similhante ás palmeiras do deserto, em torno das quaes esvoaçam pombas
nitentes como frocos de espuma, que o vento erguesse do mar quando as
ondas saltam como cabritos do monte, procurando as folhas verdes!
Não lhe perturbeis o somno, linda como é adormecida, o leito em que
repousa tendo o olor de um canteiro de plantas aromaticas, onde floresce
o nardo e o açafrão, o cinamomo e a mirrha.
Bem me importa que ella seja trigueira, se foi o sol que lhe queimou as
faces, beijando-a doidamente, n'um dia em que a apanhou no campo,
esbelta como as açucenas...
* * * * *
_Ci git Piron, qui fut vien!..._
Accumulava com o emprego burocratico... de não fazer nada, o encargo
social... de dizer mal de todos e de tudo. Assim o tempo não lhe chegava
para ir aqui e além, apparecendo em toda a parte, informando-se da
ultima novidade, e commentando o ultimo escandalo. Estava convencido de
que nascera com immensas aptidões, um enorme talento de escriptor, um
profundo genio d'artista, e que tudo isso lhe fôra roubado, ainda no
berço, uma noite, estava elle a dormir e a sonhar--um lindo sonho côr de
rosa, que punha estremecimentos rithmicos nas suas carninhas de leite.
Teria sido um philosopho como Littré, um esculptor como Miguel Angelo,
um historiador como Mommsen, um critico como Taine, um poeta como Victor
Hugo, um pintor como Rubens, um romancista como Balzac, se lhe não
tivessem roubado em pequeno as immensas aptidões com que o dotára a
Natureza.
Quando se punha a escrever, emperrava-lhe a penna ao cabo de poucas
linhas, e não havia maneira, por mais que torturasse os miolos, de
lançar ao papel uma ideia. Quando se punha a fazer pintura,
escorregava-lhe o pincel borrando a lona, e succedia então que tendo
feito o desenho para uma rosa, lhe saia inevitavelmente uma couve-flôr.
Uma unica vez conseguiu levar a cabo uma esculptura; mas succedeu que
tendo modelado no barro um cupidinho alado, quando o passou ao gesso se
encontrou com um kanguru. Vinham-lhe então raivas tremendas, um odio
enorme aos que tinham um nome, aos que faziam livros ou faziam estatuas,
affirmando de qualquer forma uma competencia superior--o talento, que
não é commum, ou o genio que ainda é mais raro. Era a impotencia gerando
a inveja; era a inveja transmudando-se em odio.
Um dia morreu e, como não tivesse amigos, quasi ninguem o acompanhou ao
cemiterio. Quando iam a descel-o á cova na sua mortalha de pobre, um
bohemio que alli chegou, informando-se de quem era, disse:
--Deviam fazer-lhe a cova redonda... A ultima morada d'um nulo, deve ter
a fórma d'um zero.
* * * * *
_S. M. tem recebido milhares de cartas, bilhetes e telegrammas,
felicitando-o pelo mallogro do projectado movimento revolucionario._
(Dos jornaes).
Estendeu o braço e premiu o botão electrico, que ficava um pouco ao lado
da secretaria.
--Pareceu-me ouvir chamar...
--Chamei, sim. Vieram cartas, bilhetes, telegrammas, não é verdade?
--E todos elles...
--Todos elles dizem a mesma coisa. Até parece que foram expedidos pela
mesma pessoa ou então...
--Ou então foram redigidos segundo uma formula combinada, não é isso?
--Exactamente, segundo uma formula combinada.
--E já os colleccionaste, conforme te disse?
--De certo. Á medida que chegavam ia...
--Está bem. Traze aquelles que sabes e mette-os além, n'aquella caixa.
--N'aquella caixa?
--Sim, n'aquella caixa. Vou lel-os de monoculo.
Eram algumas duzias de telegrammas, vindos d'aqui e d'além, uns do norte
outros do sul, todos com muitas felicitações, muitos protestos de
respeito, de estima e dedicação. Parecia, na verdade, que tinham sido
redigidos segundo uma formula combinada, tão eguaes eram os seus dizeres.
--Prompto, já lá estão.
--Olha, põe-lhes em cima aquelle folheteco que está além, n'aquelle
_étagère_, de capa verde...
--Mas é a Carta...
--Pois já se vê que é. Anda, põe-a lá, e raspa-te.
D'ahi por um quarto d'hora, pouco mais ou menos, sentado á secretaria,
na descuidosa negligencia d'um nababo feliz, a mordicar um charuto
fortemente aromatico, estendeu o braço e premiu o botão electrico.
--Não sei se é a mim que...
--É com o que está de serviço ao bispote.
--Então sou eu.
--Despeja aquella caixa.
* * * * *
_A alma das creanças que morrem sem baptismo não entra no céo._
(Crendices populares).
No dia seguinte era o baptizado.
Havia mais d'uma hora que estava a devoral-o com os olhos, debruçada
sobre a canastrinha de verga em que elle dormia, envolto em rendas,
muito harmonioso na minusculidade das suas formas--como se fosse uma
esculpturazinha de Donatello, copiada de frei Angelico, em um vago
presentimento da Renascença.
Ella propria o enfaixaria, subtilizando os dedos leves, ao calçar-lhe os
sapatinhos de seda, não fosse magoar-lhe as carninhas tenras, d'uma
rijeza de fructa verde e sadia. Não iria com elle á Egreja, fraca ainda
como se sentia; mas já recommendára á parteira que o não entregasse a
ninguem, nem mesmo ao padre, receosa de que mãos pesadas tomassem
aquelle fardozinho ligeiro, que era a melhor fibra do seu coração,
animada do mais puro effluvio da sua alma. Sem saber como, entrou a
philosophar sobre o baptizado, o santo sacramento do baptismo como
ensinam os livros sagrados.
Seria então um peccador, o seu filhinho.
Quantas creanças por esse mundo além, morrem sem baptismo, quasi ao
nascer, pequeninos botões de rosa, que não chegam a abrir, porque a
aragem soprou mais forte e os lançou por terra!... O espirito d'estes
anjinhos irá então soffrer as torturas do purgatorio, espiando uma culpa
que não tinham, purificando-se de um mal que não fizeram?
Se o seu filho morresse perderia a crença em Deus, e se pudesse
acreditar que a alma das creanças, mortas antes de baptizadas não
ascende directa e immediatamente á vista do Altissimo, radiosa como um
olhar da Virgem Mãe, negaria a justiça divina, muito peor que a dos
homens...
Mas então o santo sacramento do baptismo nada mais será que uma mentira?...
... Envolto em rendas, a dormir na sua canastrinha, o petiz estremeceu,
e ella ficou suspensa na corrente dos seus pensamentos, enlevada na
contemplação d'aquella esculptura minuscula, de formas harmoniosas, que
dir-se-ia modelada por Donatello, a copiar Frei Angelico, n'um vago
presentimento da Renascença.
No dia seguinte lá foi o petiz a baptizar.
* * * * *
_Um rapaz da Beira, allegando que o pae é pobre, furou a greve, pelo
que foi espancado á porta ferrea._
(Dos jornaes).
Nunca fôra á escola.
Os filhos da gente pobre não teem o direito de ser creanças, e os paes
d'elle eram pobresinhos. Aos sete annos já era um valor, em linguagem de
economistas. Fazia dó ver o garotito queimando os musculos tenrinhos
n'um trabalho com que não podia. Mas os paes d'elle eram tão pobres!...
Quando entrou nas sortes, já era orphão de mãe, e como tirasse um numero
alto, o mais alto que havia na urna, livrou-se de ir servir o rei,
deixando o seu velhote quasi cego e inteiramente tropego a viver da
caridade publica. Por aquelles sitios não havia trabalhador como elle,
sempre a lidar com a terra, de semana trabalhando para os outros, nos
domingos trabalhando para si. Não bebia nem fumava, todos os seus ganhos
eram para sustentar a casa, onde não faltava nada, a não ser a alegria.
Como não ha-de ser triste o lar onde não explude um riso de mulher, onde
não ha petizes que ponham tudo fóra dos seus logares, n'uma adoravel
desenvoltura... Casou, e pareceu-lhe que tinha ido buscar á Egreja mais
força, mais energia, mais saude. Quando lhe nasceu o primeiro filho, que
foi tambem o ultimo, já o pae tinha acabado de morrer, pobre velho cego
e tropego, que um delgado fio prendia á vida, desde que ficára viuvo.
--Este não ha-de ser para ahi um animal como o pae, dizia apontando o
filho.
Aos seis annos mandou-o para a escola, e como o rapaz fosse intelligente
e applicado, com muita facilidade aprendeu a ler, excedendo todos os
seus condiscipulos. Ficou distincto na instrucção primaria, e como fosse
notavel a sua queda para os estudos, matriculou-se no lyceu. Vencidos os
preparatorios lá foi o pae leval-o a Coimbra, inchado como a rã da
fabula, já a remirar-se no seu doutor.
--Evite as occasiões; mas quando se encontrar n'ellas, não faça má figura.
Foi esta a unica recommendação que lhe fez, de volta á sua aldeia,
tendo-o installado na casa d'um conhecido com ordem de lhe abonarem o
que fosse preciso.
Outro dia á saida da missa, no adro da Egreja, falou-se de coisas graves
em Coimbra. Vinha nos papeis...
--Que foi?
Um dos que estavam no grupo, explicou:
--Houve lá o diabo. Sete estudantes foram expulsos, e os outros, por
camaradagem, declararam-se em greve. Mas alguns, diz o jornal,
abandonaram os companheiros e foram ás aulas. O seu rapaz...
--O meu rapaz não foi ás aulas com certeza.
Tres dias depois, como o governo mandasse fechar as escolas,
appareceu-lhe o rapaz em casa, sem ter avisado como era costume.
--Ouve lá, quantos romperam a greve?
--Poucos, talvez uns quatro ou cinco.
--Mas tu...
--Considerei os immensos sacrificios que tem feito para me dar uma
posição, e para lhe poupar...
--Sim, para me poupares alguns dias de trabalho honrado, não achaste
nada melhor que praticar a má acção de abandonar os collegas, victimas
da injustiça.
Nunca o tinham mandado á escola, mas abençoava agora a sua ignorancia,
severo nos seus principios d'honra, intransigente na sua lealdade de
camponio para com os seus irmãos da gleba, crendo na simplicidade do seu
espirito que o saber deforma o caracter.
* * * * *
_Deus fez as almas aos pares._
(Da sabedoria das nações).
Tinham-se encontrado alli no ponto onde se bifurca a estrada.
O sol descahia ao longe, por traz dos montes, n'um esbraseamento de fogo
amortecido, e na charneca immensa havia tanta paz e doçura, como n'uma
cathedral augusta a horas mortas da noite.
Cançados, cheios de pó, via-se bem que tinham feito uma longa jornada
por caminhos difficeis, rasgando o fato e as carnes nas silvas e pitas
dos vallados, e magoando os pés descalços nas veredas e atalhos invios.
O sol descahia ao longe, por traz dos montes, e não se avistava um casal
na extensão quasi infinita da charneca, silenciosa como uma cathedral
augusta a horas mortas da noite.
Dir-se-ia que se procuravam sem nunca se terem visto, o acaso tendo-os
reunido alli, no ponto onde se bifurca a estrada, cançados, cheios de
pó, o fato rasgado, e as carnes feridas, como se tivessem atravessado um
bosque selvagem, sob a ameaça d'um perigo. Pois que a sorte os reunia...
--Seria bom ficar aqui, ficando ambos, torturada como venho de muito
longe, sem um braço amigo a que me encoste, sem um coração amigo que por
mim palpite!...
--Juntos faremos o resto do caminho, querendo-nos muito, amando-nos
muito, cada qual rivalizando em dar ao outro a maior porção de sonho, a
maior somma de ventura!...
Por sobre a charneca immensa pairava uma paz bemdita, e a lua muito
pallida, como se fora um pingo de leite, deixára cahir uma luz frouxa e
baça--tal uma lampada mortiça no silencio d'uma cathedral augusta.
Era dia de finados.
Desde que a mulher lhe morrera, havia tres mezes, nem um só dia passava
sem que elle fosse ao cemiterio, rezar sobre a sua sepultura,
offertar-lhe flores orvalhadas de lagrimas.
Tinham-se amado tanto!
Por certo não se morre de felicidade, visto que elle não tinha morrido
no dia em que a recebera sua esposa legitima á face da santa madre
egreja, e tambem não se morre de dôr, visto elle não ter morrido no dia
em que lhe cerrou os olhos, colando-lhe os olhos ás palpebras, n'um
derradeiro beijo.
Era dia de finados, e como não quizesse dar em espectaculo a sua dôr, o
cemiterio cheio de visitantes, deixou que toda a gente saisse, já quasi
ao pôr do sol, para elle então cumprir a dolorosa missão que se impuzera
de ir todos os dias retalhar o coração, ajoelhado sobre a pedra que
cobria metade da sua alma, que era toda a sua felicidade.
Ajoelhou, chorou, rezou e quando já tinha os olhos secos de muito haver
chorado, e já não tinha o coração dorido de tanto que a dôr o tinha
feito soffrer, espalhando pela sepultura o seu braçado de flores, as
mãos postas, o chapeu debaixo do braço, os olhos erguidos ao alto,
anniquilado como se caira sobre elle a maldição de Deus, dirigiu-se para
a porta do cemiterio.
A poucos passos andados, cruza com elle um rapaz alto, vestido de negro,
com um grande ramo de flores na mão.
Parou, e sem quasi se aperceber da sua curiosidade, poz-se a seguil-o
com os olhos. O outro foi seguindo, o andar estugado, caminhando a
direito sem hesitar. Como elle fizera havia instantes, sobre a mesma
sepultura, ajoelhou, chorou, rezou e quando já não tinha mais lagrimas
para chorar, automaticamente, como se na pedra da sepultura tivesse
deixado colada a alma, dirigiu-se para a porta do cemiterio.
--Devia tel-a amado muito, para soffrer assim!
--Se amei! Daria a vida para a resuscitar, ou para ir apodrecer ao lado
d'ella, debaixo da mesma pedra.
--Era então sua mulher!..
--Era simplesmente minha amante, porque tivera a infelicidade de casar
antes de nos conhecermos.
Havia tres mezes que a mulher morrera, que nem um só dia passava sem que
elle fosse rezar sobre a sua sepultura, offertando-lhe flôres orvalhadas
de lagrimas.
* * * * *
_Não ha bella sem senão._
Ás vezes, quando a beijava, sentia-lhe as faces quentes dos beijos que
outro lhe dera. Parecia-lhe então absurdo, quasi inverosimil que a
Natureza fizesse tão linda uma creatura tão perfida.--Era como se alguem
mettesse lama das ruas n'uma urna de alabastro.
Tão linda!
Punha-se então a fixal-a muito, muito--como se, debruçado sobre um
abysmo, quizesse sondar um mysterio. Pareciam feitos de treva os seus
olhos luminosos! Brincava um sorriso leve nos seus labios sensuaes, em
que havia o perfume intenso das violetas e o sabor casto das rosas.
Tão linda!
Não se acredita que haja vulcões na lua, serena e pallida, ás vezes
escondendo-se por traz das nuvens, como se fosse uma mulher nua que
percebesse no espaço olhos brejeiros a fital-a.
Tão linda!
Manchava-lhe o pescoço um fio d'ouro muito delgado suspendendo um
Christo de marfim perfeito como se o fizera Donatello, vago e poetico
como se o desenhára Frei Angelico.
Tão linda!
Mas parecia-lhe, quando a beijava, que ella tinha as faces quentes dos
beijos que outro lhe dera.--As plantas venenosas nunca deviam ser
bellas, attrahindo para matar--nem as mulheres bellas deviam ser
perfidas, como se um tigre habitasse no calice branco d'um lirio, ou uma
cobra se escondesse entre as folhas d'uma rosa!
Tão linda!
* * * * *
_Souvent femme varie_
_Bien fou qui s'y fie..._
--Tontinho!
--Imaginas, então, que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos,
sem a loucura das tuas caricias! Arranca a planta pela raiz, e diz-lhe
depois que floresça e fructifique, que erga os braços onde não circula a
seiva, offerecendo aos reverberos d'um sol quente e luminoso as suas
folhas mirradas, d'um amarello chlorotico, que precede a morte decisiva...
--Tontinho!
--Já me afizera ás fatalidades do meu destino, e habituada a olhar nas
trevas, a cerração da minha noite parecia-me ás vezes que tinha vagos
lampejos d'aurora, as incertas claridades d'um crepusculo. Acreditei nas
tuas palavras, e logo senti quente o sangue que se me gelava nas veias,
e o coração inquieto, na desenvoltura d'um passaro que apanha a gaiola
aberta, pulsar com força desusada, no alvoroço d'uma alegria doida.
--Tontinho!
--Se te fosses, havias de levar-me comtigo, ou havias de matar-me
primeiro, desembaraçando-me d'uma vida inutil, tragica na sua dôr
recalcada, e ao mesmo tempo burlesca na sua dedicação humilde, nem
espirrando como a lama quando a pisam na rua.
--Tontinho!
Dentro do caramanchão, ao fundo do jardim, a luz branca da lua era baça,
como a flor da magnolia, e discreta como uma tia velha, ou uma _bonne_
suissa. Mal se ouvia o ramalhar das folhas, como um cicio brando e
perfumado, quando a brisa passava, na leveza imperceptivel d'uma
borboleta branca, que fosse a alma errante d'uma creancinha tisica.
Colleante, os braços nús, humedecendo os labios sêccos da febre em que
toda ella ardia, mergulhou nos seus olhos castanhos os seus grandes
olhos negros, e foi como se aquellas almas se fundissem, enlaçados
aquelles corpos no contacto mais affectuoso e mais intimo. Não teriam
ouvido o ramalhar das folhas, ainda que por alli tivesse passado algum
cyclone devastador, tudo arrasando no seu caminho...
Tontinhos!
Mezes volvidos, tendo regressado sem se fazer annunciar, mal saccudido o
pó da viagem, sentiu necessidade de ir reviver todas as venturas
passadas no logar onde as fruira.
Era uma noite de luar escasso, e tão froixamente passava a brisa, que as
folhas não boliam nas arvores, e uma borboleta, que alli abrisse as
azas, faria um grande ruido. Approximou-se do caramanchão, pé ante pé,
como se tivesse medo que acordassem todos aquelles vegetaes adormecidos,
e entrassem a gritar por soccorro, tomando-o por um ladrão ou um assassino.
Lá dentro no caramanchão, a luz da lua era baça como a flor da magnolia,
e discreta como uma velha tia, ou uma _bonne_ suissa. Pareceu-lhe que
alguem falava, muito perto d'alli, e como se approximasse mais e mais,
cautelosamente, quasi sem pisar o chão, não fosse denuncial-o o ruido
d'alguma folha sêcca, subitamente, como se fossem gotas de chumbo
fundente que lhe instillassem nos ouvidos:
--Imaginas então que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos,
sem a loucura das tuas caricias! Se te fosses, havias de levar-me
comtigo, ou havias de matar-me primeiro, desembaraçando-me d'uma vida
inutil.
--Tontinho!
Quando saiu, a correr como um ladrão perseguido, ou como um doido que se
escapa, nem pensou no escandalo que causaria a sua presença alli já
noite velha, se o jardineiro o visse. E era tão grande a sua
perturbação, quasi a raiar pela loucura, que parou junto á porta, deante
d'um molho de cactos, a insultal-os, parecendo-lhe que eram creaturas
maldosas, chasqueando do seu ludibrio, em grandes risadas vermelhas.
Coitadinho!
* * * * *
_Os milagres não se discutem--ou se negam ou se acceitam._
Chegou á porta da Egreja no momento preciso em que o sacristão, com o
chapeo debaixo do braço, se preparava para a fechar.
Levava na mão uma almotolia d'azeite, obra d'uma canada, e explicou que
fizera aquella promessa á senhora Santa Luzia, da sua particular
devoção, no anno passado, quando estivera mal dos olhos. Deixára um
homem fazendo a sua obrigação, pagando-lhe meio dia, e, como a jornada
era comprida, não pudera chegar mais cedo. Seria um grande transtorno
ter de voltar, e só muito tarde poderia fazel-o, porque o patrão já lhe
dissera que iria para as herdades do Sado, e era natural que por lá se
conservasse até ao fim da temporada. De resto, poucos minutos lhe
chegavam para cumprir a sua promessa, e como ha viver e morrer, não
queria ser chamado á presença do Senhor sem se pôr em contas direitas
com os santinhos. Ainda no domingo passado tinha ido levar um alqueire
de trigo a Santo Antonio; por causa de um atalho de cabras que se tinha
sumido, e que elle receava que fosse parar á bocca dos lobos. Felizmente
que nem só uma cabeça se perdera, e isso fôra sem duvida um milagre do
santo, que os lobos, na charneca onde andam, são tantos como as mães.
Tanta piedade commoveu o sacristão, aliás d'uma crença muito precaria,
como quasi toda a gente que vive muito no gremio da Egreja. Dentro em
nada era sol posto, e elle tinha de ir á villa comprar mantimentos e dar
informações da mulher, havia duas semanas de cama. Disse-lhe que fosse
rezar as suas orações no altar da Santa, e que despejasse a almotolia no
potezinho de lata, com tampa de madeira, que estava na sacristia, logo á
entrada, lado direito, e que servia só para recolher o azeite das
promessas, geralmente improprio para as comidas. Que em saindo fechasse
bem a porta, e entregasse a chave á rapariguinha que lá tinha em casa,
para acompanhar a doente, quando elle precisava sair.
No dia seguinte, pela manhã, quando foi preparar a egreja para a missa
do domingo, notou que a Senhora Santa Luzia não tinha o cordão e os
brincos que lhe tinha offerecido um brasileiro, tambem doente dos
olhos--o cordão por ella o ter livrado do mal, e os brincos por o ter
livrado dos especialistas.
--Foi aquelle grandissimo ladrão!
Posta a policia em campo, d'ahi a pouco estava preso o indigitado
gatuno, que o sacristão reconheceu mal o viu.
Não negou estar na posse dos objectos que se dizia terem sido roubados,
mas jurou pela salvação da sua alma que tal roubo não commettêra. E que
só falaria na presença do sr. prior, que era um homem de muita
santidade, e d'uma grande sabedoria. Sem saber do que se tratava,
acompanhado do official de diligencias, foi o prior a casa do juiz.
Então o homemzinho explicou:--A Senhora, mal eu acabei as minhas rezas,
entrou a olhar-me com muita compaixão. Contei-lhe todas as miserias da
minha vida, e disse-lhe como aquelle azeite que alli levava para a sua
lampada, fôra tirado á bocca dos meus filhos. Quando acabei, subi os
tres degraus do altar para lhe beijar a barra do vestido. Então a
Senhora, tirando o cordão que tinha ao pescoço, e os brincos que tinha
ás orelhas, entregou-m'os com as suas bemditas mãos, dizendo que a ella
não lhe faziam falta aquellas coisas, e que eu podia, com o dinheiro que
ellas me rendessem, comprar o pão e o fato para os meus filhos.
Observei-lhe que poderiam tomar-me por ladrão, vendo-me na posse de taes
objectos, e isso seria a minha desgraça e a minha vergonha. Vae então a
Senhora respondeu-me:
--Se duvidarem da tua innocencia, invoca a autoridade do prior. Elle é
um crente sincero, e quando toda a gente negasse o milagre, elle o
affirmaria como possivel.
Na verdade o prior affirmou a possibilidade do milagre, e como não fosse
possivel demonstrar que elle não se realizára, foi mandado o homem em
paz, com os brincos e o cordão.
Dizia então o sacrista, vendo partir o penitente:
--Grandissimo ladrão!
E olhando compassivamente o prior, n'um murmurio, por entre os dentes:
--Reverendissimo burro!
* * * * *
_Saudade! gôsto amargo de infelizes..._
(Garrett).
--Fizeste bem em vir...
Cançou de dizer estas palavras, e espalmando a mão no peito, ainda não
havia muito opulento e agora mirrado, absorveu o ar com muita força, a
bocca largamente aberta, como se lhe parára o coração no supremo esforço
de fazer girar mais uma onda, talvez a ultima, de sangue arterializado.
--Se soubesses como eu soffro... Brancos e delgados, muito delgados e
muito brancos, os seus labios eram duas folhas sêccas, muito ricas de
nervuras, frias como a neve dos polos. Eram botões de fogo, n'outro
tempo, os seus beijos, que só por milagre não queimavam.
--Havias de querer-me muito, se soubesses como eu soffro...
Via-se bem que soffria immenso, a febre a queimar-lhe os pulmões, um
suor frio e viscoso a babar-lhe a pelle, e um torniquete de ferro a
apertar-lhe o tronco, inexoravelmente, como n'um carcere da Inquisição.
--Havias de querer-me muito se soubesses como eu soffro; mas, havias de
querer-me ainda mais, se soubesses como eu te amo...
Na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica, os seus grandes
olhos negros, muito encovados, guardavam tudo o que lhe restava de vida,
um sopro apenas de vida, que era um bafejo da morte. Parecia-me ás
vezes, quando se fechavam, que não tornariam a abrir-se, e punha-me
então a espreitar, na translucidez das suas palpebras, o momento preciso
em que se apagassem.
--Custa tanto morrer, sabes?...
Sentou-se no leito, a muito custo, e levando as mãos á cabeça, sem dizer
nada, poz-se a desmanchar o cabello. Um ou outro fio de prata, muito
raro, manchava as suas tranças d'ebano, que lhe desciam quasi aos
calcanhares quando as deixava cahir pelas costas.
--Vê como se envelhece depressa...
Fez dois mólhos do cabello, e tomando um em cada mão, emmoldurou com
elles o rosto, muito magro, d'uma pallidez cadaverica.
--Lembras-te?...
Pelos seus labios brancos e delgados, muito delgados e muito brancos,
perpassou um sorriso leve de creança adormecida, e nos seus olhos
negros, muito encovados, brilhou mais intensa aquella lucilação, que era
tudo o que lhe restava de vida--um sopro apenas de vida, que era um
bafejo da morte...
--Doidos que nós eramos!..