--onze horas, minha senhora...
--credo, muito nos demoramos hoje.
E cobriam os agasalhos, n'um conforto macio, dizendo-se adeus. A D.
Clementina e o commendador eram os primeiros a sahir, depois o Alberto
despedia-se ceremonioso para com o Jorge, volvendo o olhar d'uma
tristeza saudosa para Ermelinda, que promettia, por leves signaes
trocados, fallar da janella na noite seguinte, emquanto o pae estivesse
no Club. A D. Gabriella era a ultima, e dava sempre um beijo na
Ermelinda, chamando-lhe--a sua filha--e um _shake-hands_ ao pae, d'uma
expressão significativa, forte como uma velha esperança. Depois a
Ermelinda dava as--boas noutes ao papá--que ficava ainda a lêr o
«Commercio» n'uma tranquilidade pacata, de chinellas bordadas a tapete.
Mas não eram essas as noites em que mais se expandia, em candido voejar,
a imaginação ardente dos namorados. A companhia era sempre um obstaculo,
um _non plus ultra_ á sua phantasia sonhadora, á idealidade rutilante
das suas imagens de prazer.
--Que aborrecimento ter de aturar a velha historia do Totó, contada pela
D. Clementina, e a phonetica de sabiá do commendador e os vv, silvados
da D. Gabriella.--
--Ah, como era bom estarem elles sós os tres em volta da _jardinière_, o
Jorge lendo o Commercio, interrompendo-se apenas para narrar um
caso--que podia ser fatal--e o Alberto folheando os albuns, sentindo
descer sobre si a respiração suave de Ermelinda, occulta na meia sombra
do _abat-jour_, trabalhando silenciosamente no seu bordado.
--ou então, quando Ermelinda se sentava ao piano, tocando uma musica
triste, entornando umas melodias melancholicas por sobre a sua alma de
_crevè_, dando-lhe umas sensações deliciosas que o amorneciam--
--e depois que momentos felizes quando o Jorge por um motivo qualquer
tinha de se ausentar da sala, ficando sós, os dous, na plenitude livre
do seu amor, que irrompia, como um riso torrentuoso, n'uma caudal
indomita de beijos...
--Oh, Alberto, Alberto, que fazes!...
--perdoa-me, é uma loucura, mas eu amo-te, e soffro... soffro d'este
amor--e ajoelhava-se, n'uma supplica humilde, urgente, que a dominava,
tornando-a tremula...
Mas o Jorge vinha, e a sua presença, como um _douche_ gelado por cima
d'aquelle incendio, acalmava-os, fazendo-os retomar atrapalhadamente os
objectos em que se entretinham antes d'elle sahir.
Sob estas fustigações incitantes a força psychica accumulava-se,
polarisando-se reciprocamente n'um magnetismo mysterioso, que os
attrahia um para o outro.
--Só a morte nos separará--diziam dominados ainda pela excitação
recebida, sob a impressão candente d'um beijo d'amor, d'uma emoção
fortemente sentida. Essa força latente, que se accumulava, podendo
explosir com uma violencia vulcanica, reclamava o casamento, a união
reciproca, como uma valvula de segurança, por onde podesse respirar a
paixão, amortecendo-se na atmosphera pacifica da vida vulgar, em commum.
Conheciam-se pouco, mas... que importava!... amar-se-hiam muito... o
conhecimento viria depois... havia apenas um mez que Alberto tinha
entrada em casa; mas
--havia seis mezes que o namorava--dizia Ermelinda--e o coração não a
podia illudir... não... era o seu verdadeiro amor aquelle...--
E fluctuavam-lhe vagamente, n'uma indecisão esvahecida, as
reminiscencias dos seus outros namorados;
--Uns pulhas, a final!... E depois eu era creança! tolices...--
E tratou-se do casamento. O Alberto tinha sobre tudo um grande interesse
em apressar esse enlace. Dizia ao Jorge:
--que estava só, que desejava conhecer a verdadeira felicidade...
--a que se encontra unicamente no lar domestico--ponderava o director do
Banco.--
--justamente, aquella que só póde vir dos carinhos affectuosos da
familia--concordava...
E lá de si para si pensava:
--que era preciso effectuar a cousa, emquanto durava o dinheiro da
_batota_, emquanto elle estava com a _leiteira_, a sorte que o protegia
nas noites do Porto, e nos dias de roleta, na Povoa... podia vir o azar
e lá ia tudo, com os diabos...--
E de vez em quando affectando alguma difficuldade em collocar algum
capital, aconselhava-se com o Jorge, interrogando-o
--de como se desfaria d'umas propriedadesitas na provincia, se seria melhor
conserval-as--e entregava-lhe algumas notas de cem, duzentos mil réis, que
dizia provirem d'uns pagamentos de fóros, havia pouco recebidos.--
O Jorge sentia vontade de o abraçar.
--Um genro magnifico--pensava--e diziam por ahi que era um estroina, um
jogador, um bebado; a gente quebra, rapaziadas!...--
E foi elle o primeiro a ceder ás instantes solicitações de Alberto,
preparando tudo, aplanando todos os pequenos obstaculos, comprando uma
mobilia nova para o quarto dos noivos, e outra para a sala de visitas.
--Agradecia-lhe ainda a delicadeza de o não quererem affastar, de
viverem juntos; a separação, a deslocação brusca dos seus habitos
matal-o-ia, tinha d'isso a convicção.--
Havia apenas em casa uma pessoa que não sympathisava com o Alberto; era
a Joaquina. Um instincto puramente animal a revoltava contra aquella
peralta,--que viria pôr a casa n'uma roda viva; e depois embirrava-lhe
com o _focinho_,
--seria muito bom, seria, mas á missa d'ella é que elle não ia...--
E ás vezes, das suas meditações, ao engommar as brancas saias de
Ermelinda, resaltava uma queixa, um repellão de revolta contra tudo
aquillo.
--Boa, não que se a cousa não fosse direita ella _raspava-se_, por ali
era o caminho--
e dilatava as bochechas, n'um movimento de folle, soprando ao ferro de
brunir
--amizade á menina, como o outro que diz, tinha, lá isso tinha, a gente
a viver com ella ha quinze annos, erro fôra... mas adeus, que se
aguentem... e hão-de-me sentir a falta, não que outra Joaquina não lhes
vem cá tão cedo...--
Enchia-se d'uma vaidade esbofada, do amor proprio da sua utilidade
affirmada todos os instantes, na cosinha, no engommar, no arranjo e
limpeza dos moveis.
--Boa--continuava--é vêr as criadas que ha hoje por ahi; cada qual faz o
seu serviço e disse... eu sou aqui uma moura de trabalho... adeus,
tambem... o trabalho não custa, quando a gente tem saude, graças a
Deus... e depois se eu quizer sahir... uih!... casas não me faltam...
são assim...--e aprumava os dedos, n'uma accumulação collectiva, que
indicava uma forte abundancia numerica...
--mas, lá, o tal senhor, não lhe engraçava com os bigodes... ainda se
fôra o commendador... aquillo sim, que era um regalo de homem e pezava,
bem se via nos brilhantes que elle trazia na camisa... mas estas meninas
de hoje só querem bonifrates... e elle então que andava babadinho por
ella, isso conhecia-o ella... oh, se conhecia...--
E a Joaquina, evocando umas cantigas do seu Minho, cantarolava,
continuando a pôr nas saias uma brancura luzente de stearina.
Tinha então os seus trinta e cinco annos talvez; viera para casa do
Jorge com doze annos apenas para ser a criada da menina e fôra
crescendo, tornando-se prestavel, amorosa para com todos, muito
serviçal; tinha sobre tudo uma amizade animal por Ermelinda, a sua
menina, que tantas vezes trouxera ao collo, com quem tantas vezes
brincara... A familia do Jorge era a sua familia, e principalmente,
depois que a senhora morrera, a Joaquina tomara um certo predominio na
casa, o predominio da utilidade, do prestimo positivo, da sciencia
pratica das cousas. E foram-lhe assim passando, n'aquelle deslisar
monotonamente suave, os dias formosos da sua mocidade; chegara a ter um
namoro, dous até, o primeiro com um rapaz marceneiro, que morrera no
hospital, o segundo com um policia, que representava o papel de
Falstaff, no céo da sua innocencia de bicho de cosinha... Mas tudo isso
acabara, esvaecera-se lentamente, como um arroyo de verão que sécca,
deixando umas areias fulvas na sua passagem; e a Joaquina um poucochinho
gorda, aceiada, d'um loiro branco dos temperamentos lymphaticos,
espapava-se agora n'aquella tranquilidade da familia, contente com a sua
sorte, sem as revoltas instinctivas do servo. A molleza apathica do seu
temperamento adormentara-lhe as imposições estimulantes da carne; e
laboriosa como uma formiga, entregue sempre á tarefa assidua do
trabalho, esquecia-se que resvalava pouco a pouco n'esse plano inclinado
da vida da mulher, em que as brancas matizam a cabeça e as rugas se
aninham na face, desfeiando-a, com as garatujas d'uma tatuagem a carvão.
Mas aos Domingos, nos dias de ocio, em que o corpo se sentia
resfolegado das canceiras do trabalho, e o jantar era um poucochinho
mais copioso, com uns estimulos de acepipes apimentados, a Joaquina
experimentava umas mordicações acirrantes do instincto e deitava-se na
cama, extasiando-se na brancura polposa dos seus seios e suspirando,
n'uma recordação entre odiosa e doce pelo seu segundo namoro, o bravo
agente da ordem, o policia 45.
Mas aquillo passava, como uma ligeira effervescencia e o trabalho
adormentava de novo o tumulto provocado d'aquella natureza apathica, que
continuava tranquillamente na curva suave da sua existencia.