Passou-se um mez.
O Luiz, sabedor do que tinha havido em casa do Jorge, andava retrahido,
pois «não queria levar as coisas para o tragico» dizia elle, e «embora
a rapariga fosse tentadora a valer, não merecia que por sua causa
se fizessem asneiras de marca maior». Esta restricção, diga-se de
passagem, estabelecia-a tambem a respeito de todas as outras mulheres.
Demais a Genoveva acabava de voltar da Graciosa. Era uma matronaça
ainda bem disposta, com quem o sargento, segundo rezava a chronica
escandalosa da cidade, já tinha tido os seus dares e tomares.
Encontraram-se por acaso no caminho de S. Pedro e reataram relações.
Aquella, sim, que não podia accarretar-lhe semsaborias. Se já era
livre durante a vida do seu antigo patrão, mais o estava agora, que
tinha ficado remediada com a herança deixada pelo conego Ricardo á sua
ama e enfermeira de tantos annos. E sabia fazer-se estimar. Como tinha
ainda fresco o dinheiro produzido pela venda de um predio na Graciosa,
dava amiudados presentes ao amante, que recusou a principio, cheio de
nobre desinteresse, mas que depois, não querendo fazer desfeita, os
acceitou cheio tambem de gratidão.
A Isabel soube d’isto e para acabar de todo com os «malditos amores»,
origem para ella de tantos phrenesis, foi dizer tudo á filha.
Pareceu-lhe bom o resultado.
Se até alli a Rosa andava exquisita, tomou-se desde então ainda mais
taciturna. Nunca saía de casa, e levava sentada o dia inteiro, sem
dizer palavra, com a vista parada, como se estivesse a olhar para
dentro de si mesma, interrogando-se.
--Já está arrependida, julgava a Isabel.
A Rosa não acreditou que tudo aquillo fosse verdade, se bem que o
retrahimento do amante lhe tivesse causado uma desillusão profunda. O
Luiz não a atraiçoava com a Genoveva, lá isso não!--Achava até ridicula
semelhante rivalidade; não a tomava a serio.--Mas em todo o caso, não
era homem para arrojos, nem sacrificios. Cego pelo amor, atrevera-se a
muito; agora, estava com medo das consequencias, incapaz de imital-a,
a ella, que se tinha arriscado a tudo, e que não hesitaria, se elle a
quizesse levar comsigo, em deixar o marido, receiosa tão somente por
acabar de perder-se na opinião de todos, e d’este modo não ser digna de
gosar, algum dia, a felicidade para que se julgava destinada. Pois o
Luiz não conheceria que só o amor a tinha arrastado áquellas loucuras,
e que se estivesse casada com elle, mulher nenhuma seria mais honrada?
Sim, o amante ainda havia de recompensal-a de tudo o que lhe fazia
padecer.
Era a sua esperança, a sua crença.
Mas o procedimento do Luiz desorientava-a, quasi lhe fazia perder a
coragem. Chegava a querer-lhe mal, mas iria padecendo até esse dia
feliz.
Ao marido já tinha raiva.
--Pois não era elle a causa de todas aquellas desgraças? O unico
obstaculo, que não a deixava ser feliz?
O Jorge, pela sua parte, andava como atordoado. Parecia viver n’um
sonho. Ainda o assaltavam desesperos subitaneos, quando julgava a
denuncia verdadeira, e então sentia impetos de matal-a e matar-se; mas
em breve acalmava, porque lhe acudiam á memoria as explicações dadas
pelas duas mulheres.--A mãe não podia estar combinada com a filha!
Via a Rosa melancholica e taciturna, mas via-a! Tinha-a sempre alli,
como coisa legitimamente sua. Possuia-a sem medo de ninguem. Não
trocava a sua sorte pela de outro, ainda que fosse verdade o que...
Não! Era uma falsidade, uma perfeita mentira!
--Não me perdoou ainda eu julgal-a tão mal e tem razão, pensava o
Jorge, por vel-a n’aquella attitude. E até se arrependia de não ter
forçado o amigo a declarar-lhe o nome do mentiroso, para se vingar, e
vingar a sua pobre mulher, que estava innocente.
Lembrava-se de pedir-lhe perdão, de propor-lhe sairem da Terceira
para S. Miguel ou para outro logar ainda mais distante, onde ninguem
os conhecesse, onde não chegasse a calumnia. Mas ao encontral-a tão
reservada, calava se, perdia o animo, e a duvida logo recomeçava no seu
trabalho surdo e implacavel.
--Pois senhores, dizia comsigo a Isabel fiada n’este apparente socego,
pelos modos não chega a haver trabuzana. Tenho de levar um cyrio á
Senhora do Livramento.
--Muito cuidadinho, recommendava ella, quando alguma vez ficava a sós
com a filha. O Jorge está aqui, está certo de que tudo foi mentira.
Mas ai de ti, se lhe fizesses voltar as desconfianças. Era capaz de
matar-te!
--Entre mortos e feridos sempre ha de escapar alguem, objectava a
rapariga. E espero em Deus mandal-o adeante.