LXXIX

_O ovo de Colombo_

A 15 de Março de 1493, Christovam Colombo, que vinha de fazer uma das

mais admiraveis descobertas de que se honra o espirito humano, aportava

a Palos, de onde tinha partido sete mezes e meio antes. Foi recebido

com grande enthusiasmo. Os sinos repicaram, os magistrados seguidos de

todos os habitantes desceram á praia a recebel-o. O trajecto até á côrte

foi um triumpho continuo; de toda a parte se corria para vêr o homem que

tinha terminado, tão felizmente, uma empreza que toda a gente julgára

impossivel. Toda a cidade foi ao seu encontro. Elle ia no meio dos

indios que trouxera comsigo na sua entrada em Barcellona, e que

conservaram o costume do seu paiz. Uma multidão de objectos

desconhecidos e cuja vista dominava vivamente os espiritos eram

conduzidos na vanguarda em corbeilles e bandejas descobertas. Elle

avançou assim no meio d'um concurso immenso até ao palacio dos reis

d'Hespanha. Fernando e Isabel esperavam-no sentados no throno. Quando

elle appareceu, no meio do seu cortejo, levantaram-se. Colombo

lançou-se-lhes aos pés, mas elles ordenaram-lhe que se sentasse. O

illustre navegador narrou-lhes a viagem e descobertas que fez. Em

seguida apresentou-lhes os indios que o acompanhavam e os objectos

preciosos que havia trazido. Toda a gente se poz de joelhos, e cantou-se

na propria sala do throno um cantico em acção de graças. Fernando

confirmou a Colombo todos os seus privilegios, e permittiu-lhe juntar ao

seu brazão, as armas da sua familia, as do reino de Castella e Leão, com

os emblemas das suas dignidades e das suas descobertas. Todos os seus

parentes foram cumulados de provas da munificencia real.

Com tão grandes honras Christovam Colombo podia julgar-se ao abrigo dos

golpes subitos da fortuna. E, comtudo, nunca um homem os sentiu d'um

modo mais terrivel e mais cruel!

Iam mal passados ainda os primeiros transportes do enthusiasmo e já a

maldade e a inveja haviam começado a erguer a cabeça. Procuraram por

meio de perfidas insinuações entibiar o merito d'essa immortal

descoberta.--«Dado o primeiro passo, o novo mundo viera a elle d'algum

modo; o seu genio consistia apenas n'uma longa, mas trivial paciencia;

em uma palavra, para descobrir a America, _não tinha sido preciso pensar

n'isso_ ...» Tal era já a ousadia dos detractores, que faziam circular

estes propositos, um dia, á meza d'um grande d'Hespanha para que fôra

convidado Colombo.

O grande homem permaneceu silencioso durante toda a discussão; mas n'um

dado momento e depois de haver reflectido, fez vir um ovo e

apresentando-o aos nobres convivas, disse-lhes:

--«Qual de vós, senhores, se sente capaz de fazer com que este ovo se

sustente ao alto, por uma das extremidades?»

O ovo começou a circular, passando de mão para mão, até que voltou a

Colombo, sem que qualquer dos presentes houvesse resolvido o problema.

Elle, então, tomou-o, bateu-o levemente no prato e o ovo ficou em

equilibrio. Cada qual exclamou:

--«Isso não era difficil!

--«Sem duvida--replicou Colombo com um sorriso ironico--comtudo _era

preciso pensal-o!_»

--O _ovo de Christovam Colombo_ passou a uma especie de proverbio, a que

se allude a proposito d'uma coisa que se não póde fazer, e que se

encontra facil, depois de feita.

Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres · 第 105 / 128 题