EU estava debruçado no mainel da ponte, por onde se entra na quinta do
Jardim da Serra.
Pelo ambiente volitavam effluvios perfumados, vivificantes. O sol, em
jorros de luz, animava todo o valle, onde se repercutia sem cessar
o chilro atroador dos passaros empoleirados pelos castanheiros e
carvalhos, e o murmurio do ribeiro, que formava cascata junto á quinta,
para continuar depois serpeando mansamente por entre a penedia musgosa.
O tilintar dos chocalhos do gado, que pastava na encosta visinha, ou as
vozes das lenhadoras cantando pelo caminho do Curral, misturavam por
vezes áquelles sons, uma nota melancholica e destacada.
De fitar a agua fugitiva ia-me penetrando da suave frescura, que
emanava das profundezas do leito escuro da corrente, e ao mesmo tempo
alentava-me a perenne vida, que palpitava em toda a natureza aos beijos
do sol deslumbrante.
Senti uns passos ligeiros, como que medrosos, perto de mim, na ponte.
Era o Jacintho. Vinha com elle um velho--o pae.
Na vespera, quando saí do Funchal tinha visto o cabo surgir ao meu
lado, vestido á paisana e disposto a acompanhar a pé o cavallo que eu
montava.
--Vaes de licença?
--Saberá V. S.^a que sim, por um mez. Eu sou de ao pé da quinta para
onde V. S.^a vae passar estes dias, e já agora sigo aqui ao lado de V.
S.^a, se V. S.^a me dér licença.
E o cabo, sem parar no dispendio das senhorias, não deu parte de fraco
durante o passeio de tres leguas, não ficando nem um instante para
traz do picarso, por mim alugado na rua da Queimada para a encantadora
digressão.
Cicerone consciencioso, não omittiu o nome de nenhum dos
_demeraristas_, que tinham comprado terras á beira da estrada.
Via-se que a Guyana ingleza fôra para elles um verdadeiro Brazil, ao
contemplar as casas brancas, quasi todas com _venezianas_, de que
estavam povoados os terrenos adquiridos.
Antes de me dizer adeus, pediu-me licença para, no dia seguinte, me
apresentar o pae.
Coitado! Via em mim, pobre capitão de caçadores, um potentado, o que
quer que fosse de superior e intangivel, principalmente estando eu alli
perto da casa d’elle, e entendia honrar sobremodo o auctor dos seus
dias dando-lhe conhecimento commigo.
Por isso me appareciam ambos n’aquella esplendida manhã de julho.
* * * * *
Ainda rijo, o velho. Encostado a um bordão, com a camisa alva de neve a
saír por baixo do collete, botas e calças brancas, a carapuça na mão,
fitava em mim uns olhinhos curiosos e sorria parvamente, á espera de
que o filho m’o apresentasse.
--Saiba V. S.^a que aqui está o meu pae, disse o cabo.
O velho então ganhou desembaraço e pouco tardou em contar-me toda a
sua vida. Em certos pontos interrompia a narração para mirar o filho,
extatico, embevecido, como se mal acreditasse que o pequenito doente e
franzino de quinze annos antes, se tivesse feito aquelle rapagão cheio
de robustez e capaz de vender saude.
--O que me tem dado muitas _freimas_, sr. capitão, é elle estar
longe de mim. Nunca sei o que lhe terá acontecido ou póde vir a
acontecer. Demais, aqui, ao _meu pé_, sempre me ajudava... Se
por força tinha de saír da minha companhia, então que embarcasse para
Demerara. Lá ao menos podia enriquecer.
--Ou já teria morrido, objectei.
E tratei de fazer-lhe comprehender o que ha de nobre no serviço
militar, e quanto é culpado quem pretende fugir-lhe; mas o velho
abanou a cabeça, e teimou em não se deixar convencer, a despeito da
approvação, que os gestos do filho estiveram a dar-me constantemente.
Lembrei-lhe que o Jacintho, que saíra cabo alguns dias atraz e já
mandava em praças mais antigas, era muito estimado pelos superiores, e
disse-lhe até que d’aquella massa é que se faziam os officiaes como eu.
Não resistiu. Iam-se-lhe os olhos no seu rapaz.
Por cima d’aquellas faces, que os frios e as soalheiras tinham crestado
e a velhice cortava de rugas, mas onde brilhavam ainda as rosas da
saude, correram duas lagrimas de satisfação.
--O filho do Manoel de Jesus ainda está em soldado? perguntou elle ao
Jacintho.
--Está e estará, respondeu este, com ufania. Se não sabe ler!...
--Deveras! Então sempre serviu d’alguma coisa o que fiz por via de ti.
Lembras-te?
A instancias minhas, referiu-me a commovente historia do seu amor de
pae--como tinha conseguido que o filho aprendesse a ler e a escrever.
A escola era muito longe, e elle, receioso de que o pequenito, que
devia andar pelos seus seis annos, cansasse pelo caminho, acompanhava-o
sempre, antes de ir para o trabalho, pelas manhãs asperas e geladas,
quando o vento norte soprava rijamente, mais cortante do que navalhas.
O Jacintho, em muitas occasiões, desatava a choramigar, dizendo que não
sentia os pés e que já não podia dar passada. Então elle pegava-lhe ao
collo, descalçava-o, desabotoava o peitilho da camisa, e aconchegava
ao calor do corpo os pésinhos inteiriçados com o frio. Quantas vezes
sentiu cãibras no estomago, dôres muito finas, depois d’aquelle
contacto regelador!... Mas nem por isso arredava a creancinha, que ia
inclinando vagarosamente a cabeça para o hombro do pae, até que por fim
adormecia. Ao cabo de dois annos de escola, o Jacintho, «como tinha boa
_mimoira_», já sabia ler por cima.
--E não _havera_ de ser enganado, como eu tenho sido e hei de
continuar a ser! rematou o velho, sentenciosamente.
Encareci-lhe com enthusiasmo o seu admiravel procedimento, porém elle
recusou ingenuamente o elogio:
--Não faz mingua o senhor dizer tantas coisas. Se isto é o meu
sangue!...
E pronunciava estas palavras, envolvendo o filho n’um olhar de ternura
infinita, como as aves envolvem em macio frouxel os seus pequeninos
implumes, na meiga concavidade dos ninhos.
* * * * *
Foi isto pouco mais ou menos--áparte a fórma--o que me contou o
Silveira. Até aqui, tinha tido na voz uma suavidade, que sobremaneira
contrastava com o aspecto marcial e severo da sua physionomia.
Remexeu-se na cadeira, saccudiu a cinza do charuto, puxou o bonnet
para a testa e acabou assim a narração do caso:
Quatro annos depois, ainda eu pertencia a caçadores 12. O Jacintho, já
na reserva, tinha casado e morava á ilharga da praça do peixe, que como
sabes fica sobre o Calhau.
Com um dinheiro ganho pela mulher nas casas onde tinha servido,
puzeram um botequim. A freguezia começou logo a acudir numerosa, pois
que o rosto alegre e bonito da dona do estabelecimento era magnifico
chamariz. De mais a mais a Rita arranhava o inglez, e d’este modo
conseguia que a loja fosse preferida pelos marinheiros britannicos,
excellentes consumidores de «bebidas de guerra».
O velho assistiu ao casamento do filho e voltou para o Estreito de
Camara de Lobos. Com os seus sessenta e cinco annos bem puxados, ainda
mourejava de sol a sol. Um dia, em que andava trabalhando perto de uma
pedreira, ouviu o grito de: «Lá vae fogo!» annunciando a explosão da
_broca_. Como devia haver mais duas advertencias eguaes áquella,
não se apressou muito. Quando pousou o picão em terra, ouviu a segunda.
Correu para fugir a algum pedaço de rocha, que a polvora explodindo
arremessase a distancia, mas contou demasiado com a ligeireza das
pernas e caíu. A _broca_ rebentou, depois do terceiro aviso
do bota-fogo, e um grande penedo veiu apanhar o pae do Jacintho, e
partiu-lhe uma perna e um braço.
Levado n’uma rêde para a cidade, o pobre entrou no hospital da
Misericordia e alli esteve tres mezes e meio.
A principio o filho, umas vezes só, outras com a mulher, ia vel-o
quasi todos os dias, e carpir a desgraça do pae. Mas as visitas foram
rareando.
--Se elle tem a vida tão apensionada! desculpava entre si o doente.
Nos ultimos tempos nenhum dos dois appareceu por lá.
Quando lhe deram alta, o velho estava aleijado.
A uns enfermeiros que o lamentavam, de o verem sair do hospital
coxeando e arrimado ao bordão, respondeu cheio de confiança:
--Isso era bom, se eu não tivesse o meu filho!
Appareceu-lhe em casa inopinadamente. Não o receberam mal, e até lhe
mostraram agrado, em quanto elle não se explicou.
Depois do jantar, abriu-se com o Jacintho e a nora. Assim aleijado, não
poderia fazer nenhum trabalho: por consequencia voltar para o Estreito
e morrer de fome, vinha tudo a dar na mesma. O Jacintho olhou a medo
para a mulher, que se tinha tornado muito vermelha, e fincava os olhos
no tecto.
Por isto não deu o velho, mas notou que o filho, ao offerecer-lhe a
casa logo depois, gaguejava e parecia quasi não saber o que estava
dizendo. Assaltou-o uma suspeita:
--Seria pesado ao Jacintho?
A resposta indecisa dada por este e o silencio pertinaz da nora,
explicaram-lhe tudo.
--Está bom rapaz! Que queres? Julguei que vivias mais desembaraçado.
Volto para a nossa freguezia. Sempre lá me hei-de arranjar. Fica-te com
Deus, filho, fica-te com Deus!
Agarrou-se a elle, beijou-o muito e saiu pela porta fóra, arrastando
ainda mais da perna aleijada.
* * * * *
Tempos depois, vi-o no asylo de mendicidade.
Como sabia isto, disse-lhe do filho tudo quanto merecia aquella infamia.
O velho escutou-me sorrindo tristemente e respondeu por fim, a encolher
os hombros:
--Será verdade o que o senhor me diz, mas que lhe hei-de eu fazer? Se
elle é do meu sangue!...
[Ilustração]
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