Ainda n'aquella noute o Alberto deixára de apparecer. No dia immediato
era Domingo.
Os moveis quietos, n'uma ordem respeitavel, com uma seriedade
burocratica, esperavam as _visitas_; tudo arrumado, polido, com grandes
vaidades de limpesa. Tinham-se renovado as flores das jarras, de vidro
fosco, com uns ramos de rosas pintadas no seu ventre bojudo; nem uma
cadeira fóra do seu logar, nem um jornal sobre a _jardiniere_, toda
aceiada com o seu panno de largas bordaduras, nem uma musica aberta
sobre o piano, nem uma planta que se não houvesse regado, nem um
album que não estivesse cuidadosamente fechado; uma falta emfim d'essa
desordem adoravel, immensamente artistica, que prende o espirito ao
ambiente salutar e alegre da sala de trabalho.
Dentro, nos quartos, a contrastar com essa monotonia aceiada para os que
vem de fóra, sem descalçar as luvas, analysar os nossos albuns e
criticar os nossos moveis, uma desordem perturbadora, preguiçosa, reles,
cortada pelo cheiro ammoniacal de roupa suja, espalhada no chão, sobre
as cadeiras, n'um monte desordenado. A commoda d'Ermelinda, com as suas
gavetas abertas, ostentava brancuras de saias, de penteadores, de
camisinhas, e umas pequenas caixas de cartão, com estampas
lithografadas, d'onde sahiam perfumes e folhas seccas, aromaticas. O
cofresinho das joias abria-se indiscreto patenteando objectos d'ouro com
finas perolas, brilhantes miudos, como olhares luminosos que pareciam
espreitar da mollesa macia do setim azul.
Ermelinda toda opprimida no seu vestido de _foulard_ cinzento, a manga
um pouco larga, tomou uma manilha estreita e com um vagar indolente,
embevecendo-se na penugem negra do seu braço, enrolou-a, correndo-a por
sobre a carne, ao arrepio, até onde pôde seguir o arco da pulseira.
Depois, ao calçar as luvas, ais abafados lhe sahiam do peito,
suspirosos, como se reflectissem ainda as vibrações d'aquella crise
nervosa, porque a sua alma houvera passado nos dias ultimos.
Mas o Jorge, que passeava lentamente na sala, ainda com o palito ao
canto da boca, esquecido, com a meditação suspensa de calculos
financeiros, de cotações da Bolsa, o fato endomingado, a camisa branca
sobre que assentava a gravata preta de setim, um pouco impaciente já:
--Então vens d'ahi hoje, menina?
--Já vou, papá, já vou.--
E mais apressada, olhando-se ao espelho uma vez ainda, pregando um novo
alfinete no collo do vestido, Ermelinda fechou a porta do quarto, e
voltando-se para dentro:
--Prompta.
--Já não era sem tempo! isto de mulheres!--
No portal Ermelinda fazia o apanhado, que rangia n'um _frou-frou_ de
fazenda nova; emquanto a Joaquina de cima espreitava para os ver sahir,
elles combinavam o passeio, consultavam-se sobre o caminho a seguir.
--Que era melhor ir primeiro á missa--dizia Ermelinda--e depois
voltariam pelo jardim, ou iriam ao Palacio.
--Seria como ella dizia--concordava o Jorge.
E os dous, na plenitude vaidosa do luxo de Domingo, tomando apenas os
passeios da rua, reverenciando as pessoas conhecidas, com um ar todo
festival, de superioridade engrandecida, e de roupa lustrosa, seguiam
para a Trindade, para a missa das onze. Homens á porta accumulavam-se
vedando o caminho, e em frente, no atrio da Assembleia os dandys do
Porto, fallando de cavallos e de jogo, ou contando anedoctas indecentes,
estalavam grandes risadas que os faziam contorcer em posições ridiculas,
funambulescas, dobrando-se, dando palmadinhas sobre as coxas.
O Alberto estava entre elles, e ao ver passar Ermelinda, toda comprimida
no seu vestido, o seu bello olhar profundamente negro, a epiderme morena
um pouco empallidecida, exhalando frescura, sentiu um desejo mordente de
entrevistas nocturnas, de _têtes-à-têtes_ amorosos, chegados um do
outro, a cintura enlaçada, as respirações confundindo-se.
E quando o Jorge passou, cortejando palacianamente os seus amigos, elle
notou que Ermelinda, ao havel-o reconhecido, voltara o rosto
desdenhosamente, sem que denotasse no olhar sequer uma interrogação, uma
queixa, um desespero.
Os outros, que sabiam do namoro, perguntaram curiosamente:
--O que tinha havido, se as relações estavam cortadas?--e ao verem que o
Alberto balbuciava, riram estrondosamente, beliscando-lhe o amor proprio.
Um mais intimo acercou-se d'elle:
--Se tinha cahido--perguntou.
--Deixa-me--respondeu bruscamente e partiu na direcção da Egreja, a
badine agitada, n'uma convulsão de phrenesi.
--Bravissimo! Romeu feito Tartufo!...--e batiam as palmas, rindo da
pilheria, muito contentes da sua imbecilidade enfatuada.
O padre sahia n'este momento da sachristia; um murmurio rumoroso se
levantava entre a multidão que ajoelhava; as damas abriam os livros de
missa, fazendo rugir estrepitosamente as saias engommadas, os _failles_
novos, emquanto os homens, na seriedade dos seus casacos pretos,
amontoando-se a um lado, estendiam lenços brancos, como genuflexorios. Uma
luz suave cahia das janellas do côro derramando tons sanguineos, de
damascos vermelhos, sobre as senhoras que ficavam n'aquella direcção,
emquanto uma penumbra doce envolvia todo o resto. Destacavam dos corredores
familias retardatarias; as meninas estouvadinhas, adiante, acommodando-se
em passos miudos, como as aves que poisam, fitavam os homens com uma
curiosidade muito feminil e cochichavam, reconhecendo alguem.
Houve um prurido devoto quando principiou a missa; os labios moveram-se
silenciosamente; os olhos cravaram-se nos livros; as beatas faziam
deslisar com avidez as contas untuosas; mas pouco a pouco o narcotismo
das coisas monotonas ia-se derramando, causando tedios; bocejos
disfarçados escondiam-se por detraz dos lenços brancos e os homens, com
uma obstinação sensual, de namoradores vadios, apreciavam os melhores
bocados, faziam _vistas_. _Crevés_ de risca ao meio, muito aromatisados
de _patchouli_, as luvas a estalar, cofiavam os pequeninos bigodes,
fazendo _signaes_; e no fundo escuro das copas dos chapeus, cartas de
namoro destacavam, impondo-se ás burguesinhas sentimentaes, que
esperavam o aperto da sahida, no portico.
A Ermelinda estava proxima da Adelaide Mendes; o Alberto ficou em frente
com o Juca, o sobrinho do brazileiro. Confidenciavam.
--E então a mulher do commendador, conta-me essa historia, menino?--
--Nem lhe falasse em tal! Ridiculo... simplesmente!
--Ah, ah! E o marido?
--Que era o mais santo dos maridos! Uma pomba!... tinha ido com ella
para o Bussaco esconder as maguas na verdura dos cedros!...
--Mas apanhou-te!...
--Shoking!... respondeu encolhendo os hombros.
E em quanto o Juca o asseteava de perguntas, muito minucioso, querendo
saber tudo, o Alberto olhava devoradoramente Ermelinda, torcendo o
bigode, mordendo-o, franzindo o sobre-olho, n'uma attitude de irritação
concentrada. Mas ella, muito seria, muito devota, poisando os bellos
olhos no livro de missa, fingia não vel-o, entregando-se toda ao amor
divino, e gosando com uma beatitude recompensada, a impaciencia que
percebia manifestar-se n'elle.
A Adelaide Mendes segredou-lhe ao ouvido:
--Que o Alberto estava com o Juca, se já o tinha visto...
--Que sim, era-lhe indifferente.
--Então andaes _arrufados_?
--Não, mas... tinham-lhe passado os enthusiasmos.
--E está de luto! quem lhe morreu? sabes?
--Não, que não sabia!--e vesgamente, no estrabismo de quem quer ver sem
que os outros dêem por isso, a filha do Jorge observava o Alberto,
pondo-se a si mesma o ponto de interrogação d'aquelle vestir lutuoso.
--Se seria algum parente da provincia--pensava--e que elle tivesse
de partir sem a poder avisar!... ah, sempre era então desculpavel--e
enternecia, amollecendo a asperesa do olhar, quebrando-a no vago fluido
dos olhos d'elle, que sentia poisar sobre todo o seu corpo, absorvendo-a.
Mas a campainha do coadjutor principiava a vibrar; corpos se curvaram
n'um mysticismo reverente e ouviam-se os peitos echoar no tympanismo das
contricções. O padre elevava serenamente a hostia, devagar com uma
grande lentidão ceremoniosa! E depois, um silencio demorado, até que a
campainha vibrou de novo mais forte, com sonoridade, como que
dispensando as attenções; lenços se recolhiam no escuro das algibeiras e
os homens tomavam uma _pose_ mais elegante, o tronco direito. A benção
desceu e todos, recurvando-se um pouco, se persignaram rapidamente, com
desdem, voltando-se, comprimentando ceremoniosos, com a cabeça. O povo
começava a evacuar a egreja, n'um ruido de tropel, confusamente, de quem
quer sahir primeiro. E as senhoras mais atraz, sorrindo, beijavam-se,
fechando os livros. Os conhecidos vinham, comprimentavam.
--Suffocava-se um pouco,--
e lá fóra um sol alegre, primaveral, que brincava atravez do reposteiro,
penetrando no templo, na instantaneidade da luz, quando alguem sahia.
Grupos se formavam. A Adelaide Mendes, a Ermelinda, a D. Carola, e
envolvendo-as como n'uma circumferencia de respeito, o Juca de chapeu na
mão abanando-se, com a desenvoltura d'um frequentador do Circo, o
Jorge todo grave, um sorriso a escoar-se dos labios escanhoados para as
suissas grisalhas, nitidamente penteadas, e o Alberto, n'uma _pose_
melancholica, o chapeu sobre o quadril, todo de preto, com uns grandes
ares romanticos e tristes.
O Jorge por uma polidez excessiva perguntou:
--Se fôra alguem de sua familia, que havia fallecido?--
--sua tia, D. Joanna de Atayde, lá na provincia, uma boa velha que quasi
lhe fôra mãe e que até na morte o considera filho!
--deixando-te herdeiro, ein?--interveio o Juca:--
--que sim, que deixara, mas que sobre tudo lhe sentia a falta, um
coração de santa!...
--os meus sentimentos--comprimentou gravemente o Jorge.
--pois olha menino, eu dou-te os meus parabens; e de mais a mais sendo
ella velha!...--
Poz nos labios um sorriso amargurado como unica resposta. As senhoras
tinham ouvido, e ellas tambem davam os seus pezames, tomavam parte na
sua dôr;
--que eram consolações amigas, suaves como um balsamo--respondeu.
E quando Ermelinda lhe apertou a mão, foi já com uma compassividade
meiga no olhar,--perdoando, sabendo em fim o motivo.--
Foram sahindo. Iam todos para a Cordoaria ouvir musica,--era a banda do
dezoito que tocava, tinha visto isso no «Commercio»--dizia o Jorge--
--e o snr. Alberto se recolhia á provincia,--perguntava.--
--que não, ou talvez o fizesse temporariamente!... Venderia as
propriedades e metteria o dinheiro em qualquer banco; além d'isso era
preciso pagar as dividas de rapaz, tornar-se em fim homem sério!
--Tu!--desatou a rir o Juca.
--E porque não--observou o Jorge n'um tom amigavel de reprehensão--ainda
está verde este diabrete--indicou sorrindo, apontando-o ao Alberto, com
o grosso pollegar da sua luva escura--que fazia muito bem, denotava
muito nobres sentimentos, todos tinham tido as suas rapaziadas, mas lá
vinha um dia... em que se tomava juizo--aconselhava.--
--faria por tomal-o elle tambem!--respondeu sério, n'um tom accentuado,
de novas resoluções emprehendidas.
E emquanto o Jorge se enchia por elle d'uma sympathia calculada,
vendo-o, regenerado, vivendo na boa sociedade, elegante e fidalgo, e de
resto, namorando a sua Ermelinda, que poderia vir a ser sua esposa, o
Alberto, num sorriso intimo, de bom comediante, acariciando o bigode:
--Estás cahido--meditava.
V
O commendador Faria vestia-se no seu gabinete do _Hotel_; tinha um
grande apuro de si proprio, muito escanhoado, o cabello lusidio de
pomada, a risca ao lado, as barbas muito penteadas, a camisa d'uma
brancura anilada com ricos botões de brilhantes. Tirou do bolso um
chronometro inglez, de setenta libras--dez horas ein, e se esquecia de
almoçar!--
e vestindo o casaco, dando o nó da gravata, ageitando os oculos em
frente do espelho, foi abrir a janella do quarto; mas recuou, teve um
movimento instinctivo de retirada,
--que caiporismo de mulher, não largava um homem, parecia _Mineira_,
ella, que grande massada--
alto, porém, sorrindo, comprimentou a D. Clementina do Rosario, fez
oscillar a sua grossa cabeça com um bello ar de amabilidade, teve mesmo
uma phrase galante para com a visinha, que todos os dias, n'um rigor
chronometrico de vinte e quatro horas, o asseteava com a sua carnação
copiosa e fresca, o collo alvo da brancura lactea das camellias, e um
sulco escuro, que descia, n'uma curva insinuante, attrahindo o
brazileiro, cuja janella um pouco superior lhe offerecia as vantagens
d'uma contemplação a _vol d'oiseau_.
--Uma manhã muito fresca--dizia--appetecia um passeio pelo campo--
--elle então que precisava tomar seus banhos em Vizella.
--e quem o impedia, ella talvez para lá fosse tambem aquelle anno--
--mas tinha seus negocios, que não havia outro motivo, não...
--na idade d'elle...
--quarenta e cinco, D. Clementina, já cá estatavam quarenta e cinco--
--que era isso! e ninguem o dizia, tão bem conservado.--
Sorria-se.
Um trem passava levando as palavras no ruidoso estremecer dos seus
movimentos; vendilhões apregoavam, e a D. Clementina, na impossibilidade
de atirar amabilidades para a janella do commendador, enviava uns
sorrisos pudicos, d'uma honestidade quarentona, como ainda sabiam
fazel-os os seus labios de purpura desbotada. E depois, quando voltou
uma intermittencia de silencio, que permittia a transmissão da voz,
erguendo-se um pouco, n'uma flexão tetanica de collo, muito novedadeira:
--Então sabe que Ermelinda casa!
--não, não sabia, boatos talvez--
--qual historia; era verdade, podia ella affiançal-o; estivera lá em
casa ainda hontem; o commendador é que apparecia poucas vezes agora...,
e não fazia mau casamento... o Alberto herdara d'uma tia--
--pois não sabia, não sabia!...
e o commendador deixando cahir mollemente a sua affirmativa, sentia
passar na sua memoria avivada, como n'um kaleidoscopo, em que as imagens
se succedem, aquella _soirée_ de casa do Mendes, a sua infelicidade ao
_sólo_, e seu enleio a dansar os Lanceiros, quando a Ermelinda um tanto
_coquette_, envolvendo-o na doçura quente do seu olhar, exhalando aromas
subtis, que embriagavam, lhe sorria acariciadora, mostrando a
brancura dos seus dentes eguaes, e um collo decotado, suavemente
trigueiro, onde poisava um formoso signal escuro.
E depois a noute de insomnia que elle passara, affagando aquella imagem
que fugia, esvaindo-se na penumbra pallida das suas ideias desfallecentes.
O seu coração tivera então umas pulsações mais desordenadas, alguma
cousa de estranho, como a onda d'uma vida nova, que elle nunca tinha
experimentado. Lembrava-se que só uma vez sentira uma impressão quasi
analoga, a bordo d'um paquete, por uma _lady_ ingleza, de meigo olhar
azul, que lia melancholicamente no tombadilho, á tarde, quando o sol
cahia em irradiações douradas na linha do poente e se via a helice abrir
um sulco nevado, de espumosa brancura, no dorso azul do grande mar
dormente. Mas então, ao desembarcar no Lazareto, a ingleza seguira para
Bordeaux e elle, na capital, fôra pouco e pouco esquecendo aquelle
episodio romanesco da sua vida. Mas agora, lembrando-se que Ermelinda ia
ser d'outro, que a veria todos os dias, sorrindo com a meiguice do seu
olhar para o marido que lhe daria o braço, sentia um mal estar, um como
desejo de ser mau, oppondo-se ao seu casamento, contrariando-lhe a
felicidade,
--não por que aquillo lhe importasse... mas, não sabia explicar,
sentia-se encommodado, a final de tudo.
E distrahido, cofiando com um automatismo inconsciente a suissa
grisalha, esquecendo que estava á janella a conversar com a D.
Clementina, que o requestava toda vaidosa da sua redondesa de
formas, retirou-se bruscamente, sem se despedir. Mas lembrando-se da sua
descortesia, voltou:
--que o chamavam de dentro, se era servida de seu almoço.--