VII

Na rua de Welesley, a tia Magdalena acabava de frigir a terceira certã

de iscas de bacalhau, uma massa d'um amarello canario, com fragmentos

retalhados de ovo batido,--que ninguem sabia preparar com tanta limpeza

e com tanto _paladar_--dizia ella. O seu corpo baleiforme, d'uma gordura

toucinhosa, curvando-se para pôr o avental, enodoado de manchas

lusidias, levantou-se de subito, quando a Annita lhe entrou na cosinha,

um aspecto pallido, enfermiço, d'umas rosetas carmezim ao meio da face,

e uma tossesinha secca, muito frequente.

--Dá licença, tia Magdalena.

--entra rapariga, já não ha quem te veja.

A Annita ia a responder, mas a tosse interrompeu-a, um accesso brusco,

que ella procurava abafar, collocando um lenço sobre a bocca.

--Trata-me d'essa tosse, pequena, isso é _fraqueira_, queres tu tomar um

caldinho!

Os olhos d'Annita, uns vagos olhos negros, d'uma doçura quebrada,

moveram-se como que a acceder áquelle offerecimento e depois

baixaram-se, mudamente, deixando rolar umas lagrimas furtivas.

A tia Magdalena reparou:

--Tu por que choras, rapariga!

--Se soubesse!...--e Annita, deixando rolar as lagrimas, n'um soluçar

comprimido, os olhos a avermelharem-se, prorompeu rapidamente, como uma

confissão que se deseja fazer depressa:

--Ha uns doze dias que o Alberto não apparece; e sabe... a pequenita,

está tão mal, seccou-me o leite, coitadinha, não faz senão chorar,

aquillo é fome, percebe!...--

--Ora o grande maroto; eu bem te dizia que aquillo nunca te havia de dar

bom pago! Uns tratantes todos, uma corja, é o que é!...--E a tia

Magdalena, n'uma indignação honesta, brandindo a gordurosa faca de

voltar as iscas, com a respiração ruidosa, vermelha do calor do lume,

como uma clamyde vingadora, ameaçava os devassos da boa sociedade,

--uns pelintras, uns paninhos d'armar, e que não deitavam uma de x, se

os virassem de cangalhas, que era o que elles mereciam... uma

forca--concluiu toda offegante, limpando a certã ao avental e

collocando-a sobre as trempes para proceder a uma nova fornada d'iscas.

--E agora sabes que mais, Annita, leve o diabo paixões e trata de te

aproveitares em quanto é tempo.--

--E a pequenita, que lhe havia de fazer, não lhe diria? e depois, sem

saber cousa nenhuma d'elle...

--D'elle, ora não está má essa! que esperas tu d'ali? A estas horas

lembra-se bem de ti! sempre ainda és de bom tempo!...--

--Mas é que isto não póde ser assim entende, tia Magdalena! Não, que não

faltava mais nada! Estar a gente bem collocada, ganhando a sua vida,

senão com honra, por que a boa sorte não é para todas as creaturas, mas

com decencia, com certas commodidades, e vem de lá um senhor todo

palavrinhas doces, promette-nos mundos e fundos e para que... para nos

deixar morrer de fome... ainda se fôra eu só, mas a minha pequerrucha,

coitadinha do anjo... que culpa tem ella...--

E quebrando a violencia da palavra a esta lembrança, triste, soluçante,

as lagrimas a soltarem-se outra vez, desolada, batida pela miseria e

pelo infortunio, como uma pobre planta do mar, que tem o consolo de se

agarrar a uma concha mais debil que ella, no meio das revoltas convulsas

dos elementos, a Annita, com a voz fatigante, entrecortada na macia

suavidade dos doentes, como se tivera pejo da revelação que ia fazer:

--E depois, sabe, tia Magdalena, não sei porque, depois que tenho a

pequerrucha, parece-me que é um crime voltar á vida que levava.--

Magdalena olhou-a espantada, guardou um silencio curto; philosophava

talvez sobre a desigualdade dos destinos, porque ao deitar do alto

um fio d'azeite liquido na certã, que fumegava, n'uma chiadeira

monotona, observou com um certo ar sentencioso:

--A sorte não pode ser a mesma para todos, Annita; cada qual vai-se

sugeitando ao que Nosso Senhor lhe destinou.--

--Isso é verdade, tia Magdalena.--

--Pois então, filha, toma este caldinho e leve o diabo paixões; tu ainda

não és assim nenhuma peste!

E com uns modos brandos, um largo sorriso corrupto, a tia Magdalena

insinuava-se, contava casos identicos, uns casos de que tinham resultado

boas fortunas e muitas raparigas que ella conhecia e que

hoje--accrescentava orgulhosa--andavam ahi no galarim! oh, se andavam! e

algumas a ella lh'o deviam!--

E depois capciosamente, com uma insinuação que se enrosca, a tia

Magdalena promettia-lhe auxilial-a, occorreria ás primeiras despezas,--o

vestido era tudo--dizia--e depois tu m'o pagarás quando poderes.--

--Lá isso, creia, não serei ingrata.--

E mais confortada, com uma resignação de vida nova, pensando um pouco na

miragem que lhe fulgia diante dos olhos, a Annita, saciada a fome, na

plenitude feliz d'um estomago satisfeito, arremeçava a phantasia ao

encontro d'um brazileiro endinheirado, d'um negociante, d'um burguez

honesto que a sustentasse, n'um trem de luxo, casa montada, uns vestidos

espalhafatões e uns brilhantes,--oh, desejava muito uns

brilhantes,--e sahiria com a sua creadinha, muito invejada,

golosamente desejada pelos _dandys_ que estacionavam ás portas dos

cafés, das tabacarias, nas aleas do Palacio--

--mas nunca, havia de se vingar, estava farta de peraltas.--

E um pouco mais positiva, com a licção pratica do infortunio em que ia

resvalando, pensava em aproveitar-se um pouco da flor da sua mocidade, e

depois,--a filhinha era preciso aconchegal-a n'um agasalho de

confortos--d'um collegio, onde a pequena estivesse decentemente

collocada, e que a não importunasse muito a final--concluia.--

Vinham-lhe todos estes pensamentos n'uma confusão adoravel, com uma

effervescencia de cerebro docemente embriagado, sonhando-os ella só, com

uma doce voluptuosidade intima, em quanto a tia Magdalena curvada sobre

o lume espalmava com a faca as iscas amarellas que chiavam n'uma

compressão rugidora e com a outra mão esfregava os olhos blepharaticos,

lacrimejantes com o calor do lume. Lembrou-se da pequerrucha, despediu-se

--havia de voltar, tinham muito em que conversar

--cá te espero, minha brazileira, e olha, vem á tardinha, tenho mais uma

_aquella_ de vagar.--

A Annita sahiu da tasca. Ficava em frente a alameda das Fontainhas, com

as suas sombras frescas, a relva cylindrada, um doce murmurio d'aguas

que cahiam no tanque. A tarde descia lentamente com uma grande preguiça

de creoula, arrastando a sua cauda de luz por sobre a cumiada dos

altos de Villa Nova, dando um tom melancholico de ruina ao velho

convento da Serra do Pilar. O Douro lá em baixo, n'uma mansidão lassida,

quasi parado, deixava-se cortar em espadanas de crystal pelos remos

curvos dos barcos _rabellos_, um tanto primitivos, que iam navegando

lentamente.

Mirones melancholicos, com um ar romantico, se encostavam ao paredão

contemplando a paisagem n'uma grande mudez admirativa e ociosa, em

quanto em baixo as lavadeiras batendo a roupa, cantavam alegremente,

amenisando o trabalho.

A Annita sentia-se possuida d'aquella beatitude pantheista; o seu

espirito resfolegava alegrias, o corpo sentia-se leve, como que

impregnado d'um ether ligeiro, que a estonteasse de felicidade,

fazendo-a voar na mansidão do azul, como as aves brancas que atravessam

o espaço. Toda ella delineava bellos sonhos aereos, phantasias gentis,

castellos d'Hespanha rendilhados de luz, que nada parecia poder destruir.

--Seria rica e feliz! A sua filhinha teria sempre vestidos brancos, a

cinta enlaçada por uma larga fita côr de rosa, e um chapeu pequenino de

palha d'arroz, feito na melhor modista. E sahiriam juntas, ella toda

cingida n'um vestido de velludo côr granada, a côr da moda, o sapatinho

aberto a desvelar as meias de seda, um chapeu modelo, toda perfumada,

com o bello aroma d'essencias caras--havia de ser do Jockey-Club, que o

Alberto tanto gostava--

--mas ao recordar este nome uma sombra escura perpassava ennevoando

aquelle sorrir intimo, como uma nuvem que empana o sol, ou um signal

negro que poisa no branco setim d'uma pelle avelludada.

--Ora, que lhe importava! Era um canalha, estava dito.--E evolando-se

outra vez ao ceu das suas phantasias, pensava então em como havia de ter

a sua casa, um primeiro andar com mobilia de pau setim, tapetado de modo

que ella não sentisse o ruido dos seus passos, e uma ottomana toda

macia, com boas molas doces, onde podesse recostar-se languidamente a

pensar em coisa nenhuma. Ficára-lhe a voluptuosidade preguiçosa dos

divans, do seu tempo de _cocotte_;--e teria um piano, sim, era decente,

ella não sabia tocar, mas a pequerrucha aprenderia!--além d'isso ella

gostava de musica, sensibilisava-a, dava-lhe um poucochinho a doce

voluptuosidade dos enervamentos molles e--lembrava-se sobretudo dos

fadinhos chorados na guitarra, que tanto a enterneciam.--

Mas dous brazileiros vinham do outro lado da alameda; um d'elles, usando

oculos, pareceu olhal-a com attenção; questionavam em grandes gestos

largos. A Annita pensou em que elles seriam muito ricos.

--Si lh'o digo eu, homem! se casa ella! esta manhã o Juca contou na loja

do Guimarães, que tinham já assignado as escripturas.--

--Mas se elle não tem aonde cahir morto! olha quem, o Alberto!

--Herdou d'uma tia da provincia, você sabe?

--Historias, aquelle passaro não entra em gaiola minha, não, essa lhe

digo eu! Conheço de ha muito o Alberto de Sá!

A Annita sentiu-se intrigada, alguma cousa de occulto que se revelava,

estonteando-a.

--Ah, pois era possivel! Aquelle canalha ia casar-se! E ella, e a

filha!... que pulha, que miseravel!--

E desejava ouvir, interrogar os brazileiros; saber se era d'elle, que

realmente se tratava. Approximou-se, tinha uma grande agudeza d'ouvido,

precisava não perder um som. O brazileiro dos oculos não deixava de a

fitar de vez em quando.--Se podesse fallar-lhe.--

--pois é verdade, é!... concluiu o brazileiro, bamboleando o guarda-sol,

e abrindo os braços, n'um gesto largo, de quem não duvida.--E depois um

pouco artista:--

--Bonito panorama, commendador!...

--Ah, nada qui chegue ás vistas di Petropolis! e o morro do pão

d'Assucar, ao entrar a barra, não gosta você?

--Admiravel, lhe digo então!

O homem dos oculos continuava a fitar a Annita, que um pouco mais longe,

o corpo gracioso, curvando-se um pouco sobre o paredão, fingia olhar o

Douro. O companheiro notou-lhe uma certa distracção.

--Qui tem você, commendador?

--Não reparou o amigo Lourenço n'aquella moça que está além!...

--Maganão!--disse, batendo-lhe uma palmadinha no hombro.

--Não, mas repare, se parece ella muito com a Ermelinda, do Jorge!

--É verdade! Ah, ah, quem ella é!... desatou o Lourenço n'uma

reminiscencia subita.

--Você conhece ella?

--Se conheço! É a Annita, uma moça que já esteve ahi por certas casas,

ein, e depois sahiu, creio que para a companhia d'alguem, o commendador

comprehende?--

--Ah, ah, pois se parecia ella muito com a Ermelinda, ia jurar que eram

irmãs as duas, ora já viu...

--O diabo o jurasse.--E riram muito, dobrando os grossos ventres em

contracções diaphragmaticas, as bochechas dilatadas, no espapamento

obscuro de alegrias alvares.

O Lourenço despediu-se, tinha que fallar com o Mendes, ficara de estar

com elle no café Suisso, e instava para que o commendador o acompanhasse

--ficava mais um poucochinho, lhe agradava muito aquelle panorama.

--Oh, era sublime!

--Até logo!

--Até logo, no hotel, ein, para a partida do sólo.

O commendador viu o Lourenço subir a rua de S. Lazaro e continuou a

passear na alameda, abstracto, um pouco descuidoso de si, como se

caminhara embalado na serenidade doce d'aquella natureza que se lhe

desenrolava diante! Havia um pensamento latente, que phosphorecia lá

dentro, na solidão do seu espirito, e ora se apagava, ora

reapparecia, para tornar a fugir, alguma cousa de errante, que elle não

podia condensar n'um raciocinio logico, e bem seguro, como fazia a uma

somma de cifras dispersas. Escapavam-lhe phrases soltas, entrecortadas:

--Mas é isto feitiçária, de certo, eu tenho ouvido fallar n'essas coisas!

E reconcentrava-se, recolhendo a si a ideação que se evolava, como as

creanças recolhem os papagaios de papel fluctuantes e moveis, que se

alam no espaço.

A Annita passou por elle, toda gracil e acariciadora, um bom sorriso a

colorir-lhe os labios veludineos, o corpo meneando-se n'um movimento

furtivo, de corça domesticada. O commendador reparou n'ella e exclamou:

--Muito se parece o demonio da moça!

E, seguiu-a com o olhar, n'uma attracção inconsciente, pensando talvez

em Ermelinda, que via reproduzir-se no corpo esbelto e delgado d'Annita,

uma attitude de _gaucherie_, um pouco trocista, que lhe recordava o

baile de casa do Mendes. E naturalmente foi-a seguindo, com uma

docilidade de idiota, irreflectida, de desejo que se abre fustigando o

instincto, e avassalando, n'um despotismo intransigente, todas as ideias

sãs, que poderiam nascer. A Annita percebeu isto mesmo, e mais

provocante, um poucochinho _cocotte_, tomando um ar garrido, de

honestidade duvidosa, caminhava lentamente, á _se laisser prendre_,

fingindo-se embevecida na grande obra d'arte, a ponte Maria Pia, que se

estendia, como um arco de madresilvas, de montanha a montanha,

esbatendo-se então, na doce luz crepuscular. E o brazileiro,

ouvindo-lhe já a respiração, o _frou-frou_ do vestido, quasi a par:

--Me dá uma palavra, sinhásinha.

* * * * *

Depois de deixar o brazileiro, Annita dirigiu-se lestamente para casa,

cantarolando uma musica em voga, um fragmento d'opereta; chilreava-lhe a

alma a umas esperanças fagueiras, que desciam envolvendo-a, n'uns sonhos

embriagantes de felicidade. Preparava o seu plano de ataque para a

primeira entrevista com o commendador; estudava todas as seducções, que

o estonteassem, todas as _ficelles_ que podessem prendel-o; adivinhava

que precisava andar differentemente com elle, cortar pelos espalhaphatos

pelintras de _cocotte_, e fazer-se honesta, um poucochinho séria,

mostrando ainda assim a garra de _diable_ por debaixo da apparencia

avelludada das caricias affectuosas.

N'estas disposições subiu a escada; um gemido debil, de creança

exhaurida de chorar, cortou-lhe os vôos á aza da phantasia, e vendo no

berço aquelle rosto branco, muito chupadinho, com os olhos pretos

docemente embutidos na côr lactea da pelle, tomou-a carinhosamente,

aconchegou-a ao peito, que a pequena procurou com ávida anciedade, mas

que largou logo, chorando, n'um vagido de fome.

--Deixa que tambem ha-de chegar a tua vez, meu querido amorsinho,--e

depôl-a no berço, principiando a embalal-a, n'uma melopeia monotona,

que a adormentasse.

Um luar doce, d'uma voluptuosidade estival, entrava pela janella,

clareando o quarto; e a Annita, sentada junto ao berço, ao ruido

cadenciado d'aquellas oscillações, mergulhava o seu espirito n'essa

photosphera de saudade, que vive na alma de cada um de nós e que ella

uma vez soubera possuir com o eleito do seu coração, um bom rapaz da

provincia, o seu primeiro amor, ambos cheios d'uma mocidade fresca e

alegre, pobres os dois, mas unidos contra a adversidade, mãos dadas no

caminho aspero da vida!

--Oh, que fatal ideia a sua em querer vir para a cidade, ser rico,

trabalhar muito!

Morrera, victima da grande lucta, da immensa peleja e ella, só, bonita

talvez, requestada, adquirindo habitos de luxo, um pouco preguiçosa,

adormecida na saudade d'aquelle primeiro golpe, deixara-se resvalar,

cahira... e... dentro em pouco via-se adorada por muitos homens,

chamavam-lhe a Annoca, a _gatinha parda_, sabia ter graça, e era a mais

procurada d'entre as suas irmãs de infortunio... E depois o Alberto

insinuara-se no seu coração, queria ter um _amante_ tambem, um janota,

um dandy, estava farta d'aquelles imbecis que a procuravam a preço

d'ouro, por instantes curtos.

--elle fôra a sua desgraça!... E confrontava, achava miseravel aquella

pocilga aonde elle a mettera, promettendo-lhe cada dia cousa melhor e

isto havia um anno e depois--a filhinha viera... para cumulo das suas

desventuras.--

--Ah, seria bom ser mãe, quando se era rica!... mas assim, que

miseria!...--

Despontava então a imagem da sua nova conquista, o brazileiro, e ella,

affagando uns sonhos de ventura, curvava-se sobre o berço, segredando

com a filha, como se ella a podesse entender!

Bateram á porta n'este instante. A Annita levantou-se, foi abrir, e um

raio de luar, apanhando a entrada n'um espaço vedado, illuminou a figura

elegante de Alberto. Sentiu-se afogueada, alguma cousa como o despontar

d'uma revolta, que a sacudia. E muito ironica:

--Bravo, sim senhor, a boas horas!--

--Ás horas que me apraz--respondeu seccamente, atirando comsigo para uma

cadeira e accendendo tranquillamente um charuto.

A Annita ficou a olhal-o, de braços cruzados, o cerebro paralysado por

aquella entrada brusca, indecisa; mas depois recobrando-se d'aquelle

silencio, sempre ironica:

--Dou os parabéns a V. Ex.ª--

O Alberto relanceou sobre ella o seu olhar, conheceu que a Annita sabia

das suas novas resoluções!--Ah, isso evitava-lhe trabalho, estimava-o--e

alto:

--Obrigado! e ainda bem que o sabes! Isto assim como assim tinha de

acabar; não era possivel!

--Não era, não!

--Vamos, não te zangues; sê boa rapariga!--E levantando-se,

approximou-se d'Annita, tomando-lhe as mãos, aconchegando-a a si. Mas

ella fez um movimento rapido, desprendeu-se, e, torrentuosa,

quebrando a transparencia das ironias,

--Seu pulha, seu miseravel! pensava que era só roubar-me a tranquilidade

e o bem-estar, trazendo-me para esta pocilga, vendendo as poucas joias

que eu tinha, mentindo-me sempre, arranjando-me uma filha e agora, por

aqui é o caminho! Não que elle não é senão casar com a sr.ª D.

Ermelinda! Ora até o diabo se ria! Ahi tem a sua filha, leve-a, faça

presente d'ella á sua noiva e para cá as minhas jóias, ouviu!--

O Alberto recebeu esta saraivada, com um ar pallido, d'um sorriso

sarcastico, trauteando a sr.ª Angot, e pondo o chapeu na cabeça:

--Até mais ver, _gatinha parda_!

A Divorciada · 第 22 / 63 题