Nos dias seguintes a Rosa pensou, pensou muito, medindo o alcance da
loucura que tinha feito em casar com o Jorge.
Só depois do beijo, que lhe escaldava ainda a bocca, percebeu que havia
alguma coisa na ligação do homem com a mulher, que o marido com toda a
sua amizade não lhe tinha feito conhecer.
Por aquelle beijo o sargento apossara se d’ella com um predominio,
que o Jorge nunca lhe tinha imposto, em tantos dias de intimidade.
Sentia-se fraca, indefesa perante um ascendente ineluctavel, e pela
primeira vez sabia como o homem chega a avassallar a mulher, a fazel-a
coisa sua.
Tudo isto passava tumultuariamente no espirito da rapariga, como
vaga percepção, sem que ella, intelligente mas ignorante, tivesse
bem a consciencia do mundo novo de sensações e ideias que acabava de
revelar-se-lhe.
O que de mais comprehendia, era que apenas o Luiz quizesse, não
poderia resistir-lhe, e que sabendo aliás que se tornaria uma creatura
desprezivel, seria d’elle, d’elle inteiramente.
--Ai! E podiamos estar casados um com o outro! scismou.
Uma semana depois o sargento, certo de que o veterano estava longe,
passou-lhe pela porta. A Isabel, tinha-a elle avistado da muralha do
castello, a descer a ladeira contigua ao Relvão.
Quando o viu prestes a entrar, a Rosa ficou toda a tremer, e quiz
refugiar-se no interior da casa, porém o Luiz disse-lhe que só desejava
dar-lhe duas palavras, e que depois a deixaria em paz para todo o
sempre; mas que se ella o não escutasse, tinha deixado no quarto a
espingarda já carregada, para acabar de vez com o seu tormento.
A Rosa ainda balbuciou que elle queria desgraçal-a; que se sumisse
d’alli, ou que se veria obrigada a chamar por alguem. Podiam tel-o
visto. Supplicou-lhe de mãos postas que a deixasse, que se fosse embora.
Certo de que não o tinham visto, o Luiz fechou a porta rapidamente,
tomou nos braços a linda rapariga e tapou-lhe com beijos a bocca, para
que ella não gritasse.
* * * * *
Só quando o sargento lhe disse adeus, e lhe pediu muito que para
o futuro fosse vel-o ao quarto d’elle, pois alli seria perigoso
continuarem a encontrar-se, é que a Rosa viu bem o que tinha feito.
Jurou que nunca mais tornaria, mas sentiu logo que havia de tornar,
indefesa contra a seducção, que ainda lhe fazia vibrar todo o corpo em
frémitos de goso.
A segunda entrevista foi no quarto do amante.
Ninguem a reconheceria, vendo-a passar na rua. Ia de manto, e para
maior segurança, pedira á mãe emprestadas as botas, sob o pretexto de
que as suas lhe _pisavam_ e que precisava ir á cidade. Estando
quasi a chegar ao quarto do Luiz, apanhou um susto enorme: encontrou-se
com o marido, que devia passar a manhã no monte Brazil.
O Jorge não andava a espial-a. Cumpria simplesmente uma ordem do
inspector do material de guerra, que o tinha mandado chamar ao
Castello, para lhe dar certas explicações relativas ao embarque de umas
peças velhas de bronze, que deviam recolher á Fundição de Canhões.
Os dois amantes, muito conchegados um ao outro, estiveram tempos sem
fim de ouvido á escuta por traz da porta, que ella tinha fechado
subtilmente. Não sentiram nada. Apenas as pulsações desordenadas do
coração de Rosa.
--És uma tola, disse-lhe por fim o sargento, dando-lhe um beijo. Podia
lá conhecer-te, com esse disfarce! De mais a mais como é velho, deve
ter a vista cançada.
--Elle, a vista cançada? Estás a ler. Vê perfeitamente. E para longe,
ainda melhor do que eu.
Quando tornou para casa, ainda ia receiosa.
O marido appareceu d’alli a uma hora. Não fazia differença.
As entrevistas continuaram.
N’uma d’ellas a Rosa, ao sair do quarto do Luiz, topou a Josepha Julia,
que a mirou dos pés á cabeça e fez um gesto de escarneo.
--Se me conheceu!... pensou a mulher do veterano, abalada pelo medo.
Era o mesmo que sabel-o toda a gente!
Mas logo encolheu os hombros, e disse comsigo resolutamente:
--Ora adeus! O que está feito, está feito!
* * * * *
D’alli a poucas horas já effectivamente andavam de bocca em bocca as
infelicidades conjugaes do cabo de veteranos. Para não levantar falsos
testemunhos, a Josepha, muito encolhida debaixo do lenço, cosida
com as paredes e a passinhos ligeiros, tinha seguido a _mulher do
manto_. Mal teve a certeza de quem ella era, correu a casa da Luiza
Braga. A velha prometteu guardar segredo, mas, tendo ficado só e vendo
entrar-lhe pela porta dentro o 33 da artilheria, a pedir-lhe linha
preta para coser um botão do casaco do uniforme, não teve mão em si e
poz tudo em pratos limpos, sem dizer, já se vê, quem lh’o tinha contado.
A Josepha já estava em casa, costurando ao pé da janella do rez do
chão. Tinha feito solemne protesto de não trocar falas com o maldizente
do artilheiro, mas ouviu-lhe a «grande novidade», condimentada com
varios pormenores inventados pelo narrador.
Benzeu-se, exclamou que podia ser tudo uma refinada mentira, que a Rosa
era levantadinha de cabeça, mas que chegasse a tanto, lá isso não lhe
parecia.
--Pois diga-_le_ que não. Quem viu, é pessoa incapaz de mentir.
--E quem é que viu? perguntou a torta em sobresalto.
--Nun xe xabe! como dizia o gallego.
--Então pode não ser verdade. Bem sei que o marido é velho...
--Vê?... Já acreditou!
--Não acreditei nada. Vá-se d’aqui, _seu_ grande má lingua!
Fechou a janella, com um accrescimo de indignação. No fundo estava
radiante. Para o libello famoso, já tinha editor responsavel.
* * * * *
A Isabel foi aos ares no dia seguinte, quando soube pelo tio Braga o
que a voz publica attribuia á Rosa, e até pregou uma valente bofetada
no alviçareiro. Se lhe fez doer, não lhe causou o minimo espanto, de
habituado que elle andava a tomar o peso ás mãos da cara metade.
Podia lá entrar-lhe na cabeça que a filha, casada tanto de fresco, já
enganasse o marido!... Ainda se estivessem recebidos ha mais tempo!...
Ella tinha-se prendido por sua livre vontade, e nem sequer podia dar
como desculpa o Jorge ser velho e pouco proprio para encantar uma
rapariga. Tudo isto a mãe lhe fizera ver um cento de vezes, antes do
casamento.
Não levou um credo para chegar a casa da filha e como a apanhou
sósinha, disparou-lhe tudo á queima roupa. Uma de duas: ou conseguia
atrapalhal-a e apanhar-lhe a confissão da culpa, ou, se fosse tudo
mentira, a indignação havia de patentear bem clara a innocencia.
A mulher do veterano encarou com a mãe, e disse pausadamente estas
palavras, cujo effeito foi observando:
--Sim, senhora, é verdade o que lhe disseram. Fiz isso, porque não
posso aturar meu marido, e porque só do Luiz é que eu gosto e hei de
gostar sempre.
A Isabel cahiu sentada para cima de uma arca, e rompeu n’um grande
choro, arrepellando-se, dizendo mal á sua vida.
--Cuidado, minha mãe! Olhe que se meu marido entrasse agora por ahi
dentro, a desgraça ainda havia de ser maior.
--Lá isso era, porque descobria toda a verdade, e ... Deus te
livrasse!...
--É o que pode fazer com esses alaridos.
--_Ubei!_ Permitta Deus que elle nunca desconfie!... Ora a minha
desgraça!... Mas o que eu não quero,--fica sabendo!--é que me tornes a
olhar para aquelle _bonecro_ de engonços! Ha de ser isto assim, ou
sou eu mesma que prego a ambos uma boa lição, com estas mãos que Deus
Nosso Senhor me deu!
--Mau! Já vejo que não temos nada feito, disse a Rosa, afastando-se da
mãe. Se as suas tenções são essas, o melhor é ir já, já ter com o Jorge
e declarar-lhe tudo. Ande! Vá! Assim ao menos deixo de penar por uma
vez!
--O’ rapariga, o que estás tu a dizer?
--Que hei de gostar sempre do Luiz, ou eu não me chame Rosa. Sim,
senhora! Resolvi-me a tudo. Dizem mal de mim? E eu que me ralo! Ellas
falam, porque se mordem de inveja!
--Ai que está variada! exclamou a Isabel, levantando-se e erguendo os
braços para o ceo. Deram-lhe volta ao miolo, olá se deram. Oh! Mas isto
não pode ser, e tendo-se voltado para a filha, continuou, voz em grita:
Se me não tomas juizo, eu racho-te ... racho-te de meio a meio! Cuidas
que por estares assim espigada, me não provas os cinco mandamentos?
--A minha mãe não me entendeu. Olhe! Se fizer isso, se quizer
apartar-me do Luiz, queimada seja eu pelo fogo do inferno, se na
primeira occasião em que me pilhar a sós com meu marido, não lhe conto
a coisa toda como ella é, tim-tim por tim-tim. E reforçou o juramento
levantando tambem para o ceo o braço direito, com a mão bem espalmada.
A Isabel, que se tinha benzido ao ouvir fallar no inferno, descahiu
outra vez para cima da arca, aos soluços.
--Está doida! Doida varrida!
A rapariga aproveitou este ensejo e approximou-se da mãe, pé ante pé:
fallou-lhe ao ouvido, carinhosamente; demonstrou-lhe que só havia uma
coisa que fazer--evitar que o Jorge descobrisse, O mal já estava feito,
e nem Deus teria poder para destruil-o. Mas se a Isabel quizesse, as
coisas continuariam assim, e nunca o velho saberia o que diziam, pois
ninguem se atreveria a ir contar-lh’o. Mais dia menos dia, como já era
bastante edoso, podia apanhar uma macacôa que o levasse para a terra
da verdade, e já ella ficaria livre para casar com o escolhido do seu
coração.
--O sargento casar comtigo?... Espera por essa! Tanto como da primeira
vez, murmurou a Isabel em tom lamentoso. O que elle quiz foi ... o que
se está vendo; mas se julgar novamente o caso mal parado, fica certa
de que nunca mais lhe pões a vista em cima. Os homens são assim! E
concluiu, ainda mais lamuriante: Ai! A minha triste vida! Para o que eu
estava guardada!
--Isso era bom, se o Luiz não gostasse tambem de mim; mas gosta muito,
acredite, gosta muito, affirmou a Rosa, fallando ao mesmo tempo que a
mãe. E está tão arrependido de me ter deixado casar, tão arrependido!...
--Historias da vida! Mas, ó mulher, foram esses os exemplos que eu te
dei? Pois não tens vergonha!... Emquanto fui casada, respeitei sempre
as barbas de teu pae, e depois de viuva...
Ia proseguir mas calou-se a um olhar meio serio, meio de escarneo, que
a Rosa lhe dardejou sem levantar a cabeça ligeiramente inclinada para
o chão, mas arregaçando de subito as palpebras, a fim de trazer bem a
lume os olhos negros e expressivos.
Por fim recuperou ousadia e perguntou com voz ainda titubeante:
--Porque olhas para mim d’essa maneira? Porque dás ouvidos ao que dizem
certas linguas?... Ainda que tivesse sido verdade, não me podiam dizer
nada, porque uma viuva não deve a cabeça a ninguem.
--Nem me dava com isso maus exemplos? interrogou a filha, com apparente
serenidade.
--Está visto que não... Quero dizer ... não dava, se não houvesse
escandalo, se não soubesses ... de nada.
--E se eu soubesse de tudo? perguntou Rosa, certa já de conquistar
o auxilio da mãe. Olhe! Sempre lhe quero contar... Eu teria talvez
uns seis annos ... ou nem tanto... Uma tarde, a mãe tinha ido para
dentro de casa, e estava a conversar com aquelle cabo de artilheria
muito alto e louro--um rapaz bem bonito, por signal--a quem gommava a
roupa... Lembra-se? Eu andava a brincar na rua. Passou a Luiza Braga e
perguntou-me quem estava lá dentro com a minha mãe. Respondi-lhe que
era a sua irmã de Agualva ... a tia Marianna. A velha acreditou-me,
e foi-se embora. Se não fizesse o que fiz, ella tinha ido por esse
Castello infamar a minha mãe, e ficavam todos certos do que alguns
diziam e muito poucos acreditavam. Mas sabe o que valeu?... Foi não
passar pela cabeça á Luiza que, n’aquella edade, eu já soubesse mentir.
Sabia, porque a mãe, de outra vez, me tinha ensinado a mesma resposta,
para quando alguem me perguntasse o que ella me perguntou.
--Eu não me lembro de nada d’isso, murmurou a Isabel, com a voz a
tremer.
--Lembro-me eu, e ainda bem que menti! Deus não me castigará, por eu
ter livrado a minha mãe de tantas afflicções.
Em voz baixa, n’uma supplica repassada de ternura, accrescentou:
--E tambem não a castiga, se a minha rica mãe quizer ajudar-me a sair
d’esta consumição.
--Foi praga que me rogaram! Foi praga!...
A Isabel não poude levar por deante o epiphonema, porque a filha,
cingindo-lhe as costas com o braço direito e achegando-a a si
brandamente, segredou:
--Bom! Bom! Deixe estar que não se arrepende... e ha de me dar razão
algum dia, vendo-me feliz.
--Deus te ouvisse, filha, Deus te ouvisse! Mas o que tu me obrigas a
fazer!... Olha! O melhor era deixares aquelle ... não sei que diga!
--Outra vez!... Escolha: ou a mãe consente em ajudar-me, ou eu digo
hoje mesmo tudo a meu marido!
--Não, mulher, não lhe digas nada!
E com os olhos em alvo, as mãos erguidas, os dedos enclavinhados, a
viuva exclamou:
--Seja tudo pelo amor de Deus!