A hora ia passando, Ermelinda começava a manifestar uma impacienciasinha.
--Já se vai demorando--pensava--e investigava com o olhar contrahido, os
vultos que ao longe apresentavam com Alberto uma semelhança na estatura,
no andar. Mudava de posição frequentemente, aconchegava-se para o canto
da janella com o fim de apanhar uma porção de horisonte mais extensa.
A noite cahia e os empregados do gaz, n'um passo rapido, de tarefa
imposta, accendiam os candieiros, que atiravam projecções luminosas
sobre a calçada, e sobre as frontarias dos predios.
Começava a ser frequentado o armazem, lá ao fundo da rua; os transeuntes
iam diminuindo, e os vendilhões, n'um grito rouco, fatigado,
apregoavam ainda os ultimos productos do seu commercio. Um rodar surdo
d'americanos serpenteava, e as luzes vermelhas, como olhos injectados,
passavam rapidas, oscillando. Uma sombra caminhava n'um movimento
circular, desapparecendo, á medida que o vulto se approximava da luz.
--Ah! d'esta vez era elle, conhecia-o no andar--e escondia-se,
maliciosa, para o surprehender.
--Mas não--o sugeito continuava a caminhar indifferentemente, não
attentando n'ella sequer.
--E esta!--dizia, n'uma voz tremente, nervosa, de desillusão provada.
Mas depois, reflectindo:
--Não ha que ver, não vem!--e possuia-se d'uma irritação surda contra
tudo e contra todos; um _ferro_ que não podia bem explicar.--Parecia-lhe
que os seus nervos tinham uma sensibilidade electrica; que era toda
outra, inteiramente diversa.--
--Mas não tem explicação possivel!--murmurava.
Pensava em acalmar, em socegar; olhava distrahidamente as estrellas que
fulguravam nas alturas, procurando n'uma _rêverie_ indolente e malandra,
uma especie de quietação scismadora e contemplativa que a absorvesse.
--Mas não podia,--irritava-se mais, contrahiam-se-lhe n'uma crispação
nervosa as linhas da physionomia e a sua vontade, o seu desejo, seria
n'aquelle momento converter-se n'um vendaval violento, que assolasse,
que devastasse tudo na sua passagem. Tinha intermittencias de
paciencia, acalmava; o rosto espelhava resignações como a superficie
d'um lago, onde não sopram ventos; mas lá dentro uma agitação surda
roía, como um verme das madeiras no silencio dos quartos de dormir das
velhas estalagens. Cançada de esperar, fechou a janella, com estrondo
rapidamente.
--Canalha--murmurou enraivecida.
E passando pela Joaquina disse-lhe exaltada:
--Diga ao papá que hoje não esperei, doía-me a cabeça.
--Se queria um chá de cidreira.
--Tome-o Você--respondeu com asperesa, como uma nortada rija.
--Vai com a telha!--
Entrou no seu quarto, fechou a porta bruscamente.
A Joaquina ainda philosophava:
--bem o dizia ella, estava com a telha--e continuou a correr o ferro de
brunir sobre uma camisa de homem.
Uma lampada de vidro fosco, suspensa n'um tripede de metal bronzeado,
punha uma meia luz suave sobre o recinto, onde entrara Ermelinda.
Deixou-se cahir n'uma _chaise-longue_; os seus joelhos sobrepondo-se,
n'um habito de quem costura, deixavam sahir da linha desordenada do
vestido alvuras de saias e um pé elegante, n'um sapatinho de bico,
enleado, que deixava vêr a fórma nervosa um pouco secca, da perna
calçada em meia côr de rosa.
Apoiou a face sobre a mão esquerda, e os seus dedos, n'uma mechanica
inconsciente, beliscavam inquietos o rosado lobulo da orelha. Os olhos
extacticos e mudos como dois lagos de luz, poisavam, n'uma absorpção
humida e contemplativa, sobre os moveis d'aquelle ninho tão povoado das
suas ideias, dos seus sonhos, das emanações perfumadas da sua alma.
Tudo porém n'aquelle momento se lhe affigurava estupido, inerte, sem uma
recordação, sem uma saudade. O espelho do toucador reflectia-lhe sombras
indecisas e vagas; os pequenos frascos de crystal, cheios d'essencias
que ella tanto amava, pareciam-lhe agora comparsas imbecis que rodeiam o
genio d'um grande artista. A sua commoda pequena, com embutidos de
madreperola, onde guardava os seus bellos vestidos, tinha as apparencias
informes d'uma tartaruga collossal, empalhada, nos ocios de museu.
Como nos lagos tranquillos, ao avisinhar das tempestades, saltam ao lume
d'agua peixes prateados, assim tambem do intimo do seu peito respirações
suspiradas sahiam de quando em quando, agitando-a na quietação muda das
suas meditações concentradas.
--Porque não teria elle vindo?--
Era a pergunta que o seu espirito não cessara ainda de formular, sem que
sahisse do circulo vicioso, d'uma resposta negativa. Acudiam-lhe muitos
motivos, muitos pretextos, para o desculpar, para o censurar.
--Assim! sem mais, nem mais!--pensava--é ter-me em muito pouca estima--e
cheia d'um phrenesi nervoso apertava com mais força o lobulo da
orelha, respirava frequente, agitando o seu sapatinho n'umas flexões
rapidas, que indicavam necessidade de movimentos expansivos.
Os olhos marejavam-se-lhe d'uma humidade turva, lagrimas segregadas no
reflexo de coleras occultas.
--Mas se estivesse doente! Ah, como era infeliz! Que maldita duvida--e
deixava-se cahir n'uma suavidade de sentimentos, esquecia todas as
recriminações, todas as queixas, tudo o que podesse recordar-lhe uma
falta d'elle. Lembrava-se apenas que estaria talvez só, desamparado,
entregue á indifferença egoista de criados de hotel, sem um amigo, sem
uma irmã carinhosa, desvelada, que o affagasse como a uma creança, que
lhe tomasse a cabeça entre as mãos, que depozesse um beijo animador na
sua testa aquecida pela febre.
Via-o sorrindo, se ella lhe podesse apparecer, com aquelle sorriso meigo
dos febricitantes e o olhar prostrado, d'uma languidez doentia--que lhe
devia ficar tão bem!--
Chorava então. A sua alma de mulher, apesar de educada na
sentimentalidade vadia das pieguices de collegio, dos namoros de
janella, das missas ao Domingo, dos luxos baratos, das leituras
romanescas, dos sorrisos de _soirées_, irradiava uma sensibilidade pura,
honesta, como um sol, que empanado pelo escuro das nuvens, se
entremostra uma vez ou outra no fundo luminoso e transparente do azul
sereno e indefinido.
--Ah, como desejaria ser sua esposa, sua irmã, sua amiga! como ella
o amaria assim doente, como seria desvelada, solicita, carinhosa.--
Calava-se; as lagrimas deslisavam sobre as suas faces, abundantemente,
como um rio que se solta. Pouco a pouco diminuiam, estancavam-se n'uma
sensação ardente, de febre nervosa que a invadia. Sentiu frio,
lembrou-se que já era talvez muito tarde. N'este instante o Jorge
voltava do Club. A Joaquina fazia tilintar dentro as chavenas do chá.
Poz-se em pé e principiou a despir-se; a sua cama á franceza, estreita,
de colcha branca, esperava-a n'uma attitude virginal e passiva, como um
ninho abandonado, ás quentes irradiações de corpos vivos.
Era aquella tambem a hora a que costumava despedir-se d'Alberto; por
isso a crise ia diminuindo, cahia n'um desalento molle, de prostração
fatigante. Metteu-se no leito, despenteada, com um vagar preguiçoso, de
habitos indolentes, alisando o travesseiro. Uma sensação de frescura do
linho a penetrou até á medulla; teve um calefrio rapido, um ah! de
satisfação; ennovellou-se, como as creanças debeis e ficou assim, muito
tempo, sem se mover, com os vagos olhos absortos, pregados na lampada,
que ardia.
Lembrou-se que não tinha resado; descobriu o braço e fez o signal da
cruz; os labios balbuciavam umas orações banaes, narcotisadoras, que lhe
fizeram pesar as palpebras.
Tinha adormecido. Nas linhas do seu rosto divisava-se ora um sorriso
alegre, de satisfação saciada, ora uma contracção spasmodica,
revelando amarguras, desesperos intimos, que a commoviam. Sonhava
com Alberto.
--«Via-se noiva, de vestido de faille branco, muito _chic_, feito nas
Ferin, tendo ao peito um ramo de flôr de laranjeira e na cabeça um
penteado elegante, coroado por uma grinalda identica, onde prendia um
véo de tulle, amplo, magestoso, que a velava pudicamente; nunca lhe
parecera tão pequenino o seu pé, como calçado n'aquelle sapato branco,
de setim, dando um realce artistico á sua perna gentilmente vestida em
meia de seda.
--Ah! como o Alberto gostaria d'ella assim!--sorria vaidosa--
--E a elle, via-o tambem, muito frisado, de gravata branca, a camisa com
abotoadura de brilhantes, de casaca, muito attencioso, muito reverente,
cheio de elegancia, invejado por todas, por ellas, pelas suas amigas,
que a felicitavam com sorrisinhos traiçoeiros, compromettedores, que
faziam córar.
E de sobre a elegancia da sua _toilette_ de noiva, ella, para se vingar,
deixava cahir sorrisos, animadores, de consolação, para a Adelaide
Mendes, para as Gomes, para a filha do Bastos, e outras que ainda
estavam solteiras.
Via o aspecto dos trens, enfileirados, ao sahir da egreja, e a sua
carruagem de noiva, com os cavallos brancos, e cocheiros de fardas
vistosas. O commendador Faria, muito cheio de brilhantes, pesado,
enchendo elle só um trem, seria o padrinho.
Ao sahir, quando já vinha pelo braço d'Alberto, as mulheres do povo,
cobrindo-a de santas aspirações, de bençãos:
--que Deus a fizesse feliz, que fosse em boa hora--
--Apesar de que não promettia muito a cara do noivo--observara uma
aldeleira ambulante, de grosso ventre levantado, e roupas velhas
penduradas no braço de côres arreliosas.
Que vontade teve de a esganar, o diacho da velha... dizer que o seu
Alberto, tão lindo, tão sympathico, não tinha boa cara: forte bruta!--
Mas esqueceu-a breve; o cortejo dos convidados, um sequito apparatoso
que a rodeava como a um astro, fazia-lhe vaidade, tornava-a feliz,
parecia-lhe que a dilatava de superioridade.
Depois os convidados, n'uma civilidade ironica, iam-se despedindo. As
senhoras abraçavam-a, segredando-lhe ao ouvido e pondo beijos miudinhos
nas suas faces aquecidas. A final ficaram sós, ella e o seu amado, o seu
marido! Havia uma lampada de crystal no quarto e os cortinados, como as
vélas d'uma gondola, agitavam-se trementes, como se o leito fôra na
realidade um barcosinho, onde ambos tivessem de navegar para um paiz
distante, desconhecido, estranhamente novo. Elle tomara-a um pouco
arrebatadamente, sentando-a nos joelhos, affagando-a com beijos e
sorrindo, ao tirar-lhe o véo de noiva, que a fazia reflectir no espelho
do toucador, toda branca, d'uma brancura eburnea, de camelia nevada.
E no seu rosto adormecido divisava-se um limpido sorrir, de doce
voluptuosidade, como se a alma lhe irradiara nas sensações tépidas
d'aquelle sonhar delicioso. Mas logo após esta serenidade tranquilla e
suave, em que talvez a sua imaginação voasse para esse periodo ditoso e
perfumado da lua de mel, em que teria sempre junto de si o seu
maridinho, muito carinhoso e muito meigo, o periodo dos jantarzinhos
frugaes e delicados, com flores na meza e alegrias no espirito, as
linhas da physionomia contrahiram-se-lhe n'uma crispação dolorosa, e o
sonho revestia uma feição diversa, em que a amargura vinha como uma flor
envenenada, empeçonhar os dias de ventura;
--era ainda aquelle o Alberto que ella amava, mas desleixado, vadio,
ébrio; tinha grosserias insupportaveis, ferocidades de despota--
--e via-se triste, chorando muito, sem um consolo, sem um carinho que a
alentasse...--era horroroso--estava diante de si uma galeria
subterranea, escura, um abysmo de sombras...
--não, não queria caminhar, tinha medo...--mas elle, rindo, dera-lhe um
impulso brutal, fizera-a entrar; um caminho escabroso, cheio de
asperesas, silvados rodeando-a por todos os lados... cada passo
custava-lhe muitas lagrimas... e o Alberto ria, ria, estupidamente, como
um idiota embriagado... Um anjo se approximou d'ella; tinha o perfil do
commendador Faria, com os seus oculos d'ouro, e as mãos a despedirem luz
como as dos illuminados celestes; mas a luz sahia-lhe da base dos dedos,
do logar dos anneis; e tomou-a nos braços, sentia-se voar, muito cheia
de doce gratidão, quasi esquecida, quando uma creança se lhe prendeu aos
vestidos, parecendo reprehendel-a d'aquelle vôo egoista, olhando-a
com a limpidez casta d'uns grandes olhos pretos;... mas o
anjo--commendador dominava-a, arrastando-a sempre, perguntando-lhe n'um
adociado brazileiro:
--se a sinhasinha não voava,--que morreria se parasse, lá estava o snr.
Alberto a rir-se d'ella--
e--sim, lá estava!--olhou para traz, uma enorme cadeia a prendia a elle,
e uns policias passavam então, empurrando-a, batendo-lhe brutalmente.
--Queria fugir, fugir: era horroroso!»
Despertou então. Um suor frio lhe humedecia a testa; a cabeça doia-lhe
um pouco, sentia-se fatigada. A luz da lampada esbatia-se moribunda nos
primeiros alvores da manhã que vinham entrando pelas fendas da janella;
ouviu o gallo cantar no quintal e logo depois uma voz arrastada, n'uma
melopeia monotona, bradando do fundo da escala:
--Leiteira!--
A Joaquina desceu; ouvia-se um murmurio indistincto de vozes feminis, e
em seguida o estrondear da porta que se fechava.
N'aquelle dia andou toda alvoroçada, nervosa, muito inquieta. Olhava
muitas vezes o relogio, uma pesada machina de nogueira, a que o Jorge
todos os sabbados dava corda, com a phrase rythmica:
--Tens de comer para oito dias.--
Parecia-lhe que os seus largos ponteiros de metal se moviam com uma
lentidão desesperadora. Teve vontade de o adiantar--mas era uma
tolice--pensou.
Sentou-se a trabalhar para ver se distrahia. Descobriu no bastidor um
bordado delicado, a matiz, um ramo de rosas, sobre que vinha poisar uma
borboleta. A mão porém não lhe assentava, as sedas sahiam frequentemente
da agulha, o desenho errava.
--Ora! não estava para aquillo.--
Levantou-se, principiou a ler; era «Agulha em palheiro» de Camillo
Castello Branco; interessava-se muito por aquelle sympathico filho do
sapateiro, o heroe do romance, e sentiu deslisar umas lagrimas furtivas
ao ver a formosa Paulina, uma doce creação do romancista, tão soffredora
e tão amante.
Tocaram a campainha.
--Quem seria?--disse pousando rapidamente o livro e pondo-se diante do
espelho, para anediar o penteado.
--Se fosse visita de ceremonia! que massada.--
Mas a Joaquina veio dizer:--que estava ali a snr.ª D. Amelinha Bastos,
aquella que tinha casado.--
--E vem só?--
--Vem, minha senhora.--
--Ah! que mandasse entrar para a sala de visitas, que se aviasse.--
--Não te encommodes, não te encommodes, menina, eu não sou de
ceremonias, venho mesmo para a tua sala de trabalho,--disse a Bastinhos
entrando estouvadinhamente, chilreando como um passaro alegre.
Beijaram-se muito,--que não havia quem a visse, devia estar muito
zangada, se era cousa que se fizesse.--
--Ai, filha, tenho tido tanto que fazer.--
--Tira o chapéu; espera, eu o tiro,--
e com um geito feminil, delicado, levantou-lh'o de sobre o penteado,
emquanto a Amelinha, quieta como uma creança que se enfeita, esperava
n'uma attitude passiva.
A Bastinhos principiou logo a fallar, tinha uma grande verbosidade,
muita volubilidade nos pensamentos, de quem tem muito a descrever, mas
que o faz sem methodo.
--A modista, os passeios, o theatro, se não sabia do ultimo escandalo da
mulher do commendador Bernardo, que fôra uma vergonha, que o marido ia
requerer o divorcio.--
--Estou admirada!--dizia-lhe Ermelinda.
--É o que te digo, menina, e então com quem, vê se adivinhas?--
--Não, que não adivinhava.--
--Com o Alberto, filha, com o Alberto!--e desatou n'uma gargalhada
crystalina, debruçando-se sobre o bordado a matiz, muito curiosa.
Ermelinda sentiu as pernas tremerem-lhe; a sua physionomia invadiu-se
rapida d'uma pallidez pronunciada; o seu desejo seria ter n'aquelle
momento uma explosão de colera, de lagrimas; mas a Amelinha Bastos
estava ali e a sua presença suffocava-a, como uma mascara que nos
affogueia o rosto.
--Se queria tomar alguma cousa--perguntou-lhe--tinha-se esquecido.--
--Nada, nada!--
--Vê lá, menina?--
--Tens tu por ahi Xerez? é do vinho que mais gosto, meu marido aprecia-o
muito!--
--Que ia buscar-lh'o n'um instante, que a desculpasse por ter de ficar
só.--
--Á vontade, filha, á vontade--e pegou no romance que Ermelinda estava
lendo, em quanto esta se retirava a buscar-lhe o Xerez.
D'ali por momentos Ermelinda entrou com uma pequena salva de prata, onde
vinha uma garrafa de crystal e dous calices; a Amelinha muito prompta,
com grande espalhafato, foi ajudal-a. Ella mesma encheu os calices e
tomando um, disse com modo desenvolto:
--Á tua felicidade, Ermelinda.--
--Obrigada, menina.--
Mas os seus olhos turvaram-se d'umas lagrimas, depressa occultas n'um
lenço em que fingiu assoar-se; dentro mesmo ella tinha chorado,
agradecendo no seu intimo á Amelinha aquelle desejo do Xerez, que lhe
dera uns instantes de isolamento.
A Amelinha, sentada na _chaise-longue_, saboreava o vinho em pequenos
sorvos, fazendo covinhas nas faces. Depois, como tomada d'uma lembrança
repentina:
--E o teu namoro, como vai, menina?--
--Oh, filha, se queres que te diga...--
--Dize lá, dize lá, estou muito curiosa de saber--e curvou-se um pouco,
n'uma _pose_ confidencial, de quem escutaria com ávido interesse.
--Andamos assim, meios cá, meios lá--respondeu Ermelinda encolhendo
os hombros, franzindo o labio,--se queres que te diga, menina, já me
importei com elle, aquillo foi uma _phantasia_, uma brincadeira que
pouco durou! Para mim já não ha _illusões_.--
--Pois tinham-me asseverado que te casavas.--
--Credo, nem se pensou em tal!--Mas como desejasse evitar a continuação
da conversa:
--E tu, como te dás com o Guilherme?--
--Bem, filha, magnificamente!--
--Tu é que foste feliz--disse Ermelinda tomando a mão, que a Amelinha
abandonou, n'uma _nonchalance_ de bébé, gosando com aquelle aperto que
lhe lembrava uma caricia do seu maridinho.
--Por emquanto não tenho rasão de queixa; o Guilherme não vê outra cousa
diante dos olhos; até, se queres que te diga, ás vezes chega-me a
aborrecer com tantas pieguices.--
--Ingrata...--
--Ingrata, não! Mas tu o sabes... sou assim um poucochinho estroina...
não gosto de homens tão serios e tão pêccos.--
--Olha, menina, é n'essas pequenas coisas que consiste a felicidade.--
--Boa! ahi queres tu prégar-me um sermão de moral! oh, menina, enche-me
este calice; mas ainda agora reparo que tens lagrimas nos olhos!
--Lagrimas, eu! estás doida!--
--Coitadinha da pequerrucha, que quer illudir uma mulher casada--disse
arrastando a voz n'um chilrear cantadinho--e batendo-lhe na face
palmadinhas amigaveis, animando-a, pedindo-lhe a confidencia
d'aquelle chôro.
--Que não era nada; ás vezes ficava assim nervosa, tinha d'aquellas
extravagancias.--
--Nervosa, tambem ella era muito! o dr. Arnaldo Braga dizia que era todo
o seu mal--e a Amelinha principiou a explicar, com grande volubilidade,
as impressões que sentia ouvindo musica, ao ver no theatro um drama
triste, ou então quando o seu gato preto, em certos dias, se lhe
atravessava no caminho e ella, sem querer, lhe pisava a cauda e ouvia o
miar queixoso do animal.
--Muito nervosa, muito! este anno vou até para a Foz e tomo um grande
numero de banhos; já combinei com o Guilherme.--
--És feliz, menina, és feliz!--
--Assim!...--fez Amelinha contrahindo o labio com certo desdem! e
curvando-se disse-lhe ao ouvido uns segredinhos quentes, que fizeram
enrubescer Ermelinda.
--Ora!--respondeu esta--póde lá ser isso!--
--É o que te digo, filha!--e a Amelinha, pondo-se em pé, principiou a
passear, cantarolando a canção do Rigolleto:
«La donna é mobile»
N'este momento o velho relogio de Jorge bateu as duas horas.
--Ai! tão tarde! Credo! Adeus, menina, vou-me embora!--
--Já?--
--Já; ainda tenho de ir ao Pinheiro, a Cedofeita. Preciso umas
guarnições para o meu vestido d'estação.--
--N'esse caso não te demoro!--e Ermelinda, collocando-lhe de novo o
chapeu, fazia-a prometter que viria mais vezes, para passarem um
bocadinho juntas.
--Estou ás vezes tão só!--
--Pois hei-de vir, filha, hei-de vir! e pondo-lhe na face uns beijos
sonoramente cantados, a Amelinha, affogueada pelas irradiações do Xerez,
muito alegre como um passaro na Primavera, desceu o véo de tulle branco
sobre o rosto e sahiu, batendo com grande estrondo a porta da campainha.
--Sempre está uma douda!--disse Ermelinda vendo-a sahir!--e após um
silencio de reflexão:
--E adeus, são estas as que são mais felizes!