No dia de S. Pedro á tarde a Isabel aconselhou á filha e ao genro que
fossem dar um passeio, e como suppunha que não lhes agradassem os
sitios mais concorridos, lembrou o monte Brazil. Mettidos entre quatro
paredes, sem nunca se distrahirem, pensava ella, estariam sempre de mau
humor, e difficilmente acabariam de congraçar-se.
Não os acompanhou, porque a sós poderiam entender-se melhor. De mais a
mais, já tinha feito bem o seu dever.
Os dois acceitaram o conselho, e foram pelo caminho, que a meia encosta
ladeia o monte, passando á ilharga das ruinas da antiga casa de
recreio dos governadores da praça, e vae ter a uma plataforma de rocha
sobranceira ao mar.
Pelas aguas tranquillas da angra, que deu o nome á cidade, deslisavam
alguns barcos, onde familias da burguezia e do povo andavam a
recrear-se em honra do santo pescador.
Chegados ao extremo do caminho, o velho sentou-se n’um comorosinho
coberto de relva já amarellecida pela soalheira, e a Rosa, para estar
bem longe d’elle, foi para a beira da plataforma, e descahiu os olhos
para o mar. Avistou-o em baixo, ao deante da rampa, que desce em
vertiginoso declive e termina em empinada muralha banhada na base pelas
aguas, alli escuras e profundas.
Um barco ia rodeando o monte, de volta para a cidade. A Rosa conheceu
logo os passageiros. Eram o dr. Brum, um rapaz moreno e cheio de vida,
e a mulher, uma loura de afamada belleza. Tinham casado por grande
paixão, uns quatro mezes antes. Ella reclinava a cabeça no hombro do
marido. Pareciam ainda na lua de mel.
--Como eram felizes!
N’esta occasião o veterano, ainda no mesmo logar, suspirou, entregue
aos seus tristes pensamentos.
--Que suspirasse! Que padecesse! Que tinha ella com isso? O que lhe
importava, era o impecilho do velho tel-a ido buscar, para reduzil-a
áquella desgraça. Maldito!
Desejosa de ver mais tempo o barco, já quasi a occultar-se por traz
da bateria de Santo Antonio dos artilheiros, desceu dois passos pelo
ingreme talude.
Em direcção contraria, e como o primeiro a curta distancia da costa,
vogava outro bote. Á ré tambem um homem e uma mulher.
Provavelmente mais um casal feliz.
Elle era um militar, um sargento. Já se lhe distinguiam as tres divisas
verdes.
Tão alegres aquelles dois, que vinham tocando e cantando. A voz
abarytonada, que entoava o fado, conhecia-a ella.
--Não! Não era possivel!
Debruçou-se mais, correndo quasi o risco de precipitar-se.
--Sim! Eram o Luiz e a Genoveva.
Com os olhos a saltarem das orbitas e os punhos fechados para o barco,
trovejou phrenéticamente:
--Ah! Grandes maraus! Grandes maraus!
O Jorge pareceu acordar de um sonho, levantou-se, olhou para o bote e
apesar da distancia reconheceu o sargento.
--Até que te apanhei! gritou elle, travando rudemente do pulso da
rapariga.
--Hein! O que é?... Largue-me! Largue-me!
E voltou os olhos para o barco.
--Não olhes para lá, olha para mim, para mim, que sou teu marido! Anda!
Nega ainda historia com o sargento... Nega!
--Não nego, e arrependida estou eu de ter negado a primeira vez. Mas
largue-me! Arre!...
Com um esforço violento escapou-se-lhe da mão e como sentisse o pulso a
doer, bradou fula de raiva:
--_Pisar-me_ assim! Pedaço de bruto!
--Olha que eu desfaço-te, grande diabo! E não te cae a cara de
vergonha, por veres que sei tudo! Sempre era muito estupido!... Foi
preciso que me mettesses a verdade pelos olhos dentro, ao avistares o
sargento com outra mulher! Eu bem o reconheci, accrescentou o velho e
apontou para o rival, que mal suspeitava o que alli estava acontecendo
por sua causa. Ah! Padeces o mesmo que me tens feito padecer? Ainda
bem! Ainda bem!
Ella ia responder com uma insolencia, mas calou-se, porque a vóz do
sargento, subindo pela encosta, trouxe-lhe ao ouvido fragmentos de uma
quadra do fado, de envolta com os arpejos da guitarra.
Sabia-a de cór, de a ter ouvido ao amante.
--Perdes o tempo a escutar, que não é para ti que elle está cantando!
disse-lhe o Jorge, com sarcasmo.
Voltou-se enraivecida para o marido, mas, querendo feril-o mais
cruelmente, descambou para a troça.
--Então não querem ver o _fedôr_ do velho! ejaculou, com o dedo
apontado para elle e atravez de uma gargalhada. Julga talvez que se o
Luiz me não quizesse mais, ganhava com isso alguma coisa? Nicles, meu
menino! Não é o mel para a bocca do asno.
E cuspiu-lhe outra risada.
O Jorge ouvia-a estupefacto, sem acreditar.
Para se vingar em alguem, a Rosa continuava nos improperios, como se
a desesperação, que dias e dias tinha represado dentro em si, achando
finalmente sahida, golfasse n’um vomito asqueroso.
--Julgou o mostrengo que era só appetecer uma raparigota, que ainda
mal chegava a mulher, e chamar-lhe sua! Tal desgraça! Juntar a morte á
vida!... Que peccado! O avô casado com a neta! Ah! Ah! Ah!
Meio suffocado pelo desespero e pelo asco, mas curioso de saber até
onde chegaria aquella abjecção, o velho quiz ouvil-a. Não poude
esquivar-se todavia a dizer-lhe com desprezo:
--Grande porca!
--Porco é você! Um porco, que me sujou casando commigo! Porcos os
seus beijos! Desde o dia em que me levou á egreja, tenho nojo de mim!
Veja-se n’um espelho, seu velho tinhoso, e diga-me depois se eu era
para a sua bocca!
O veterano cresceu para ella, chamando-lhe:
--_Valhaca!_ Surrão!
Quiz agarral-a, porém a rapariga furtou-lhe as voltas, e continuou a
provocal-o:
--Muito lhe tenho eu aturado! Nenhuma outra soffria tanto. O que eu lhe
fiz, não é nem a metade do que você merece!
--Eu mato-te, diabo, eu mato-te! Nem já sequer te vejo!
--Nunca me tivesse visto! Oxalá! Fique sabendo que não gosto de você,
nem gostei nunca, nunca! D’elle! D’elle, unicamente!...
E apontou na direcção do bote, que os dois, afastados um pouco da
rampa, não podiam agora ver.
Ouvia-a e cuidava já não ser d’este mundo, ou que tudo se anniquilara
em volta de si. Ainda os espreitava o sol por traz do monte, e elle
julgava-se envolto nas trevas da noite.
--Pois aquella creança, que havia pouco se lhe afigurava tão
innocente e pura, como nas tardes em que ella ia levar-lhe o jantar,
muito rosada, de vestidinhos curtos, saltitante e alegre que nem um
passarinho--aquella creança podia ser a malvada que para alli estava a
falar?! Mais nojenta e descarada do que essas mulheres, que á noite,
quando lhe succedia voltar para o castello mais tarde, o perseguiam
pelas ruas da cidade, com as galochas de pau soando estridulamente nas
pedras da calçada, e que se lhe offereciam desbragadas, em tróca de
pouco dinheiro! Pois aquillo era a sua mulher, a sua querida mulher?!
No emtanto a Rosa tinha-se abeirado outra vez da escarpa, e com os
olhos a brilharem seguia o barco, que se ia afastando de terra.
--Era aquillo, era! Peior ainda que as mulheres de má vida, podia dar
lições a todas ellas!
E para que não existisse um monstro assim, o Jorge correu para a
mulher, agarrou-a pela cintura e atirou-a com força pela rocha abaixo,
dizendo:
--Anda! Vae ter com elle!
O corpo cahiu aos resaltos pela vertente e foi pondo salpicos de sangue
nas arestas que o esfarrapavam, em quanto a voz do sargento Luiz
garganteava ao longe, toda cheia de requebros:
Mal os meus olhos te viram
O meu coração te adorou,
Na cadeia dos teus braços
Minha alma presa ficou.