IV

Nos dias seguintes a Rosa pensou, pensou muito, medindo o alcance da

loucura que tinha feito em casar com o Jorge.

Só depois do beijo, que lhe escaldava ainda a bocca, percebeu que havia

alguma coisa na ligação do homem com a mulher, que o marido com toda a

sua amizade não lhe tinha feito conhecer.

Por aquelle beijo o sargento apossara se d’ella com um predominio,

que o Jorge nunca lhe tinha imposto, em tantos dias de intimidade.

Sentia-se fraca, indefesa perante um ascendente ineluctavel, e pela

primeira vez sabia como o homem chega a avassallar a mulher, a fazel-a

coisa sua.

Tudo isto passava tumultuariamente no espirito da rapariga, como

vaga percepção, sem que ella, intelligente mas ignorante, tivesse

bem a consciencia do mundo novo de sensações e ideias que acabava de

revelar-se-lhe.

O que de mais comprehendia, era que apenas o Luiz quizesse, não

poderia resistir-lhe, e que sabendo aliás que se tornaria uma creatura

desprezivel, seria d’elle, d’elle inteiramente.

--Ai! E podiamos estar casados um com o outro! scismou.

Uma semana depois o sargento, certo de que o veterano estava longe,

passou-lhe pela porta. A Isabel, tinha-a elle avistado da muralha do

castello, a descer a ladeira contigua ao Relvão.

Quando o viu prestes a entrar, a Rosa ficou toda a tremer, e quiz

refugiar-se no interior da casa, porém o Luiz disse-lhe que só desejava

dar-lhe duas palavras, e que depois a deixaria em paz para todo o

sempre; mas que se ella o não escutasse, tinha deixado no quarto a

espingarda já carregada, para acabar de vez com o seu tormento.

A Rosa ainda balbuciou que elle queria desgraçal-a; que se sumisse

d’alli, ou que se veria obrigada a chamar por alguem. Podiam tel-o

visto. Supplicou-lhe de mãos postas que a deixasse, que se fosse embora.

Certo de que não o tinham visto, o Luiz fechou a porta rapidamente,

tomou nos braços a linda rapariga e tapou-lhe com beijos a bocca, para

que ella não gritasse.

* * * * *

Só quando o sargento lhe disse adeus, e lhe pediu muito que para

o futuro fosse vel-o ao quarto d’elle, pois alli seria perigoso

continuarem a encontrar-se, é que a Rosa viu bem o que tinha feito.

Jurou que nunca mais tornaria, mas sentiu logo que havia de tornar,

indefesa contra a seducção, que ainda lhe fazia vibrar todo o corpo em

frémitos de goso.

A segunda entrevista foi no quarto do amante.

Ninguem a reconheceria, vendo-a passar na rua. Ia de manto, e para

maior segurança, pedira á mãe emprestadas as botas, sob o pretexto de

que as suas lhe _pisavam_ e que precisava ir á cidade. Estando

quasi a chegar ao quarto do Luiz, apanhou um susto enorme: encontrou-se

com o marido, que devia passar a manhã no monte Brazil.

O Jorge não andava a espial-a. Cumpria simplesmente uma ordem do

inspector do material de guerra, que o tinha mandado chamar ao

Castello, para lhe dar certas explicações relativas ao embarque de umas

peças velhas de bronze, que deviam recolher á Fundição de Canhões.

Os dois amantes, muito conchegados um ao outro, estiveram tempos sem

fim de ouvido á escuta por traz da porta, que ella tinha fechado

subtilmente. Não sentiram nada. Apenas as pulsações desordenadas do

coração de Rosa.

--És uma tola, disse-lhe por fim o sargento, dando-lhe um beijo. Podia

lá conhecer-te, com esse disfarce! De mais a mais como é velho, deve

ter a vista cançada.

--Elle, a vista cançada? Estás a ler. Vê perfeitamente. E para longe,

ainda melhor do que eu.

Quando tornou para casa, ainda ia receiosa.

O marido appareceu d’alli a uma hora. Não fazia differença.

As entrevistas continuaram.

N’uma d’ellas a Rosa, ao sair do quarto do Luiz, topou a Josepha Julia,

que a mirou dos pés á cabeça e fez um gesto de escarneo.

--Se me conheceu!... pensou a mulher do veterano, abalada pelo medo.

Era o mesmo que sabel-o toda a gente!

Mas logo encolheu os hombros, e disse comsigo resolutamente:

--Ora adeus! O que está feito, está feito!

* * * * *

D’alli a poucas horas já effectivamente andavam de bocca em bocca as

infelicidades conjugaes do cabo de veteranos. Para não levantar falsos

testemunhos, a Josepha, muito encolhida debaixo do lenço, cosida

com as paredes e a passinhos ligeiros, tinha seguido a _mulher do

manto_. Mal teve a certeza de quem ella era, correu a casa da Luiza

Braga. A velha prometteu guardar segredo, mas, tendo ficado só e vendo

entrar-lhe pela porta dentro o 33 da artilheria, a pedir-lhe linha

preta para coser um botão do casaco do uniforme, não teve mão em si e

poz tudo em pratos limpos, sem dizer, já se vê, quem lh’o tinha contado.

A Josepha já estava em casa, costurando ao pé da janella do rez do

chão. Tinha feito solemne protesto de não trocar falas com o maldizente

do artilheiro, mas ouviu-lhe a «grande novidade», condimentada com

varios pormenores inventados pelo narrador.

Benzeu-se, exclamou que podia ser tudo uma refinada mentira, que a Rosa

era levantadinha de cabeça, mas que chegasse a tanto, lá isso não lhe

parecia.

--Pois diga-_le_ que não. Quem viu, é pessoa incapaz de mentir.

--E quem é que viu? perguntou a torta em sobresalto.

--Nun xe xabe! como dizia o gallego.

--Então pode não ser verdade. Bem sei que o marido é velho...

--Vê?... Já acreditou!

--Não acreditei nada. Vá-se d’aqui, _seu_ grande má lingua!

Fechou a janella, com um accrescimo de indignação. No fundo estava

radiante. Para o libello famoso, já tinha editor responsavel.

* * * * *

A Isabel foi aos ares no dia seguinte, quando soube pelo tio Braga o

que a voz publica attribuia á Rosa, e até pregou uma valente bofetada

no alviçareiro. Se lhe fez doer, não lhe causou o minimo espanto, de

habituado que elle andava a tomar o peso ás mãos da cara metade.

Podia lá entrar-lhe na cabeça que a filha, casada tanto de fresco, já

enganasse o marido!... Ainda se estivessem recebidos ha mais tempo!...

Ella tinha-se prendido por sua livre vontade, e nem sequer podia dar

como desculpa o Jorge ser velho e pouco proprio para encantar uma

rapariga. Tudo isto a mãe lhe fizera ver um cento de vezes, antes do

casamento.

Não levou um credo para chegar a casa da filha e como a apanhou

sósinha, disparou-lhe tudo á queima roupa. Uma de duas: ou conseguia

atrapalhal-a e apanhar-lhe a confissão da culpa, ou, se fosse tudo

mentira, a indignação havia de patentear bem clara a innocencia.

A mulher do veterano encarou com a mãe, e disse pausadamente estas

palavras, cujo effeito foi observando:

--Sim, senhora, é verdade o que lhe disseram. Fiz isso, porque não

posso aturar meu marido, e porque só do Luiz é que eu gosto e hei de

gostar sempre.

A Isabel cahiu sentada para cima de uma arca, e rompeu n’um grande

choro, arrepellando-se, dizendo mal á sua vida.

--Cuidado, minha mãe! Olhe que se meu marido entrasse agora por ahi

dentro, a desgraça ainda havia de ser maior.

--Lá isso era, porque descobria toda a verdade, e ... Deus te

livrasse!...

--É o que pode fazer com esses alaridos.

--_Ubei!_ Permitta Deus que elle nunca desconfie!... Ora a minha

desgraça!... Mas o que eu não quero,--fica sabendo!--é que me tornes a

olhar para aquelle _bonecro_ de engonços! Ha de ser isto assim, ou

sou eu mesma que prego a ambos uma boa lição, com estas mãos que Deus

Nosso Senhor me deu!

--Mau! Já vejo que não temos nada feito, disse a Rosa, afastando-se da

mãe. Se as suas tenções são essas, o melhor é ir já, já ter com o Jorge

e declarar-lhe tudo. Ande! Vá! Assim ao menos deixo de penar por uma

vez!

--O’ rapariga, o que estás tu a dizer?

--Que hei de gostar sempre do Luiz, ou eu não me chame Rosa. Sim,

senhora! Resolvi-me a tudo. Dizem mal de mim? E eu que me ralo! Ellas

falam, porque se mordem de inveja!

--Ai que está variada! exclamou a Isabel, levantando-se e erguendo os

braços para o ceo. Deram-lhe volta ao miolo, olá se deram. Oh! Mas isto

não pode ser, e tendo-se voltado para a filha, continuou, voz em grita:

Se me não tomas juizo, eu racho-te ... racho-te de meio a meio! Cuidas

que por estares assim espigada, me não provas os cinco mandamentos?

--A minha mãe não me entendeu. Olhe! Se fizer isso, se quizer

apartar-me do Luiz, queimada seja eu pelo fogo do inferno, se na

primeira occasião em que me pilhar a sós com meu marido, não lhe conto

a coisa toda como ella é, tim-tim por tim-tim. E reforçou o juramento

levantando tambem para o ceo o braço direito, com a mão bem espalmada.

A Isabel, que se tinha benzido ao ouvir fallar no inferno, descahiu

outra vez para cima da arca, aos soluços.

--Está doida! Doida varrida!

A rapariga aproveitou este ensejo e approximou-se da mãe, pé ante pé:

fallou-lhe ao ouvido, carinhosamente; demonstrou-lhe que só havia uma

coisa que fazer--evitar que o Jorge descobrisse, O mal já estava feito,

e nem Deus teria poder para destruil-o. Mas se a Isabel quizesse, as

coisas continuariam assim, e nunca o velho saberia o que diziam, pois

ninguem se atreveria a ir contar-lh’o. Mais dia menos dia, como já era

bastante edoso, podia apanhar uma macacôa que o levasse para a terra

da verdade, e já ella ficaria livre para casar com o escolhido do seu

coração.

--O sargento casar comtigo?... Espera por essa! Tanto como da primeira

vez, murmurou a Isabel em tom lamentoso. O que elle quiz foi ... o que

se está vendo; mas se julgar novamente o caso mal parado, fica certa

de que nunca mais lhe pões a vista em cima. Os homens são assim! E

concluiu, ainda mais lamuriante: Ai! A minha triste vida! Para o que eu

estava guardada!

--Isso era bom, se o Luiz não gostasse tambem de mim; mas gosta muito,

acredite, gosta muito, affirmou a Rosa, fallando ao mesmo tempo que a

mãe. E está tão arrependido de me ter deixado casar, tão arrependido!...

--Historias da vida! Mas, ó mulher, foram esses os exemplos que eu te

dei? Pois não tens vergonha!... Emquanto fui casada, respeitei sempre

as barbas de teu pae, e depois de viuva...

Ia proseguir mas calou-se a um olhar meio serio, meio de escarneo, que

a Rosa lhe dardejou sem levantar a cabeça ligeiramente inclinada para

o chão, mas arregaçando de subito as palpebras, a fim de trazer bem a

lume os olhos negros e expressivos.

Por fim recuperou ousadia e perguntou com voz ainda titubeante:

--Porque olhas para mim d’essa maneira? Porque dás ouvidos ao que dizem

certas linguas?... Ainda que tivesse sido verdade, não me podiam dizer

nada, porque uma viuva não deve a cabeça a ninguem.

--Nem me dava com isso maus exemplos? interrogou a filha, com apparente

serenidade.

--Está visto que não... Quero dizer ... não dava, se não houvesse

escandalo, se não soubesses ... de nada.

--E se eu soubesse de tudo? perguntou Rosa, certa já de conquistar

o auxilio da mãe. Olhe! Sempre lhe quero contar... Eu teria talvez

uns seis annos ... ou nem tanto... Uma tarde, a mãe tinha ido para

dentro de casa, e estava a conversar com aquelle cabo de artilheria

muito alto e louro--um rapaz bem bonito, por signal--a quem gommava a

roupa... Lembra-se? Eu andava a brincar na rua. Passou a Luiza Braga e

perguntou-me quem estava lá dentro com a minha mãe. Respondi-lhe que

era a sua irmã de Agualva ... a tia Marianna. A velha acreditou-me,

e foi-se embora. Se não fizesse o que fiz, ella tinha ido por esse

Castello infamar a minha mãe, e ficavam todos certos do que alguns

diziam e muito poucos acreditavam. Mas sabe o que valeu?... Foi não

passar pela cabeça á Luiza que, n’aquella edade, eu já soubesse mentir.

Sabia, porque a mãe, de outra vez, me tinha ensinado a mesma resposta,

para quando alguem me perguntasse o que ella me perguntou.

--Eu não me lembro de nada d’isso, murmurou a Isabel, com a voz a

tremer.

--Lembro-me eu, e ainda bem que menti! Deus não me castigará, por eu

ter livrado a minha mãe de tantas afflicções.

Em voz baixa, n’uma supplica repassada de ternura, accrescentou:

--E tambem não a castiga, se a minha rica mãe quizer ajudar-me a sair

d’esta consumição.

--Foi praga que me rogaram! Foi praga!...

A Isabel não poude levar por deante o epiphonema, porque a filha,

cingindo-lhe as costas com o braço direito e achegando-a a si

brandamente, segredou:

--Bom! Bom! Deixe estar que não se arrepende... e ha de me dar razão

algum dia, vendo-me feliz.

--Deus te ouvisse, filha, Deus te ouvisse! Mas o que tu me obrigas a

fazer!... Olha! O melhor era deixares aquelle ... não sei que diga!

--Outra vez!... Escolha: ou a mãe consente em ajudar-me, ou eu digo

hoje mesmo tudo a meu marido!

--Não, mulher, não lhe digas nada!

E com os olhos em alvo, as mãos erguidas, os dedos enclavinhados, a

viuva exclamou:

--Seja tudo pelo amor de Deus!

Historias das Ilhas · 第 8 / 52 题