VI

Quando julgou o camarada já bastante longe, de modo que lhe podesse

furtar as voltas para não ser visto por elle no regresso a casa, o

Jorge saiu da courela de terra e tomou o caminho do Castello, quasi a

correr, ancioso por se encontrar com a Rosa.

Mas foi abrandando o passo.

O que ia dizer-lhe?

Podia lá contar-lhe o que os maraus!... Se o fizesse, é porque a

julgava capaz d’isso, e então escusava de perder palavras, quando o que

devia fazer unicamente era...

Teve uma hallucinação. Pareceu-lhe que via diante dos olhos a cara

d’aquelle soldado miguelista, a quem matara no cerco do Porto,

enterrando-lhe no peito a espada de um alferes de caçadores 5, que o

outro acabava de tornar cadaver, abrindo-lhe a cabeça com a coronha

da espingarda. Viu outra vez n’aquelle rosto a expressão medonha da

anciedade, da afflicção e desespero do infeliz, que assim perdia a

vida em plena mocidade. Os olhos, os olhos muito abertos, a saltarem

das orbitas, o iris completamente emmoldurado pela alva, diziam tão

energicamente o immenso odio contra o matador, que o Jorge recuou

apavorado... No fim do combate passou, por acaso, ao pé do morto. Os

olhos já estavam embaciados, mas ainda lhe expressavam o mesmo odio.

Entrou-lhe pela primeira vez bem clara no espirito a noção de quanto

é horrivel dar a morte a um nosso similhante, e pediu a Deus que nunca

mais o puzesse n’aquella dura extremidade. Assim lhe aconteceu. Até ao

fim da guerra não tornou a matar ninguem, pelo menos que visse, que

soubesse, pois que as balas, granadas e bombas lançadas pelas boccas de

fogo que elle apontava não errariam de certo o alvo... Mas como não via

essas mortes, era como se as não fizesse.

--Havia então de matar a Rosa!... A Rosa de quem, apesar de tudo,

gostava tanto!...

Mas se ella effectivamente o tivesse enganado?

Subiu-lhe outra vez á garganta uma onda. Viu tudo côr de sangue...

N’esse caso, esmigalhava-a, estraçoava-a, para que nenhum outro homem

lhe gosasse o que era seu, muito seu!

Chegou ao pé de casa.

Lá dentro tudo em socego.

A Rosa, embainhando uma saia de chita, cantarolava a meia voz e em tom

sentimental a modinha da _Saudade_, em quanto a Isabel, que havia

tempos estava quasi sempre em casa d’elles, o que era muito do gosto

do Jorge, espertava o lume para se coser a ceia. A sopa de couves com

feijão fervia n’um suave romrom dentro da panella de ferro e espalhava

por toda a casa um aroma capaz de fazer crescer agua na bocca ao menos

famelico.

Sentiu-se menos resoluto, perante aquella tranquilidade.

--Porque todos a accusavam, havia ella de ser culpada?... E se

estivesse innocente?

Enterneceu-se, invadido por uma grande commiseração.

Em consciencia, quasi lhe achava desculpa, mesmo no caso de ser verdade

o que diziam. Para que a tinha escolhido assim tão nova? Deus é que

não lhe devia ter posto no coração, aquelle immenso amor! Bem sabia

que estava adiantado em annos, que tinha o rosto cavado de rugas e

o cabello quasi todo branco, mas desde que se apaixonára pela Rosa,

sentia dentro de si o viço, o frescor, a alegria dos mais formosos dias

da mocidade; respirava desafogadamente e com delicia, achando o mundo

mais bello do que nunca, e antevendo um futuro longo, feliz. Ás duas

por tres, nas vesperas do casamento, dava por si a rir, a cantar. Era

moço outra vez.

A Rosa, certamente, é que não o via do mesmo modo.

Tudo isto lhe passou de tropel no pensamento, ao entrar em casa.

Mas tinha que desabafar por força, se não rebentava.

Deu as boas tardes ás duas mulheres, lavou as mãos, sacudiu a terra do

fato e foi sentar-se n’um canto, sem saber como havia de começar.

A sogra forneceu o pretexto, perguntando-lhe se queria que tirasse a

ceia do lume.

--É que eu mesmo tenho vontade! resmungou o veterano.

--Hein? inquiriu a Rosa, sem largar a costura, mas fitando os olhos no

marido.

--Quem anda com o interior ralado, não tem vontade de comer!

A rapariga encolheu os hombros, e continuando a coser disse por entre

dentes:

--Nunca tive geito para adivinhações.

--Ah! Tu não adivinhas o que eu tenho?... Pergunta-o por esse Castello,

e verás como toda a gente sabe dar-te a explicação. Ah! Que se fosse

verdade!...

E o velho levantou-se, fazendo um gesto de ameaça.

A rapariga empallideceu levemente, mas recobrou animo, por ver o marido

ainda duvidoso. Levantou-se tambem, arrumou a costura rapidamente, e

perguntou com grande ousadia, fingindo-se embespinhada:

--Se fosse verdade o que? Não tenho geito para adivinhações, já disse!

A Isabel, que, pelo sim pelo não, tinha tirado a panella do lume, veiu

postar-se ao lado da filha, para lhe accudir em caso de necessidade.

O Jorge falou, falou, a principio com desabrimento e violencia, depois

com menos força, como se o desabafo a pouco e pouco lhe minorasse a

acuidade do tormento. Disse tudo o que o amigo lhe tinha contado, sem

nomear, já se vê, o José Maria.

Ouviu-o a Rosa com um sorriso desdenhoso, como se désse pouca

importancia a tudo aquillo. Depois, cruzou os braços, deixou cahir

o corpo sobre a perna esquerda, e ficou a miral-o atravez dos olhos

semi-cerrados, meneando a cabeça e batendo febrilmente no chão com a

ponta do pé direito. Dir-se-hia que mal continha a impaciencia. Tinha

tido muito medo ao perigo quando o sentia longe, mas agora que o via

diante de si, affrontava-o ousadamente, chegava quasi a pensar que o

havia exagerado.

Pela sua parte a Isabel acompanhou a objurgatoria com uma gesticulação

larga, em que a indignação e o espanto se traduziam alternadamente, e

tanto que o genro se remetteu ao silencio, bradou com toda a energia:

--E ha quem metta a sua alma no inferno com esses falsos testemunhos!

--Ha, sim, minha mãe! acudiu a Rosa, com voz aspera e vibrante. E

tambem ha quem não se envergonhe de os acreditar e repetir!

--Credo, credo! Tal desgraça! murmurou a Isabel não atinando com outra

phrase.

--Eu não digo que seja tudo verdade, acudiu o velho entibiado pela

ousadia da mulher, mas alguma coisa ha de haver! O dictado não mente:

voz do povo, voz de Deus.

--Voz do diabo! atalhou a Rosa de prompto, e com o pescoço estendido e

a cara bem defrontada com a d’elle perguntou: Mas se acredita o que lhe

disseram, para que veiu ter commigo? Se fiz tudo isso, se não presto,

devia arredar-se de mim por uma vez!

--Não! Lá isso não! Se tivesses feito aquellas poucas vergonhas...

A voz estrangulou-se-lhe na garganta, que apenas emittiu um som cavo.

Ao mesmo tempo o Jorge, como se tivesse um lampejo momentaneo da

verdade, cresceu para a rapariga, os braços hirtos, crispadas as mãos,

em acção de agarral-a pelas guelas.

--O’ Jorge! gritou a Isabel, abraçada ao genro. Olha que está

innocente! Juro-te por tudo o que quizeres!

--Pela alma do José de Medeiros?...

--De meu marido? titubeou a viuva. Oh! Homem, não se deve bulir em quem

está descançado ha tantos annos.

--Pela alma de José de Medeiros?... insistiu o veterano, em voz surda.

--Sim, sim, juro! Assim elle esteja em gloria! Juro!

--Jurou! disse elle quasi comsigo mesmo, e accrescentou em voz ainda

mais fraca: Mas então para que anda a corja a vomitar aquellas

patifarias?

--Porque tem inveja da gente! retorquiu a Isabel com energia mas em

tom lamentoso. Pois não sabes o que é a costumada pouca vergonha

n’este maldito Castello? Está uma alma christã muito socegada da sua

vida, trabalhando dentro da sua casa e nem por isso escapa áquellas

navalhas!... Se nem o proprio _sôr_ governador se livra!... É

ouvir o que dizem d’elle... Que anda vestido como um pelintrão ... que

não faz bem á pobreza ... que é bruto ... que é malcreado... Vale-lhe

ser solteiro, quando não...

Nem o Jorge nem a Rosa lhe escutavam a tagarellice. Alheiada de tudo,

a rapariga tinha ido sentar-se, muito carrancuda, ao pé da janella

e olhava para o exterior. O velho, alçado no meio da casa, a cabeça

apertada entre as mãos, não sabia o que havia de crer, com a duvida,

a envolvel-o, a cingil-o, a devoral-o, como serpente, que se lhe

houvesse enroscado no corpo e lhe estivesse esmagando o peito e

fincando os dentes fundo, muito fundo, no coração.

Por fim, ainda impressionado pelas revelações do José Maria:

--Mas o que elle me contou?... Coisas tão bem explicadas ... parecendo

tão certas!... Quem podia inventar tudo aquillo?

--O proprio marau que t’o foi metter no bico!

--Cale-se! Não é capaz d’isso!

A viuva ía responder, mas a Rosa, que adivinhou quem a tinha

denunciado, gritou-lhe do seu logar, batendo nos joelhos com as mãos

abertas.

--Não se cance, minha mãe. Por mais que diga, creia que perde o seu

tempo. Fia-se menos na gente, do que nos seus amigos velhos. Não admira!

--Tens razão! Sim! Foi o José Maria! exclamou a viuva. Não podia ser

outro. Ah! Que a primeira vez que o apanhar!...

--Não foi elle! Cale a bocca! intimou o Jorge. Deus a livre de lhe ir

dizer uma palavra de tudo isto!

--Mas ó homem!...

--Nem palavra! Entendeu?...

--Bem! Bem! Haja saude! Não lhe digo nada. Mas não admira que o José

Maria... Se nunca poude levar á paciencia o teu casamento!... E tinha

razão. Se eu não tivesse consentido, estavamos livres d’esta freima.

Valha-me Nossa Senhora!

E afogou o resto da phrase n’um grande choro de carpideira,

entrecortado de soluços e arrancos.

--Cale-se, senhora, cale-se para ahi! ordenou-lhe o velho, aturdido e

impacientado.

--Não, senhor, não me calo! Até os proprios animaes defendem os seus

filhos.

N’uma explosão de ternura, correu para Rosa, beijou-a e murmurou,

chegando-a a si:

--Ainda que todos te criminem, eu sempre direi que estás innocente!

E como a rapariga, desafeita ainda a hypocrisias, a afastasse um pouco,

sentindo apesar de tudo instinctiva repugnancia pelo que a mãe estava

fazendo, continuou queixosamente:

--Elle é isso? Já me não queres ao pé de ti?... Tomas raiva a toda a

gente, vendo-te accusada por quem só te devia defender?... Coitadinha!

Enxugou uma lagrima hypothetica, e com a mão no hombro do genro

exprobrou-lhe que elle fizesse côro com a malta dos invejosos. Sim! O

que os Cains não podiam levar á paciencia é que elle fosse feliz com

a Rosa, não obstante aquella differença das idades, havendo tantos

maridos tão novos como as mulheres, e até mais novos, que andavam

apontados a dedo, pelo castello e pela cidade.

--Anda! Faze a vontade a essa corja! continuou a viuva. Sabes que mais?

Antes de vocês casarem, vieram dizer-me que o que tu querias era uma

enfermeira para te tratar, porque d’aqui a pouco havias de tornar-te, a

bem dizer, um poço de doenças, e que eu não devia, por ser uma dôr de

alma, condemnar a pobre pequena a uma vida de negra! Eu sei lá o que me

vieram buzinar aos ouvidos! Pois eu deixei-os falar, e, como ella era

muito tua amiga consenti no casamento... É que eu não sou como tu, não

faço a vontade aos maraus!

--Já a mandaram calar, minha mãe! É o melhor que pode fazer! disse-lhe

a filha, com os nervos irritados pela discussão.

--Bonito! Agora és tu!... Pois não me calo, em quanto não vir as coisas

no seu logar!--E com a mão posta outra vez no hombro do veterano: O’

Jorge, deveras não estás ainda arrependido? Vê aquelle botãosinho de

rosa! Anda! Pede-lhe perdão!...

Como elle resistisse, chegou-se á filha e tentou impellil-a para o

marido.

A rapariga então é que não quiz e foi para o lado opposto do quarto, a

chorar de raiva.

--Vês! Vês como a fazes penar! murmurou a Isabel ao ouvido do Jorge.

Approximou-se da filha, aconselhando-lhe, em voz alta, que não se

apoquentasse, que não chorasse d’aquella maneira, e comminando-lhe em

voz baixa, lavar d’ali as suas mãos, se ella continuasse a fazer-se

fina.

Ao cabo lá conseguiu que os dois se abraçassem, e exclamou satisfeita:

--Ora até que tiveram juizinho! Bom! Vamos a isto, que a ceia já não

deve estar muito quente.

E foi deitando o feijão com hervas para a terrina, onde já tinha migado

o pão de milho.

Sentaram-se á meza.

O Jorge bebeu uns goles de agua, para ver se tragava as lagrimas,

que ainda lhe entumesciam as palpebras e quasi lhe espirravam dos

olhos.--Apezar do seu desejo furioso de acreditar na innocencia da

mulher, conhecia que a felicidade lhe tinha fugido para sempre.

A Rosa sentia no fundo do coração um certo dó por aquelle pobre velho,

que lhe queria tanto; mas não lhe perdoava os sobresaltos por que

acabava de passar, e, ainda menos, o ser obrigada, por causa d’elle,

a não ver o homem que a tinha enlouquecido. E quando horas depois o

Jorge, vencido por tanta lucta, dormia profundamente, ella, muito

arredada para o outro lado da cama, as lagrimas a escorrerem-lhe a

quatro e quatro para o travesseiro, perguntava a Deus se vida assim não

seria mil vezes peior do que a morte.

Historias das Ilhas · 第 10 / 52 题