O Jorge não poude seguir a mulher no caminho da morte.
Quando ia para despenhar-se, deitaram-lhe a mão o corneteiro-mór
reformado e outro homem.
Preso para conselho de guerra, foi julgado tres mezes depois e
confessou o crime, sem todavia declarar, por mais instancias que lhe
fizessem, os motivos a que tinha obedecido. Os insultos e provocações
com que a Rosa o allucinara, contaram-os ao conselho aquellas duas
testemunhas. Estavam perto, mas não tinham sabido intervir a tempo de
evitar a catastrophe.
Em quanto duraram estes depoimentos, o Jorge, envergonhado não por si
mas por ella, tapava o rosto e cravava na testa os dedos contrahidos.
Impressionou vivamente ao auditorio o discurso do defensor. Quem
apresentava aquella honrosa biographia militar, allegou o moço
official, não era de certo um assassino. Tinha feito uma morte,
praticando aliás um acto de verdadeira justiça social, mas não
commettera um crime, pois estava inteiramente privado da intelligencia
do mal que fazia, o que era previsto pelo codigo.
No fim, o presidente perguntou ao accusado se tinha mais alguma coisa
que allegar em sua defeza.
--A minha pena toda é que V. S.^{as} não possam mandar-me varar por
quatro balas, respondeu o velho, e não pronunciou mais palavra.
Foi absolvido por unanimidade.
O José Maria acompanhou-o a casa, e no intuito de consolal-o disse-lhe
que a Rosa só tinha tido o que merecia.
--Cala-te, homem, cala-te! vociferou o Jorge, e atirou-se para cima da
cama, onde ficou deitado, com a cara voltada para a parede, os olhos
abertos e inexpressivos.
N’isto chegou-lhe á porta a Isabel e não se fartou de injurial-o.
--Peiores que o matador de sua filha, só os malvados do conselho de
guerra, que o tinham absolvido! Tudo uma cafila!
O José Maria dispunha-se a correr com ella, quando a Josepha Julia e a
Luiza Braga, que vinham á descoberta, a levaram d’alli.
--Deixa-o lá, dizia-lhe a Luiza, com o braço mettido no da viuva. Bem
castigado ficou elle, perdendo a sua Rosa. Tens razão para lhe querer
mal, mas, diga-se a verdade, o que a tua filha fez ao Jorge...
--E tu e as mais o que fazem? berrou a Isabel. Mas logo, cahindo no tom
lastimoso, ajuntou: O corpo da pobresinha lá está no fundo do mar ...
ou talvez fosse comido por algum peixe!
Seguiram caladas pela rua adeante.
--Se todos os maridos, que teem razão de queixa das mulheres,
seguissem a receita do Jorge--meditava a Josepha Julia, com azedume de
solteirona--os peixes, de gordos, chegariam a não poder nadar!
Depois, lembrou-se de uma novidade capaz de alegrar a Isabel:
--Não sabeis o que se conta da mulher do sargento Luiz?
--Da antiga ama do conego Ricardo? perguntou, immediatamente a Luiza.
--Isso! Que já a prega na menina do olho ao marido, com um estudante do
seminario!
--E elle que se ha de affligir! acudiu a Isabel com rancor. Não lhe
tirem os moios de renda deixados pelo conego, pois quanto ao mais...
* * * * *
Sempre cabisbaixo, andando á pressa e murmurando uma vez por outra
palavras que ninguem percebia, o Jorge só era visto d’alli em deante
nas ruas do castello, quando ia de manhã para o armazem do material de
guerra ou para a terra do monte Brazil, e á tardinha, quando recolhia.
Quem de noite lhe passasse á porta, mesmo fóra de horas, via pelas
frinchas a claridade da candeia, e sentia lá dentro, com frequencia, os
passos do velho, medindo em todos os sentidos a casa terrea, e ouvia de
quando em quando um suspiro mal reprimido. Quando lhe perguntavam se
queria alguma cousa não respondia e ficava á escuta, para continuar na
mesma, apenas ia longe o importuno.
Uma noite o José Maria, embora soubesse que o Jorge, como sempre, o
receberia mal, entrou-lhe á força em casa e fez-lhe ver que elle estava
dando cabo de si, o que era um grande peccado.
--A vida, é Nosso Senhor quem a dá, só elle a póde tirar, retorquiu
o Jorge. Cuidas que se não acreditasse n’isto, já não tinha ha que
seculos?...
E sem rematar a phrase, continuou a passeiar pela casa, alheio a quanto
o rodeava.
* * * * *
Em algumas tardes ia sentar-se na rocha, no mesmo sitio d’onde tinha
despenhado a mulher, e deixava-se alli ficar horas esquecidas, olhando
para o mar, talvez a pedir-lhe que lhe restituisse a sua Rosa, de quem
elle, apezar de tudo, ainda gostava tanto!
[Ilustração]
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