O José Maria andou uns poucos de dias a parafusar, antes que se
resolvesse a dizer ao Jorge umas coisas, que lhe tinham contado muito
em segredo a respeito da Rosa, e que elle acreditou, porque eram o
complemento e a confirmação da scena entrevista em S. João de Deus.
Esteve quasi decidido a calar-se, porque dava razão ao dictado «Entre
marido e mulher não mettas a colher», e tambem porque lhe custava muito
ir destruir para sempre a alegria ao seu antigo camarada.
Quando andava n’estas indecisões, e já principiava a desculpar a
Rosa, pensando que talvez a coisa não tivesse ido a mais, e que ella
sempre havia de ter algum respeito pelos cabellos brancos do marido,
adregou-lhe passar á porta da Luiza Braga.
--Pst! Pst! fez-lhe esta, lá de dentro.
--Isso é commigo?
--Entra, ó José Maria, que te quero perguntar uma coisa.
--Tu! Ha de ser fresca!...
Entrou e foi sentar-se n’um moxo.
--O que eu te quero perguntar, disse a velha, que estava a engommar
um collarinho, é se o teu amigo já sabe o que rosna por ahi a canalha
brava.
--Qual meu amigo?
--O Jorge! Mas tambem elle só deve queixar-se de si mesmo. Não se
mettesse com a Isabel, nem com gente da sua geração.
--Cala-te, mulher, que já não te vejo bem! replicou o veterano,
levantando-se n’um impeto.
--Eh senhor! Tu endoideceste! Por eu não querer que o Jorge ande
enxovalhado por essas boccas ruins, é que tu!... Ainda em cima?...
Sempre sou bem tola!
O velho conheceu que se tinha excedido, e ancioso por saber o que mais
propalavam os maldizentes, moderou-se e murmurou:
--Dize lá o que querias dizer.
--Queria mas já não quero... Julgas talvez que não sou tambem amiga
do Jorge? Pois ainda ha migalha estive quasi _garreando_ com a
... cala-te bocca!... com uma certa pessoa, por não lhe poder ouvir
que se elle não vae ás do cabo com a Rosa, é porque uma casa sempre se
governa melhor, quando são dois, em logar de um só, a carregarem com as
despezas.
--Dois?
--_Bei_, Senhor! Pelos modos o sargento Luiz recebeu, pelo ultimo
paquete, uma _mancheia_ de patacas, que lhe deixou um tio lá de
Lisboa...
--Fecha-me essa bocca suja, grande excommungada!
Juntando á palavra o gesto, o José Maria bateu-lhe com a palma da mão
em cheio nos beiços, e, antes que a Luiza se recobrasse do susto, sahiu
pela porta fóra, de escantilhão.
--Hei de contar tudo ao Jorge! resmungava elle, pela rua adeante. Não
quero que ande vendido. Hei de contar-lhe tudo, e vae ser hoje mesmo!
Que grande pouca vergonha!...
Com mais temor que resentimento, a Luiza foi á porta, para seguil-o com
a vista. Não poude furtar-se a dizer com os seus botões que, tirante o
Braga, todos os soldados do cerco do Porto eram homens de uma canna só.
V
Foi na courella cultivada pelo Jorge no monte Brazil, que o José Maria
encontrou d’alli a pouco o seu antigo companheiro de armas.
Primeiro que entrasse no assumpto, falou de mil ninharias: das lagostas
que na vespera tinha pescado na bahia do Fundão; na queda que o
corneteiro-mór reformado ia dando na Quebrada, quando andava a apanhar
cracas.--Ainda que se não esmigalhasse na rocha empinada e de temerosa
altura, e fosse cahir no mar, não escaparia de certo ao mergulho, pois
elle a nadar era mesmo um prego!
Foi tagarelando, tagarelando, mas sem alludir á Rosa. Todas as vezes
que a rapariga lhe acudia á lembrança, parecia que se lhe punha um nó
na garganta.
Afinal o Jorge deu por isto, e foi o proprio que perguntou:
--O’ José Maria, tu estás, a modos, exquisito? Parece que tens uma
coisa para me dizer e que não te _astreves_...
O outro ainda lhe retorquiu com um «Olha lá!...» e quiz fingir ar de
riso. Mas não poude levar por deante a dissimulação e disse por fim,
deixando-se cahir sentado n’uma pedra:
--Pois tenho, tenho muito que te dizer.
--Se é da Rosa, não me digas nada! respondeu-lhe o amigo com
arrebatamento. Sei que ella não vae á tua bola, e pódes ter ouvido
por ahi qualquer coisa contra a rapariga, e vir então buzinar-me os
ouvidos... Se adivinhei, não tenhas esse trabalho!
--Ó Jorge, pois tu fazes de mim similhante ideia?! perguntou o José
Maria todo sentido e levantando-se de esfuziote. Metteu-se-te na cabeça
que eu fosse capaz de dizer coisas, de que não tivesse a certeza? Bem!
Bem! Como te deram volta ao juizo, já aqui não está quem falou ... isto
é, quem ia falar!
--Sim, cala-te, que é o melhor! Só faltava que tambem tu me viesses
ralar o interior, que já anda bem consumido. Só Deos é que sabe!...
E tendo lançado para longe o sacho com que andava cavando, levou ambos
os punhos aos olhos, e desatou a soluçar. Coisa que não fazia desde
creança, chorou--chorou lagrimas abundantes, que lhe escorriam pelo
rosto e pelas mãos.
Certificou-se o José Maria de que mais ninguem podia ver o amigo,
chegou-se a elle e passou-lhe um braço em volta do pescoço.
--Então! Que diabo! Isso não vale a pena! disse-lhe com meiguice. Pois
ha mulher que mereça a vida de um homem? Não te lembras da minha serva
de Deus? Bem amigo d’ella que eu era: vi-a morrer e ainda por cá estou.
Com essas coisas dás cabo de ti.
--Tu, tu é que dás. Para que vieste bulir commigo? Deixasses-me quieto!
E dizendo-lhe isto de mau modo, o Jorge arredou-se do camarada e ficou
de costas para elle, sem comprehender que fosse dictada pela amizade
aquella confidencia.
Pois não lhe trazia a certeza de que elle já receiava? Receiava, sim,
mas não queria acreditar, desejoso de que o tempo viesse a embotar
aquella duvida, e esperançado em que por fim se conhecesse que a
rapariga estava innocente, como lh’o dizia o seu espirito cheio de
rectidão. E ainda no peior dos casos, se em verdade a Rosa fosse má
mulher, para que haviam de lh’o dizer, se mais dia menos dia elle mesmo
descobriria tudo, com certeza?
Por isso nem queria encarar com o seu antigo camarada. Qualquer outro
já teria pago bem caro o atrevimento!
O José Maria entendeu que se devia ir embora, o que era aliás seu
desejo desde que alli estava.
--Haja saude, Jorge, e não me fiques querendo mal.
O outro encolheu os hombros desabridamente, sem mudar de posição.
--Não te ponhas com maus modos, homem! Aprender até morrer, bem diz o
dictado.
E chegando-se mais, concluiu:
--Por me dares esse _pago_, não cuides que ouvindo algum marau
dizer poucas vergonhas de ti, deixe de saltar-lhe para cima com vento
fresco, apesar de velho e estropiado. Haja saude!
Ia a afastar-se, quando foi agarrado violentamente por um braço.
--Poucas vergonhas! Que poucas vergonhas dizem de mim? perguntava o
Jorge, meio suffocado. Anda, põe já tudo em pratos limpos, se não
queres fazer-me acreditar que te saiste com essa, para te vingares da
minha resposta. Não! Não!...
E emendou, supplicante:
--Se não queres ver-me estalar de paixão, conta-me o que sabes, José
Maria, conta-me o que sabes! Pelo amor de Deus!
Foi então que o outro lhe referiu por miudo não só o que tinha visto,
mas o que andava nas boccas do mundo. Quando o ouviu falar na suspeita
de que fosse connivente na sua infamia, o Jorge teve um ataque de raiva
e quiz saber por força quem tinha contado aquillo, para lhe apertar as
goelas, até lhe fazer deitar cá para fora toda a lingua malvada.
Apesar do que a revelação lhe fazia soffrer, reaccendendo lhe
desconfianças, que a pouco e pouco se tinham ido aplacando, o seu
primeiro impulso foi justificar a mulher, mostrar ao amigo que o tinham
enganado, que a Rosa continuava pura como a neve. Se em S. João de
Deus ella estava ao pé do sargento Luiz, era porque o medo do touro
lhe fizera perder a cabeça. Pois o José Maria não a tinha tambem visto
amarella como cera, quando os dois a foram encontrar? Demais, a Isabel,
que tambem não podia ver o tal _bonecro_, explicou depois que não
havia nada que se lhe dizer, e que até devia agradecer-se ao pobre
rapaz o ter acudido á Rosa, quando todos fugiam assustados.
--Cantigas da viuva! objectou o José Maria. O que ella quiz foi
desculpar a filha. Olha! Pergunta-lhe se tambem deves agradecer ao
bandalho, o beijo que elle pregou em tua mulher!
--Um beijo? Quando?
--N’essa mesma occasião. Como se julgava a sós com a rapariga, visto
os mais terem debandado, tomou esse atrevimento ... mas eu que vinha
adiante de ti pude ainda vel-o.
--Viste-o? Tens a certeza?...
--Pareceu-me que sim. Bem sabes que eu, bebendo uma pinga a mais...
--Pareceu-te! Eu pergunto se tens a certeza!...
--Antes de passar a porta que dá para o quintal onde elles estavam,
ouvi a modos a bulha de um beijo, e como fui dar com o sargento ainda a
amparal-a, acredito que elle a beijasse, como dizem por ahi.
--Se não viste, para que repetes o que pode ser mentira? E olha que
nos dias que se seguiram, lembro-me muito bem, ella não fez differença
nenhuma. Nunca se tirava de ao pé de mim. E sempre alegre!... Se
tivesse feito o que dizem, não sabia sustentar aquelle disfarce.
--Isso é o que tu julgas. As mulheres, quando pendem para a banda do
arrocho...
--Ainda que quizesse pôr pé em ramo verde, não podia, respondeu o Jorge
com impaciencia. Em quanto eu estou fóra de casa, a Isabel não perde
a filha de vista. Já te disse! Não ha uma hora do dia em que a Rosa
esteja desacompanhada.
--E de noite?... perguntou o José Maria, que inconscientemente tomava
calor perante as objecções do camarada, e, excitado pela controversia,
dizia coisas, que não lhe sairiam da bocca n’outra occasião.
--De noite está ella deitada commigo!
Mas calou-se de repente, não se atrevendo a continuar na defeza, por se
lembrar de que tinha o somno pesado, e que, vinte vezes que a mulher se
levantasse, elle de certo não acordaria.
--Pois a Rosa seria capaz?...
A afflicção de novo o estrangulou. Descria de todos, de tudo.
Arrepanhou-se-lhe o interior do peito, ao de cima do estomago, e todo
esfriou lá por dentro, como se lhe tivessem amputado subitamente essa
parte do corpo, substituindo-a por uma grande pedra de gelo.
É que lhe tornava o ciume ainda com maior furia, perdida a esperança
que pouco antes o animava, quando elle, na ancia de desculpar a mulher,
em vez de persuadir o amigo, a si proprio se convencia.
Mas o outro comprehendia, afinal, a grande asneira que tinha feito.
Fosse a Rosa effectivamente má mulher, e nem mesmo assim elle devia dar
aquelle passo.
Obedecendo a um momento de zanga, acabava de perder um amigo, para
quem se tornara mensageiro do maior de quantos desgostos se lhe podiam
annunciar, e fazia-o para sempre desgraçado.
Quiz ainda emendar a mão, desmanchar ou pelo menos attenuar o mal que
acabava de causar, mas o Jorge percebeu-lhe as intenções, e atalhou,
despedindo-o com um gesto a que o José Maria obedeceu:
--Pois sim, será o que tu dizes... Mas certas coisas, mais vale um
homem cosel-as comsigo mesmo. Adeus!