O Paiol

ERA temivel o sargento Bernardo quando principiava a contar historias,

mas como rastejava pelos setenta annos e tinha sido um valente,

todos o escutavam com pachorra. Um dia na Malaca, pequena bateria do

castello de S. João Baptista, na Terceira, ouviram-lhe o seguinte caso.

Affiançaram-me depois que a narrativa não era destituida de fundamento.

Demos a palavra ao sargento Bernardo:

«Não sei bem quando isto foi. Lembro-me de que tinha vindo de Lisboa

para S. Miguel em cabo, e que estava lá destacado havia bastante tempo.

O commandante do material era um capitãosinho de má cara, d’aquelles

com quem a gente não engraça, nem á quinta facada.

Por isso o meu commandante, o nosso tenente, nunca era com elle visto,

nem achado.

Um dia começou a fallazar-se do homem. Sabem que mais? Pelos modos

fazia o mesmo que o mestre do cazão de caçadores, que foi n’outro dia

responder a conselho ... cortava-se, mas não era com tiras de panno!

O que elle bifava, era muita e muita arroba da polvora do paiol. Mas

lá na que dava para as salvas não roubava nada, essa lhes juro eu! As

peças davam sempre o mesmo berro.

A coisa tinha-se divulgado, e já se dizia pela cidade que o paiol

estava cheio d’areia, porque a polvora tinha-a queimado o capitão ...

puxando o rabo á sota.

Que jogava era tambem certo. Excommungado!... Deus me perdôe! Não havia

noite nenhuma em que eu estivesse de guarda ao quartel, no castello

de S. Braz, que não me tivesse de levantar por causa do melro. E

quasi sempre duas e tres vezes! Vinha buscar dinheiro, para voltar

para a jogatina. E com que cara de peccado mortal elle andava! Se o

visse á meia noite, em logar escuso, era capaz de pôr-me a crer nas

feitiçarias, em que toda a galuchada de S. Miguel acredita como no

Divino Espirito Santo.

Andavam os taes dictos, quando chegou navio de Lisboa. D’alli a pedaço

disparam esta novidade no castello; o capitão do material vae ser

rendido e já desembarcou o tenente, que vem para o logar d’elle. Fiquei

banzado!

No dia seguinte vi o official novo. Era um perfeito moço, lá isso era!

Alto como uma torre, grosso que nem isto...--O Bernardo abriu muito

os braços, formando circulo.--E então a falar?... Tinha o diabo em si!

Devia ser do Algarve.

Segundo parece, contou logo que no commando geral da artilheria já

se sabia da marosca do capitão, e que elle, tenente, recebera ordem

para ver tudo, coisa por coisa. Se até disse que trazia uma balança de

botica, para pesar as onças e meias onças de polvora!... Era chalaça,

está visto.»

--E o outro, ó tio Bernardo? perguntou um dos que ouviam o veterano.

«O capitão? Se julgam que mudou de cara, enganam-se redondamente. Qual

historia! Até o achei de melhor parecer, quasi a sorrir!

Passados tres dias, começou a entrega. Foram primeiro ás peças,

palamenta, lanternetas...»

--Sim, tudo o que atulhava os armazens do material de guerra,

interrompeu um dos ouvintes. E depois?

--Ah! Vocemecês teem pressa? atalhou o Bernardo. Pois então haja saude!

E ia retirar-se.

Só depois de muito instado, se resolveu a continuar a historia, mas

d’esta vez com certo mau humor.

«No dia em que se devia entregar a polvora fui nomeado para ir com

as fachinas ao paiol, acompanhar os dois senhores officiaes. Eu não

acredito em bruxedos, já lhes disse, mas não sei o que me passou pela

cabeça, quando me deram parte da nomeação. Parece-me que tremi de medo,

o que me não tinha acontecido, podem crer, nas Antas nem no convento da

Serra do Pilar. Ao menos nas linhas do Porto, sabia eu haver-me com os

demos dos Corcundas, mas alli... O coração adivinhava-me alguma coisa.

Á tarde fomos todos para o paiol. Sabem onde elle fica! Saíndo a gente

da cidade para os Arrifes e andando menos de um quarto de hora, topa-o

á sua mão esquerda.

Iamos eu, as quatro fachinas, o capitão da jogatina e o tenente novo.

Os dois senhores officiaes, por signal, tinham jantado bem, muito bem

até! Logo se conhecia...

Chegou-se ao paiol, abriu-se a porta do guarda-fogo e a do

armazem,--tudo sem novidade. Quando eu estava a olhar para os barris

e cunhetes, que já começava a lobrigar alinhados em duas fileiras, o

capitão voltou-se para mim e disse-me:

--O’ cabo Bernardo, você já esteve em minha casa, lá no castello de S.

Braz?

--Saberá V. S.^a que sim, senhor.

--Pois então vá buscar o mappa da carga, que deixei lá por

esquecimento. Peça-o ao fiel, ao 36.

Fiz meia volta e já ia para marchar, quando ouvi:

--Olhe!

Volvi logo á rectaguarda.

--Onde está a balança que lhe deu o fiel?

--Saberá V. S.^a que o fiel não me deu balança nenhuma.

--Cabeça de burro! Pois então volte você ao castello, e peça-lh’a! Como

quereria o 36 que pesassemos a polvora? Tolice fiz eu em dispensal-o.

Estava doente... É verdade! Leve as fachinas para trazerem a balança.

--Bastam duas para a balança e uma para os pesos.

O capitão olhou para mim d’um modo exquisito e disse afinal, como se

lhe custasse:

--Pois sim, deixe ficar um homem.

Quando ia atravessando o guarda-fogo, deitei os olhos para o tenente,

que, sem se importar com o caso, estava alegre a não poder mais. Eu já

disse que elles tinham jantado bem.»

--Ó tio Bernardo, você está dizendo mal dos seus superiores! notou um

dos ouvintes, a rir.

--Leva rumor! acudiu outro. Queremos o resto da historia.

«Elle ahi vae, disse o velho, que estando para acabar um conto, não

era capaz de parar nem á mão de Deus Padre. Quando eu ia pela estrada

abaixo, para o lado da cidade, mais os tres galuchos... tres não,

dois!... tambem lá estava um soldado velho, o 27, que tinha andado

commigo nas sarrafuscas da Patuléa... Ah! mas quando eu ia na estrada,

sentia-me alliviado de um peso de seiscentas arrobas... Não ficava mais

satisfeito deitando ao chão a mochila, depois de uma marcha de oito

leguas. Teria a gente dado uns duzentos passos, e eu ia conversando a

este respeito com o 27, eis senão quando a terra nos treme debaixo dos

pés, e por um pouco não vamos todos de ventas ao chão. Ao mesmo tempo

sentiu-se um estrondo, como se tivessem disparado alli ao pé uma duzia

de peças de quarenta e oito! Que demonio seria aquillo?»

--O que era, tio Bernardo? perguntaram todos com interesse.

«Tremor de terra não seria, trovoada menos ainda.--O paiol! foi o

grito que me saíu da bocca. Voltei para traz, a correr como um doido.

[Ilustração]

D’alli a um instante vi que não me tinha enganado. A parede do

guarda-fogo, do lado da estrada, estava tão esborralhada que não ficara

pedra sobre pedra. O paiol tinha ido pelos ares. Só restavam umas

ruinas fumegantes.

Quando andavamos a revolver o enthulho, para ver se encontravamos o

corpo d’algum d’aquelles pobres de Christo, appareceu-nos o cabo da

guarda, que tinha escapado por estar longe do seu posto... a falar com

uma rapariga. Maroto! Livrou-se da morte, mas precisava meia duzia de

guardas de castigo.»

--E mais ninguem escapou?

--Escapou tambem a sentinella. Apanhou com pedras no corpo e perdeu

dois dedos de uma das mãos, sendo por isso passado a veteranos. Veiu cá

morrer ao castello d’Angra.

--E o que tinha succedido no paiol?

«Ao certo só Deus o pode dizer. O que se averiguou, foi que o maldito

do capitão veiu fora do guarda-fogo, accender um charuto. A sentinella

ainda lhe fez reparo. Estivesse eu lá que sabendo as coisas como

corriam, atirava-me a elle e já não o largava. Boas ganas sentiria o

capitão ao tenente chegado de Lisboa! De mais a mais, queria esconder

a ladroeira. Pouco depois a sentinella apanhou com as pedras e não deu

tino de mais nada.»

--Não se acharam os corpos?

«Achou-se o do tenente, á distancia de uns quinhentos passos.

Reconheceram-o bem. Pelos modos o pobresinho ainda quiz fugir, porque o

_cadavre_ estava menos queimado que os restos dos outros corpos.

Gente que viu de longe aquella desgraça, contava que tinha subido para

o ar um grande esguicho de fogo, tal qual, julgo eu, quando os montes

da ilha vomitavam lume, em tempos que já lá vão muito longe.»

--Sabe o que me parece exquisito, tio Bernardo? notou alguem. O tenente

não desconfiar da marosca do capitão!

--Essa cá me fica! Não disse eu que elle estava transtornado com a

bebida? Coitado! Tive pena d’elle. Era um rapagão como as casas!

--Do capitão é que o tio Bernardo não pode dizer mal. Se elle o não

mandasse embora...

--Tinha eu dado um salto de mil diabos, olá se tinha! Apesar d’isso,

não lhe perdôo. Porque não morreu elle sósinho? Se queria acabar com

estrondo, se não lhe bastavam os tiros da escolta á porta do cemiterio,

que demonio! mettesse-se n’um bote mais um cunhete de polvora, remasse

para o largo, e mecha no caso!... D’aquella maneira pagaram justos por

peccadores. Não lhe perdôo!»

[Ilustração]

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Historias das Ilhas · 第 29 / 52 题