A Folga

(Notas de folklore fayalense)

Tudo prompto em casa do João Furtado, para se receber a coroa do

«Senhor Espirito Santo».

E não é nada cedo. A procissão já saíu da casa do _imperador_, que

foi o ultimo a _coroar_ no anno antecedente, e vem a caminho.

Os visinhos andam tão alvoroçados, que se não fosse o José, sobrinho do

João Furtado, teriam invadido a casa, para verem de mais perto o altar,

armado no quarto de fóra.

Mas não se atrevem, que o rapaz, de sentinella á porta, prega um não

redondo na cara do mais pintado. Além d’isso, todos sabem que elle não

é para brincadeiras, e que poderia ir ás do cabo, temendo que lhe

escangalhassem o que lhe tinha custado tanta lida.

Como elle se revia no altar! Sobre a meza coberta com uma toalha

de renda, nada menos de quatro jarras de flores e de outros tantos

castiçaes com os cyrios ainda por accender. Dão-lhe tanta graça o docel

de cassa branca e as cortinas de barra vermelha, que pendem de cada

lado!

E como está bem clara toda a casa! Nem a egreja, na noite de Natal!

Contando-se bem, são dez os candeeiros de petroleo, uns em cima das

mezas, outros pendurados nas paredes.

Entrassem os visinhos e tambem quereriam ver o quarto seguinte, onde

teem dormido os donos da casa desde o dia em que se casaram, por signal

n’aquella cama coberta com colcha de ramagem. O que porém lhes chamaria

a attenção n’este quarto, haviam de ser as duas mezas que lá estão

unidas pelas cabeceiras, á espera da ceia dos _foliões_.

O João Furtado bem podia ficar satisfeito com o sobrinho, visto que

todas as suas ordens se cumpriram á risca.

O rapaz é que não tinha sombras de satisfação, nem de alegria: triste

como a noite!

Bastava-lhe estar longe da Maria, que vinha de _imperatriz_ no

acompanhamento da corôa.

Verdade seja que triste andava elle sempre, desde que lhe tinha faltado

o pae, e que o tio, vendo-o em riscos de ir para soldado, resolvera

demorar, sem dizer até quando, o casamento ha muito ajustado entre os

dois primos.

Primeiramente o José, por soberba, quiz tirar d’alli a sua ideia,

cuidando que o tio só desejava livrar-se d’elle e arranjar para a

filha um noivo mais rico; não poude! Cada vez gostava mais da Maria,

principalmente a partir da hora em que tinha julgado descobrir n’ella

um certo desapego. Talvez a prima tambem olhasse ao pouco que elle

agora tinha, depois de paga a divida do pae ao Joãosinho Terra, que na

_villa_ emprestava dinheiro a juro. Em quanto o velho não fechou o

olho, todos o faziam com mundos e fundos, e sabidas as contas...

Porém o José curtia de si para si os amargos de bocca, e calava a

paixão, receioso de que, falando, o despedissem por uma vez. Só poderia

adivinhar-lhe o segredo, quem attentasse nos olhos, que elle ás vezes

deitava á Maria, e em que havia tanto amor, tanta cubiça!... Mas isto

mesmo, só o fazia quando tinha a certeza de não ser observado.

Outra coisa, além da ausencia da prima, o estava agora consumindo: o

pensar que nas danças da _folga_ ella ia andar nos braços de um

e de outro. Que se livrasse de dançar com o menino Ricardo, filho do

Joãosinho Terra!

--D’aquella familia, só lhe vinham desgraças!

Um mez antes, na ribeira dos Flamengos, apanhára os dois conversando

muito á mão. É verdade que a prima tinha lá ido lavar uma trouxa de

roupa de freguezes seus, mas tanto não estava fazendo coisa boa, que

apenas o viu, ficou mais vermelha que uma romã.

A corôa approxima-se, que bem se ouvia já a marcha tocada pela

philarmonica e o rufar monotono do tambor dos foliões, como que

marcando o rythmo da musica. Estalavam de instante a instante as

_respostas_, e serpeavam no ar os foguetes a dizerem o logar

exacto em que vinha o cortejo.

Embora consumido, o José não se esqueceu do que lhe competia, e foi

accendendo os cyrios do altar, ao tempo que a tia, com algumas visinhas

e tres senhoras vindas da Horta mediante convite especial, entravam

azafamadas. Tinham estado no terreiro á espera, e foram a uma meza

buscar vellas de stearina, e tambem as accenderam, nos cyrios. Nenhuma

se esqueceu de resguardar-se de algum pingo, pondo o lenço de assoar

á laia de bobeche. Todas, de mão deante da chamma, correram para o

terreiro, a allumiar a corôa.

Um ultimo relance de olhos tranquilisou o José: tudo estava em termos.

Podia entrar a suspirada visita.[3]

Vencido pelo habito e pela geral suggestão o rapaz correu para

a porta, a admirar o acompanhamento, que avançava com a ordem e

solemnidade costumada, impondo respeito e chegando a encantar os menos

propensos á devoção.

Tinha-se calado a musica, mas rufava sempre o tambor dos foliões,

estrugiam os pandeiros e estalavam as bombas.

Mais longe, no couce da procissão, o _Magnificat_ entoado pelos

cantores da egreja matriz do Fayal, dava á solemnidade a nota da uncção

religiosa.

Na frente do cortejo tres homens a par: o do meio deitava os foguetes,

o da esquerda transportava as munições, já muito diminuidas pelo

consumo, e o da direita mantinha accesa uma acha de lenha, soprando-lhe

muito, a fim de trocal-a pela que incendiava os foguetes, quando esta

fosse a apagar-se.

Em seguida os quatro _foliões_. Sobre o fato usual, grandes opas

encarnadas de gola verde recortada aos bicos, e de mangas tambem

encarnadas e canhão verde. Nas cabeças, lenços de chita vermelha

amarrados sobre a nuca, as pontas caídas para as costas.

Um traz a bandeira de panno encarnado com toscas applicações de panno

branco, representando as do centro uma corôa e uma pomba, symbolos do

Espirito Santo, e flores as dos quatro angulos.

Dos restantes _foliões_ um toca tambor, e pandeiros os outros.

Seguem-se dois renques de irmãos, todos com varas brancas e precedidos

pelo _estandarte_ de seda branca, em que ha adornos semelhantes

áquelles, porém executados com mais alguma arte.

Dois artistas da mesma força deviam ser com certeza os esculptores das

pombas, que encimam tanto a haste da bandeira como a do estandarte. Eu

chamei pombas aos animaes alli figurados, mas creio que o mais notavel

dos zoologos se daria a perros, tendo de classifical-os.

Agora a parte mais interessante do cortejo--para mim, pelo

menos--constituida pelo beijinho das raparigas bonitas do logar, umas

com vellas accesas, outras espargindo flores, e quatro formando com

varas brancas um quadrado, dentro do qual ia a imperatriz, com a corôa

nas mãos, e de cada lado sua moçoila, uma com o sceptro e a outra com a

salva de prata.

Depois da imperatriz, o imperador. O João Terra _coroava_ pelo

João Furtado, e certo de que augmentava com isto o brilho á festa,

avançava a passos tão regrados e magestosos, como ... o seu collega

Carlos Magno entrando na cathedral de Aix-la-Chapelle. Para ser

completamente feliz só lhe faltava uma coisa: que a casaca lhe não

apertasse nos sovacos, e a bota de lustro no peito do pé.

Fechavam o acompanhamento os cantores da matriz, a philarmonica e um

magote de povo.

Em quanto o cortejo ia enchendo a casa do João Furtado, recrudescia a

foguetada e as bombas rebentavam continuamente.

Chega a imperatriz em frente do altar, desfaz-se o quadrado, cujas

varas, juntamente com a dos irmãos, são guardadas n’uma comprida caixa

para isso destinada.

Desde que entrou, a corôa servia de alvo a confeitos dourados e de

varias côres e a raminhos, cujas flores eram tambem confeitos montados

em arames.

A Maria colloca-a no centro do altar, e logo os foliões, que estavam em

frente alinhados n’uma fileira, entoam a conhecida copla:

Ó Senhor Esp’rito Santo

A vossa casa cheira,

Cheira a cravo, cheira a rosa,

Cheira a flôr de larangeira.

Um dos que tocam pandeiro levanta mais a voz e prolonga a nota final;

segue-se o outro, descendo uma oitava e vae assim por diante a

cantoria, com trinados á mistura, acompanhada pelo tambor, em que o

folião respectivo dá, segundo o preceito, duas pancadas successivas com

a baqueta, depois outras duas e afinal tres. A estes sons juntam-se por

vezes o dos pandeiros, e estrepitosos vivas ao «Senhor Esp’rito Santo»,

que já se tinham ouvido em toda a passagem do cortejo.

Durante a cantilena dos foliões, as _senhoras da villa_ e

duas _mulheres do monte_ vão compôr o vestido e o penteado á

imperatriz, cuidado aliás inutil a bem dizer, pois se ha «moça bem

pregadinha» é a Maria do João Furtado. Como ella, nenhuma tão esmerada

na sua pessoa e no seu fato.

O José, a quem não passaram despercebidas estas attenções, revia-se na

linda flôr do campo, esquecido de tudo, até do ciume.

Andava n’este comenos o João Terra desempenhando um dos deveres do

imperador: tendo recebido de uma das companheiras da imperatriz o

sceptro, deitara-o nas mãos, sobre um lenço, e percorria toda a sala,

offerecendo aos beijos dos circumstantes a pombinha de prata, que o

adorna.

O ultimo beijo, e de certo o mais fervoroso, foi dado pelo dono da

casa, quando o sceptro já estava no altar. E nem sequer lhe passou pela

ideia o que lhe custava a festa. Custasse o dobro, e elle quereria

assim mesmo gosar aquelle direito.

Já todos tomaram logares. Nos melhores ficam as senhoras da Horta, e á

ilharga d’ellas, depois de lh’os ter amavelmente offerecido, senta-se

muito ancha a mulher do João Furtado.

Lá entra o José, ajoujado com um pratalhaz de arroz doce, e precedido

pelo tio, que se pôz em mangas de camisa para mais á vontade servir

aos convidados a aguardente de pecego, que passará do frasco de

vidro escuro onde está agora, para a bocca dos que hão bebel-a, por

intermedio do mesmo calix. Os pechosos não terão que dizer, porque o

escanção, isto é, o João Furtado, depois de servir cada um dos seus

convidados, limpará a borda do copo á manga da camisa.

Isto de mais a mais é costume tradicional, como tambem é costume

comerem todos o arroz doce pela mesma colher. Á entrada do José, lá

vinha uma espetada verticalmente ao centro do manjar, e com ella vão

todos mettendo para a bocca a competente colherada, e até repetindo a

dose, com grave despeito do dono da casa e não obstante o arroz ter

certo gostinho a fumo, que nem á força de canella desapparecera de

todo.

O José não fugiu com o prato á abusiva repetição, porque estava com

o sentido n’outra coisa. Se não encontrava a prima, por mais que a

procurasse com os olhos!...

Vae porem socegar: a Maria apparece no quarto immediato e ajudada por

outras raparigas põe na meza a ceia dos _foliões_.

Os quatro abancam immediatamente e principiam a devorar com o seu

proverbial appetite.

O rufador, para que o vinho lhe ajudasse a deglutição, disse a graça

costumada--que a pelle do tambor ia estalar de tanto se lhe ter batido,

e que o unico remedio era botar-se-lhe em cima uma pinga. E apenas

apanhou á mão o frasco, deitou uma gota no tambor e entornou para os

gorgomillos tanta vinhaça, que os companheiros romperam em murmurios,

julgando-se lesados.

O segundo folião, antes de beber, faz o brinde habitual:

--Lá vae á saude do imperador de hoje a oito dias!

Ao passo que outro, com a bocca cheia, dispara um «Viva o Senhor do

Esp’rito Santo!»

A ceia desapparecia rapidamente dos pratos. Tinha-a feito a Vicencia,

irmã do João Furtado, afamada em trabalhos culinarios. Áquella mesma

hora temperava ella na cosinha a sopa destinada aos presentes do dia

seguinte, muito saborosa com a grande quantidade de carne de vacca e

_linguiça_, e cada pão dividido em quatro partes apenas, para que

uma unica sopa chegasse para um presente.

Na sala da folga entram muito galhofeiros, com a sobranceria de quem

se julga n’um meio que não o merece, o Ricardinho Terra, o Luiz de

Carvalho e mais dois rapazes da Horta, isto é quatro _estudantes_,

como os appellidam por despreso os moços do campo, que em troca recebem

o qualificativo de _diamantes_, não menos desdenhoso na intenção

do seu ignorado inventor.

Se a presença dos recemchegados desagradou a todos os rapazes do sitio,

que se apinhavam á porta e no terreiro, e que nos bicos dos pés olhavam

a custo para o interior da casa, ao José encheu de verdadeira furia.

D’aqui por diante não mais perdeu de vista o menino Ricardo.

Mas ninguem pensava n’elle, que iam principiar as danças e já se ouvia

o _mestre da viola_, o Joaquim Machado, na cosinha, onde tinha

acabado de ceiar, afinando o instrumento demoradamente, a preceito, sem

dar importancia ás impaciencias dos que anceavam por bailar.

No seculo tinha posição humilde--era sapateiro--mas n’uma _folga_

hombreava em valimento com o proprio imperador. É que sem elle não se

_brincava_.

Apesar d’isto, o João Furtado, fazendo-se interprete dos desejos

geraes, disse-lhe da porta da sala, em voz muito alta.

--O’ Joaquim Machado, pega-me n’essa viola e salta cá para fóra!

--Já se vae! Já se vae! retorquiu o outro, sem se apressar. É preciso

pol-a nos pontos!

D’ahi a pouco appareceu á porta, e conscio da importancia inherente ao

seu cargo, foi sentar-se junto ao altar.

Tiravam-se pares.

O João Terra escolheu a Maria, ao tempo que um _diamante_

perguntava a esta: «A menina quer brincar commigo?». Desvanecida porque

ia dançar com um _senhor da villa_, a quem de mais a mais lavava a

roupa, a filha do João Furtado nem sequer deu resposta ao pretendente

plebeu.

Outros pares se iam formando, levadas as raparigas com espalhafato para

o meio da casa, mas ficando cada _cavalheiro_ a respeito da sua

_dama_ como se fossem vis-à-vis de contradança franceza, e assim

formando-se de cada lado uma fileira, em que os homens se alternavam

com as mulheres. Dois pares consecutivos constituem uma chama-rita e só

com elles se pode já executar a dança.

O dono da casa excitava os renitentes, batendo as palmas e bradando:

--Chega a pares! Chega a pares! Ao terreiro!

Como não principiava a musica, o Ricardinho, que ia dançar com uma das

senhoras mas que não cessava de olhar para a Maria, disse com o entono

de quem quer ser promptamente obedecido:

--Então essa viola não fica afinada por uma vez?

O Joaquim Machado sem se desconcertar, mirou-o altivamente e mastigou

como por de mais:

--Está-se tratando sobre esse mesmo objecto.[4]

Quando o tocador muito bem quiz, rompeu a musica e com ella a

chama-rita. Os dançantes, ao mesmo tempo que acompanhavam a viola

dando estalos com os dedos, bamboleavam-se, saracoteavam-se para a

direita e para a esquerda, e faziam passinhos de dança n’um e n’outro

sentido, avançando e recuando um pouco, para tornarem sempre ao mesmo

sitio.

Um camponio ou _homem do monte_, que era par da dona da casa,

cantou:

Ao romper da bella _airola_[5]

Sae o pastor da _gaivana_[6]

Gritando em altas _vózeas_

Muito padece quem ama.

Chama Rita, chama Rosa,

Chama Rita tão formosa!

Quando o cantador principiava a repetir estes dois ultimos versos

á laia de estribilho, cada homem, estalando sempre com os dedos e

bamboleando-se, recuou seguido pela sua dama, que voltada para elle e

com os mesmos ademanes, parecia attrahida pelo chamamento.--D’isto,

naturalmente, é que a dança tirou o nome.--Chegadas as duas mulheres

de uma mesma chama-rita a altura em que podiam, costas com costas,

trocar a posição, effectuaram a mudança, recuando seguidas agora pelos

seus pares, até que todos entraram no alinhamento primitivo, mas em

ordem inversa. N’esta occasião cada homem fez em relação á dama do

outro par da sua chama-rita, um movimento analogo ao que o sr. Justino

Soares--valha-me o abalisado choreographo!--chamaria «_balancé au

côté_», se desejasse indical-o aos seus discipulos da arte de

Terpsychore.

Succederam-se os versos engendrados pela musa popular. O mestre da

viola, com um vozeirão de baixo profundo, garganteou:

Coração acima, acima,

Se não podes correr anda.

Tudo é pouco, bem n’o sabes

Para ver a sua dama.

Chama Rita, chama Rosa,

Ella que venha cá fora,

Venha ver o seu amor

Que lhe quer falar agora!

Quando acabava esta ultima quadra, que pelo numero de versos equivale

ao estribilho com a sua repetição, e que por isto não foi bisada pelo

cantador, o Ricardinho Terra, para saír da monotonia da chama-rita,

valeu-se de uma das marcas dos bailes de roda, com que costuma

variar-se aquella dança, e disse em tom de marcador de quadrilha:

--Roda cheia!

E logo todos cruzaram os braços e deram as mãos trocadas, formando

roda, que depois desfizeram para cada um dos bailadores, enlaçado ao

respectivo par, fazer o que nas contradanças francezas se designa pela

phrase--valha-nos outra vez o nosso Vestris!--_galop au tour_, com

a differença de que o passo é o da chama-rita, ou muito semelhante ao

da polka.

A _folga_ animava-se.

Para excitar ainda mais o enthusiasmo, cruzavam-se os:

--Pega fogo!

--Anda!

--Aquece, rapaz!

O Ricardinho, fitando muito a Maria, cantou-lhe:

Aqui tens meu coração,

Se o queres matar, bem podes,

Olha que estás dentro d’elle

E se o matas tambem morres.

O José ia disparatando, mas conteve-se porque o Luiz Carvalho, depois

de repetir o ultimo verso da quadra, arreliou o amigo com est’outra,

sempre usada para taes casos, viciando-a como os cantadores populares:

Assubi ao altar mór

P’ra accender vellas ao throno,

Bem tolo é quem se mata

Por coisas que já teem dono.

O Ricardinho gritou: «Mãosinhas!», o que se executou dando os pares

as mãos, e virando-se cada um dos dançadores alternadamente para os

que lhe ficavam contiguos, ao mesmo tempo que iam todos caminhando

lateralmente como no _grand rond au tour_.

A provocação do Luiz de Carvalho teve esta resposta, do Ricardinho:

Não ha nada tão perfeito

Como o amor de um estudante:

Ainda que seja pobre,

Sempre tem o amar galante.

Mas um rapaz do sitio corrigiu-lhe de prompto a coarctada, com outra

preparada egualmente para casos identicos:

Não viera um vento norte

Que levara os estudantes,

Para livrar esta terra

Dos _homes_ extravagantes.

A furia do José de novo acalmou.

Ainda assim difficilmente deixaria de haver um dos barulhos inherentes

a estes passatempos, alguma _poeirada_, se não apparecesse á porta

o padre vigario, na occasião em que, indicada pelo Ricardinho, se

executava a marca «Salta e rema!», na qual cada homem deve, passando

por traz do seu par e tomando-lhe a direita, ir fazer _balancé_

com a pessoa que lhe fica d’este lado, mas sem se darem as mãos, e

repetir o mesmo com a da esquerda. Continuam durante isto o _grand

rond au tour_, e a estalada com os dedos visto que as mãos se acham

livres.

O João Furtado, mal viu o padre, disse em voz muito alta:

--Triloré!

A dança parou logo e todos foram cumprimentar o recemchegado, que vinha

honrar a festa com a sua presença.

--A benção de Deus seja n’esta casa! disse o vigario e depois de fazer

uma venia á coroa, foi sentar-se na cadeira de balouço, que o João

Furtado fizera promptamente desoccupar em obsequio a sua reverendissima.

Mas o desejo do bom do padre, era que as danças continuassem.

Antes de ir para o seminario de Angra, e até quando vinha de lá passar

as ferias com a familia, elle não perdia uma unica folga.

Estes divertimentos attrahiam-o ainda, como tudo o que nos traz para

diante dos olhos já queimados pelas lagrimas da desillusão, os dias

luminosos da mocidade.

Ia recomeçar a chama-rita.

Á pergunta do estylo, que os antigos pares lhes faziam sobre o nome

do escolhido para a nova dança, as raparigas em geral responderam,

tambem segundo o estylo vulgar «O senhor mesmo!», com grave escandalo

dos outros rapazes, que assim continuavam a ser na festa uns meros

espectadores, e que se desforraram com o conhecido protesto:

--Caras novas ao terreiro!

A Maria não imitou o maior numero. Como ouvisse o João Terra dizer que

já não tinha pernas para folias, e não desejando fazer-lhe desfeita,

escolheu o filho d’elle--o Ricardinho. O José ficou embaçado, sem poder

mexer-se, e calado como se lhe tivessem amarrado uma mordaça.

Só o tio deu por isto, e para evitar alguma asneira, travou-lhe do

braço e disse-lhe em voz baixa, terminantemente:

--Anda commigo, diabo!--E como sentisse alguma resistencia,

accrescentou com maior intimativa:--Se não vieres, dou-te na cara, aqui

mesmo, deante de todo este povo!

Lá passar por similhante vergonha, isso é que nunca! E devia ao tio

tantos favores, apesar de tudo...

Acompanhou-o, mas fez logo uma tenção bem firme. Nem Jesus Christo, que

viesse a este mundo, seria capaz de arrancar-lh’a.

O ar da estrada refrescou-lhe a cabeça, sem lhe esfriar a resolução.

Mas as danças continuavam e só a isto é que todos attendiam.--Todos,

menos elle.

A Maria cantava com a sua voz estridula e argentina, bem afamada na

ribeira dos Flamengos:

Ó Pico, rocha tão alta,

Retiro dos passarinhos!

Mais retirada que eu ando,

Meu amôr, dos teus carinhos!

O José que a ouviu lá fora, resmungou entre si:

--Isso! Isso mesmo! Como se a fogueira inda precisasse de mais lenha!...

E chegou-se para a porta da casa, apparentando indifferença.

A dança animou-se mais, com o crescente enthusiasmo em que estava o

Ricardinho. Mal este gritou: «Cadeia!», as mulheres levaram o braço

esquerdo atraz das costas, á altura da cintura, e os homens deram-lhes

as mãos, indo as direitas de cada par enlaçadas na frente, como no

galope, e as esquerdas n’aquella posição. Será bom dizer que mais de

uma rapariga se tinha prevenido para o caso, resguardando as costas do

vestido no sitio provavel do contacto, por meio de um lenço pregado com

alfinetes. Os pares, assim unidos, avançaram para o centro e recuaram,

passando cada homem á dama que lhe ficava logo á direita, para com ella

executar isto mesmo, e assim successivamente, até encontrar-se de novo

com a que lhe pertencia.

Umas das senhoras da cidade, a Annina Mesquita, bem conhecida pelo seu

romantismo piegas, cantou com uma voz, que, em homenagem á verdade,

deveria chamar-se de canna rachada:

Encostei-me ao pecegueiro,

Cobri-me toda de flôr,

Ai de mim tão pequenina

Tão perseguida de amôr!

Mas por um pouco não deixava a quadra incompleta, porque estrondearam

perto, contendendo-lhe com os nervos, duas bombas, deitadas da

janella pelo João Furtado, para solemnisar o acabamento da ceia dos

_foliões_. Estes saíram á formiga, deixando a bandeira, o tambor e

os pandeiros, e levando comsigo, embrulhadas n’um lenço, as opas e os

sapatos. Dois tinham de ir para longe, e com similhantes trambolhos nos

pés, arriscavam-se a ficar pelo caminho.

Á «cadeia» seguiu-se a marca «Foge!» equivalente á _grande-chaine_,

mas principiada com a mão direita, e fazendo os homens um movimento

analogo ao _balancé_.

--Quer n’uma, quer n’outra--disse o José comsigo mesmo--o Ricardinho

apertou a mão de Maria!

Não tinha duvida.

Da chama-rita, passou-se aos bailes-de-roda, e a outras danças.

No _sapateia de cadeia_ bailou tambem o Joaquim Machado, tomando

logar no extremo d’uma das fileiras, viola ao peito, os restantes pares

dispostos como na chama-rita.

O José ia estourando de raiva, ao ver a Maria dançar mais uma vez com

o Ricardinho, mas conteve-se e foi tirar a Luiza, filha do regedor da

freguezia. Andou tão alegre, que até cantou esta quadra popular, com

que o João Furtado se escangalhava sempre com riso:

Uma jaqueta de abob’ra,

Forrada de melancia,

As casas de vento norte,

Os botões de calmaria.

Durante ella, as duas linhas de dançadores avançaram uma para a outra e

recuaram até ao ponto de partida.

E logo o Joaquim Machado atacou, muito emphatico:

Foge, anda tu, ó meu bem,

Foge, amor, que eu tambem fujo,

Fujamos ambos p’ra o matto,

Para á sombra do tamujo!

O primeiro d’estes versos foi o signal para se executar o «Foge» da

chama-rita, ao qual succedeu a «Cadeia» do mesmo baile. Chegados todos

aos seus logares, o Ricardinho cantou:

Oh! Sapateia, meu bem.

Sapateia de cadeia,

Deixa-me ir banhar no mar,

No mar que dorme na areia!

O mestre da viola, tocando sempre, retorquiu, com guelas de estentor:

Oh! Sapateia, meu bem!

Oh! Sapateia, faz arco!

Diga o mundo o que disser,

Já d’aqui me não aparto!

Ao primeiro verso, a fileira do lado do Joaquim Machado voltou-se para

a direita e a opposta para a esquerda, e cada dançante, com excepção

d’aquelle, deu a mão ao seu par e levantou o braço, formando-se assim

uma especie de abobada. O tocador e a dama respectiva passaram então

sob o arco formado pelo par mais proximo, contornaram o par seguinte,

mas pelo lado exterior, e foram passar por baixo do arco do terceiro

par, e assim successivamente. O segundo par executou eguaes movimentos,

logo que deu passagem ao mestre da viola, e todos os mais foram fazendo

o mesmo, com uma regularidade tamanha, que o proprio vigario applaudiu

enthusiasmado.

As danças succederam ás danças, e os pares succederam aos pares, não

porque alguem desse parte de fraco, mas porque era preciso contentar a

todos os que tambem queriam _brincar_ o seu boccadinho.

* * * * *

Era noite velha e ainda a folga não tinha acabado.

As tres senhoras voltaram para a cidade n’uma carruagem, alugada para

as levar e trazer; João Terra veiu no seu burrinho, e os quatro rapazes

a pé, visto não ser grande a distancia dos Flamengos á Horta, e a noite

estar fresca.

Não havia luar, mas as estrellas palpitavam com vivo clarão no fundo

negro do ceo, tão limpo de humidade que nem lembrava ceo dos Açores.

O Ricardinho na frente com o Luiz Carvalho, aturava-lhe os remoques,

visto que o outro, não tendo podido n’aquella noite justificar a sua

fama de conquistador, se desforrava com o amigo.

Mettido no vão de uma porta, para onde correra logo que os viu partir,

o José ouviu-lhes a conversa, sem que nenhum dos quatro o presentisse:

--Grande brejeiro, dizia o Carvalho. Quizeste ser imperador sem ter

coroado!

--Fala claro, que não te entendo, voltou-lhe o Ricardinho.

--Talvez não arrastasses a aza á imperatriz? Parabens, que a pequena é

de estalo! Mas o mais certo é não fazeres vaza. A Maria é muito capaz

de judiar comtigo uns poucos de mezes, e deixar-te no fim a chuchar no

dedo.

--O futuro a Deus pertence.

--Pois ella é que nunca te ha de pertencer!

O Ricardo Terra estacou, mesmo á ilharga da porta onde estava o José, e

disse com a prosapia inconsciente dos seus vinte annos:

--Queres tu apostar em como antes de um mez a tenho no meu rol?

O sobrinho do João Furtado sentiu uma vertigem, um desejo phrenetico de

partir, de espedaçar alguma coisa, mas não fez o menor movimento.

Atravez das candeias amarellas que lhe bailavam deante dos olhos,

distinguiu que o fato do Ricardo era claro, e escuros os dos mais.

Quando os viu longe, correu para o mesmo lado e entrou n’uma terra, que

acompanha a estrada durante uma grande extensão, e que é resguardada

por um muro baixo.

Tendo-lhes ganho consideravel deanteira, agarrou n’um pedregulho e

acocorou-se por traz do muro.

Pouco teve que esperar. Deitou a cabeça de fóra cautelosamente.

O Ricardinho vinha á direita. Era o mais proximo.

Apenas o teve a dois passos, ergueu-se de chofre, levantou a pedra com

ambas as mãos, bem acima da cabeça, e atirou-lh’a com quanta força

tinha.

Um grito e o baque de um corpo.

Afastou-se do muro rastejando, e desatou a correr como um coelho em

campo aberto. Ainda foi dançar quatro chama-ritas á _folga_ do

tio, que só acabou quando já era sol nado.

* * * * *

Nunca se descobriu quem fôra o assassino do Ricardinho Terra.

Como o pae e o filho se tinham envolvido n’uma tramoia eleitoral,

falaram os jornaes da opposição em vinganças politicas.

O João Furtado é que de alguma coisa desconfiou, e por causa das

duvidas arranjou d’alli a mezes e muito ás occultas, passagem para o

José a bordo de uma baleeira.

O rapaz foi ter aos Estados-Unidos. Um anno depois mandou pedir a prima

em casamento, aconselhando ao tio que fosse mais ella para S. Francisco

da California, pois se haviam de arranjar muito bem.

O João Furtado, como averiguou que o sobrinho estava a caminho da

riqueza, seguiu-lhe o conselho.

A Maria é hoje muito feliz com o marido; mas o sogro, á cautela, não

vive em casa do genro.

[Ilustração]

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Historias das Ilhas · 第 28 / 52 题