Tres semanas depois do casamento houve tourada de corda em S. João de
Deus.
O Jorge, logo que a Isabel falou em irem todos ao divertimento,
condescendeu, dizendo que não queria a rapariga para freira nem para
bicho do buraco, e d’alli a boccado saíam do castello pela porta dos
carros, os noivos na frente, a Isabel e o José Maria um pouco mais
atraz.
Os caçadores da guarda piscaram os olhos uns para os outros
cubiçosamente ao verem a Rosa, e um de S. Miguel, mais descarado,
commentou, a meia voz, que nenhum d’elles apezar de moços, se benzeria
com um «peixão de estoiro» como aquelle que o velho tinha apanhado.
O José Maria, que ainda ouviu a graçola, cuspiu-lhes a phrase:
«Galuchada atrevida!» mirando de soslaio o chocarreiro.
Depois de descerem até Angra e de atravessarem parte da cidade,
cujas ruas, de ordinario pouco concorridas aos dias santos, mais se
despovoavam n’aquelle domingo por causa da tourada, os quatro subiram
até ao arrabalde de S. João de Deus, onde já enxameava uma grande
multidão.
Dos mirantes, pouco mais altos que uma pessoa, debruçavam-se muitas
damas, a quem os donos das casas sempre reservam os melhores logares,
e por traz d’ellas ou dos lados apinhavam-se as mulheres do povo,
merecendo geralmente umas e outras os olhares de quem buscasse apenas
caras bonitas, sendo porém as segundas mais dignas da attenção do
pintor de costumes, em razão da variedade dos trajos, que ostentavam
quasi sempre com extremada garridice.
Algumas, as mais estimadas, tinham vindo com o _manto_ caracteristico,
muito encaloradas dentro d’aquelle envolucro de alpaca preta, egual
á da saia, que, franzido em volta da cintura, lhes cobria o tronco,
os braços e a cabeça, formando por cima um tecto á laia de telha,
duro graças ao forro de papellão que o reveste pelo interior. Quantos
rostos não parecem mais encantadores no fundo d’aquelle nicho, quando
entrevistos na semi-obscuridade do _manto_, que mão pequenina, ás vezes
bem calçada, sorrateiramente descerra á altura do pescoço, para logo
o fechar unindo-lhe as bordas deanteiras, de modo a ficar apenas um
orificio, atravez do qual os olhos dardejam curiosos!... E o effeito
não falha, porque o pomo vedado é o mais appetecido.
A par do _manto_, que em muitas se via descahido para traz por
causa do calor, figuravam os capotes de longo cabeção e pesado capello
terminado posteriormente em forma de travesseiro. Este abrigo, que
constitue abobada por cima da cabeça e resguarda as faces com as abas
verticaes, acabadas em bico á altura dos hombros, tinham-o tambem
deitado para as costas algumas das donas, não menos encaloradas que
as dos _mantos_, ao passo que outras, mais cautelosas, os haviam
guardado dobradinhos a preceito, dentro da casa e em sitio escolhido.
Nada! Que o capote para muitas é a bem dizer um dote.
Do matiz formado pelos chales e lenços de seda ou de chita, que
adornavam as restantes mulheres do povo, destacava-se um ou outro
capote e lenço, para ser ainda maior a diversidade dos trajos.
Quando o Jorge e os companheiros chegaram ao logar da festa, já
remoinhavam pelas ruas, aos bandos, os rapazes do povo, trajando bellas
roupas de _panno fino_, chapeus de feltro e alvas camisas, com os
collarinhos unidos por dois grandes botões de ouro, lavrados em relevo
imitante a filigrana e encadeados pelo pé. Só os velhos e a maioria dos
_senhores da cidade_ buscavam refugio nos mirantes e janellas.
Por entre os passeiantes esgueiravam-se, a espaços, as retardatarias.
Estas--duas lindas moçoilas do campo--faziam resoar na calçada as solas
de pau das _galochas_ pregadas, em volta, de tachinhas amarellas,
e enfeitadas no peito do pé com bordados escarlates a sobresahirem
do fundo azul da carneira. E como ambas corriam ligeiras com aquelle
calçado tão difficil de suster nos pés! Ora! Se até iriam dançar, a
menos que o tirassem, para bailar em palmilhas de meias!
Quem primeiro veiu fallar ao Jorge foi o João Matheus, um leiteiro
que tinha a freguezia de muitos moradores do Castello. O veterano
quasi não o conheceu, tão differente o achou, de quando elle ia por
lá ao seu negocio, de manhãsinha, mettido n’uma grande camisa de
linho e coberto com o classico barretinho de malha, parente muito
proximo do solideo ecclesiastico. O leite, levava-o em duas grandes
cabaças escuras, amarradas aos extremos de um bordão ligeiramente
curvo, que lhe assentava pelo meio no hombro esquerdo. Agora estava
outro inteiramente, salvo no varapau, e no _pé fresco_, moda tão
predilecta do povo açoriano: o fato cifrava-se no dos outros populares,
e a cobertura da cabeça, ou, mais rigorosamente, do cocoruto era
a famosa carapuça de panno azul, orlada na peripheria com um vivo
encarnado e rematada dos lados por duas orelhinhas da mesma côr,
reviradas para cima. Para seguir ainda mais á risca a moda popular
terceirense, tinha pendente ao meio da testa, saindo por baixo da
carapuça, um caracol de cabello feito a primor.
O veterano levou os companheiros para casa do José de Mello, que já
o tinha convidado muitas vezes, e que mal accommodou em bom logar do
mirante a Isabel e a Rosa, carregou com os dois velhos para dentro
de casa, ancioso por dar-lhes a provar uma pinga de vinho novo da
Graciosa, que as duas mulheres não acceitaram, mas que os tres homens
foram escorropichando por tigelas de barro não vidrado, acompanhando-o
de milho cosido com funcho, tremoços, favas e milho torrado, e outros
_hors d’œuvres_, patentes na meza e destinados ás visitas.
A mulher do José de Mello, sentada a par da Isabel, disse-lhe que
tomasse cuidado á passagem do bicho, porque eram já seis os touros que
lhe tinham saltado para o mirante.
Mas o conselho não foi ouvido, porque o estalar de um foguete provocou
immediatamente um enorme borborinho. Do touril, estabelecido n’um
quintal proximo, acabava de sair o boi. Correram-lhe ao encontro os
_aficionados_, pulando e gritando com desespero.
Appareceu finalmente um touro de pequeno corpo e de côr escura, preso,
pelas hastes emboladas, a um comprido cabo, que quatro homens seguravam
pela extremidade opposta, e largavam ou colhiam para dar fuga ao animal
ou obrigal-o a parar.
Traziam os quatro, á laia de uniforme, calças brancas, alvas camisas
avivadas de encarnado, e bonnets de copa baixa, apenas differentes dos
que usam vulgarmente os cosinheiros por terem tambem vivos d’aquella
côr.
A _viseira_ que lhes occultava a metade superior do rosto, é que
originou a denominação de _mascarados de corda_, com que o povo da
ilha então os designava.
Todos quatro coxeavam mais ou menos, visto que em obediencia ao seu
tradicional plano de uniformes, traziam os pés, tão deshabituados
de constrangimento, n’aquelle dia apertados em sapatos de bezerro,
legitimos representantes, para o caso, dos celebrados borzeguins da
tortura inquisitorial.
O touro passou de corrida pela frente do mirante do José de Mello. Um
enxame de homens e rapazes seguiu-o de tropel. Tanta diligencia faziam
por uma ou duas marradas, que ás vezes viam coroadas as suas aspirações.
N’isto, um d’elles, mais atrevido, tropeçou e cahiu, e d’aqui resultou
que outros dois tambem se estatelassem na calçada.
O touro estava perto, e, ou porque os mascarados não podessem a tempo
segural-o ou porque desejassem «animar o divertimento», conseguiu
chegar aos tres, e depois de uma focinhada prévia dispunha-se já para
mimoseal-os com festa mais valente, quando o cabo, esticado com força,
lhe deu a _pancada_, obrigando-o a retroceder e arrancando-lhe um
mugido doloroso.
Decididamente a tourada promettia ser boa.
Os tres levantaram-se no meio de risadas estrepitosas, e um d’elles,
com a cabeça partida, foi curar-se á botica proxima, sem que mais
ninguem désse importancia a similhante bagatella.
Apezar de ser fanatica pelo divertimento, a Rosa tornou-se pallida mal
viu o sangue, e descórou mais ainda, porque ao afastar os olhos deparou
no mirante contiguo o sargento Luiz, a fital-a persistentemente, com um
ar muito triste, como de quem sentisse grande pena de estar a vel-a,
mas que não podesse desviar d’alli a vista, nem o pensamento. Afinal
cobrou animo e, com simulada indiferença, mostrou concentrar a attenção
no touro, que já ia a distancia, rodeado por uma caterva menos densa.
Alguns dos perseguidores, vendo as barbas do visinho a arder, tinham-se
refugiado nos vãos das portas, ou dependurado das grades de algumas
janellas mais baixas.
--Não havia de olhar para elle!... Se até lhe tinha raiva!... Quando
o Luiz a namorava, jurava-lhe um amor por ahi além, e afinal deixou-a
casar com outro... Bem fraco amor!... Nem já se lembrava de que ella
existia. Tinha-a encarado, por um simples acaso. Iria apostar que
olhava já para outro sitio... Nem já alli estaria talvez...
E, para certificar-se, olhou novamente e viu outra vez o Luiz, sempre a
miral-a com a mesma persistencia.
Revoltou-se e sentiu uma grande vergonha, por adivinhar que n’aquella
teimosia estava a prova de que elle não a julgava mulher de bem, e a
suppunha capaz, depois de casada, de olhar para outro homem, que não
fosse o marido.
Ia dizer-lhe pela expressão do semblante a indignação que o atrevimento
lhe causava, mas não poude, porque ao encarar com o Luiz conheceu que
o seu olhar não era petulante, mas de supplica, e ainda mais terno do
que no dia em que elle lhe tinha dicto que a _Rosinha era a flôr do
Castello_, e que _morria de amores_ por ella.
O que estava certamente era ralado de pena, porque, em obediencia ao
pae, a tinha perdido!... Podia lá querer tornal-a má mulher, embora
fosse unicamente nas boccas do mundo!... Até merecia dó o infeliz...
Pois não o havia desprezado, para casar com o Jorge?... Coitado!...
No emtanto proseguia o divertimento na sua monotonia habitual.
Percorridas as ruas do transito, o boi já vinha quasi a passar pela
segunda vez em frente da casa do Mello, continuamente excitado pelos
bordões, guardasoes, lenços, e até pelos casacos despidos pelos
capinhas improvisados, que assim toureavam em mangas de camisa.
Perplexo, estonteado, o boi estacou ao meio da rua, olhando em derredor
e escarvando o chão com as patas deanteiras. Afinal, escolhido o ponto
de ataque, partiu como seta em direcção a uns cinco homens, mais
impertinentes em atiçal-o, mas que desappareceram por encanto, mal
suspeitaram a arremettida. Sumido o alvo, o touro não parou na corrida
e foi galgar de um salto o mirante do João de Mello, antes que os
_mascarados_ lhe dessem a pancada.
Um reboliço, uma gritaria infernal.
Estes refugiavam-se esbaforidos no interior da casa, aquelles saltavam
para a rua, e dois ou tres, paralysados pelo medo, deixavam-se ficar
no mesmo sitio, de olhos fechados, mãos nos ouvidos, entregues ao seu
destino.
Mas subiu da rua uma gargalhada estrondosa, seguida de palmas e apupos.
Era a Isabel, que ao pular do mirante não tinha podido evitar que as
saias se levantassem, e dava com isto um espectaculo, se não agradavel,
pelo menos original.
A Rosa, colhida improvisamente no meio da sua abstracção, viu o touro
cahir-lhe ao pé e desmaiou de susto: mas o sargento Luiz, n’um abrir e
fechar de olhos, saltou do mirante onde estava, tomou-a nos braços e
afastou-a do animal, a que os _mascarados de corda_ esticavam no
entretanto o cabo e obrigavam a descer para a rua.
Quando acordou do seu passageiro desmaio, a mulher do Jorge sentiu que
a beijavam e ao abrir os olhos viu-se nos braços do Luiz.
Os dois veteranos conseguiram afinal romper atravez dos que tinham
fugido para dentro da casa, e assomavam á porta, sem que nenhum d’elles
soubesse ainda ao certo o que era passado. O José Maria como que viu o
beijo, mas não teve bem a certeza, pois que todas as vezes que bebia
uma gota a mais, ficava tonto e via coisas perfeitamente imaginarias.
Convenceu-se de que fôra uma historia armada pelo vinho, quando lhe
explicaram o succedido.
Para fugir aos agradecimentos, que o Jorge lhe dava sem a minima
desconfiança, retirou-se logo o sargento, envolvido pela Rosa n’um
olhar de reconhecimento e admiração.
A Isabel veiu furiosa da rua e quiz por força que se retirassem logo.
Temia que o rapazio continuasse a dirigir-lhe chufas.
Não disse palavra a Rosa na volta para o Castello. Se por acaso
dava com os olhos no marido, voltava a cara para outro lado, com um
movimento brusco. Ao meio da rampa que vae dar á ponte levadiça, parou
para descançar, e olhou para traz, sem saber porque.
O Luiz tinha-a seguido, de longe.
Não deram por isto os dois velhos, nem a Isabel. Notou-o comtudo a
Luiza Braga, que vinha logo após o sargento, em companhia da Josepha
Julia.
--Com cedo principiam! cochichou ella ao ouvido da amiga.
--Principiam? acudiu a outra ennojada. Continuam!