Tinham decorrido quinze dias.
O namoro havia _pegado_, consolidara-se. Com uma certeza chronometrica o
Alberto passava invariavelmente, todas as tardes, em frente da casa de
Ermelinda.
Uma vidraça corria no primeiro andar e logo depois a filha de Jorge
apparecia, com um sorriso engatilhado nos labios e um alto penteado na
cabeça, emmoldurando-se no fundo escuro do desvão da janella.
A visinhança reparara a principio.
--Havia _mouro_ na costa--diziam--mas pouco a pouco a tolerancia
estabelecera-se, uma indifferença ordinaria, de coisa vulgar. A sua
_badine_ que tanto prendera as attenções, pelas curvas hyperbolicas que
traçava no ar, fazendo signaes, já não despertava interesse; o lenço
branco, rendilhado, simultaneamente absorvente dos defluxos e das
impressões amorosas, ia creando o bolor dos esquecimentos, como teria
creado o bafio das secreções. O namoro tornara-se um facto consumado,
ordinario, sem a irritabilidade dos excitantes.
A casa do Jorge tinha uma frontaria só; era como uma cellula engastada
no favo immenso da rua; apenas existia, formado por um angulo reintrante
da casa proxima, um pequeno recanto, d'onde se exhalavam fortes
vaporisações ammoniacaes. O Alberto, que não podia remediar esta
inconveniente disposição, utilisava-a. Era d'ali, que elle, occulto pela
sombra do predio, procurava fallar com Ermelinda.
A noite adiantava-se. O transito ia gradualmente diminuindo; a patrulha,
n'uma locomoção arrastada e ordeira, tinha a apparencia vaga dos
ruminantes na solidão dos campos. Clareações de gaz punham sombras
indecisas, formando na rua projecções phantasticas. Uma faxa de ceu,
limitada pela vertical dos edificios, mostrava estrellas descoradas e
pallidas, como lantejoulas sujas d'um vestido de comediante.
Adejavam surdos murmurios d'um movimento longinquo; e proximo, n'uma
tanoaria, um martellejar compassado e monotono affirmava vigilias
prolongadas d'um trabalhador obscuro. Ao fundo da rua um leque de luz
sahia da porta meio aberta d'um armazem de vinhos; sentiam-se vozes
disputar, e na esteira luminosa atravessava de quando em quando um
ebrio, que forcejava por conservar um equilibrio digno. Abria-se alguma
janella com estrondo e um choque d'aguas, chapeando na rua, indicava uma
contravenção do codigo municipal.
O Alberto vinha sempre muito aconchegado no seu _pardessus_, a garganta
agasalhada nas dobras quentes de um cache-nez; mansamente, como uma
cobra que deslisa, elle introduzia-se no recanto proximo e accendia um
charuto.
Era o signal.
Uma vidraça rangia no primeiro andar da casa de Jorge, e a Ermelinda,
muito intrigada, cheia de pequenos sustos deitava a cabeça de fóra da
janella, investigando no espaço os raros vultos que passavam, como se
receiasse compromissos.
Cumprimentavam-se com trivialidades, ligeiramente. Depois o Alberto, no
desempenho romantico do seu papel de namorado, arremeçava para o alto
umas phrases sonoras, d'um gongorismo empolado, crepitantes, como
foguetes de lagrimas n'um ceu luarento, em noute de arraial.
--Que não acreditava, que era uma impostura.
--E porque não?
--Os homens! quem podia fiar-se n'elles! havia por ventura nada mais
falso?--dizia muito queixosa das amarguras da sua experiencia malograda,
em coisas de namoro.
--Ah! que elle não era assim!--protestava--que sentia por ella um
immenso amor, infinito, como só uma vez se conhece na vida.
--E mais quem!--sorria, n'uma duvida amavel que lhe lisongeava a
vaidadesinha de conquistador.
--Podia jurar-lh'o--affirmava--por tudo o que houvesse de mais sagrado
aos seus olhos, pelo seu coração, pela sua sorte, pelo proprio Deus!
Ermelinda calava-se. N'estes momentos parecia-lhe que, se fallasse,
profanaria a musica apaixonada e sublime d'aquellas juras d'amor;
concentrava-se sobre as suas phrases cheias d'uma secreta adoração
mystica e sentia-se invadir d'umas sensações deliciosas, que a enterneciam.
--Não! elle não podia mentir--pensava--como era feliz em ser assim amada!
Um extasi ineffavel a envolvia docemente, suavemente, como um banho
tépido d'essencias perfumadas. Se interrogasse então a voz occulta do
seu espirito, não poderia dar uma definição de si propria.
--Ah! se podesse voar com elle para um ceu distante, para o
desconhecido!... que felizes que seriam!...
Deixava-se fluctuar na atmosphera quente da _rêverie_, como as grandes
aves serenas e mansas, que dilatam as azas, pairando, sobre as alturas
do azul. Mas elle em baixo, quebrando a cinza branca do charuto,
interrompia:
--Em que pensava?
--Ah! nem ella poderia dizer-lh'o.
--Que era talvez em outro; notava n'ella certa distracção, bem se via,
uns modos... tão poucas palavras!...
--Que era só n'elle--protestava convencida.
--Ah! era então muito feliz.
--Muito, muito?--perguntava sorrindo com uma certeza de que havia melhor.
--Muito, muito, não! para isso só uma união eterna, indissoluvel, que os
tivesse sempre juntos, unidinhos, como um casal de pombos enamorados.
Ermelinda sentia um rubor honesto, de felicidades nubentes, invadir-lhe
a face.
--Ah! que a Amelinha Bastos essa é que fôra feliz! Um bello casamento! E
então só o vestido do noivado, que dinheirão!... Mas nem por isso estava
bonita, não lhe parecia?
--Que sim--respondia desdenhoso.
--E sempre teve um dia mais desagradavel: chuva, sempre chuva! era
insopportavel; apesar do trem, tinha-se toda salpicado de lama! O seu
casamento havia de ser n'um dia alegre de sol, muito sol; não achava
melhor?--
--De certo! elle todavia julgava indifferentes essas cousas! qualquer
dia era bom!
Calavam-se; um novo silencio cahia, como as pausas lentas d'um trecho de
musica.
A patrulha voltava do seu gyro; e ao ver ainda os namorados, observações
baixas, eivadas de um philosophismo de caserna se suscitavam.
Que o _gajo_ ainda estava de sentinella, não tardava em apanhar uma
queixa de peito.
--Deixasse lá--respondia o camarada--comiam-lhe bem e bebiam-lhe! não
eram como a gente, uns desgraçados! um rancho sem _sustancia_, e mortos
de serviço.
Ermelinda fallava; mas um carreiro, em articulações gutturaes, d'uma
linguagem primitiva e grosseira, praguejando contra os bois, não deixava
ouvir. O carro affastava-se produzindo sons estridentes nos
parallelipipedos.
--Para isto não olhava a policia--murmurava o Alberto, indignado,
agitando a _badine._
--Que o tempo parecia querer mudar--dizia ella--estava-se a pôr frio,
nuvens caminhavam escurecendo o céo; uma estação tão inconstante!
--Exactamente, como as mulheres!--arguciava.
--Não, isso, não! Elles sim! não havia hoje quem encontrasse um coração
leal, todo occupado na imagem d'uma só mulher!
--Nem o meu?
--Eu sei! Os homens são tão voluveis!
--Ah, que ella o não amava! do contrario não fallaria assim!--dizia todo
offendido, n'uma voz rapida, d'um tremulo nervoso.
--Se o não amava! nem dissesse tal! era uma blasphemia, daria por elle a
sua felicidade, a sua vida.
E quasi se sentia arrependida de lhe ter chamado voluvel; uma grande
tristesa subia ao seu espirito, fazendo-lhe experimentar alguma coisa de
commovente, que lhe marejava d'agua os olhos limpidos e bellos.
N'aquelle instante desejaria cortar por todas as conveniencias, saltar
d'aquella janella, aproximar dos seus labios a fronte pallida do seu
amante e dizer-lhe n'um impeto d'amor:
--Amo-te, Alberto, amo-te muito.
Depois ajoelhar-se n'uma supplica muda, para que elle a levantasse,
doido d'amor, muito carinhoso e meigo, como já tinha visto fazer no
theatro ao actor Santos, quando se representava o Antony.
Mas quando ella se arroubava n'estes pensamentos languidos, enternecida
e melancolica, um vulto apparecia ao fundo da rua, fazendo estalar uns
passinhos miudos, rapidos, de quem tem pressa de chegar.
--O pae, o pae, adeus!--despedia-se atrapalhadamente, fechando a janella
com o menor barulho possivel.
--Que raio!--regougava o Alberto n'um plebeismo grosseiro de indignação
irada, como se desejasse fulminar com a vehemencia da sua apostrophe o
cidadão honesto, que recolhia tranquillamente do seu whist, do Club. E
desalojando-se da posição, seguia rapido na direcção opposta,
embuçando-se mais, com as mãos nos bolsos, repuchando o casaco sobre os
rins, com arrepios de frio. Voltava-se obliquamente para ver entrar o
Jorge e depois retrocedia, lentamente, devagar, como um vadio incorrigivel.
Olhava; vultos perpassavam no fundo luminoso da vidraça descida.
--Devem ir tomar o chá--pensava--emquanto elle, exposto ao relento da
noite, á neblina, á intemperie, tinha de atravessar quasi meia cidade,
um _estirão_, para se metter n'uma pocilga nojenta, miseravel, que o
revoltava.
Caminhava lentamente, com mau humor; as linhas do seu rosto vincavam-se
n'uma irritabilidade surda, espelhando o lodo da sua alma.
Atravessou ruas desertas, praças onde apenas as grandes arvores se
levantavam, como espectros collossaes; ás vezes uma guitarrada
apparecia, cantando trovas fadistas, acanalhadas; mulheres que estendiam
a mão e a honra á philantropia que voltava das ceias, occultavam-se na
sombra, como vermes que se arrastam.
Alberto desceu os Clerigos, atravessou a praça de D. Pedro, subiu a rua
de Santo Antonio.
Morava em S. Victor.
Ao chegar á Batalha parou para accender um charuto. Dous vultos que
vinham na sua direcção gesticulavam, fallando alto.
--Com que então _depennado_!
--De todo!... se me emprestasses uma libra mais, uma _coroa_ que
fosse!... estou com palpite! Era no rei de espadas, acredita-me.
--Deixa-te d'asneiras; não basta o que lá te ficou! outra vez tirarás a
tua desforra!
Affastavam-se; palavras indistinctas, confusas, fluctuavam no espaço
sonoro.
O Alberto pareceu meditar; as suas mãos revolviam com avidez os bolsos.
--Cinco tostões, que miseria, posso lá fazer figura!--disse com
desalento.--Deu alguns passos mais, parou de novo, indeciso. A ideia do
jogo, symbolisada n'aquelle _rei de espadas_, aferroava-lhe o cerebro,
como uma vespa opportuna que se enxota debalde.
--Tambem pouco perco, vamos lá.
Resolveu-se.
Retrocedeu e entrou no Gremio. Jogadores infelizes sahiam; em cima
ouvia-se um _brou-ha-ha_ ruidoso e tosses convulsas provocadas pelo fumo
do tabaco.
A atmosphera espessa podia partir-se, asphixiava; no soalho os escarros
collavam-se ás pontas de cigarros.
O Alberto entrou, sem se incommodar, como velho conhecimento.
O banqueiro apresentava n'aquella occasião um rei d'espadas.
--Jogo--disse rapido.
A sorte foi-lhe favoravel. Duas horas depois um monte d'ouro estava na
sua frente. Os olhos irradiavam-lhe alegrias febris; nas faces tinha o
calor rubro das congestões. Os amigos rodeiavam-o como a um semi-deus
olympico.
Jogou a ultima parada, levantou-se; convidou os rapazes para uma ceia.
Felicitações choviam e sorrisos felinos, de invejas abafadas,
procuravam-o de todos os lados.
O sol banhava de luz a cidade, quando o Alberto, com os olhos baços,
cambaleando, se mettia n'um trem e mandava bater para o _Central_.