Revivi n'um minuto todo o poema do nosso amor, as loucuras d'um amor

prohibido, a que não tinha faltado a dôr cruciante das paixões extremas,

para dar ao goso uma intensidade quasi infinita. Instinctivamente, como

n'outro tempo, collei os meus labios aos seus, e nem percebi que estavam

gelados, folhas sêccas muito ricas de nervuras, frias como a neve dos

polos.

Durou o sonho toda a eternidade d'um segundo, talvez menos ainda. Mal

acordei, attentando na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica;

vendo fechados os seus grandes olhos negros, já sem brilho na

translucidez das palpebras enrugadas, tive a impressão de me encontrar

dentro d'um jazigo, para violar uma morta.

Ao de Leve · 第 5 / 5 段