CXLIII

O ultimo superlativo.

Não foi o ultimo superlativo de José Dias. Outros teve que não vale

a pena escrever aqui, até que veiu o ultimo, o melhor delles, o mais

doce, o que lhe fez da morte um pedaço de vida. Já então morava

commigo; posto que minha mãe lhe deixasse uma pequena lembrança, veiu

dizer-me que, com legado ou sem elle, não se separaria de mim. Talvez a

esperança delle fosse enterrar-me. Correspondia-se com Capitú, a quem

pedia que lhe mandasse o retrato de Ezequiel; mas Capitú ia adiando a

remessa de correio a correio, até que elle não pediu mais nada, a não

ser o coração do joven estudante; pedia-lhe tambem que não deixasse de

falar a Ezequiel no velho amigo do pae e do avô, «destinado pelo ceu

a amar o mesmo sangue.» Era assim que elle preparava os cuidados da

terceira geração; mas a morte veiu antes de Ezequiel. A doença foi

rapida. Mandei chamar um medico homeopatha.

--Não, Bentinho, disse elle; basta um allopatha; em todas as escolas se

morre. Demais, foram ideias da mocidade, que o tempo levou; converto-me

á fé de meus paes. A allopathia é o catholicismo da medicina...

Morreu sereno, após uma agonia curta. Pouco antes ouviu que o ceu

estava lindo, e pediu que abrissemos a janella.

--Não, o ar póde fazer-lhe mal.

--Que mal? Ar é vida.

Abrimos a janella. Realmente, estava um ceu azul e claro. José Dias

soergueu-se e olhou para fóra; após alguns instantes, deixou cair a

cabeça, murmurando: Lindissimo! Foi a ultima palavra que proferiu neste

mundo. Pobre José Dias! Porque hei de negar que chorei por elle?

Dom Casmurro · 第 149 / 157 题