como se approximassem da estatua, a alguns passos de distancia, pararam
de repente, em geito de quem examina com interesse. Um do grupo, o mais
velho, typo acabado de sabio allemão, genero Topsius, de sobrecasaca e
oculos d'ouro, erguendo ligeiramente o chapéu, n'um cumprimento
respeitoso, em que havia muito de admiração, exclama com grande
convencimento:--_Schön! Schr schön!_ E logo os outros todos, em unisono,
como se fosse um echo alli proximo, possuidos d'aquelle arroubamento
esthetico, que é vulgar nos homens da Allemanha, exclamaram
tambem!--_Schr schön!_ O mais velho, erguendo os oculos d'ouro para a
testa ampla, como a querer illuminar o pensamento, feita uma ligeira
reverencia á estatua immovel explicou:--Ribeiro Sanches... Foi um medico
notavel do seculo dezoito, um sabio do mais alto valor. Formado em
Coimbra, graduado em Salamanca, visitou successivamente os hospitaes de
Londres, Marselha, Toulon, Montpellier e Paris. Estudou com
Boerhaave--todos se descobriram--em Leyder, durante tres annos, e a tal
ponto se impoz á estima e á consideração do Mestre, que d'ahi a pouco
tendo-lhe pedido a imperatriz da Russia a indicação de tres grandes
medicos, que fossem exercer cargo de professor em Moscow, o primeiro
nome que lhe accudiu foi o de Ribeiro Sanches. Medico dos exercitos
imperiaes, fez a campanha da Polonia, em 1735, e ainda n'essa qualidade
andou pelo Paiz dos Tartaros, sobre os quaes fez estudos de
anthropologia, que muito aproveitaram ao sabio francez Buffon--e todos
se descobriram de novo.--Viveu em Paris, com muitas difficuldades,
sempre estudando, sempre cultivando a sciencia, produzindo trabalhos
valiosos sobre economia, historia e medicina.
Formára a sua intelligencia no estudo de Bacon e Descartes, e temperou o
seu caracter pelos conselhos de Montaigne.
Accusado de judaismo, não podia vir a Portugal, e os livros que para cá
mandava eram uma especie de contrabando, que o marquez de Pombal fez
passar como sendo d'um phantastico dr. João Mendes Sachetti.
A Imperatriz Catharina II, da Russia, grata por a haver curado d'uma
doença grave, era ella princeza, estabeleceu-lhe uma mezada sufficiente,
quando elle se viu na capital da França, a braços com a miseria.
E assim pôde viver e publicar o seu _Methodo de estudar a medicina_, e
um tratado de _Conservação da saude_ dos povos, e outros muitos
trabalhos de valia, que lhe marcaram logar distincto entre os sabios do
seu tempo. Um grande sabio! _Ein gross gelehrt! Viel berühmht!_--E todos
em unisono, como se fosse um echo ali perto:--_Viel berühmht!_
Ia a passar uma mulhersinha, typo de mulher que esfrega, e como os visse
embasbacados, approximou-se do grupo:
--É o Sousa Martins, os senhores haviam de conhecer. Quem mandou alli
pôr isto, foi o sr. Casimiro da Casa da Moeda--talvez os senhores tenham
ouvido falar.
Pois não conheciam um, nem tinham ouvido falar do outro, aquellas
cavalgaduras!
* * * * *
_Hontem a policia deitou a mão a um gatuno de onze annos, que roubou
um pão n'uma padaria da Baixa._
(Dos jornaes).
Tinha roubado um pão.
A mãe dissera-lhe que fosse pedir esmola, havia muitas horas sem comer,
e elle abalára por essas ruas, descalço e rôto, extendendo a mão a toda
a gente. Entrava nos cafés, e ninguem lhe dava nada; entrava pelas
lojas, descalço e rôto, e os caixeiros enxotavam-n'o como se fosse um
cão. _Dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_
Ninguem lhe dava nada, e todos o maltratavam, chegando um policia a
deitar-lhe a unha para o levar para a Correcção. Infatigavel, entrando
agora n'um café, onde os freguezes nem ouviam o seu estribilho--_dá-me
cincoreisinhos, meu senhor?_--entrando além n'uma loja, d'onde os
caixeiros o enxotavam como um cão sem dono, já tinha percorrido a cidade
inteira, extendendo a mão a toda a gente, e toda a gente olhando para
elle com desprezo ou com enfado, e ninguem se compadecendo da sua
miseria. E, comtudo, era nada, que elle pedia a toda a gente que
passava, extendendo a mão suplicante.--_Dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_
Cançado, cheio de fome, ahi volta elle a casa, onde a mãe o aguardava,
n'uma afflicção, chumbada ao leito, havia muitas horas sem comer. Uma
senhora muito bem vestida, com brilhantes, carruagem brazonada, quasi
encalhando n'elle á porta d'uma Egreja, estendeu-lhe a mão enluvada, e
deixou cahir na sua mãosita suja, sem olhar para elle, os cincoreisinhos
que elle andava a pedir correndo a cidade inteira, extendendo a mão a
toda a gente que passava, entrando nos cafés, onde os freguezes eram
surdos ao seu pedido, e entrando nas lojas, descalço e rôto, e d'onde os
caixeiros o enxotavam, como um cão vadio.
Talvez não fosse de proposito, mas os cincoreisinhos telintaram nas
pedras da calçada, emquanto a senhora que lh'os dera, muito bem vestida,
genuflectia á porta do templo, e cortava o rosto fresco e moreno com o
signal da cruz.
Foi então que o garoto deu com os olhos n'um cesto de verga, á porta
d'uma padaria, cheio de pão alvo e fresco.
Alli perto estava a mãe, chumbada ao leito, sofrendo horrivelmente,
noites e noites sem dormir, havia muitas horas sem comer. Quasi nem teve
tempo de acommodar o pão debaixo do braço, escondendo-o com uns
frangalhos da jaqueta. O padeiro grita, o garoto foge, a policia
apanha-o, e a multidão horroriza-se deante d'aquelle ladrão de onze
annos, que tinha a mãe alli perto, n'uma pocilga, chumbada ao leito,
soffrendo horrivelmente, noites e noites sem dormir, havia muitas horas
sem comer.
Na esquadra, mettido no segredo, como um facinora, o garoto dá o nome e
a morada; mas o terror nem o deixa desafogar em lagrimas--vejam o
cynismo do malandro!--e a vergonha faz-lhe esconder a cara--admirem a
astucia do patife!
O policia, que foi prevenir a familia, ao outro dia, encontrou extendido
no leito, ainda quente, o cadaver d'uma mulher nova, muito sêcca, muito
mirrada, o ar de quem passou largo tempo chumbada ao leito, ainda
quente, soffrendo horrivelmente, muitas horas sem comer, muitas noites
sem dormir.
Já não lhe puderam dizer que era um ladrão o seu filho, aquelle garoto
descalço e esfrangalhado, que percorrera a cidade inteira, incommodando
toda a gente--_dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_
* * * * *
_O rei podia impôr-se por um acto de abnegação e patriotismo,
acceitando a Republica._
(D'um jornal republicano).
Era um povosinho pacato, que moirejava nas suas terras, sempre alegre,
sempre satisfeito, sem recordações tristes do passado, sem apprehensões
pelo futuro.
Enlevava-se na contemplação do mar, quando elle era sereno, e como se
esquecesse então, os olhos pregados na sua superficie espelhenta e lisa,
os ladrões aproveitavam-se daquella especie de somno hypnotico para lhe
aligeirarem os bolsos.
Bem se importava elle com isso! Tirava da terra, quasi sem esforço, tudo
quanto lhe era necessario, e ainda lhe ficava muito tempo para se
enlevar como um sabeista, na contemplação dos astros, de dia piscando os
olhos aos raios d'um sol que não queima, de noite como a querer
enchel-os d'um luar que adormenta.
Era feliz.
Os outros invejavam aquella tranquillidade paradisiaca, alguns milhões
de bananas governados consoante a rima, e com um rei côr de laranja.
Succedeu, porém, que um dia, no meio d'aquelle povo pacato que moirejava
nas suas terras, sempre alegre, sempre satisfeito, sem recordações
tristes do passado, sem apprehensões pelo futuro, caiu uma semente de
revolta, que logo germinou e fortificou, avassallando todos os
espiritos. Áquella gente pacifica repugnavam os actos violentos, e só
comprehendia que se derramasse sangue para fazer cabidela, ou então para
evitar congestões, quando assim o entendesse a medicina.
Mas havia o rei...
Foi então que um patriota, inspirado como um propheta antigo, teve uma
ideia genial, um pensamento sublime--convidar o rei a adherir.
Elimina-se o rei e cria-se um cidadão, exclamava com muita eloquencia,
pondo arrepios de commoção na espinha de todos os ouvintes.
S. M. adheriu.
Como todos os bons cidadãos quizeram sacrificar-se na presidencia da
Republica, houve necessidade de não crear essa funcção, e isso se fez
por consenso unanime, cada um não querendo para os outros o que não
poderia haver para si.
Alvitrou-se a anarchia, mas como viesse a reconhecer-se, ao cabo de
longa discussão, que no relogio do tempo ainda não tinha soado essa hora
suprema d'amor e de justiça, tratou-se de eleger um governo, como nas
outras republicas.
Um velho de aspecto venerando, com um saber só de experiencias feito,
propoz que na constituição do governo entrassem elementos novos e aguns
dos antigos homens de governo, já com pratica de negocios publicos.
--Os cidadãos que approvam esta proposta ergam as duas mãos.
Como se visse no ar uma floresta de mãos:
--Approvada por unanimidade.
Logo uma voz se ergue, fazendo-se ouvir em toda a vasta assembléa:
--Eu voto contra. No governo só deve entrar gente nova.
O homem que assim falava protestando com energia, era o cidadão que fôra
rei, o que deu logar a esta observação do presidente.
--Mas o cidadão, quando era monarcha...
--Pois sim, quando era monarcha; mas agora sou contribuinte...
* * * * *
_Parece que S. M. a Rainha não acompanhará El-Rei na sua proxima
viagem._
--Confessa que te era mais agradavel ir só...
--A falar a verdade...
--Ao menos és franco, e a franqueza não passa por ser qualidade vulgar
na tua nobilissima familia.
--Falas-me da minha familia n'um tom de superioridade e desdem, como se
descendesses d'alguma d'essas divindades soberbas, de que estão cheias
as mythologias antigas. A esse respeito, minha filha, talvez seja melhor
não adeantarmos conversa. Ha um anexim portuguez que resa assim;--_disse
o tacho á certã, tira-te para lá não me tisnes._
--Não conheço o calão dos toureiros...
--Nem eu a giria dos jesuitas.
--Ao menos podias ser delicado com uma senhora.
--Por certo se essa senhora quizesse ser delicada commigo.
--Nunca eu tivesse aqui posto os pés.
--Inteiramente d'accordo. Tinha sido magnifico para os dois.
--Se não fossem os filhos e...
--Bem sei; se não fosse isto de pairar no alto, estar acima dos outros...
--_Je m'en fiche de..._
--Temos calão boulevardiano?
--Se um dia perderes o logar, podes ir para Marrocos: o sultão, supponho
eu, não terá ciumes de ti.
--Nem tu saudades minhas.
--Se te parece!...
--Apezar de todos os pezares, minha filha, tu ainda me podias dar um
prazer enorme, uma satisfação infinita.
--Deixando-te ir em liberdade?
--Não; deixando-me... viuvo.
* * * * *
_No congresso medico do Porto, o dr. Eduardo d'Abreu apresentou um
velho de 109 annos._
(Dos jornaes).
--Vou dar a palavra ao illustre congressista, nosso collega, que
apresentará á assembléa o homem mais velho do mundo.
Quando o presidente acabou de pronunciar estas palavras, fez-se na sala,
até então rumorosa, o silencio dos momentos augustos. Um congressista
avançou para junto da mesa da presidencia, acompanhado d'um velhote
rabitezo, de peitilhos bordados, endomingado como para a desobriga. Era
o homem mais velho do mundo, como dissera o presidente. Nascido no
seculo dezoito, atravessára todo o seculo dezenove, e alli estava muito
fresco, bem disposto, nas felizes disposições de acompanhar o seculo
vinte até por ahi adeante sem cansaço de maior. Estavam alli cento e
nove annos, bonita somma feita com parcelas de tres seculos, muito
deseguaes em valor.
Tão bem conservado o velhinho!
Dir-se-ia que adormecera quando ia a entrar na velhice, ao cabo de uma
florente mocidade, e a dormir deixára de fazer annos, o bom velhote. Por
certo aquella alma nunca fôra batida das tormentas, não experimentara
nunca as grandes alegrias nem as grandes contrariedades, porque umas e
outras consomem como o fogo, abbreviam a existencia,--diluindo-a em
risos ou afogando-a em lagrimas.
Tão bem conservado, o velhinho!
Ha rugas na sua face; mas ellas são apenas as dobras avelludadas dos
lagos adormecidos, d'uma paz magestosa e inalteravel.
Os olhares de todos aquelles medicos convergiam para o bom do velho,
muito rabitezo, com os seus peitilhos bordados á moda de 1820--a unica
coisa limpa que resta das grandes aspirações d'aquella epoca, explicou o
congressista que apresentava o phenomeno. Parecia uma evocação, um
phantasma que surgisse da noite dos tempos para contar historias
tragicas. Mas havia tanta candura no seu olhar curioso! tanta alegria
infantil no seu riso mal contido, como se tivesse vergonha de não se
mostrar grave alli, no meio de tantos senhores! Aquella seriedade tinha
o ar de uma meninice robusta e florida.
Tão bem conservado, o velhinho! Parecia vender saude...
Um dos congressistas, clinico de larga nomeada, approximando-se do velhote:
--E de saude, que tal?
--Ó meu senhor, graças a Deus...
--Mas nunca esteve doente?
--Uma vez, ainda era novo, ahi por volta dos setenta annos.
--E tomou muitos remedios?
--Lá quanto a isso... não tomei nenhum. Eu sempre tive muito amor á vida.
Tão bem conservado, o velhinho!...
* * * * *
_Hontem, em conferencia dos delegados, foi resolvido querellar
d'alguns jornaes._
(Dos jornaes).
A sessão estava marcada para as onze. O ultimo que entrou, saudando os
dois que já lá estavam, teve esta observação maliciosa:
--A justiça é pontual!...
--E algumas vezes... justa, accrescentaram os collegas.
Cada qual desembaraçou-se do sobretudo, pôz em cima da mesa um masso de
jornaes, e assentou-se.
--Ha que fazer?
--Pela parte que me toca...
O que assim falou, ergueu os oculos para a testa, abriu um dos jornaes
que tinha na sua frente, e leu pausadamente:--_É fóra de duvida que o
nosso Monarcha é dos imperantes mais honestos e mais intelligentes não
só da Europa, mas de todo o mundo._
Pousou o jornal sobre a mesa, deixou cair os oculos para os olhos, e
attentou nos collegas, á espera.
--E depois? O collega com certeza não pretende querellar d'esse
jornalista, com certeza monarchico...
--Engana-se o collega redondamente. Pretendo querellar a passagem do
jornal, que acabo de ler, porque a encontro incursa no artigo...
--Mas isso não tem pés nem cabeça, collega. Quereria então que amanhã se
dissese que este augusto tribunal querellára d'um jornalista por ter
elle escripto que o monarcha é honesto, é intelligente, dos mais
honestos e intelligentes que o sol cobre?...
--É como acaba de dizer.
--Mas isso é uma loucura!...
--Um pouco mais pequena do que lhe parece. Estamos aqui para cumprir a
lei, e a lei, n'este ponto, é clara.
--O que faria então o collega se o jornalista tem escripto que o
monarcha é destituido de intelligencia e honestidade?
--O que faria? Querellava-o com fundamento no artigo...
--Mas é então o caso de ser preso por ter cão...
--Não é nada d'isso. É o caso da lei prevenir as duas hypotheses--a da
calumnia e a da troça.
Concordaram os tres em que eram de troça as palavras incriminadas, e
assim fundamentaram a sua petição de querella. Nunca mais, desde então,
os jornalistas se atreveram a escrever aquillo a serio.
* * * * *
_O sr. Teixeira d'Abreu foi hontem cumprimentado por uma commissão
de Juizes, que o procurou no seu ministerio._
(Dos jornaes).
Era uma commissão de juizes da provincia, que vinha apresentar os seus
cumprimentos a s. ex.ª.
Ageitou o laço da gravata, kaiserizou um pouco os bigodes, pousou a mão
direita, levemente espalmada, sobre a pasta de marroquim, deixou cair o
braço esquerdo ao longo do corpo, muito á vontade, e disse ao continuo
que mandasse entrar.
--Vimos apresentar a v. ex.ª as nossas homenagens, felicitando-o pela
justa e merecida distincção que acaba de lhe ser feita.
Muito grave, tendo ouvido aquella pequena fala como se fosse um acto de
vassalagem por parte de rebeldes submettidos, pausadamente como quem
mede as palavras:
--Agradeço as felicitações que me dirigem, e tomo-as como partindo de
toda a magistratura, aqui representada por v. exas.
Ordenou que se sentassem, n'um gesto brando e attencioso, e elle proprio
sentou-se, com muita solemnidade, não fosse desmanchar a _pose_ que
estudára de vespera para actos officiaes.
E explicou:
--Desejo fazer obra util, que vinque a minha passagem pelos conselhos da
corôa. O complexo de medidas que tenciono apresentar, subordinadas umas
ás outras como partes integrantes d'um todo harmonico, constituirá o que
eu chamo _A reforma da bola_.
--A reforma...
--Da bola. Não fazem ideia do que seja? Não admira; trata-se d'uma coisa
inteiramente nova. Já na Universidade iniciei o meu plano reformador,
embora n'outro campo, e com o melhor resultado.
--Se V. ex.ª...
--É simples. Em vez de chamar á lição pela caderneta, chamava pelo saco
das bolas. Numero tal? Era o que dava a sorte. Assim os rapazes,
receando cada qual que saisse a bola do seu numero, estudavam todos a
sebenta. É engenhoso não é verdade?
--Sem duvida. Qualquer que não tivesse o immenso talento de v. ex.ª
consideraria que os rapazes, esperando cada qual que não saisse a bola
do seu numero, nenhum pegaria na sebenta.
--Pois ahi está. A bola, applicada ás coisas da justiça, espero que dará
os melhores resultados. Assim, por exemplo, tratando-se da collocação de
juizes e delegados... A cada comarca corresponde uma bola. Estão a
ver?... Acaba o favoritismo; torna-se impossivel a perseguição ou a
empenhoca.
--É maravilhoso!
--Pois não é?... E ao mesmo tempo é simples. Espero que a minha passagem
pelos conselhos da corôa, curta ou demorada que seja, não resulte
improficua para os sagrados interesses da justiça e dos seus agentes.
Ergueu-se gravemente, e premiu o botão electrico. Logo appareceu o
continuo, que acompanhou até á escada aquella commissão de juizes, que
tinham ido apresentar os seus cumprimentos a s. ex.ª.
Já na Arcada, olhando uns para os outros, como que interrogando-se:
--Com que então, a bola?
--Redonda e de escaravelho, levada as arrecuas até ao gabinete negro.
* * * * *
_O illustre deputado F. fez hontem um grande discurso, muito
caloroso e muito espontaneo, sendo no final cumprimentado por quasi
todos os seus collegas._
(Dos jornaes).
Passou por alli e entrou.
Era um espectaculo novo para elle, uma sessão parlamentar. Vinha a
Lisboa, muitas vezes, estando as Camaras abertas, mas em geral tinha
muito que fazer, e não podia demorar-se por fóra de casa.
O cavallo engorda só com a vista do dono, e elle sabia bem como o seu
emmagrecia, isto é, como lhe corriam mal os negocios quando se ausentava
por certo tempo. Mas uma vez não são vezes e elle poderia fazer á sua
curiosidade o sacrificio das suas commodidades. Em vez de partir no
comboio da tarde, que era rapido, partiria no comboio da noite, muito
ronceiro, parando em todas as estações, e só chegando á sua terra a uma
hora bastante incommoda, de madrugada.
Entrou, e dirigindo-se ao primeiro porteiro que viu, entregou-lhe um
cartão de visita para o deputado do seu circulo, pedindo uma entrada,
para a galeria do presidente. Tinham-lhe dito que era d'alli que melhor
poderia disfructar o espectaculo. S. ex.ª mandou o bilhete de admissão,
e pedia desculpa de não vir, porque estava conversando com o ministro a
respeito d'um melhoramento que tinha pedido lá para o circulo, a ponte
de alvenaria sobre a ribeira, que no inverno, chovendo muito, estorvava
a passagem de carros.
Acabava de ler-se a acta, quando elle se installou no seu logar. Um
deputado já velho, com oculos, mandou para a mesa uns papeis, requerendo
que fossem publicados no _Diario_, e um dos ministros declarou-se
habilitado a responder á interpelação que lhe tinha annunciado, na
vespera, um illustre deputado da maioria.
Pareceu-lhe aquillo pouco interessante, e já quasi se arrependia de ter
alli ido, quando o presidente, não havendo mais quem pedisse a palavra,
declarou que se ia entrar na ordem do dia. E logo a seguir:
--Tem a palavra o sr....
Era o seu deputado que tinha a palavra. Não pensou mais em ir-se embora,
está bem de ver, e como o homem tivesse a palavra forte e o gesto largo,
prendeu-lhe a attenção desde o começo. A Camara estava um pouco
distraida, cada qual cochichando com o seu visinho, mas elle tinha a
impressão que o discurso era bem alinhavado, talvez um pouco vulgar nos
conceitos, mas bastante correcto na forma, e deduzido com certa logica e
habilidade. Quando faltavam apenas cinco minutos para se encerrar a
sessão, o presidente, interrompendo o orador, perguntou-lhe se desejaria
ficar com a palavra reservada.
--Vou concluir, sr. presidente; os cinco minutos de que ainda disponho,
chegam muito bem para o que me falta dizer.
Quando acabou, muitos deputados foram cumprimental-o, alguns
apertando-lhe a mão com muita força e outros abraçando-o com
enternecimento.
Esperou-o ao pé do elevador, e mal o viu estendeu-lhe as duas mãos:
--Muito bem! muito bem!
Elle então explicou, modestamente, que não contava usar da palavra,
n'aquella sessão, e que por isso não se tinha preparado.
--Foi o que acudiu na ocasião; para a outra vez será melhor.
Já fóra do edificio das Côrtes, atravessando o largo, um rapaz de blusa
azul, com uns papeis nas mãos, approximou-se d'elles.
--Que deseja?
--São as provas do discurso; v. ex.ª manda-as á typographia, ou quer que
vá buscal-as?
* * * * *
_A continuarem as coisas assim, aos republicanos bastará um pouco de
audacia para fazerem a Republica._
(Dos jornaes monarchicos).
Era um pego largo, pouco fundo, com moitas de juncos pelas barreiras que
se esboroavam a cada instante. De cada vez que caia um pequeno torrão,
acudiam do fundo peixes em cardume, alguns doirados, outros de prata.
Andavam á roda do pego uns homens graves, sem instrumentos de pesca,
varando os peixes com olhares de fogo--olhares de guloso ou de avaro.
Bem se importavam os peixes que elles os olhassem assim, com uma
insolencia quasi dolorosa, se lá da camada funda em que andavam
apercebiam-se do minimo gesto que elles fizessem, estendendo a mão, e
logo mergulhavam mais, pondo-se inteiramente a salvo.
Alli perto, debaixo d'uma arvore frondosa, andavam creanças a brincar.
Como as chamassem, n'um prompto, correram para junto daquelles homens
graves que andavam á roda do pego, devorando com os olhos aquelles
peixes de oiro e prata, que se viam lá em baixo, na transparencia da
agua, e de quando em quando vindo á superficie, quando das barreiras
caia um pequeno torrão, que os atraía em vez de os espantar.
--Ganha um vintem cada um, se atirarem para o pego muita poeira e muita
lama.
Os pequenos olharam uns para os outros, como que interrogando-se, e logo
desataram a correr, por alli fóra, rindo ás gargalhadas, deixando
estupefactos aquelles homens graves que estavam havia muito namorando os
peixes, varando-os com olhares de fogo--olhares de guloso ou de avaro.
Já a distancia, para além da arvore debaixo da qual ha pouco brincavam,
estacaram todos ao mesmo tempo, como se obedecessem a uma voz de
commando. O mais ladino, apontando na direcção do pego, com um grande ar
de superioridade desdenhosa:
--Queriam pescar nas aguas turvas, os gajos...
E todos riram á gargalhada.
* * * * *
_Toda tu és formosa, amiga minha, e em ti não ha mancha._
(Cantico dos Canticos).
Que os seus labios toquem os meus labios, dando-me o osculo da sua
bocca, e as minhas mãos toquem os seus peitos, fragrantes como os
balsamos mais preciosos...
Bem me importa que ella seja trigueira, se foi o sol que lhe mudou a côr
beijando-a doidamente n'um dia em que ella andava pelas encostas,
apascentando os gados, esbelta como a açucena...
Hei de fundir os meus desejos loucos no fogo dos seus olhos negros, para
afogar n'uma gargalheira d'ouro o seu pescoço de rola.
Ella é a flor do campo, o lirio immaculado dos valles, olorosa como o
nardo, rescendendo como um ramalhete de açafrão que alguem tivesse
collocado entre as suas pomas virgens, appetitosas como um cacho de
Chypre, de bagos humidos e frescos.
Não a acordem no seu thalamo de flores, que ella assim é linda como a
Sulamita, cujo coração vela emquanto ella dorme, e na volupia do seu
sonho, perfumado de todas as essencias do Libano, percebe a voz do seu
amado, que lhe bate á porta, a escorrer-lhe do cabello em anneis todo o
orvalho da noite.
Os seus labios são como uma fita de escarlate, mal cobrindo os seus
dentes de marfim, e as maçãs do seu rosto, como romã partida, accendem
fome de beijos nos proprios cedros do Libano.