_Eu desejaria não saber escrever_
Néro, educado por Seneca e Burrhus, dois dos mais sabios romanos d'esse
seculo, esteve longe de annunciar, na sua mocidade, as sanguinarias
inclinações, que o tornaram o typo da crueldade. Elle pareceu querer
consolar os romanos do reino de Tiberio; os seus primeiros actos, cheios
d'uma grande doçura, provam que aos seus instinctos de crueldade soube
alliar uma profunda hypocrisia, e que a educação é completamente
impotente para abafar, em certos caracteres, pelo menos, os germens das
paixões más, que trazem nascendo. Desde o segundo dia do seu reinado
elle foi ao senado, e em um discurso que Seneca lhe havia composto,
annunciou que o seu projecto era tomar Augusto por modelo. Em verdade os
principios do seu reino pareceram-se com os ultimos do reino d'aquelle
que se propunha imitar. Mostrou-se justo, liberal, affavel, polido,
complacente e accessivel á piedade. A modestia realçava-lhe ainda as
qualidades. O senado, tendo-o louvado pela sabedoria do seu governo, fez
com que elle dissesse:
--«Esperem, para me louvarem, que eu o tenha merecido.»
Um dia em que lhe apresentaram, para assignar, a sentença que condemnava
á morte um criminoso, elle disse:
--«_Eu desejaria não saber escrever!_»
E comtudo foi ... Néro!