_Linguas d'Esopo_
Esopo, escravo do philosopho Xantus, recebeu um dia do seu senhor, que
tinha convidado varios amigos para jantar, ordem de comprar no mercado,
tudo quanto houvesse de melhor, e nada mais.
--«Eu te ensinarei a especificares o que desejas, sem te entregares á
discrição d'um escravo»--dissera o phrygio comsigo mesmo.
E comprou só linguas, que fez cosinhar de todos os modos possiveis, de
maneira que o principio, o meio e o fim do banquete, foram linguas. Os
convidados louvaram a principio a escolha d'Esopo, mas, afinal,
desgostaram.
--«Não te ordenei,--disse Xantus--que comprasses o que houvesse de
melhor?»
--«E que ha melhor que a lingua?--respondeu Esopo.--É o laço da vida
civil, a chave das sciencias, o orgão da verdade e da razão; por ella se
construem e policiam cidades; por ella se instrue, se persuade e se
reina nas assembleias; por ella se satisfaz ao primeiro dos deveres, que
é louvar os deuses.»
--«Pois bem--replicou Xantus, que pretendia apanhal-o--compra amanhã o
que houver de peior. Os mesmos convidados virão a minha casa e quero
variar.»
No dia seguinte Esopo só fez servir linguas, dizendo que a lingua é a
peior coisa que ha no mundo.
--«É a mãe de todas as questões, a alimentadora de todos os processos, a
origem das divisões e das guerras. Se ella é o orgão da verdade, é
tambem o do erro, e, o que peior é, da calumnia. Por ella destroem-se as
cidades; e se por um lado louva os deuses, por outro é o orgão da
blasphemia e da impiedade.»
--As _linguas d'Esopo_ ficaram celebres, para designarem o que, podendo
ser encarado sob dois aspectos oppostos, dá egualmente occasião ao
louvor e á critica.