Uma pergunta tardia.
Assim chorem por mim todos os olhos de amigos e amigas que deixo neste
mundo, mas não é provavel. Tenho-me feito esquecer. Móro longe e saio
pouco. Não é que haja effectivamente ligado as duas pontas da vida.
Esta casa do Engenho Novo, comquanto reproduza a de Matacavallos,
apenas me lembra aquella, e mais por effeito de comparação e de
reflexão que de sentimento. Já disse isto mesmo.
Hão de perguntar-me por que razão, tendo a propria casa velha, na mesma
rua antiga, não impedi que a demolissem e vim reproduzil-a nesta. A
pergunta devia ser feita a principio, mas aqui vae a resposta. A razão
é que, logo que minha mãe morreu, querendo ir para lá, fiz primeiro
uma longa visita de inspecção por alguns dias, e toda a casa me
desconheceu. No quintal a aroeira e a pitangueira, o poço, a caçamba
velha e o lavadouro, nada sabia de mim. A casuarina era a mesma que eu
deixara ao fundo, mas o tronco, em vez de recto, como outr'ora, tinha
agora um ar de ponto de interrogação; naturalmente pasmava do intruso.
Corri os olhos pelo ar, buscando algum pensamento que alli deixasse, e
não achei nenhum. Ao contrario, a ramagem começou a sussurrar alguma
cousa que não entendi logo, e parece que era a cantiga das manhãs
novas. Ao pé dessa musica sonora e jovial, ouvi tambem o grunhir dos
porcos, especie de troça concentrada e philosophica.
Tudo me era extranho e adverso. Deixei que demolissem a casa, e,
mais tarde, quando vim para o Engenho Novo, lembrou-me fazer esta
reproducção por explicações que dei ao architecto segundo contei em
tempo.