intelligente, que elle até ali sempre lhe desconhecera.

Começou então a considerar a Joaquina uma mulher, um sêr quasi egual,

capaz de faculdades affectivas, de intelligencia.

--parecia-lhe menos criada, superiorisava-a e experimentava uma certa

satisfação egoista n'aquella descoberta.

A noite adiantava-se; a Joaquina dentro tinha feito a arrumação da

louça e viera perguntar.

--Se não queria mais nada...

--Não, podia-se deitar.

Viu-a retirar com um vagar pachorrento, seguindo-a instinctivamente com

os olhos, surprehendendo-se de que nunca tal fizera e pareceu-lhe uma

mulher fresca, lembrou-se da brancura da meia que ha pouco se lhe havia

entremostrado e um desejo quente mordicou-o, esfervilhando-lhe no

sangue. E para affugentar uma ideia fugaz, que lhe perpassou no

pensamento, como se fôra uma mosca luminosa, levantou-se, resolveu ir

deitar-se.

Tinha de passar pelo quarto d'ella; fel-o tremulamente como um

collegial; ouviu um rangido de leito, pareceu-lhe mesmo ter

surprehendido um suspiro vago.

Mas caminhou rapido, entre descontente e satisfeito, respirando emfim

quando chegou ao seu quarto; sentou-se a lêr o «Commercio»

entranhando-se no labyrintho dos cambios, que o acalmaram, como uma

poção anodina.

Depois já na cama suscitava razões especiosas que o absolvessem,

minorando-lhe o extraordinario do caso, reduzindo-o ás proporções

limitadas d'um facto vulgar--que todos os dias se está vendo;--e

calculou que a Joaquina devia ter para cima dos seus trinta e cinco, não

era nenhuma creança e lembrava-se da sua viuvez propria, inconsolada

agora que o unico affecto, a filha, lhe fugia, amando mais o marido, o

outro.--Sentiu-se encher d'um certo ciume para aquelle que o tinha

deslocado, uma revolta intransigente, impetuosa.

--Mas é lei do mundo, acabou-se; já o Evangelho dizia «Por elle deixarás

pae e mãe»--

e foi cahindo n'um dormitar resignado, as palpebras cerrando-se, uma

respiração doce, que lhe conciliou definitivamente o somno.

Dormiu mal, um sonhar agitado, o sangue effervescente e de manhã quando

a poeira luminosa se coava atravez do _store_ da janella teve um sorriso

largo, muito significativo para a Joaquina, a boa Joaquina que vinha

trazer-lhe o chocolate.

* * * * *

Os noivos chegaram á tarde; vinham moidos, o corpo quebrado, n'uma

lassidão relaxada, as roupas brancas sujas do fino carvão da locomotiva,

anciosos de banho, um banho fresco, que os estimulasse, dando-lhe tom

aos nervos fatigados; deitaram-se cedo, pouco loquazes para com o Jorge,

que, os interrogava ácerca dos monumentos de Braga, a velha sé, onde se

mostram os altos sapatos d'um bispo pequenino, e o Bom-Jesus, a Cintra

do Porto, um bello panorama, um dos primeiros do paiz, segundo diziam

pessoas authorisadas.--

--Tudo na mesma--respondiam um pouco aborrecidos. E para a

Joaquina--ámanhã agua para o banho, não te esqueças.--

--Podiam dormir descançados.--

Deram as boas noites; foram para o seu quarto. O Jorge ficou um

poucochinho ressentido d'aquelle acolhimento ás suas perguntas;

isolava-o aquella friesa, e instinctivamente voltava-se para a

Joaquina,--um sorriso franco, sempre alegre, uma grande palradeira, que

o escutava com muita attenção e respeito.--

--Isto agora é outro modo de vida, não tem que ver.--

--Mas então, que dizes tu a isto, Joaquina?--

--Boa!... olhe, se quer que lhe falle com franqueza, eu com a cara

d'elle não engraço.--

--Lá isso tambem não, é bom rapaz, o Alberto.

--As obras é que o hão-de dizer; olhe que as apparencias tambem enganam.

Os primeiros dias iam passando; uma nevoasinha de tédio descia,

envolvendo-os, fazendo descer o nivel elevado da emotividade.

Ermelinda achava a sua casa pouco romantica para aninhar, n'um aconchego

tépidamente voluptuoso, a pomba ideal da sua paixão;

--Oh, quanto mais lindo não era o Bom-Jesus, com as suas arvores de

copas obumbradas, as suas fontes de crystalina agua, o lago com o

barcosinho, o azul esbatido da luz, cortando-se nas irregularidades da

payzagem.

Comparava com a sua casa, uma monotonia, sempre aquelle barulho ruidoso

de cidade amortecendo-se pelos corredores, a sala forrada a papel, com

aquelle monstro do piano a um canto, umas bugigangas de _biscuit_

eternamente postas sobre as _consoles_; o seu quarto um pouco pesado,

com a grande cama á franceza, de mogno, occupando o centro, sem uma

recordação boa, que o povoasse de saudade, a lamina do espelho,

reflectindo-a, como um confidente silencioso, que parecia

adivinhar-lhe os mais occultos pensamentos, e depois a Joaquina, uma

criada sem a elegancia moderna, sem aquella submissão respeitosa do

criado encasacado, que passa nobremente nos tapetes offerecendo-nos um

copo d'agua, com uma ceremonia de diplomata.

--Ai, o Bom-Jesus!...--suspirava--e estendia-se lassidamente na sua

_chaise-longue_, preguiçosa, sem vontade de trabalho, quebrada pelos

excessos d'aquelles dias voluptuosos, os melhores da sua vida, a

imaginação revoando ao encontro desses momentos de febre, os braços

inteiriçando-se n'um espreguiçar de creoula, bocejando frequentemente.

A seu turno o Alberto dava ao diabo ja o convencionalismo da lua de mel,

sentia-se aborrecido, o _spleen_ d'um lord; lembrava-se ruidosamente dos

cafés áquella hora povoados, uma atmosphera quente, ditos scintillantes,

anedoctas escandalosas que se entornavam por sobre as reputações como os

calices de cognac por sobre as bandejas, os choques entrecortados das

bolas de marfim na baeta verde dos bilhares, os artistas que appareciam

contando a novidade de bastidores, e os theatros com o seu latejar de

luzes na via-lactea dos collos das burguezas, a rapaziada fina nas

plateias assestando intemeratamente os binoculos, o Juca, o Luiz Serra,

o Carvalhinho, uns estroinas, capazes de bater uma _claque_ e armar um

chinfrim, e depois irem tranquillamente comer ao Gomes, ás duas da

manhã, ostras cruas com vinho de Bordeaux.

E todo este mundo tão seu conhecido, tão seu intimo, se movia no

seu pensamento parecendo escapar-lhe, n'uma aspiração vaga, como

aquelles rolos esbranquiçados do fumo do seu charuto, que se desfaziam,

em largas ondulações, no ambiente estreito do seu quarto. A phrase

rhetorica, afinada pelo diapasão do sentimentalismo, cahia lentamente

nos monosylabos chãos, muito simples, d'uma chatesa trivial, que não

póde mais fingir, sem os arremeços vehementes e lancinantes da paixão.

Ermelinda notara-o, com a tristeza d'uma pétala nevada que se vê cahir

da corolla das illusões; mas

--confiava em si--dizia--e procurava dominal-o com as excitações

nervosas do prazer, prostrando-o a seus pés, n'um ciciar timido,

ardentemente enamorado, que a enlevava toda no ceu indefinido das

idealidades.

E os dous ainda, n'um consumir rapido das phospherencias da paixão,

supportavam-se mutuamente as pequeninas discussões, as nevoasinhas de

tédio, a descoberta reciproca dos defeitos que atiravam, para de fóra do

velludo das caricias, _la greffe du diable_, que mais tarde lhe rasgaria

a solidariedade do seu bem-estar.

Sentiam-se ainda felizes, muito amiguinhos e promettiam sêl-o:

--para sempre, para todo o sempre--

Mas cada um, no escaninho mysterioso do seu espirito, via bem descer no

rutilante ceu da sentimentalidade, a branca lua do seu noivado que ia

desapparecendo n'uma curva rapida, deixando um rastro luminoso, que

se apagava já, na orla occidental d'esse horisonte ideado.

E no egoismo do seu gozo esqueciam o Jorge, affastando-se, como que

evitando-lhe a presença, tornando o menos possivel demorados os momentos

em que tinham de estar juntos, sendo os primeiros a levantar-se da meza,

os primeiros a dar as boas noutes depois do chá.

--Isto custa, Joaquina.

--Boa, até parece mais triste esta casa!

E approximavam-se n'uma necessidade imperiosa de convivencia,

consolando-se mutuamente, recordando os dias tranquillos do passado em

que todos os corações tinham a suave claridade da paz; iam-se prendendo,

ensilvando, n'uma attracção baseada na mesma força, revelando-se

reciprocamente, contentes por se comprehenderem, por se verem reunidos

no mesmo caminho de solidão. E eram já mais amigos, permittindo-se

pequenos gracejos, umas familiaridades demoradas, em que se espancava o

convencionalismo do respeito. O molle temperamento lymphatico da

Joaquina accendia-se, como uma phosphorencia errante; e quando á noite o

seu corpo cahia no macio nevado dos lençoes, a imagem do Jorge,

substituindo a do policia 45, desenhava-se nitida, d'uma perfeição

correcta na sua imaginação de mulher viuva de materialidades sensuaes.

Quanto a elle sentia o sangue inflammar-se, uma desfaçatez de desejo

apresentando-se intransigente á sua moralidade, com uma causticidade

irrequieta, penetrando-o, atravessando-o com o impeto d'uma amazona de

circo atravez da fragilidade d'um arco de papel. Quebrava as

hesitações com argumentos especiosos, como um britador teimoso as pedras

que lhe resistem; mas era cauteloso, prudente, tivera sempre medo do

escandalo; e por isso evitava as occasiões de tentação, com um

puritanismo timido, balbuciante, não se querendo aventurar sem a certeza

da acquiescencia, gostando muito de jogar pelo seguro,

--esperar o ensejo, sobretudo--dizia.

Os primeiros aborrecimentos iam-se accentuando, mais repetidos, mais

duradouros. Ermelinda conhecia que o Alberto lhe fugia, a imaginação

fatigada, farto á saciedade do seu papel romantico de Antony; sentia um

grande desconsolo, uma melancholia enervante, vendo esfolhar-se a flor

azul das suas illusões, e recolhendo-se no fundo da propria phantasia,

como n'uma cella monastica, deixando-se voar ao encontro do extasi

mysterioso, que tantas vezes sonhara quando via nos livros a paixão

descripta com traços patheticos, d'um mysticismo ideal.

--Ah, como são infelizes as pobres mulheres--dizia--que decepção as espera!

e recostava-se na sua poltrona, um romance aberto, a imaginação voejando

com o romancista no caminho de fogo, onde appareciam em sulcos luminosos

os grandes heroes do amor, os martyres, os eternos namorados, os

divinisadores da paixão.

E a sua phantasia vendo apenas o drama, engolphava-se n'este sonhar

d'uma morbidez debilisadora, esquecendo que para aquem d'esse ideal

mentiroso, existia bem perto d'ella, um outro ideal menos allucinante,

mas mais casto, cheio das austéras doçuras intimas, dos affectos suaves,

das virtudes ignoradas mas nem por isso menos formosas, um ideal, que

toda a mulher deveria ter como a columna de luz que lhe guiasse os

passos atravez do caminho da existencia.

E n'essa abstracção, em que lhe andava erradamente o espirito, Ermelinda

tinha descuidos imperdoaveis de toilette, um desleixo que a amollentava,

ficando ás vezes um dia inteiro com o penteador da manhã, o cabello

cahido, simplesmente preso na nuca, deixando uma humidade oleosa na

brancura da bretanha.

--Ora, que lhe importava; já não perdia casamento!--

E depois via o Alberto tambem, um descuidado, atirando o fato para cima

das cadeiras, escovando-se e penteando-se apenas quando tinha de sahir,

desarranjando uma gaveta para procurar um lenço, calçando as luvas já no

meio da rua, tendo deixado no quarto uma desordem de moveis, de roupa,

de calçado. Sentia uma vontade de repôr tudo no seu lugar,

minuciosamente, com um grande geito femenil,

--mas ora, a Joaquina que se arranjasse!... não estava para lhe poupar

trabalho--e desviava os olhos, repoltreando-se na cadeira, ávida da

continuação da leitura.

O Alberto vinha encontral-a assim:

--Então, ainda n'esse estado!...

--que me importa.

--se vier por ahi alguem,

--se vier, veio; não te afflijas que eu depressa me arranjo,--

Deixava-a, trauteava uma aria, dando um passeio no quarto, indifferente

áquelle desarranjo d'ella. E depois, muito amoravel, batendo-lhe uma

palmadinha na face:

--Então a Lili sabe quem eu encontrei?

--Que me importa quem tu encontraste!...

--Foi a...

--A Amelinha Bastos, a estas horas!

--Adivinhou!...

--E d'ahi?

--Perguntou-me por ti, quando lhe ias fazer uma visita.

--Ora, que tenha juizo.

--Não, mas agora fallando sério, olha que é preciso fazermos as nossas

visitas de casamento...

--Já pensei n'isso, mas... é uma massada...

--Em fim teem de fazer-se; é um dever da boa sociedade...

--Has-de comprar-me umas luvas, sim, quero-as de sete botões...--

--Certamente; de menos é _chinfrim_...--concordava, muito convencido. E

brincando, n'um momento de _humour_, arrancou-lhe o livro.

--Ora que brincadeira tola!--disse estendendo os braços para o rehaver.--

--Ah, é tola, pois toma, vai buscal-o!... e n'um arremeço o livro voou

pelo quarto, indo parar proximo da cama.

Ermelinda levantou-se pallida, muito séria, a sua vaidade ferida. Uma

lagrima rolou-lhe por entre as pestanas.

--Grosseiro--murmurou sem que elle ouvisse, e foi buscar o livro,

sentando-se de novo, as costas voltadas, a vista divagando sobre a mesma

pagina.

Mas a Joaquina chamara para o jantar, e os dous sahiram do quarto, a

physionomia contrahida, carrancudos, intransigentes na sua seriedade. O

jantar correu rapidamente, friamente, sem trocarem uma palavra; o Jorge

sentia um desconforto glacial penetral-o, abafando a necessidade de

palestras expansivas, coarctando-o, pesando sobre elle como uma

atmosphera de chumbo.

Ermelinda apenas tocava nos pratos; comia pouco, um phrenesi colerico,

atirando as travessas, servindo-se ella mesmo antes que o Alberto

tivesse o constrangimento de servil-a.

A Joaquina pensava:

--Estão de trombas, os pombinhos!...

O Alberto bebia mais que o costume; umas libações longas, demoradas,

esvasiando o copo d'uma só vez, e no fim um contrahir de face, um morder

incisivo do labio, a mão tocando mecanicamente as guias do bigode, e um

relancear de olhos para Ermelinda, furtivo, instantaneo, com uma

scintillação de colera concentrada.

O Jorge não podia mais.

--Parece que estamos na semana santa, credo, fallem para ahi...--e

experimentava uma conversa, um caso do dia, uma anedocta, que morria

logo, amortecendo-se aos monossylabos d'Alberto, o unico que ainda lhe

respondia.

Ermelinda sentia-se contrariada, indisposta, uma raivasinha secreta,

amargurando-a, com engulhos de lagrimas; levantou-se, uma grande

necessidade de chorar, de estar só, de se julgar infeliz. E ao passar

pela Joaquina, o lenço enxugava-lhe os olhos, que se avermelhavam, n'uma

côr injectada de desesperos, humedecendo-se.

--Oh, menina, pois vale lá a pena chorar, quem é que não tem os seus

arrufos; isso d'aqui a pouco já não é nada--consolou-a, muito

ternamente, uma caricia de velha criada, que a trouxera ao collo.--

Mas ella aspera, cortante:

--Sabe que mais, metta-se com a sua vida--e desceu a escada,

dirigindo-se para o quarto.

A Joaquina ficou de pé, assombrada, uma estupidez idiota na physionomia,

entalada, como se sentisse um spasmo no esophago; e depois, com as

lagrimas a bailarem-lhe nos olhos:

--É bem feito, grandissima burra, não lhe ganhasses tanta amizade.--

No seu quarto, Ermelinda desatou n'um largo choro.

--Era uma infeliz, uma desilludida... ah, quanto mais não valia o ter

ficado solteira--

e assombreava com negro colorido o quadro da sua existencia, n'um

appello á desgraça, ao infortunio; mas depois procurava consolar-se,

desentranhava-se em affagos para comsigo mesmo, procurando esquecer, não

fazer caso; e as palavras da Joaquina soavam-lhe ainda aos ouvidos,

tornando-a reflexiva.

--Sim, era crueldade, quem é que não tinha os seus arrufos.--

Esta palavra sensibilisava-a, dando-lhe ainda um perfume gentil de

namorada, imaginando-se requestada por elle, muito estremecida.

--Foi o melhor tempo--suspirou.--

E a reminiscencia recordava-lhe essas horas do passado, aquelles

enthusiasmos apaixonados d'elle, a _verve_ cheia de fogo, a calcinação

ardente da palavra.

--Oh, quanto a realidade era differente!... E o noivado, ah! o seu

noivado!...

Uma recordação doce se lhe entornava na alma, perfumando-a, n'uma

ébriedade feliz. Via o Alberto a seus pés, timido, como uma creança,

segredando-lhe pedidos d'uma volupia embriagante, muito submisso,

dizendo-lhe baixinho:--Adoro-te--; e a esta evocação tão acariciadora,

quente como um arfar da atmosphera no estio, deixava cerrar os olhos,

esquecendo o motivo de toda a sua colera e transportando-se com elle ao

ceu da sua idealidade; assim disposta achava encantador--que elle viesse

muito humilde, pedir-lhe o beijo do perdão, affagal-a n'uma

reconciliação harmoniosa.

--Não lhe resistiria, não; mas tambem não queria ser a primeira a

quebrar--dizia, ainda com resaibos da offensa recebida, entumecendo-se

n'um grande orgulho de si propria.

O Alberto desceu; viu-a sentada na cadeira, a mão sustentando o queixo

redondinho. Escovou ligeiramente o fato, poz o chapeu na cabeça,

principiou a calçar as luvas. Ermelinda teve um pensamento de ciume.

--E se elle fosse procurar outra! oh, não, que ideia.

N'este momento o Alberto preparava-se para sahir; mas não veiu como de

costume poisar-lhe um beijo na testa.

--Até logo--disse bruscamente.

Levantou-se, embargou-lhe a passagem.

--Tu onde vais?

--A ti que te importa?

--Que me importa!... Vamos, não sejas mau--disse timidamente, confusa

por ser ella a primeira a pedir, envergonhada de si, mas o pensamento

queimado ainda por aquella ideia ultima que a assaltava; e tirando-lhe o

chapeu, n'uma _moue_ engraçada, o corpo quebrando-se n'uma gentileza

voluptuosa, a sorrir-se:

--Não te deixo ir, tira as luvas, sim, vais logo...

--Creancices--volveu, encolhendo os hombros, e tirou as luvas, sentando-se.

--Aqui me tens!--bruscamente.

Sentou-se-lhe nos joelhos, balouçando-se, fingindo que cahia, forçando-o

a amparal-a nos seus braços, provocante, roçando-lhe ao de leve o rosto

pelos seus labios.

O Alberto cedeu; deu-lhe o primeiro beijo, e logo outros, o sangue

excitado, uma pontinha d'alcool na circulação.

N'aquella tarde não sahiu de casa.

X

A modista trouxera-lhe o chapeu, um modelo de Pariz, d'uma plumagem

finissima, poisando maciamente na côr granada do velludo;

collocara-se em frente do espelho, experimentando-o, vendo-o se lhe

ficava bem, meneando-se, apanhando a maior porção da lamina.

--Era um primor, realmente, mas tinha que elevar um pouco mais o

penteado, assentaria melhor--

e voltava-o de vagar, com uma admiração insaciada, tocando delicadamente

nas petalas assetinadas da flor, antegosando a inveja que aquillo

causaria ás suas amigas.

--É já de senhora cazada--dizia, n'uma distincção frivola de _toilette_,

applaudindo-se por este conhecimento, por esta grande noção de

differenciação de estados, baseada no vestido--que muitas não tinham,

umas ignorantes, trazendo os _myosotis_ por exemplo, que só são dados ás

meninas solteiras, e outras cousas mais,--umas minuciosidades futeis,

que a enchiam de vaidade,

--E depois dizia muito bem com o vestido, oh, muito bem!

Era um vestido de _faille_ plumbagineo, a _traine_ de velludo, umas rendas

caras, que M.me Sellier's mandara de proposito vir de Pariz, um talhe

elegante, que lhe devia realçar a formosura. Abriu o guarda-vestidos,

admirando-o ainda uma vez em toda a extensão fluctuante das suas rugas,

pendente do cabide, na macia suavidade da côr, no matiz nevado das

preciosas rendas.

--E agora que já tinha o chapeu, não era possivel adiar mais tempo;

iriam fazer as suas visitas de casamento.

Alugaram um trem, um _coupé_ do Marques, de molas doces,

acolchoado, elegante, confortavel, d'um estofo assetinado.

--Ah, como seria bom ter um trem--pensava--reclinar-se languidamente nas

suas almofadas, correr nas brancas fitas do mac-adam ao som estrepitoso

dos grandes cavallos normandos, os lacaios flamantes, de compridos

casacões, com largos botões chapeados.

--Como eram felizes os ricos--e revoltava-se contra essa desigualdade de

fortunas, n'um impeto socialista, figurando-se-lhe uma injustiça a falta

d'aquelles sumptuosos contactos do luxo.

Mas o trem havia parado á porta do Mendes. Era a primeira visita. O

cocheiro desceu, tocando violentamente a campainha.

Uns beijos cantadinhos se trocaram,--muitos parabens, estava até mais

bonita, um poucochinho gorda; ah, agora é que era gozar.--

--Certamente, D. Carola, em quanto a gente é moça.--

--Pois não, Snr. Alberto, depois se vem os filhos e isso é sempre o mais

certo.--E voltando-se para Ermelinda:

--Onde mandaste fazer o vestido, menina?

--Na Sellier's; um poucochito caro...--regosijava-se por ter sido

notada, quebrando-as de inveja.

--Eu bem digo á mamã, que se tire de costureiras baratas, é mesmo uma

zanga, nunca as cousas ficam em termos; o que se ha-de dar ao rato...

--Devagar, menina, devagar, a economia...

--Ora, grandes economias!...--atalhava.

O Alberto afastara-se um pouco; olhava o jardim, esperando, com um ar

passivo, de marido obediente.

Palraram muito.

Fallaram das modistas, dos chapeus, do theatro. A conversação cahiu no

baile que o Bernardo ia dar para festejar os annos do cazamento.

--Melhor, tivesse juizo, aqui para nós, olha agora a doida! Elle!...

sempre ha homens que se varreram de juizo!--

A Ermelinda sentiu-se um pouco afogueada; sabia vagamente d'uma aventura

com o Alberto, que a Amelinha Bastos lhe tinha narrado.

--Mas emfim, era ainda solteiro, adeus! a tola fôra

ella--desculpava-o--e criticavam o Bernardo.

--Bom estomago! havia de ser o Mendes.

--E o Alberto, não lhe digo nada, ciumento ali chegou!

Mas o Alberto interveiu:

--que era tarde, ainda tinham de ir a outras partes; sentia ter de

cortar tão deliciosos momentos.--

--Tão poucochinho tempo.--

--Para outra vez seria mais: era uma via-sacra a percorrer.--

--Então venham jantar um dia.

--Desde já agradeciam, e viriam, viriam, era-lhes muito agradavel a

companhia da _madrinha_ e da D. Adelaidinha.--

--E depois--recordou Ermelinda um pouco afogueada--a gente lembra-se com

saudade d'esta sala...

--Ai, é verdade, fôra ali que principiara o namoro; pois viessem,

viessem, era mais uma razão...

Despediram-se; novos beijos, um _shake-hands_ ceremonioso do Alberto, os

seus respeitos ao amigo Mendes.

Mãe e filha acompanharam; ficaram-os olhando do alto da escada, umas

mezuras com a cabeça, uns adeusinhos agitados.

--Que luxo ein, onde iria aquillo parar.

--Só o chapeu, mamã.

--Bem diz o teu papá; ai, banco, banco!

Sentia-se o _coupé_ rodar na calçada.

Visitaram a Amelinha Bastos, a D. Gabriella. Chegou a vez á D. Clementina.

Encontraram-a a acariciar o seu Tótó, o seu amor felpudinho, que

principiou a grunir, n'uma revolta sorna, por ver que os estranhos lhe

vinham roubar as caricias da sua amiga. Chegou até a accommeter o

Alberto, n'uma grande indignação ciumenta. Mas ella amansou-o explicando:

--que o Tótó tinha realmente ciumes, era um verdadeiro tigre.--

E batendo umas palmadinhas amigaveis em Ermelinda:

--Então como se dá a minha menina com o seu novo estado?

--Bem, D. Clementina, muito bem.--

--Podera não; elle ha lá melhor vidinha!--suspirava--e depois quando se

tem um marido novo, elegante...

--Oh, D. Clementina, eu passo a ter ciumes...

--Ai, filha, não, isso não...--riram ambas, um cascalhar timbrado, a

brancura dos dentes a desfiar pelo carmezim dos labios.

--E muito linda, muito linda!...

O Alberto interveiu, uma graça de galanteria...

--Não m'a encha de vaidade; Vocencia deve saber por experiencia propria,

que a formosura das mulheres é o inferno dos homens...--

--Ora, nem diga isso! é o paraizo, o paraizo d'elles! Os senhores são

uns mal agradecidos.--

Mirava-lhe o chapeu, o vestido; calculava o preço da fazenda, das

guarnições, da pluma, das flores.

--Um dinheirão--pensava--isto assim hão-de dal-as frescas--e

regosijava-se já d'um mal futuro, elogiando-se as proprias qualidades

economicas, n'uma ferocidade ciumenta de solteirona.

--Trazes um chapeu _chic_; é modelo, menina?

--que sim, que era--e não fôra caro.--

--Então?

--Quatro libras!...

--Ah, quatro libras, não era caro, não!--e pensava que por aquelle preço

se podiam ter dous chapeus bons, uma desgovernada--não, não tinha

duvida, por aquelle andar a herança da tal tia em breve se lhe havia de

ver o fim.

Despediram-se.

--Ainda tinham de ir a casa do Dr. Roberto, morava longe, na Foz, em

Carreiros, uma boa hora.--

--Isso decerto, menina; e depois só para aturarem aquelle _carapau_

inglez--chacoteou.--

--Oh, D. Clementina, é do meu parecer--acudiu Ermelinda--o Alberto que

não, que não, mas eu embirro com aquella cara, um ar seraphico, de

mestra de meninas.--

--Mas não tens razão, Lili--é uma boa creatura, um pouco excentrica

talvez, ingleza, isso comprehendia-se.--

--Ai, deixe lá, Snr. Alberto, gente que se não entende, que falla uma

algaravia...--

--É a sua lingua, o seu idioma.--

--Pois sim, não digo menos d'isso; mas estou com a D. Ermelinda, não

engraço com a tal ingleza, que chama á gente _senhorra... senhorra!_

ora que desconchavo!...

--Nem sei como o Dr. se namorou d'aquillo! Elle ha gostos!...--

--Pois vivem muito bem, um casal modelo...--

Ermelinda replicou:

--bem se fiava n'essas; haviam de ter as suas, todos as tinham--

E passavam-lhe pela mente as questinculas futeis, que tão frequentemente

se levantavam agora entre os dous, enevoando-lhes o sol da harmonia,

distanciando-os em espirito, desatando-lhes a alma n'um relaxamento

indifferentista.

Disseram-se adeus; beijocaram-se, o Alberto um grave aperto de mão. O

Tótó impacientava-se, um rosnar regougado, até que sentiu em baixo bater

a porta da campainha, e viu a D. Clementina sentar-se no sophá,

saltitando então, satisfeito, o nariz afilado, procurando o calor das

saias, muito cadongueiro, uns latidos meigos.

Ficava o mar em frente. Um sussurro monotono, cheio de casta poesia, a

alma do gigante a segredar queixumes, beijando a praia com um amor

voluptuoso, em beijos nevados, de espumosa prata; e abrindo sobre o

largo as janellas da casa do Doutor, a namorarem a luz, a perfumarem-se

das emanações iodadas das plantas marinhas, rasgadas ao alto, umas

cortinas de cassa a toucarem-as pudicamente.

Appareceu-lhes Bertha,

--vinha da cosinha, tinha ido ella mesmo preparar o _plum-pudding_, o

seu Roberto gostava muito, era doudo por aquillo.--

--E o Doutor, bom, de saude?...

--Ainda na cidade; olhe, vem ás quatro horas, trabalha muito, coitado;

por ora vivemos aqui, é longe, mas é mais economico; e talvez vivamos

sempre, é tão saudavel este ar...--

--Mas devia ser insipido n'aquella quadra,--ella, Ermelinda, só gostava

da Foz no tempo de banhos, havia convivencia, bailes; as manhãs da

praia, as tardes de musica no Passeio Alegre...

O Alberto apoiava:

--Sim, devia ser realmente insipido.--

--Pois, olhe, não nos aborrecemos; até gostamos mais d'esta quadra,

vivemos mais um para o outro; á tarde o Roberto vem cançado, fatigado,

janta bem, e vamos passeiar, duas creanças ás vezes, a liberdade

solitaria da praia... era muito lindo, deveria gostar...--

--Não, não, Deus a livrasse de tal; e como passava as noites, aquellas

noites longas de inverno, sem theatros, sem partidas...

--Temos as nossas partidas--volveu sorrindo Bertha,--fazemos musica os

dous; o meu Roberto é um artista, toca violino, eu acompanho-o ao piano,

a musica é uma boa distracção, não deixa a gente aborrecer-se; são uns

bons companheiros, Mendelssohn, Mozart, Meyerbeer,...

--Mas sempre musica, realmente!... eu tambem toco, mas, confesso-lhe, ás

vezes aborreço-me; a gente nem sempre está com disposição.

--Tem razão, é verdade, mas olhe, então variamos; lemos juntos, eu gosto

muito de Elliot, de Michelet, de Taine, e de Dichens, que é o romancista

da minha patria; e ás vezes quando a leitura nos não distrahe, e que a

nossa alma precisa como que receber um bocado d'essa onda de

sociabilidade, vamos ao theatro tambem, não nos julgue mysantropos; o

Roberto ás vezes não quer ir, diz-me que não; mas eu conheço-o, nós as

mulheres lemos bem no pensamento d'estes senhores; não é depois que

appareça o tédio que eu devo distrahil-o, é em antes, que eu devo fazer

com que não haja tempo de formar-se; e não se fórma, assim, tenha a

certeza!--

A physionomia de Bertha illuminava-se-lhe docemente espelhando a luz da

sua consciencia limpida, crystalina, que fazia d'aquelle amor uma

religião; era branca, da brancura nevada das filhas do Norte, o olhar

azul meigo, como uma ambrozia; a face rosada, d'um colorido de saude; a

gracil agilidade das _miss_, uma insinuação que attrahia, que fazia

estar bem junto d'ella.

Tinha uma actividade de _spinster_, pondo em tudo um conforto macio, um

aconchego carinhoso, alegre, limpando ella mesmo a sua salinha, o

seu gabinete, vigiando a sua casinha, confeccionando pelas suas proprias

mãos o prato favorito de Roberto, que vinha ás tardes, do Porto, o

espirito fatigado, um desgosto de clinica, um doente que lhe morrera,

apesar de todos os esforços,--mas que ao vel-a toda branca no seu roupão

claro, offerecendo-lhe a face e o jantar, esquecia tudo, espreguiçava-se

na sua indolencia de senhor e até

--nem tinha vontade de sahir de casa--dizia,

Ermelinda sentia a seu pezar o influxo d'aquella honestidade sã e boa, e

as palavras de Bertha, enchiam-a d'uma claridade intima, que ella

procurava assombrear com a tinta escura do seu ideal corrompido.

Amesquinhava-a, deprimia, pensava em que tudo aquillo podia muito bem

ser uma mentira, uma falsidade..

Mas a protestar contra estas ideias de vileza os objectos mudos pareciam

levantar-se na sua simplicidade de coordenação e bom gosto. Os moveis,

os albuns, os quadros, as musicas, as cortinas de cassa das janellas, as

begonias opulentas nos seus vasos de dez tostões, o chão encerado das

escadas, os metaes das portas polidos como espelhos, tudo revelava um

gosto de aceio, uma alegria de suaves expansões, uma intelligencia

curiosa e activa,

--que ella não podia deixar de reconhecer a final--

--Mas não era ella, não, aquella magra loirinha, que fazia aquelle

milagre; oh, é por que tinha um bom marido, isso sim!--e comparava-o

Alberto com o Doutor, fazendo-lhe a saliencia dos defeitos, dos

vicios que todos os dias se iam revelando com um impudor cynico--

--oh, tivera ella um marido como o outro e veriamos--e o seu espirito

divorciava-se lentamente do espirito do seu esposo, accusando-o de

grosseiro e hypocrita, de menos cavalheiresco, de não ter a fina

comprehensão dos sentimentos delicados do coração feminil.

Isto enchia-a d'uma certa inveja para com Bertha, amesquinhava-lhe a

belleza physica, chamava-lhe uma

--cotovia magra, um carapau de Inglaterra.--

--Ai, a D. Clementina é que a definira bem.--

Bertha offereceu-lhes um calice do Porto, um pequeno _lunch_; estavam na

praia, não fossem ceremoniosos.--

--Não, não acceitavam; tirava-lhes a vontade de jantar; e eram horas,

desculpasse a massada.--

--Nenhuma, absolutamente nenhuma: gosto de os vêr felizes; tão felizes

como ella o era com o seu Roberto--

A Divorciada · 第 25 / 63 题