XXXVII

_Linguas d'Esopo_

Esopo, escravo do philosopho Xantus, recebeu um dia do seu senhor, que

tinha convidado varios amigos para jantar, ordem de comprar no mercado,

tudo quanto houvesse de melhor, e nada mais.

--«Eu te ensinarei a especificares o que desejas, sem te entregares á

discrição d'um escravo»--dissera o phrygio comsigo mesmo.

E comprou só linguas, que fez cosinhar de todos os modos possiveis, de

maneira que o principio, o meio e o fim do banquete, foram linguas. Os

convidados louvaram a principio a escolha d'Esopo, mas, afinal,

desgostaram.

--«Não te ordenei,--disse Xantus--que comprasses o que houvesse de

melhor?»

--«E que ha melhor que a lingua?--respondeu Esopo.--É o laço da vida

civil, a chave das sciencias, o orgão da verdade e da razão; por ella se

construem e policiam cidades; por ella se instrue, se persuade e se

reina nas assembleias; por ella se satisfaz ao primeiro dos deveres, que

é louvar os deuses.»

--«Pois bem--replicou Xantus, que pretendia apanhal-o--compra amanhã o

que houver de peior. Os mesmos convidados virão a minha casa e quero

variar.»

No dia seguinte Esopo só fez servir linguas, dizendo que a lingua é a

peior coisa que ha no mundo.

--«É a mãe de todas as questões, a alimentadora de todos os processos, a

origem das divisões e das guerras. Se ella é o orgão da verdade, é

tambem o do erro, e, o que peior é, da calumnia. Por ella destroem-se as

cidades; e se por um lado louva os deuses, por outro é o orgão da

blasphemia e da impiedade.»

--As _linguas d'Esopo_ ficaram celebres, para designarem o que, podendo

ser encarado sob dois aspectos oppostos, dá egualmente occasião ao

louvor e á critica.

Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres · 第 64 / 128 题